<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4785723309809092537</id><updated>2012-02-16T00:54:08.930-08:00</updated><category term='Introdução'/><title type='text'>Impressões e Gemidos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://poesiasjosecoriolano.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4785723309809092537/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://poesiasjosecoriolano.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>sonocrato</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02268400324277129819</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>1</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4785723309809092537.post-8658892618098480696</id><published>2008-08-24T00:42:00.000-07:00</published><updated>2008-08-29T07:33:43.519-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Introdução'/><title type='text'>Impressões e Gemidos</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;IMPRESSÕES E GEMIDOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Poesias Completas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Coriolano de Souza Lima&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Organizadas por&lt;br /&gt;Ivens Roberto de Araújo Mourão(trineto)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLb4tFvQNEI/AAAAAAAAAhA/5CJF-kcgMvY/s1600-h/Foto+Coriolano+Paint.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239648670010324034" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLb4tFvQNEI/AAAAAAAAAhA/5CJF-kcgMvY/s400/Foto+Coriolano+Paint.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;Foto de José Coriolano de Souza Lima, publicada na edição de&lt;br /&gt;Impressões e Gemidos de 1870. Em destaque a assinatura&lt;br /&gt;do poeta.(Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Apresentação&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes a vida nos oferece desafios difíceis de transpor. E, sem que percebamos, o que nos parecia tão distante é o fio da meada que encontramos, no emaranhado dos caminhos da vida. Desde criança desejava ser engenheiro civil. Construir casas, como dizia para o meu pai (Alexandre Sauly Mourão), quando ele me embalava para dormir. Perguntava e ele me explicava a função de cada madeira do telhado: caibro, ripa, linha. E logo passava a cantar lindas melodias ou declamar poemas, dizendo serem do meu trisavô poeta, José Coriolano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira materialização desse desejo foi quando ele comprou, a meu pedido, um “chapéu de engenheiro” igual ao do meu tio, Genésio Martins de Araújo, formado por Ouro Preto/MG. Hoje sou engenheiro civil e construí inúmeras casas, prédios, armazéns, açudes etc. E, paradoxalmente, estou precisando ser poeta. Relembro aqueles tempos em que adormecia nos braços do meu pai, ao som de melodias e poemas. Estou precisando despojar-me um pouco do lado técnico, para deixar aflorar os sentimentos da criança que se deliciava e adormecia com os poemas declamados pelo meu pai. Esta mudança não pode ser feita num passe de mágica. Porém tentarei avançar um pouco na estrada de sonho, como meu pai sonhava. E ele sonhou muito. Um destes sonhos era ver reconhecido o valor literário do seu bisavô, José Coriolano de Souza Lima.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239938105381612722" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLf_8chN7LI/AAAAAAAAAhY/wUWmc-VVXHk/s400/SC+Foto+133.jpg" border="0" /&gt; &lt;strong&gt;Eu e o meu chapéu de Engenheiro.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Mas quem foi ele? Foi um grande poeta, autor de mais de 250 poesias. Nasceu em Crateús, em 29/10/1829, onde habitaram os índios Carateús, outrora chamada Povoação de Piranhas e, posteriormente, Vila do Príncipe Imperial. Sétimo e último filho de Gonçalves Correia Lima e Anna Rosa Bezerra. Descende, como eu, do primeiro Mourão cearense: Alexandre da Silva Mourão (I). A sua avó paterna, Joana Batista Correia Lima, era neta desse primeiro Mourão, filha que era de sua única filha do primeiro casamento, Maria Coelho Franca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1870 os amigos fizeram publicar parte de suas poesias, com o título: “Impressões e Gemidos”, escolhido por José Coriolano atendendo a sugestão do seu pai. O plano era publicar seus originais, escritos de próprio punho pelo poeta, em dois volumes. O primeiro veio a lume com a ajuda do Governo do Piauí. O segundo nunca chegou a ser publicado, por não contar mais com o apoio oficial. Como houve uma mudança na direção da Provínicia, o novo Governo decidiu não patrociná-lo (segundo volume), por não concordar com as idéias republicanas do poeta e de seus amigos. Foi, portanto, vítima da ignorância de uma censura política que, nos anos seguintes, tanto se repetiu na história brasileira. A viúva, com cinco filhos menores, não tinha recursos para arcar com a publicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1973 o Governo do Piauí, na gestão de Alberto Silva, promoveu uma nova edição de Impressões e Gemidos, com o título: Deus e a Natureza em José de Coriolano. O Piauí o considera “o Príncipe dos Poetas Piauienses”, pois na época em que viveu (1829 a 1869), Crateús, sua cidade natal, pertencia àquele Estado. A passagem para o Ceará deu-se em 1880.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239936844002653010" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLf-zBhCc1I/AAAAAAAAAhQ/_75pVzM26Xw/s400/T68+012.jpg" border="0" /&gt; &lt;strong&gt;As duas publicações das poesias de José Coriolano. A de 1870 e a de 1973&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Para não ser repetitivo, deixo para um seu grande amigo, David Moreira Caldas, a função de falar um pouco mais sobre a sua biografia. Transcrevo, assim, a introdução contida no livro Impressões e Gemidos, da edição original, que o meu pai guardou, com o maior zelo, desde que o recebeu de presente de um amigo, em 1942, quando ainda residia no Crato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os originais, manuscritos, ficaram com a família e ignorados por longo tempo. Na década de vinte, do século vinte, o meu pai, ainda adolescente, ao fazer uma visita à casa de sua avó materna (Maria Gerson de Souza Lima – Mãe Cotinha), filha do poeta, encontrou uma garota recortando umas figuras de um manuscrito. Ao verificar do que se tratava, tomou um grande susto. Eram, simplesmente, os originais de Impressões e Gemidos. José Coriolano fazia uns desenhos com pirógrafo ou colava alguns decalques coloridos em cada poesia. A garota estava recortando as figuras para brincar e já tinha feito um grande estrago. Incontinente, meu pai guardou-os, preservando-os, como uma relíquia, até o final da sua vida. Poucos dias antes de sua morte passou-me a responsabilidade de conservá-los.&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239935639192694258" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLf9s5P9bfI/AAAAAAAAAhI/wZ9blsM_X04/s400/T68+013.jpg" border="0" /&gt; &lt;p&gt;&lt;strong&gt;Originais da poesia Grandeza de Deus, de próprio punho do poeta. Percebemos um decalque colorido que a garota estava recortando, quando o meu pai percebeu.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLb2SvyHm4I/AAAAAAAAAg4/Z1fXobBfkcg/s1600-h/MourÃ£ozinho.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239646018416909186" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLb2SvyHm4I/AAAAAAAAAg4/Z1fXobBfkcg/s400/Mour%C3%A3ozinho.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Meu pai, em foto da época de noivo da minha mãe e iniciando os seus primeiros versos, inspirados no bisavô poeta.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Nos dois últimos anos da vida do meu pai (faleceu em 12/10/2001), como uma forma de manter sua mente ativa, passei a conversar com ele sobre dois assuntos que o interessavam sobremaneira: a poesia de José Coriolano e genealogia. Comecei a compulsar os originais salvos por meu pai, percebendo, então, terem restado 49 poesias inéditas. Tentei sensibilizar o prefeito de Crateús, sua terra natal, para criar um memorial no qual a obra do poeta pudesse ser estudada. Ao ler para o meu pai o “e.mail” enviado, notei que os seus olhos brilharam de alegria, enquanto balbuciava um “muito bom”, diante da perspectiva da obra do seu bisavô ser finalmente reconhecida (após quase 150 anos). Isto me emocionou profundamente! Motivado por este seu desejo, resolvi levar adiante a idéia da publicação de todas as poesias de José Coriolano, no intuito de prestar uma homenagem póstuma ao meu pai e também ao poeta José Coriolano, meu trisavô. Meu irmão Raimundo Nonato Mourão, residente em Teresina, passou a me dar apoio e incentivo. Inclusive, buscou sensibilizar a intelectualidade local, na busca do apoio necessário para esta publicação. Agora, publico na Internet, ficando acessível ao mundo todo. Por coincidência, no dia 24 de agosto de 2008, aniversário do falecimento do poeta, exatos 139 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por seguidas semanas me dediquei e me deleitei com este trabalho. Para tanto, contei com a inestimável colaboração da minha esposa, Edméia Teixeira Mourão, profunda conhecedora da técnica e da sensibilidade poética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que a princípio consistia em deslindar a grafia, a ortografia, o vocabulário do poeta e do período em que viveu, foi se transformando em uma grande admiração. À medida em que me aprofundava na leitura de suas poesias, comecei a perscrutar os mistérios daquela alma sensível. A sua filosofia de vida, o temperamento apaixonado, a grandeza interior, a imensa cultura humanística, as idéias, a capacidade de amar deste antepassado que até então era simplesmente o trisavô poeta, me impressionaram! E, o debruçar-me sobre os originais num trabalho de resgate cultural e, vezes outras, de restauração, juntando fragmentos de papéis desgastados pelo tempo, fez-me sentir remontando a minha própria história. Muitas vezes, ao transcrever uma poesia inédita há 150 anos, tinha a sensação de que o poeta estava renascendo, reescrevendo-a agora, em um computador. Posteriormente, ao ouvir fitas gravadas por meu pai, descobri duas poesias do Coriolano, as quais ele musicara. Papai aprendera essas músicas com sua mãe (Maria Coriolano de Souza Mourão), e com elas embalava seus filhos. Com uma forma de perpetuar as músicas o meu pai, ainda jovem, solicitou ao maestro da Banda de Música de Crateús para transcrever em pauta musical, que reproduzimos nesta edição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Coriolano, como disse, era um apaixonado. Um apaixonado pela vida, pela realidade que o cercava. Preocupado com os problemas políticos e sociais de sua época que, guardadas as devidas proporções, são de certa forma atuais. Era um abolicionista e republicano. Entusiasta pela natureza, hoje seria um ecologista atuante. Com sua lira, pintou-a com cores tais, que quase podemos ver as campinas, os prados verdejantes, as fontes, as flores. E, se apurarmos o ouvido, nos deleitamos com os maravilhosos trinados dos pintassilgos, rolinhas e sabiás!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apaixonado, sobretudo, por Maria. Maria de tanta dor. Maria de tanto amor. E o amor era tão intenso, tão abrangente, como declara, em um de seus poemas:&lt;br /&gt;“Sim, Maria, meu anjo, terno encanto!&lt;br /&gt;Quanto te amo, dizer não sei, não posso.&lt;br /&gt;É amor que não pode ser descrito&lt;br /&gt;Porém nele o rigor d’ausência adoço!”“.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem dotado de uma profunda fé e sentimento cristão escreveu belíssimos poemas dedicados a Deus. Porém, mesmo nas poesias comuns, a sua fé e os seus sólidos princípios morais perpassam nitidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma carta do poeta a um amigo, ele conta que o marco inicial da cidade de Crateús foi a construção de uma casa para abrigar os frades franciscanos, que foram ao local para a missão de evangelização. Posteriormente, segundo ele, neste mesmo local foi erigida a igreja que hoje é a Matriz da Diocese. E neste mesmo sítio santo, onde nasceu a sua Crateús, os seus contemporâneos, como uma subida honra, decidiram depositar os seus restos mortais. Faleceu em 24 de agosto de 1869.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ivens Roberto de Araújo Mourão&lt;br /&gt;Trineto do poeta&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Introdução&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Como introdução, utilizo dois depoimentos feitos nas duas publicações anteriores das poesias de José Coriolano. O primeiro, de 1870, escrito por David Moreira Caldas que se auto denomina: “um dos mais obscuros amigos do poeta”, transcrevo na sua totalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na edição de 1973, foi acrescentado um texto de autoria de Celso Pinheiro Filho, grande pesquisador da história e literatura piauienses. Deste, apresento um resumo, restrito a informações complementares da biografia do poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;· &lt;strong&gt;Depoimento de 1870, de David Moreira Caldas (*)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(*) &lt;em&gt;David Moreira Caldas foi o grande jornalista republicano do Piauí, denominado o profeta da República. Nasceu em 1836 e faleceu em 1878. Foi vítima, quando do seu falecimento, da intolerância política devido às suas idéias. Foi-lhe negado o direito de enterro no cemitério e de receber os sacramentos da igreja, apesar de ser católico praticante... (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Em falta de pena mais competente, depois da nímia bondade de quem melhor poderia fazê-lo, achamo-nos encarregado de esboçar alguns traços de vida e do estilo de Dr. José Coriolano de Souza Lima, cujas obras acabam de ser colecionadas por um ilustre e sincero amigo do poeta, empenhado em dar-lhes a publicidade póstuma (*), de que são dignas.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Nem todos os escritos do falecido Dr. José Coriolano se achavam inéditos quando teve lugar a morte: ele fizera imprimir alguns deles em jornais e revistas literárias, tais como o Ateneu Pernambucano, Ensaio Filosófico, Revista Acadêmica, Arena, Íris etc.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Este nosso humilde escrito servirá, pois de introdução a este belo volume, cuja impressão, assim como a do seguinte, fora contratada com um dos mais hábeis editores do país, o Sr. Berlamino de Matos, cuja morte prematura, ultimamente, a arte tipográfica deplora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuraremos ser conciso, quanto nos for possível, para que não aconteça roubarmos grande espaço a quem tanto precisa dele; visto como, o fecundo autor dos cantos à “Aurora” à “Tarde(*)” à “Tempestade” e a “Grandeza de Deus” – chegou a produzir cerca de duzentas e cinqüenta poesias, que talvez não possam ser contidas em menos de três tomos do formato deste – com o qual o nosso escrito tem tanta conexão como a viçosa parasita com a árvore copada, donde extrai a seiva de que se alimenta.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Hino à Tarde, é o título correto. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Entre os territórios do Ceará e do Piauí existe encravado um belo vale, onde outrora habitavam os índios Carateús, e onde mais tarde assentou-se a povoação de Piranhas, depois Vila do Príncipe Imperial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A orografia parecia destiná-lo a fazer parte da primeira daquelas províncias, porém a hidrografia, por um capricho da natureza, resolveu a questão – a favor da segunda. (*)¨&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Dez anos após a publicação da primeira edição de Impressões e Gemidos (1880), Crateús passou a pertencer ao Ceará em troca de Luís Correia, possibilitando acesso ao mar para o Piauí. (Nota do Coordenador).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rio Poti, como uma árvore frondosa, ramificada por todo o vale, entronca-se na Serra Grande; forceja-lhe sobre um lado, rasga-lhe as duras entranhas – até que abre funda passagem através dela: corre então para o poente, onde vai, com os últimos raios do sol, confundir suas águas com as do majestoso Parnaíba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi ali, naquele formoso sertão, que viu a luz primeira o Dr. José Coriolano de Souza Lima, na mesma fazenda em que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“.... num massapé torrado e brusco&lt;br /&gt;Nasceu o valoroso touro fusco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por ele cantado num poemeto(*), que consideramos de muito merecimento.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Touro Fusco é o nome do poemeto (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;De sua saudosa infância, recorda-se o poeta – com uma reminiscência tão feliz que ele, cantando o seu pátrio ninho, assim se exprime, com muita naturalidade (*):&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Trecho do poema Crateús. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;“..... terra, onde a alvorada&lt;br /&gt;Primeira pra mim raiou!&lt;br /&gt;Onde a primeira morada&lt;br /&gt;Meu pai querido assentou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde o galo, à madrugada&lt;br /&gt;Cantando me despertou!&lt;br /&gt;Onde à primeira alvorada&lt;br /&gt;Ouvi-lhe o có-corô-cô!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como são onomatópicos estes versos, como são duradouras as impressões recebidas no berço!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que as primeiras sensações da vida quando o entendimento desabrocha, deixam traços indeléveis na idéia tenra e n’alma ainda virgem: podem vir depois os gemidos na idade dos desenganos! Podem vir; que não conseguirão fazer esquecer os sons queridos que pela primeira vez ouvimos, dali, do regaço materno que é todo – conchego e carícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi José Coriolano o sétimo e último filho que tiveram de seu consórcio – Gonçalo Correia Lima e D. Anna Rosa Bezerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos dez anos de idade, como ele próprio descreve nuns versos inéditos, e num esboço de cena íntima, falava-se que o Benjamim de D. Anna Bezerra seria o noivo de uma graciosa menina que tinha apenas dois anos de idade, sua sobrinha “Maria”, a quem mais tarde celebrou em seus versos: nestes, por exemplo, (*):&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poema extraviado. (Nota do Coordenador)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“ eu contava dous lustros, tu dous anos,&lt;br /&gt;Quando nosso himineu foi resolvido;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este casamento foi com efeito realizado em 24 de janeiro de 1859, quando o poeta passava em Crateús as férias de seu último ano de curso acadêmico. Tinha então perto de trinta anos de idade, como se vê do seguinte trecho de uma carta sua, escrita, seis a sete meses depois, a seu muito estimado e digno amigo o Dr. José Manuel de Freitas: “...... Lembro-me ainda que no Príncipe Imperial residi até a idade de 16 anos, há quase 14 que minha moradia se acha distribuída por São Raimundo Nonato, pelo Maranhão, por Pernambuco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ainda se vê do referido trecho, muito moço deixou José Coriolano a sua herdade natalícia, situada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Num terreno coberto de mimoso”,&lt;br /&gt;“........... a fazenda Boa Vista,”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para transportar-se àquela longínqua povoação do alto Piauí, que ainda em 1843, se não falha a memória do poeta, é que nela se construía a primeira casa, onde hoje é a Matriz (*), com o fim de receber dois missionários capuchinhos que ali estabeleceram um dos pontos de suas prédicas para o povo circunvizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Matriz onde estão depositados os restos mortais do poeta (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLbhJpEO1pI/AAAAAAAAAgw/nFm7qnSHcos/s1600-h/Coriolano+e+Cisalpina.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239622772250826386" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLbhJpEO1pI/AAAAAAAAAgw/nFm7qnSHcos/s400/Coriolano+e+Cisalpina.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;O poeta e sua esposa, Maria Cisalpina, sobrinha&lt;br /&gt;(filha de seu irmão Gonçalo) e sua&lt;br /&gt;grande musa inspiradora. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Para São Raimundo Nonato, elevado à vila em 1850, transportou-se, com efeito, o adolescente, em companhia de um seu respeitável irmão, o Revd. Cônego Sebastião Ribeiro Lima, vigário, ainda hoje(*), daquela freguesia..&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Era 1870. O cônego faleceu em 27/3/1883. (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;É assim que o poeta descreve a sua partida (*) para a povoação que noutro tempo “Genipapo” se dizia:&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poema completo extraviado. Restam as estrofes aqui transcritas. (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Dos pátrios lares saudoso,&lt;br /&gt;Chorando me despedia;&lt;br /&gt;Saudosos meus pais deixava,&lt;br /&gt;À longe sertão partia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De meus irmãos me apartava,&lt;br /&gt;Deles que eu tanto queria,&lt;br /&gt;Por seguir a um somente&lt;br /&gt;Que triste também partia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vila de S. Raimundo Nonato é descrita principalmente nas seguintes quadras, singelas, mas expressivas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de longa viagem&lt;br /&gt;Eis que uma várzea se via,&lt;br /&gt;Um povoado no fundo&lt;br /&gt;Grosseiramente se erguia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram as casas pequenas&lt;br /&gt;Sem ordem, sem simetria:&lt;br /&gt;A telha cobria algumas,&lt;br /&gt;A casca outras cobria.&lt;br /&gt;...................................&lt;br /&gt;A coisa mais pitoresca&lt;br /&gt;Que no povoado havia&lt;br /&gt;Era um grande juazeiro&lt;br /&gt;Que entre dous oitões jazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1851, o poeta, que então o era bem novel, achava-se na cidade de São Luís do Maranhão, onde compôs a sua endecha, intitulada “Mudanças” na qual nos parece uma das melhores poesias deste volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imensa saudade que se sente quando ausente de uns belos olhos que a primeira vez nos fascinaram, produziu sempre dessas mudanças, para exprimir as quais não basta sentir as contrações das fibras mais delicadas dum coração virgem: é preciso, sobretudo, o fino tato do poeta, único intérprete verdadeiro duma alma apaixonada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ao mancebo pesa a soledade, como a Adão no paraíso, suspirando por uma terna companheira, então é chegado o momento de sentirem-se aquelas “mudanças” que José Coriolano sentiu aos vinte e um anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano seguinte, ainda no Maranhão, onde estudava preparatórios, exercitava ele o seu estro, cantando as matas de S. Raimundo, que “têm o frondente umbuzeiro.”&lt;br /&gt;Foi esse mesmo tempo que o poeta, ávido de emoções eróticas, como soe o homem ser na juventude ardente, desfez-se em suaves melodias, dirigindo-se assim ao anjo de seus dourados sonhos (*):&lt;br /&gt;(*)&lt;em&gt; Careço de Teu Amor, é o nome da poesia. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu careço de ti, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como da rotação carece a terra,&lt;br /&gt;Como d’alma carece o corpo imbele.&lt;br /&gt;Como o mundo – de tudo quanto encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu careço da luz desses teus olhos&lt;br /&gt;Como as plantas da luz do sol carecem,&lt;br /&gt;E da gota do orvalho a flor no prado.&lt;br /&gt;E da mansão celeste os que falecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além desta mimosa poesia, de que ainda nos ocuparemos, o poeta escreveu outras, menos importantes, na mesma cidade e no mesmo ano já citados, - notando-se, porém a que tem por título “A donzela e a sensitiva”, que é um esboço ligeiro, mas correto e gracioso, do caráter de nossas jovens e recatadas sertanejas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerca de um ano mais tarde, em 1853, J. Coriolano compôs uma pequena e engraçada fábula, em algumas oitavas líricas, a qual denominou “A Rosa Defendendo-se”. A moralidade dela é nada menos que um conselho salutar a toda moça prazenteira, parecida com uma rosa, a quem o poeta previne para que, com os seus espinhos, se ponha em defensiva contra qualquer audacioso que a queira colher, por mero passatempo, para logo depois abandoná-la, desfolhada,... apenas sorvido o mais puro aroma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1854, J.Coriolano achava-se em Olinda, onde ia concluir os seus estudos de Humanidades, - para no ano seguinte matricular-se na faculdade de direito, o que de fato realizou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLbX5Iz8qyI/AAAAAAAAAgo/WUu2UZaS_kw/s1600-h/Foto+Coriolano+em+Vidro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239612593110035234" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLbX5Iz8qyI/AAAAAAAAAgo/WUu2UZaS_kw/s400/Foto+Coriolano+em+Vidro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;O poeta, quando estudante no Recife. Esta foto está impressa em vidro,&lt;br /&gt;num pequeno estojo, com cobertura de veludo.&lt;br /&gt;Provavelmente presenteou à sua amada. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Na formosa Marim dos Caetés, o nosso poeta compôs então as suas mais belas poesias, tais como – a Grandeza de Deus, o Hino à Tarde e A Tempestade, que oportunamente analisaremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda na mesma cidade e no citado ano, o poeta, que começava a tornar-se fecundo, compôs outras obras, entre as quais nota-se O Correr da Vida, bem como a Virgem e a Roseira, que os leitores verão neste volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao tempo da transferência da faculdade de direito, de Olinda para Recife, e quando o nosso poeta ia cursar ali o seu primeiro ano, teve ele de desferir no alaúde as notas mais repassadas de sentimento, ao deplorar a morte do afamado cantor de Camões, e, meses depois, a de dois moços seus colegas d’academia, Manuel Alexandrino da Silva Girão e Manuel Rodrigues Machado(*).&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Foram cinco denominadas Nênia. Apenas duas publicadas: para Girão e o Pai (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Nessa ocasião, seu nobre estilo mostrou-se pomposo e severo, jamais contrastando com a gravidade do lutuoso assunto; seus pensamentos revelaram-se tão expressivos – quanto a mais sincera e profunda dor, aquela que se estampa no demudado semblante, dando testemunho fiel do coração pungido, ou que se denuncia ingenuamente – na voz angustiada, que provoca as lágrimas e convida aos soluços!&lt;br /&gt;Como é tocante, por exemplo, o desparzir de perpétuas sobre a sepultura do jovem Girão, - seu amigo e companheiro de estudos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como são sublimes as três quadras finais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na ode ao grande Garret (*), onde o poeta deixa-se rápido transportar pela mais viva fé na imortalidade; como é ele arrojado quando repele o fantasma da dúvida, que de súbito se lhe apresenta ao espírito, qual um dragão aéreo, para cortar-lhe em meio o altanado vôo!&lt;br /&gt;(*)&lt;em&gt; À Morte de Visconde de Almeida Garret, é o título. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mas, ele vence como o arcanjo; servindo-se apenas de um raio de inspiração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a morte consegue extinguir a vida do sábio, fica-lhe renome eterno: assim, pois:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo ano de 1855, J. Coriolano compôs a sua mais enérgica poesia; marselhesa que convém a todos os povos, sátira brilhante, e manifesto republicano de subido valor, que tem por título “O Rei”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De sáficos e alexandrinos soberbos, fez o poeta uma vergasta magnífica com que se propôs fustigar aos tiranos, de todos os tempos, tão dignos de condenação na memória dos homens como no divino areópago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta identificado com o direito, com a justiça, e com a razão mais depurada, evoca os terríveis espectros de Alexandre, Tibério, Calígula, Messalina, Nero e Bonaparte – para deles se constituir o julgador inflexível, bem como dos seus iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê-lo-emos resumir a justa sentença neste verso memorável:&lt;br /&gt;“História dos monstros – dos reis é a história”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que ele, apenas, menciona os nomes de cinco grandes homens e de uma célebre heroína, aquela que fez “lupanar do império” – mas isto é quanto basta: fora longo chamar a todos para lançar-lhes em rosto os horrorosos crimes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tamerlão negaria que tivesse ele mandado enterrar vivos a dez mil dos habitantes da cidade de Sebsvar!... Contestaria que em Deli houvesse mandado degolar a cem mil prisioneiros; ou que em Bagdad tivesse erigido um obelisco de noventa mil cabeças cortadas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sapor I, rei da Pérsia, talvez que ainda hoje se ufanasse de haver feito do imperador Valeriano o seu estrado ou degrau de montar a cavalo; até que um dia, após anos de torturas, lembrando-se que faria um belo efeito a vista da pele de seu rival suspensa num templo, - para esse fim mandou que o esfolassem vivo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sendo culpa nossa que o poeta tivesse a sem razão de professar idéias políticas, e, sobretudo das mais perigosas: convém que façamos a tempo a seguinte declaração, para que não pareça que abusamos da atenção dos leitores para pregar-lhes assim o nosso evangelho, fora da competente tribuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por nossa vez fizemos menção d’alguns atos cruelíssimos de dois reis bárbaros, como não os haverá mais, talvez, se consultaremos os espíritos propensos a crer na perfectibilidade humana; entretanto, o fizemos pela necessidade de prevenir a suspeita, que porventura pudesse ter algum leitor, menos versado em história, a respeito do nosso inspirado poeta, supondo-o capaz de caluniar aos augustos soberanos do mundo, no verso supramencionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que o próprio poeta não se descuidou de declarar logo, sem demora, que da totalidade dos reis tirava-se:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um bom dentre centos...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, é preciso lembrar, com o almanaque de Gotha nas mãos, que a terra povoa-se na razão de duas ou três gerações para cada série de cem reis de toda a sorte, - e que para uma só nação chegar a contar de oito a nove dúzias de “mui altos e mui poderosos” Senhores, - torna-se necessário que uma ampulheta se resigne a vazar areia por espaço de quatorze a quinze séculos!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passando as férias do 1º ano de direito, na cidade de Olinda, J. Coriolano teve a feliz lembrança de cantar um touro valente, que ele, na sua infância havia conhecido e admirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apreciemos a mor parte da pitoresca descrição que ele próprio faz da origem da singular inspiração que produziu esse poemeto, no qual se vêm graciosamente casados os gêneros épico e bucólico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o que disse o poeta, dois anos mais tarde, quando tratou de publicar o “Touro Fusco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“... Em outra qualquer parte poderão escassear as inspirações, poderá gelar-se o estro; porém nessa encantadora cidade, tão bela e deliciosa como o seu mesmo nome, (Ó linda) tão pitoresca e poética, como o panorama que ela desenrola aos olhos do poeta e do pensador. – Sempre as inspirações serão freqüentes e o estro vigoroso, sempre o filho saudoso, o irmão terno, o amigo ausente, o amante apaixonado, encontrarão objetos, receberão impressões que lhes façam recordar os mimos, as delícias, os sonhos, os amores de uma idade que já não é do presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí eu estava, um dia, embriagado na saudosa contemplação dos meus primeiros anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me da Boa Vista antiga fazenda de meus queridos pais, onde eu dera o primeiro grito da infância, onde eu vira pela primeira vez a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nela havia eu aprendido a sorrir com minha doce mãe, - a fazer-me esperto com o meu querido pai e a brincar com os meus irmãos e com meus amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nela havia eu visto pela primeira vez nascer o sol e a lua, por cima da pitombeira que havia em frente da nossa casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nela havia eu visto pela primeira vez cantarem os passarinhos, saltando alegres pelos ramos das laranjeiras que nos davam os seus amarelos frutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me que nela tiveram meu pai um “touro fusco”, que fora enjeitado, feio, barrigudo e cabeludo quando pequeno; - bonito, delgado e cachaçudo quando grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me que esse touro havia conseguido muitas vitórias, por mim testemunhadas; que nesses momentos sublimes de triunfos – meu coração pulava e se expandia de gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me finalmente que aquele touro tinha um urro tão saudoso e retumbante, que eu ao ouvi-lo estremecia como a terra e tremia como os matos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantei esse touro em algumas oitavas rimadas. Com isto fiz mais do que arquivar uma simples inspiração: levantei, à memória desse valente e brioso animal, um monumentosinho grotesco cujos hieróglifos, talvez pelo autor somente entendidos, serão para mim uma fonte inexaurível e deleitável de belas tradições, de queridas reminiscências, de infinitas associações de idéias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do “Touro Fusco” o nosso poeta escreveu, em 1856, entre outras, as seguintes interessantes poesias: “Coragem”(*), por ocasião do cólera morbus, do qual, por sua vez, foi também acometido.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Existem duas outras poesias inéditas, com o título Coragem. Uma delas incompleta. (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;“A Vítima do Poder” uma das mais sentimentais, e aquela que, ao cabo de quatorze anos, nada tem desmerecido de suas vivas cores, antes – dir-se-ia ser a mais recente de suas obras. (*)&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Passados mais de cem anos ainda mantém o mesmo valor. (Nota do Coordenador)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Virgem do Crateús, a Noite de S. João, Beijos Mudos e Gratidão (*).&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Extraviou-se esta poesia. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Esta última foi oferecida ao seu colega J. M. de Freitas, que antes lhe havia dedicado uma outra que termina assim:&lt;br /&gt;“.........................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não mandas os teus gemidos&lt;br /&gt;Ao régio passo do rei;&lt;br /&gt;Só cantas a nossa pátria,&lt;br /&gt;Nossa gente, nossa grei;&lt;br /&gt;Só vives pra essa santa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que tua lira decanta;&lt;br /&gt;Essa virgem do sertão,&lt;br /&gt;Que rica de poesia,&lt;br /&gt;Se embala com harmonia&lt;br /&gt;Nas asas da viração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só cantas a nossa pátria,&lt;br /&gt;O nosso belo – Brasil -,&lt;br /&gt;E esse teu berço querido,&lt;br /&gt;Que vestes de cores mil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só cantas a liberdade,&lt;br /&gt;Por amor da humanidade,&lt;br /&gt;Só vives de inspirações,&lt;br /&gt;Por amor dessa donzela,&lt;br /&gt;Sim! Dessa moça tão bela,&lt;br /&gt;A quem rendes ovações.¨&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha província... coitada!&lt;br /&gt;Como ainda vive, não sei!&lt;br /&gt;Mas contente ei-la dizendo:&lt;br /&gt;- Já tenho um poeta rei! -&lt;br /&gt;Ergue-te, sim prasenteiro,&lt;br /&gt;E separa o nevoeiro,&lt;br /&gt;Que te faz escurecer, -&lt;br /&gt;- Piauí! – prossegue ovante!&lt;br /&gt;Tens uma lira gigante,&lt;br /&gt;Que te faz engrandecer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A força da inteligência&lt;br /&gt;Tudo e tudo faz curvar,&lt;br /&gt;E ninguém mais do que o talento&lt;br /&gt;Pode o teu nome exaltar.&lt;br /&gt;Não vês lá esse colosso,&lt;br /&gt;Que jamais voltou o dorso,&lt;br /&gt;Esse outrora – Portugal?&lt;br /&gt;Pois sua fama lá foi-se,&lt;br /&gt;Já sua glória acabou-se,&lt;br /&gt;Camões é seu pedestal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, ó berço querido,&lt;br /&gt;Ó meu terno e pátrio lar,&lt;br /&gt;Se não tens altos tesouros,&lt;br /&gt;Tens um poeta a cantar;&lt;br /&gt;Um poeta que ao teu nome&lt;br /&gt;Há de dar alto renome;&lt;br /&gt;Um poeta que nasceu&lt;br /&gt;À sombra dos teus coqueiros,&lt;br /&gt;Das murtas e pequizeiros,&lt;br /&gt;Que cobre o teu belo céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó gênio da minha pátria,&lt;br /&gt;Poeta do meu sertão,&lt;br /&gt;Prossegue avante, não temas&lt;br /&gt;Da sorte o duro farpão.&lt;br /&gt;Se Dante e Camões morreram,&lt;br /&gt;Por misérias que sofreram,&lt;br /&gt;Que te importa? – Privações&lt;br /&gt;Não aterram brasileiros,&lt;br /&gt;Patriotas verdadeiros,&lt;br /&gt;Nascidos lá nos sertões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eia! Canta essa província,&lt;br /&gt;Seus costumes, tudo seu:&lt;br /&gt;- As caças, os caçadores,&lt;br /&gt;O pintassilgo e o sofreu;&lt;br /&gt;Canta o rio sonoroso,&lt;br /&gt;Teu amigo prestimoso,&lt;br /&gt;- O belíssimo – Poti -&lt;br /&gt;Teu Crateús também canta,&lt;br /&gt;- A terra da tua santa,&lt;br /&gt;Canta todo o – Piauí!-”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ao Dr. J. Manuel de Freitas, cabe, pois a glória de ter sido o primeiro que apreciou devidamente o talentoso poeta piauiense, - seu conterrâneo, amigo e companheiro d’academia: é ainda a esforços deste distinto cavalheiro que vão ser publicadas as obras daquele a quem sempre dedicou a mais cordial afeição e a mais sincera admiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1857, J. Coriolano escreveu várias poesias, das quais a mais bela tem por título “Aurora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois desta, as mais importantes têm por título: Primeiras Águas, e Breve Notícia do Século XIX (*).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poesia extraviada. (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;De 1858 datam duas poesias suas, muito notáveis: Hino ao Criador, e a Filha do Deserto(*): a primeira sobretudo, deve-se considerar como das melhores, devidas ao seu estro.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poesia extraviada. (Nota do Coordenador).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. Coriolano tendo-se casado no sertão, em principio de 1859, com sua sobrinha D. Maria Cisalpina Correia Lima, - como já o dissemos noutra parte desse nosso humilde escrito, e havendo levado a Exma. Esposa para Pernambuco, onde tinha de cursar o seu último ano de direito: aí chegando, continuou a cultivar as musas; mas estas, ao que parece, mostraram-se então um tanto despeitadas com o poeta, não inspirando-o mais quanto era de costume...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também havia razão para Erato e Calíope arrufarem-se: diz-nos a mitologia que as deusas não deixam de ser zelosas e vingativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 6 de dezembro o poeta faz ato de seu 5º ano de direito, sendo-lhe, dez dias depois conferido o grau de bacharel em ciências sociais e jurídicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos que da consideração que em geral os lentes prestavam a ele, que, por seus constantes e dolorosos sofrimentos físicos, desde o começo de seus estudos, nem sempre comparecia à aula em estado de poder ser chamado à lição; mas, era tal o conceito em que era tido que, nem um de seus mestres lhe queria receber atestados médicos quando, por muito incomodado, deixasse de comparecer ao menos no edifício da faculdade.&lt;br /&gt;O muito digno Sr. Dr. Bandeira de Melo tinha sempre o cuidado de indagar pela saúde de J. Coriolano, e o ilustrado Sr. Dr. Aprígio Guimarães, que o argüiu em direito administrativo, teve ocasião de chamá-lo talentoso e progressista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ano de 1859 formaram-se na faculdade de direito do Recife – três moços poetas que muito se haviam distinguido entre os seus colegas: José Coriolano de Souza Lima, natural do Piauí; Pedro de Calazans, filho de Sergipe, - e Franklin A de Menezes Dória, que viu a luz do dia na Primogênita de Cabral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não daremos a primazia a nenhum deles; mas é certo que todos os três merecem figurar no Parnaso brasileiro, ao lado de Gonçalves Dias, de Domingos Borges de Barros etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a formatura de José Coriolano findou-se a segunda fase da vida artística ou literária do poeta, considerando que fosse a primeira começada com os seus ensaios mais antigos e terminada pela poesia que tem por título “A Rosa Defendendo-se”. Compreende, pois a segunda fase, a mais plena e brilhante, todo o tempo que ele passou na província de Pernambuco, que foram seis anos, salvo a interrupção de algumas férias passadas fora, na Paraíba, no Ceará, e província natal (*).&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;À época Províncias, hoje Estados. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;De 1860 em diante, data o terceiro e último período, durante o qual o poeta compôs poucas poesias, - passando-se alguns anos em que nada produziu de notável. Durante esses dez anos, decorridos desde sua saída de Pernambuco até seu falecimento em Príncipe Imperial, vê-lo-emos apenas compor, - em 1861, estando em Teresina, Quadras à Meia Noite; em 1867, em Pastos Bons, uma interessante narrativa metrificada, que tem por título “Eugênia Belém e Narciso Cordo”, episódio romântico da Guerra do Paraguai, no qual se conserva a memória dum distinto patriota piauiense, morto na campanha de 1866, “O Bravo Francisco Luís(*)”, que partira da vila das Barras em 26 de abril de 1865, capitaneando quarenta voluntários da pátria – alistados naquela localidade, onde deixava mulher e muitos filhos menores, para nunca mais os tornar a ver!...&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poesia extraviada. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;De 1868 datam duas suavíssimas poesias de J. Coriolano, uma tendo por título “Como Te Amei, Como Te Amo” – e a outra “Gozemos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lendo-as, a modo que se lhes sente um odor de mirto, de rosas e de jasmins, que enleva os sentidos e nos transporta vaporosamente a uma nova Citera, onde se respira um ambiente mais puro do que na do paganismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1869, ano que tão fatal deveria ser ao ilustre cantor, compôs ele três poesias recomendáveis; sobretudo por serem as últimas de seu estro admirável, que estava tão prestes a extinguir-se com a preciosa existência. Os últimos cantos do cisne de Crateús foram estes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Colóquio Amoroso”(*)&lt;br /&gt;“Nênia ao Dr. J. Vilela”&lt;br /&gt;“Só Eu Não Morro!...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para completar a nomenclatura de todas as suas poesias que mais nos agradam, citaremos ainda mais uma dúzia, sem declaração das épocas a que pertencem: - A Noite, - As Aves da Minha Terra, - A Lua, - O Avarento, - Só Um Anjo Será, - O Canto do Recruta (*), - A Escrava, - Como a Flor do Bulebule, - O Inverno (*), - O Enfermeiro, - O Canto do Soldado, - Com Pouco Me Contento.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Poesias extraviadas. (Nota do Coordenador).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Além das poesias, há também de J. Coriolano, vários escritos em prosa, publicados em jornais literários e políticos. Os principais são estes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Casamento e a mortalha no céu se talha”, romancesinho de enredo simples, mas que prende bastante a atenção, e no qual se encontram belezas tais como cena do desmaio de Sílvio, no colo de Angélica, posição em que, ao tornar a si “podia ver o seio da virgem arfando, como duas pequenas galeras em mar tempestuoso”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Frei José de Santa Rita Durão” ensaio crítico sobre o ilustre autor de “Caramuru” – onde se notam os seguintes trechos que nos apraz reproduzir aqui:&lt;br /&gt;“Não foi somente por esta tendência bem característica do nosso insigne épico contra as divindades do paganismo, que ele se tornou credor dessa superioridade relativa que nele enxergamos; não: o distinto cantor de Diogo e da interessante Paraguassu (a quem descreve tão bela, tão simples, tão sensível, tão caroável aos preceitos de seu modesto e pudico amante) sobressai ainda a muitos dos seus coetâneos quando a regularidade de suas estrofes, não introduzindo nelas senão geralmente palavras graves, que são por certo as que mais se casam com os assuntos grandiosos, com as epopéias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É admirável que um poema de oitocentas trinta e quatro estâncias não tenha uma só que seja aguda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É admirável que todo ele seja grave!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábio e respeitável senhor Castilho, em seu precioso opúsculo – Tratado de Metrificação Portuguesa – obra que tanto tem de pequena quanto de profusa em conhecimentos elevados e incansáveis vigílias, nos diz que a Tomás Antônio Gonzaga, na sua Marília de Dirceu à imitação do popularíssimo poeta italiano – Metastasio, - devem os portugueses a introdução da regularidade das estrofes. Entretanto, sem que tenhamos em vistas negar a autenticidade de asserção, julgamos conveniente dever ponderar que Durão é anterior ao melodioso cantor da bela mineira, e essa perfeição poética, ou bom costume, como apropriadamente chama aquele autor, já anteriormente deviam admirar no imortal Caramuru.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Sr. F. Muniz Barreto. – Como Poeta”,é outro ensaio crítico de J. Coriolano que merece ser lido. – É pena, entretanto, que a análise de Bocage – brasileiro não fosse além da poesia que tem por título – A Mulher -. É verdade que, no entender de nosso Aristarco, é ela, por si. só bastante para engrinaldar uma fronte de poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A Marília de Dirceu”,vigorosa defesa que o nosso compatriota fez à memória da célebre noiva do mavioso Gonzaga: é notável não só pela idéia, como por aquele que pretendeu ridicularizá-la, um talentoso crítico português, é aí combatido com muita vantagem, ao que parece, pelo escritor piauiense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suicídio; o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe; o papa é infalível na canonização dos Santos; e a liberdade de imprensa - foram outros tantos assuntos por ele escolhidos para sua estréia na prosa; que aliás não cultivou em larga escala, se bem que tivesse uberdade de pensamentos, riqueza de estilo, e avultado conhecimento da língua vernácula, que fazia timbre de escrever expurgada desses ouropéis estranhos com que outros cuidam melhor ataviá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ousamos afirmar que nem um jovem escritor brasileiro, contemporâneo, escreveu com tanta pureza de dicção como J. Coriolano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, posto que ligeiramente, vamos ocupar-nos em descrever de que modo escoou-se o último decênio da existência desse homem, ou antes desse varão, a quem a fortuna não tendo prodigalizado mais do que o gênio, - aliás o maior dote que possuía para oferecer-lhe, bem podia dizer como Simonides “Mecum mea sunt cuncta”, para depois pedir, como Álvares de Azevedo, que piedosa mão lhe escrevesse este breve epitáfio, epílogo eloqüente de uma vida como a sua:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi poeta, sonhou, e amou na vida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1859 tiveram lugar vários fatos importantes da biografia de J. Coriolano: seu casamento; - o nascimento de sua primogênita, a 26 de outubro, em meio ao preparativo dos loucos festejos duma cidade que ia mostrar-se incoerente: - a recepção do grau de bacharel na faculdade de direito; - e a sua primeira eleição de deputado provincial, pelo terceiro círculo eleitoral, da província que se ufana de cantá-lo em o número de seus filhos mais dignos e mais ilustres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em julho e agosto de 1860 vemo-lo na capital da província, eleito vice-presidente da assembléia, e tomando parte nos trabalhos legislativos – até que se retirou para a comarca de Pìracuruca, da qual fora nomeado promotor público por aquele mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa insignificante vila, situada ao sul da cabeça da supramencionada comarca, e a ela mesma pertencente, - na chã de uma pequena serra de ares lavados e salubres, - foi o poeta fixar a sua residência: aí felizmente, gozou de alguma saúde aquele corpo tão alquebrado pelas constantes moléstias e freqüentes lucubrações. Então, pode respirar mais livremente – o asmático, - como ele próprio se designava algumas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa vileta, outrora chamada povoação de Matões (*), que, em 2 de janeiro de 1861, nasceu a segunda das seis filhas que o poeta teve de seu consórcio.&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Hoje Pedro II (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Em outubro de 1862, escrevendo a seu bom amigo, o Dr. Freitas, dizia ele assim, a propósito de sua nomeação de juiz municipal do termo do Codó, na província do Maranhão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Que remédio há senão aceitar esse lugar? Aqui estou quase sem pão...”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, era ele verdadeiramente econômico, como soe ser um bom pai de família, ou, aliás, na acepção mais genuína daquele vocábulo: ninguém conhecia melhor do que ele, em tudo, o meio-termo, que faz a virtude; segundo o bem conhecido axioma latino que reza destarte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“In medio consiste virtus”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Em fins de março de 1863 foi J. Coriolano tomar conta do juizado municipal de Codó, - onde sofreu ainda maiores privações do que na serra de Matões, ou vila de Pedro Segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não fora muita indiscrição de nossa parte daríamos como prova de semelhante asserção – alguns excertos, na verdade amargos, de várias cartas dele, - dirigidas a esse Aquiles, que se encarregou de vingar-lhe a morte e de fazer-lhe magníficos funerais, por meio da publicação póstuma das “Impressões e Gemidos” – título que o seu querido Pátroclo havia escolhido em vida para esta coleção de poesias que vale, por sem dúvida, tanto quanto o precioso escudo dum herói da Ilíada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mais disso, que necessidade imperiosa haverá de fazer um quadro bem acabado, que represente fielmente os negócios domésticos ou “ménage” do poeta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual tem sido a sorte da maior parte desses entes privilegiados que se chamam, - em Portugal, Camões ou Garção, na Itália, Torquato Tasso, em França, Gilbert, na Inglaterra, Chatterton?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem felizes ainda são aqueles que não chegam a morrer na dura enxerga de um péssimo hospital, ou que não se vêem reduzidos a lançar mão do suicídio como um recurso extremo e desesperado contra a desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgamos, entretanto, não haver inconveniente em dar a ler o seguinte trecho duma carta do poeta, datada de 4 de outubro de 1863, em que ele trata de seus incômodos e sugere a idéia de melhorarem a posição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz ele assim ao seu já referido amigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Apareceu-me ultimamente um tal entorpecimento no ouvido direito que estou perfeitamente mouco dele: sabe V. que assim começaram em Pernambuco meus males.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto também dores por todo o corpo, fastio e até mesmo uma respiração mais difícil do que aquela que me trouxe o meu restabelecimento em Pedro Segundo. A palidez excessiva de meu rosto e um nervoso extraordinário, tudo me ordena que não permaneça em Codó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha remoção para Caxias, quando ela se efetuasse, de que me serviria, se ali o calor é maior que aqui, e também doentio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero obter minha remoção para o Príncipe Imperial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar está pacificado; lá tenho um irmão, que é o meu parente mais próximo; esse mesmo não é potência: é um pobre homem carregado de família; por que não poderei ser removido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Depois acrescentava num post scriptum:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“No Príncipe Imperial tenho oito vacas para comer leite, e em último caso como-as – a elas mesmas.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Três meses se passaram, até que, por Decreto de 14 de janeiro de 1864, realizou-se aquela suspirada remoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em março achava-se na capital da província o novo juiz municipal de Príncipe Imperial, que seguia para o termo de sua jurisdição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por decreto de 1º de maio de 1865, José Coriolano foi nomeado juiz de direito da comarca de Pastos Bons, na província do Maranhão: era então presidente do conselho e ministro da justiça o nobre senador Francisco José Furtado que, nos consta, fazia do poeta o mais elevado conceito, apreciava-lhe as excelentes qualidades, e nutria a seu respeito os melhores desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz ou infelizmente para o poeta, o seu ilustre mecenas, depois daquele decreto não se conservou junto de Augusto mais do que oito dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. Coriolano, que pela segunda vez havia sido eleito deputado provincial, durante a sessão legislativa de 1865, ocupou a cadeira de presidente entre os eleitos da província; merecida distinção com que o honraram seus dignos colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encerrada a assembléia, seguiu para sua comarca o novo juiz de direito de Pastos Bons, que ali chegou – cerca de cinco meses depois de nomeado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três a quatro anos viveu o Dr. José Coriolano naquela comarca, até que se aproximou o termo de seus preciosos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atacado de uma congestão cerebral, cujos efeitos foram pausados e prolongaram-se por três meses, pouco mais ou menos, até que afinal se resolveu pela morte, o Dr. J. Coriolano, logo em princípio da moléstia, transportou-se a Caxias, onde entrou em uso de remédios, aplicados pelos facultativos Drs. R. Mendes Viana e D. F. de Gouveia Pimentel Beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Experimentando considerável melhora, e sendo-lhe aconselhado o ar livre de seu sertão, pôs-se em viagem para o seu Príncipe Imperial: passou então por Teresina, depois do meado de julho, e esteve ali alguns dias – hospedado em casa de seu compadre e amigo, o Dr. Freitas, bem conhecido dos nossos leitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A este - quase irmão – dirigiu ele a sua última carta em 9 de agosto de 1869, quinze dias antes de falecer. Nela referia que havia chegado ao lugar de seu destino no dia 1º daquele mês; que gozava de melhor saúde; que por aqueles onze, ou doze dias esperava que chegasse de Pastos Bons a querida esposa com as inocentes filhinhas: finalmente concluiu fazendo uma breve descrição do seu passadio, em que entrava, como elemento principal, a carne daquele “&lt;em&gt;delicioso e engordador sertão, todo coberto de panasco pela seca, e mimoso durante o inverno”.&lt;/em&gt;A descrição terminava pelos banhos no açude do sítio denominado – Veremos -, duas vezes por dia. Depois disso, o poeta exclama, - todo cheio de animação: &lt;em&gt;“Que vida, meu amigo!”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, todavia, - seus dias estavam contados, até as últimas mealhas!... Aquela risonha esperança – era nada menos que o rosicler que precede o crepúsculo: já ele estava envolvido na penumbra das asas do anjo exterminador!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, a sua hora tremenda chegou, no fatal dia de São Bartolomeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achava-se então no Príncipe Imperial o Dr. Manuel Ildefonso de Souza Lima, digno primo e amigo de J. Coriolano; o qual, nestes termos, noticiou para a capital a morte do distinto poeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Amigo Dr. Freitas, - Príncipe Imperial, 26 de agosto de 1869 – dou-lhe a tristíssima notícia de ter falecido ontem pela manhã (*) o nosso amigo José Coriolano. Agravando-se os seus incômodos, em virtude de uma constipação que apanhou, sobrevieram-lhe males tais que dentro de dois dias deram cabo de sua existência! Chego neste momento de seu enterro, e sabendo que o correio está próximo a partir, faço-lhe esta apressadamente, sem tempo para dirigir-lhe a outros amigos. O nosso amigo faleceu como uma criança, sem fazer o menor movimento e sem ser visto pelas pessoas que estavam em seu quarto. Não estava presente o vigário Macedo; mandamos a Independência e Vertentes convidar os padres Ricardo e Galvão, e nem um deles veio: o primeiro por motivar incômodos e o segundo por estar doente, de sorte que o nosso amigo não teve encomendação alguma.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Na verdade, faleceu no dia 24 de agosto, como consta na lápide, providenciada pela sua esposa, na Matriz de Crateús (Nota do Coordenador)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia anterior à sua morte, variou bastante; dizia constantemente que no dia seguinte partiria para o Rio de Janeiro, sem falta alguma: a viagem resolveu-se para a eternidade! A sua família ainda não é chegada; mas espera-se nesses dias. Veja que golpe fatal, especialmente para essa infeliz consorte, rodeada de tantas filhinhas. &lt;em&gt;“Hoje sigo para o Veremos, e amanhã parto para nossa casa Boa Vista, donde vim às carreiras para assistir ao menos o enterro do nosso amigo.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O Liberal Piauiense número trinta e cinco, de 4 de setembro do ano passado (*), tarjando a primeira de suas colunas, noticiou assim a morte do poeta:&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;1869 (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“O Dr. José Coriolano de Souza Lima, juiz de direito da comarca de Pastos Bons, na província do Maranhão, acaba de falecer na vila de Príncipe Imperial. Quis a providência que, depois de uma peregrinação de muitos anos, ele fosse deixar os ossos na terra do seu berço, ao lado de seus progenitores, lá onde pela primeira vez a esperança lhe sorriu, nos lábios puros da virgem que tanto amou, e depois foi sua esposa.&lt;br /&gt;Havia já alguns meses que o anjo da morte adejava-lhe em torno, e segredava ao coração de seus amigos palavras d’além túmulo. Mas, por fim, parecia que a saúde voltara a garantir por mais tempo a existência do ilustre magistrado. De Príncipe Imperial escrevia o Dr. José Coriolano, pouco antes de morrer, a um seu amigo desta capital: passo os dias contente, bebo leite suculento das vacas destes sertões, banho-me nas águas cristalinas do açude, respiro o ar puro de minha terra – que vida, meu amigo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Sim, que vida! Vida nas fronteiras da morte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarenta anos de exílio na terra – eis tudo: além um túmulo, e esposa e cinco (*) tenras parcelas de sua alma!&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Quatro filhas e um filho (nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Viveu pouco no tempo, viverá eternamente na memória de seus amigos. – Nós éramos um deles, e assaz conhecíamos as virtudes preclaras do ínclito varão. Ele era bom, probo, instruído, talentoso, amigo da pátria e da liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Quanto a vida é pérfida! Disse uma vez Pelletan. A cada passo que damos, ela nos força a semear um pedaço de nossa alma ao longo da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À família do morto, basta dizermos: fraternizamos com a vossa dor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Imprensa número duzentos e quinze, de sete do dito mês e ano, a respeito do mesmo assunto exprimiu-se nestes termos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Acabamos de receber uma infausta notícia que nos veio comover em extremo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste momento os olhos se arrasam de amargo pranto, e os nossos corações se enchem de infinitas saudades!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com voz entercortada pela dor, temos a lamentar a morte prematura de um irmão de crenças, que era um atleta inspirado; um amigo leal, que era um tesouro de sinceras afeições, um pai de família sempre carinhoso e desvelado; um cidadão ilustre pelo seu saber e pelas suas virtudes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas frontes atribuladas – curvam-se hoje sob as ramas sombrias de um esguio cipreste plantado à beira de um túmulo venerável!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choramos sentidamente a morte de José Coriolano de Souza Lima, em quem a província perdeu, não só um dos seus mais dignos filhos, como, uma das suas mais viçosas esperanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incansável cultor das ciências e das letras, desde os bancos de academia; jurisconsulto que se enriquecia em constantes lucubrações; prosador castiço e elegante; poeta quase sempre inspirado; - José Coriolano era certamente um dos piauienses que mais honra fazia à sua terra natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, apenas resta dele a memória de um nome puro; a lembrança de um belo talento que se pode dizer malogrado em vida, porque a maior parte de suas obras ainda não viram a luz da publicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oxalá que não se percam tão preciosos inéditos; muitos dos quais tivemos ocasião de apreciar, na intimidade que gozávamos junto ao distinto poeta (*)”&lt;br /&gt;(*) Infelizmente perderam-se cerca de 130 poesias (Nota do Coordenador).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.............................................................................................................................&lt;br /&gt;Passemos a dar uma breve notícia dos seus últimos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atacado violentamente em sua saúde, que nunca foi vigorosa, o Dr. José Coriolano de Souza Lima – deixou em maio deste ano a comarca de Pastos Bons, donde era juiz de direito, e se dirigiu à cidade de Caxias, onde esteve por algum tempo em uso de remédios. Sendo-lhe aconselhado o ar livre do seu sertão, esse belo vale de Crateús, onde o poeta abrira os olhos à luz desta região intertropical, - para ali se dirigiu bastante melhorado, passando por esta capital em fins de julho último. Chegado ao termo de Príncipe Imperial, seu corpo ainda alquebrado, seu espírito ainda um pouco abalado, sentiu-se como que rejuvenecer-se, sorvendo a longos tragos as emanações agrestes, mas suaves, da serra e das colinas, - dos campos e do vale querido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os passeios pelas campinas, os banhos nos açudes, a alimentação suculenta do sertanejo, tudo isso, segundo suas próprias expressões, constituíam – não há muitos dias – o seu passatempo favorito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os seus dedicados e números parentes e amigos daquele termo – já concebiam a doce esperança de ver José Coriolano completamente restabelecido de seus graves incômodos; eis que, de repente, cobrem-se de luto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 24 de agosto pela manhã é ele encontrado morto em seu leito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu corpo, frio cadáver, ia descer ao último jazigo, tendo concluído a sua peregrinação sobre a terra, seu espírito havia, entretanto, subido até a presença de Deus, daquele Ser Onipotente, cuja GRANDEZA o poeta sentira e cantara em vida!&lt;br /&gt;..............................................................................................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos resta agora? Curvarmo-nos ante a cruz da redenção, e orarmos fervorosamente por alma daquele finado cujo peito generoso mais de uma vez apertamos sobre o nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto uma lágrima treme sobre nossas pálpebras e cai-nos sobre as faces que o sofrimento descora, murmurem os lábios piedosamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Réquiem eterno dona ei, et lux perpetua luceat ei “&lt;br /&gt;Poucos meses depois da morte de J. Coriolano, funcionando a assembléia legislativa provincial o deputado e Dr. Firmino de Souza Martins, que tanto se destingiu nessa memorável sessão, apresentou um projeto de lei no qual está consignada a verba de seiscentos mil reis para auxílio da impressão das obras do falecido poeta e literato piauiense; cujos inéditos, a esse tempo, já se achavam em poder do Dr. J. M. de Freitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projeto foi convertido em resolução provincial e a final sancionado pelo benemérito e ilustrado Dr. L. A Vieira da Silva, que certamente, foi para o Piauí quase o mesmo que Alexandre Severo para Roma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A referida resolução é a de nº 660, publicada a 14 de dezembro do ano passado (*).&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Ano de 1869. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Entremos na última parte de nosso trabalho, - a análise de algumas das mais notáveis poesias do autor, cuja vida acabamos de esboçar, posto que imperfeitamente: comecemos por aquela que primeiro se encontra neste volume.&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;A Grandeza de Deus de J. Coriolano pode-se afirmar que é um quadro onde o Universo se vê admiravelmente reproduzido, por meio de uma das mais belas poesias que porventura possa existir na língua de Camões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Supomos não ser exagerado asseverando que nela se encontram os traços mais sublimes da obra divina da criação, - as cores mais vivas da rica palheta da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Grandeza de Deus é pelo menos a cortina de Parrásio: Zeuxis pediria que a levantassem, a fim dele ver Jeová assentado no seu trono, em toda a sua majestade.&lt;br /&gt;Na obra prima de J. Coriolano, composta de cento e vinte três belíssimos hendecassílabos, vê-se distintamente o manso ribeiro que corta o prado; depois o rio que rola apressado; por fim o mar que ronca em fúria aceso!... Sente-se ali mesmo o bafejar da leve brisa, e sem mais demora o açoite do tufão, que escarnece da pobre humanidade!... Nota-se ali o pequeno arbusto reverdecido, e logo a passo de distância observa-se a árvore que cúpula, cor de esperança, vive a mimar o céu, como que estática, - talvez embevecida!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda mais: no meio dessa imagem do paraíso, a cor e o perfume da rosa nos afagam amorosamente os sentidos; alegrando-nos a vista, e mimoseando-nos o olfato delicado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da padibunda e fragante princesa dos jardins, namorada pelos zéfiros:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali mil outras flores se desfazem&lt;br /&gt;Os campos matizando, em doce cheiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as altivas mangueiras ou sobre as altas palmeiras buliçosas ouve-se o melodioso trinada dos passarinhos; gorjeando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão mil aves ternas à porfia,&lt;br /&gt;Enquanto roxa luz difunde a aurora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o astro do dia não só mostra o disco no horizonte, como também:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pino cresta o orbe com seus raios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por fim – vai terminar sua lúcida carreira quando prestes a afogar seus derradeiros raios no ocidente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar converte em fogo as águas suas,&lt;br /&gt;As nuvens doiro e prata se agaloam,&lt;br /&gt;Os favônios expiram nos palmares,&lt;br /&gt;E o homem nesse instante ao céu se eleva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tarda os horizontes incendidos&lt;br /&gt;Nova forma tomarem: uma estrela&lt;br /&gt;Seus trêmulos fulgores já reflete&lt;br /&gt;Sobre a rugosa face do oceano,&lt;br /&gt;Em seguida mais outras e outras muitas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é isto só, porquanto, ainda temos de contemplar, na cerúlea amplidão, se a sizígia o permite:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua que surgiu de sob as águas,&lt;br /&gt;Ou que o rosto mostrou d’além dos montes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dominado pela idéia religiosa, que lhe despertaram as maravilhas da criação universal, o poeta não perde o ensejo de arremessar-se contra os “espíritos fortes” e então – vemo-lo manejar desta sorte a vigorosa vergasta da palavra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O blasfemo que, os céus escarnecendo,&lt;br /&gt;Soltou vozes, que aos céus injuriaram,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com que sobranceiro aspecto este verdadeiro “ungido do Senhor”, que nem o levita inspirado, se dirige então ao ímpio para confundir a sua soberba irrisória! Ouçamo-lo respeitosamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que pode um grão de areia movediça&lt;br /&gt;Contra a rocha em que o mar se quebra iroso?&lt;br /&gt;Que pode pobre argila sobre argila&lt;br /&gt;Contra Deus que sustenta infindos mundos?&lt;br /&gt;Que pode o homem frágil pequenino&lt;br /&gt;Contra Deus, que o gerou do pó, do nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, o autor da Grandeza de Deus parece-se com o poeta hebreu dedilhando na harda ebúrnea; quando, como o rel salmista – celebra assim os prodígios da Onipotência divina:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor! o teu poder é grande, imenso!&lt;br /&gt;Tudo quanto é sublime a ti se deve.&lt;br /&gt;Óh minha doce Mãe! – quem no teu peito&lt;br /&gt;Depositou afetos tão sagrados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Aves, que gorjeais na umbrosa selva,&lt;br /&gt;A quem deveis o deleitoso canto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Foi Deus, que às flores também deu aroma,&lt;br /&gt;Macio e fresco ciciar às brisas,&lt;br /&gt;Sibilos ao tufão, sussurro às folhas,&lt;br /&gt;Brandura à fonte, correnteza ao rio;&lt;br /&gt;Foi Deus que fez os mares procelosos,&lt;br /&gt;Que lhes deu ondas, escarcéus e vagas,&lt;br /&gt;Que às campinas deu relvas e matizes,&lt;br /&gt;Ao sol fulgores, às estrelas brilho,&lt;br /&gt;E à lua doce luz que a mente aplaca;&lt;br /&gt;Foi Deus que deu um pugilo informe, inerte,&lt;br /&gt;Fez o homem moral à imagem sua!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Senhor! – o teu poder é grande, imenso!&lt;br /&gt;O mar no-lo revela em seus gemidos,&lt;br /&gt;A terra nos seus verdes atavios,&lt;br /&gt;A flor no seu perfume, o sol nas cores,&lt;br /&gt;As aves no seu canto deleitável,&lt;br /&gt;O céu no seu azul que se marcheta&lt;br /&gt;De milhões de prodígios luminosos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Meu Deus! Senhor meu Deus! quanto és sublime!&lt;br /&gt;Ao teu gesto potente a fronte curvam&lt;br /&gt;O grande, o rico, o pobre, o sábio, o néscio!&lt;br /&gt;O mar que enfurecido em flor rebenta,&lt;br /&gt;O bravo furacão que os bosques prostra,&lt;br /&gt;A fera que rugindo atroa os ares,&lt;br /&gt;O raio que resvala pelo espaço,&lt;br /&gt;O trovão que estrondeia retumbando,&lt;br /&gt;A nuvem que desata em catadupas&lt;br /&gt;E o corisco veloz que caracola,&lt;br /&gt;Tudo, tudo a teus pés, ó Deus se humilha,&lt;br /&gt;Tudo, tudo a teu nome um hino entoa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;A final o poeta conclui o seu canto inimitável – no tom elegíaco de Jeremias, rogando ao divino Criador que lhe ceda a glória:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando seus lábios trêmulos soltarem&lt;br /&gt;O suspiro final, que o mundo exige;&lt;br /&gt;Quando seus olhos turvos se cobrirem&lt;br /&gt;Co’o vítreo manto, regelado, eterno;&lt;br /&gt;Quando apagar-se do seu peito a flama;&lt;br /&gt;Quando o frio eternal gelá-lo todo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “Grandeza de Deus” pode se dizer que tem a alegria do hino e melancolia da nênia, a graça da égloga e o ímpeto da ode. A sublimidade do salmo e a majestade da epopéia! Certamente não nos é dado conceber nada de mais harmônico, nem de mais esplêndido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “Grandeza de Deus” será um perdurável padrão de glória para seu ilustrado autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “Tempestade” de J. Coriolano, uma das suas melhores composições líricas, rivaliza com a poesia de Gonçalves Dias que tem o mesmo título.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a tempestade dos paises intertropicais, de que fala Lopes de Mendonça, nas suas “Memórias de Literatura Contemporânea”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis como ela se forma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma parte do horizonte&lt;br /&gt;Pouco a pouco mostra a fronte&lt;br /&gt;De nuvens um torreão&lt;br /&gt;O sol no mar sepultou-se,&lt;br /&gt;Da lua a face turvou-se,&lt;br /&gt;Lampeja tíbio clarão.&lt;br /&gt;Já o mar desperto geme,&lt;br /&gt;Já no bosque o vento freme,&lt;br /&gt;Retumba ao longe o trovão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta poesia nestes nove primeiros versos! Quanta verdade daguerreotipada, à luz do gênio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos, no entretanto, como é que se desenvolve o fenômeno que o poeta descreve com tanta maestria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;De todo a noite fechou-se,&lt;br /&gt;O ar medonho nublou-se&lt;br /&gt;Fuzila crebo clarão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Dos bosques se humilha a coma,&lt;br /&gt;Estruge, sibila, assoma&lt;br /&gt;Turvo, iroso o furacão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Rasgam-se a nuvens pejadas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Cresce a chuva em cataratas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Dos cumes mil seixos rolam,&lt;br /&gt;As águas prostram, assolam,&lt;br /&gt;Os bosques em borbotão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Vacila o teto e se abate&lt;br /&gt;Ao duro, ríspido embate&lt;br /&gt;Da chuva solta em cachão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Agora apreciemos de que modo acaba a tempestade nas regiões, como a nossa, onde se desconhece o gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a sexta ou penúltima estância, que encerra uma pintura fidelíssima do estado da natureza, quando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inda a cheia corre plena,&lt;br /&gt;Mas cessou o turbilhão;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue-se logo esta admirável peripécia, que tanto caracteriza o clima da zona tórrida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em fim a chuva extinguiu-se,&lt;br /&gt;O puro céu descobriu-se,&lt;br /&gt;Cessou de todo o trovão.&lt;br /&gt;No bosque a brisa cecia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;No mar a lua de prata&lt;br /&gt;Já sua face retrata&lt;br /&gt;E esparge meio clarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lendo-se a tempestade de J. Coriolano, sente-se deveras que se está no Brasil, onde se desconhecem as temíveis trombas polares, as horríveis borrascas de neve, ou algumas dessas tempestades do norte cuja epopéia sublime pode-se admirar num romance bem recente, onde se vê uma “urca no mar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da Europa, quase que a “Tempestade” de J. Coriolano – só tem o rico idioma em que foi descrita, com tanta propriedade de termos, que o leitor sente-se realmente transportada para o meio do aguaceiro diluviano, azoinado pela ventania, deslumbrado pelos relâmpagos, aturdido pelos trovões!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, há nela um verso evidentemente exagerado, aquele que diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Soçobram-se mil fragatas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, a hipérbole foi sempre permitida aos poetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que aqui não há o temporal desfeito e porfioso do mar das Índias; o pampeiro do Rio da Prata, ou o furacão das Antilhas; todavia, é sabido que nestas regiões serenas que habitamos, muitas vezes os elementos se revoltam também, mais ou menos, e chegam a produzir alguns estragos... Mas, por via de regra, as iras da natureza – são assaz passageiras e de pequenas conseqüências, no meio deste povo tão amigo da paz, quanto digno do mais belo futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se como diz V. Hugo, a tempestade é um pulmão espantoso; devemos crer que o Éolo brasileiro foi atacado de dispnéia logo ao nascer, e que por isso não pode se afadigar muito, no seu galopar sobre a rosa dos ventos, na intenção de desarraigar florestas, meter frotas a pique e fazer tombar aldeias sobre a base das colinas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Careço de teu Amor” é talvez a mais mimosa das poesias eróticas de J. Coriolano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente-se deveras que o poeta, irresistivelmente, necessita de sua amada; de tal sorte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como da rotação carece a terra”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a luz dos olhos dela: desses almos raios, que fazem brotar a esperança e a alegria nos próprios campos, o poeta carece tanto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como as plantas – da luz do sol carecem!...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do riso fagueiro de sua amada, vê-se que o cantor tem tamanha precisão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como o crepusc’lo – do fulgir da aurora!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E do meigo falar, tão cheio de suaves harmonias – ele carece:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como os bosques das brisas sussurrantes,&lt;br /&gt;Como os regatos – do arenoso leito,&lt;br /&gt;Por onde se deslizam murmurantes!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do hálito de sua bela, o extremoso amante necessita tanto, - tanto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como o vivente - do ar que respira&lt;br /&gt;Como a rosa – do aroma que transpira!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, vê-se destarte fazer o poeta – veemente protestos àquela que, arrebatando-lhe o pensamento e roubando-lhe o coração, deixou inteiramente dominado pela paixão que ateou-se-lhe no peito vulcânico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Do teu amor careço, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como as ondas – da praia em que se quebram,&lt;br /&gt;Como as aves – do canto mavioso,&lt;br /&gt;Com que tão docemente se requebram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu amor careço, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como o nauta carece da bonança,&lt;br /&gt;Como um peito que geme consternado&lt;br /&gt;Carece de seus males a mudança.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por certo que Virgílio não é mais eloqüente nos seus soberbos hexâmetros, quando diz, por exemplo, como na égloga quinta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dum juga montis aper, fluvios dum piscis amabit,&lt;br /&gt;Dumque thymo pascentur apes, dum rore cicadae,&lt;br /&gt;Semper honos, nomenque tuum, landesque manebunt.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enquanto do cisne mantuano não é, em nada, superior ao careço do vate piauiense, segundo pensamos: aos mestres compete confirmar ou condenar esta nossa obscura opinião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recordai-vos do Memnon egípcio, ao do Apolo da mitologia grega? Tal nos parece J. Coriolano, de lira em punho, no ato de cantar a “Aurora”, essa doce luz que precede o nascimento do Sol!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo-o, logo reconhecereis o exímio cantor da “Grandeza de Deus” – porque, só ele fora capaz de entoar, entre nós, hinos tais, com a mesma suavidade com que lhe aprouve interrogar ali à virgem meiga e gentil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem te fez tão amável? Esse riso&lt;br /&gt;Que nos prende e fascina, encanta, arrouba,&lt;br /&gt;Quem t’o depositou nos róseos lábios?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J. Coriolano é sempre magnífico pintando – cenas da natureza: vede-o como descreve a “Tempestade”!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas para assentarmos melhor o nosso juízo, - é preciso que nos transportemos à antiga Tebas, e que vejamos ali os primeiros raios do sol sobre os lábios da colossal estátua que prorrompia em sons harmoniosos, talvez inteiramente parecidos com que estes que vamos ouvir agora mesmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Douram-se os prados ao romper da aurora,&lt;br /&gt;Que surge à hora que prazer só diz,&lt;br /&gt;Os horizontes de listões se arreiam,&lt;br /&gt;Aves gorjeiam nos rasais gentis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na clara e doce sussurrante fonte&lt;br /&gt;Que do alto monte se despenha e cai,&lt;br /&gt;O roxo manto de ondeantes cores&lt;br /&gt;Com seus lavores a atenção atrai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem, ao menos uma vez na vida, por uma deleitosa manhã de fins d’água, quando as nuvens são como o velo dos cordeirinhos, ou antes, como o algodão batido, - não terá notado, sobre a face do líquido cristal, a imagem da “Aurora”, que se espelha qual virgem meiga e gentil, que desvanecida revê os “róseos lábios?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas primeiras coplas desta linda poesia – são realmente de um mérito incontestável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as que se seguem não lhes cedem facilmente a palma, sobretudo a terceira, que assim começa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nas verdes folhas onde o orvalho oscila,&lt;br /&gt;Brilha e rutila matinal rubim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto primor na dicção; quanta justeza na frase; quanto esplendor nas imagens!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é belo – este orvalho que oscila!... Como lança – luz viva e cintilante! Como resplandece à maneira d’uma pedra preciosa, senão imitando o espinel e o balais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto que o poeta chama, com muita propriedade “matinal rubim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quarta quadra, vê-se distintamente o cirros, atravessando a atmosfera, sob as formas mais delicadas, mais caprichosas, mais ricas e variadas: é mesmo diz o cantor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As brancas nuvens que através do espaço,&lt;br /&gt;Do lume baço, pelo ar lá vão,&lt;br /&gt;Cingem brocados de um lavor perfeito&lt;br /&gt;Como se feito por virgínea mão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta copla, lêem-se estes dois versos louçãos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A flor donosa, que do calix pende,&lt;br /&gt;Cheiro recende que se leva ao céu; ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na sexta notam-se estes, num dos quais – sobressai, com muita graça e onomatopéia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chilra a andorinha na cornija santa,&lt;br /&gt;E o galo canta co’a fulgente luz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem ainda dois quartetos de muito merecimento: o 11º e o 13º.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos aquele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E prado e aves, e perfumes e montes,&lt;br /&gt;E orvalho e fontes, e listões no ar,&lt;br /&gt;“Hosanas” tudo ao Criador entoa,&lt;br /&gt;que a seus pés voa, que lh’os vai beijar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta bela poesia é igualmente recomendável pela forma: nota-se nela a abundância de metro, a opulência de sáficos, a profusão e bom gosto da rima, a simetria metastasiana das estrofes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pena que tenha um ou dois versos um pouco falseados, ou que pelo menos parece não condizerem inteiramente com o primor dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hino ao Criador”: eis uma poesia que faz, mui de perto, lembrar o misticismo de Lamartine, com seu culto ao lar doméstico. Parece-nos realmente que estamos sob o teto de Milly, todas as vezes que lemos estes versos, que quase trescalam com o incenso lançado sobre o turíbulo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, tu és o Deus, o pai celeste,&lt;br /&gt;Que minha mãe adora, ajoelhada;&lt;br /&gt;Por mim, por meus irmãos, por meus parentes,&lt;br /&gt;Por todos neste mundo, ela não cessa&lt;br /&gt;De dirigir-te aos céus freqüentes súplicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas logo, recordamo-nos da vivacidade do cisne Sadino; tão pronto na inspiração, tão arrebatado no vôo dirigido ao bipartido cume! É então que nos apraz repetir este final da primeira estrofe do Hino ao Criador:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tu foste de meu Pai o Deus propício,&lt;br /&gt;Por ti acrisolou-se na virtude&lt;br /&gt;Vivendo como vive o justo e o sábio,&lt;br /&gt;Morrendo como morre o sábio e o justo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após, acode-nos à mente o vulto grandioso do salmista brasileiro, com seus êxtases dulçorosos, sempre que escutamos religiosamente este harpar tão belo, e tão semelhante ao Padre Caldas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor, o teu poder proclama:&lt;br /&gt;O inseto humilde que se escapa aos olhos,&lt;br /&gt;A enorme fera que no corpo avulta,&lt;br /&gt;A dura pedra, o vegetal virente,&lt;br /&gt;A terra, o espaço, o céu, a luz, as trevas&lt;br /&gt;E o homem que fizeste a imagem tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele lindo arroio que serpeia&lt;br /&gt;Por entre flores, ervas e pedrinhas,&lt;br /&gt;Mandaste-lhe correr sereno e puro,&lt;br /&gt;E o arroio correu!&lt;br /&gt;Aquele mar que sanhudo que de encontro&lt;br /&gt;Vem quebrar-se nas duras penedias,&lt;br /&gt;Mandaste-lhe gemer nos seus embates&lt;br /&gt;E o mar, Senhor, gemeu!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta poesia, de metrificação variada, recomenda-se por tantos títulos que, incontestavelmente, pode fazer, como a Grandeza de Deus – parte de um florilégio: assim, pois, crestomatia brasileira deve, sem perda de tempo, reclama-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos poetas têm celebrado a “Tarde (*)” com mais ou menos felicidade. Quem não terá lido ou relido a de Gonçalves Dias?&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Hino à Tarde, é o título correto. (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pois bem! Vamos ouvir atentos a mais um Orfeu, entoando hinos de entristecidos sons à essa gentil moribunda:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais triste que a manhã, mais melancólica”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta poesia consta de várias partes, enumeradas com caracteres romanos: a mais bela de todas é a segunda, onde o poeta começa por fazer, qual escritor clássico, a comparação exata, fidelíssima, da tarde com a manhã, de maneira tal, que nada mais deixa a desejar, sob tão interessante aspecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamo-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto é bela a manhã, surgindo alegre&lt;br /&gt;das partes do oriente em que se arreia!&lt;br /&gt;Que formosos listões de fogo e púrpura,&lt;br /&gt;Que sua cor dourada comunicam&lt;br /&gt;Às campinas, à fonte, às cumeadas!&lt;br /&gt;O levantino mar é todo rosas&lt;br /&gt;No seu leito de areia a espreguiçar-se&lt;br /&gt;Oh! quanto a aurora despontando é bela!&lt;br /&gt;Tarde, filha dos céus, os teus encantos&lt;br /&gt;Não lhe ficam somenos: tu guarneces&lt;br /&gt;Também as brancas nuvens de escarlate,&lt;br /&gt;Quando além do poente o sol se esconde.&lt;br /&gt;Um manto sobre o mar também estendes&lt;br /&gt;De vermelhos listões também formados.&lt;br /&gt;Vales, campinas, fonte e campanários,&lt;br /&gt;Com teu meigo arrebol também matizas,&lt;br /&gt;Se quando surge o sol as aves cantam,&lt;br /&gt;Se a natureza ri-se com seus raios,&lt;br /&gt;Se bafejam as auras docemente&lt;br /&gt;Enchendo de fragrância os horizontes,&lt;br /&gt;Também, tarde gentil, no teu regaço&lt;br /&gt;Ao sepultar-se o sol, as aves trinam,&lt;br /&gt;Suspira a natureza, as auras sopram,&lt;br /&gt;Embalsamando os ares de fragrância.&lt;br /&gt;Em ti se encontra amor, ledice, encanto!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, J. Coriolano descreve a “Tarde” com tal magia que faz-se sobressair, como ouro em azul, os ternos sentimentos que aquela parte do dia desperta, naturalmente, nos corações mais ricos de fibras delicadas, mas cheios de ternas palpitações...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouçamos ao poeta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O proscrito nas lágrimas que entorna,&lt;br /&gt;No teu suave seio alivio encontra;&lt;br /&gt;Encontra alívio aos duros sofrimentos&lt;br /&gt;O desgraçado que de amor padece.&lt;br /&gt;Chora à tarde o extremoso amigo a ausência&lt;br /&gt;Do amigo que no peito traz gravado.&lt;br /&gt;Choram os pais – pelos ausentes filhos&lt;br /&gt;E os filhos pelos pais ausentes choram.&lt;br /&gt;O amante pela amada em dor se fina,&lt;br /&gt;E a amada pelo amante em dor consome-se.&lt;br /&gt;Todos carpem à tarde, e acham consolo,&lt;br /&gt;Se da ausência os rigores crus suportam:&lt;br /&gt;Extático o poeta te contempla!&lt;br /&gt;E que idéias tão ternas se associam&lt;br /&gt;Por teu tristonho porte despertadas!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interrompendo a citação, façamos notar ao leitor a extrema beleza destes quatro versos, que encerram o maior elogio que se pode fazer à “Tarde:”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Te assemelhas à virgem que suspira,&lt;br /&gt;E como ela também – és triste e bela;&lt;br /&gt;Mas, na tua tristeza o mel se bebe&lt;br /&gt;Que tranqüiliza os corações que sofrem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto da segunda parte do “Hino à Tarde” é uma vintena de roxas ametistas, cada qual de maior valor, sobretudo as que reluzem deste modo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde soltava meus gemidos longos&lt;br /&gt;Que “saudades e ausência” só diziam?&lt;br /&gt;- Soltava-os nessas sombras que ministras&lt;br /&gt;de copado arvoredo sussurrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Ó tarde! – quanto és grata aos que padecem!&lt;br /&gt;Quanto mais tu das trevas te aproximas&lt;br /&gt;Mais exultam d’alegres dois amantes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando de analisar uma por uma todas as poesias mais importantes do Dr. J. Coriolano, para destarte evitar que tomemos demasiado espaço nesta introdução, alias já um pouco extensa, todavia, não concluiremos o nosso trabalho sem acrescentar a quanto dissemos noutra parte, alguma cousa mais – a respeito do “Touro Fusco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este poemeto compõe-se de quatrocentos e oito versos, hendecassílabos simétricos e numerosos, distribuídos em três cantos iguais, cada qual com dezessete oitavas, no gosto das do – célebre “Caramuru” de Santa Rita Durão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O objeto principal dos Carmes do poeta é aí – simplesmente – um bruto; mas, como vê no primeiro canto, estância sétima,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se o fusco fosse gente, ele seria&lt;br /&gt;Mais herói que esse herói de Alexandria.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os literatos de luvas de Jouvin, recendendo a bouquet dos Alpes e trajando a Metternich ou a Bismarck, a idéia de J. Coriolano não terá sido mais infeliz. O mesmo também pareça a algum fazendeiro magnata, que só achando bela a idéia de sua grandeza – é de crer que apenas tenha tempo para supor-se tão rico quanto o Marques Del Jaral, que, dizem, possuía três milhões de cabeças de gado, vendia anualmente trinta mil carneiros na cidade do México, e tinha mais terras do que há em toda a Província do Piauí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No nosso humilde modo de entender, J. Coriolano não podia ser mais bem inspirado do que foi, escrevendo o referido poemeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho de uma província essencialmente criadora, cuja indústria pode se dizer que não vai além do rústico labor de sertanejo que trata de alheio gado ou do próprio: que outra idéia mais adequada podia ter aquele – que melhor que qualquer de nós bem sabia que à literatura incumbe, tanto quanto a etnografia, o trabalho de colher e guardar como preciosa relíquia tudo quanto diz respeito à feição característica dos povos, mostrando quais as suas tendências, mais pronunciadas, suas ocupações favoritas, sua índole, finalmente, num tempo dado, quando entre eles se presenciavam tais e tais cenas, cabendo esta ou aquela condição de existência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim que nos parece que um dia terá de ser mais justamente apreciado o poemeto que tem por título “O Touro Fusco”, - o qual foi pela primeira vez impresso, no ano de 1859, em Pernambuco, na tipografia do Sr. José de Vasconcelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há certos escritos que, como vinho, se tornam mais preciosos – envelhecendo. Os que assistiram à vindima não são os que hão de achar o sabor esquisito que o fará decuplar de valor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incontestavelmente, o “Touro Fusco” é digno de ser lido, - no campo como na cidade; - na choupana como na casa nobre. E oxalá que todos os nossos homens de letras não muito tarde o tenham na merecida estima, bem como que antes do fim de um século, em cada fazenda, ao menos por ocasião de vaquejadas, se possam fazer citações desta ordem, à vista de algum novilho indomável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E gemendo e a cabeça maneando&lt;br /&gt;Contra os fortes mourões arremetia,&lt;br /&gt;E os robustos mourões, estremecendo,&lt;br /&gt;Às cornadas do touro iam cedendo.....”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz do Brasil, quando os pegureiros apascentarem os seus rebanhos, como na Suíça, tendo nas mãos um livro qualquer, com que se instruam ou passem o tempo mais agradavelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a nossa população se compuser de analfabetos, em sua quase totalidade, nem sequer teremos quem possa levar um voto à – urna, aliás, “o oráculo das nações livres”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;· &lt;strong&gt;Depoimento, de 1973, de Celso Pinheiro Filho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A família de Coriolano não era rica, mas somente arremediada, como se costuma dizer. Muitos irmãos para a pequena herança deixada pelos pais. Por isso sendo um espírito mais contemplativo do que realizador, logo após a formatura, já casado, teve que se submeter a um emprego de promotor em Piracuruca (1860), sendo depois nomeado Juiz Municipal de Codó e, pouco mais tarde (1864), removido para Príncipe Imperial (hoje Crateús).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vencimentos mal davam para o sustento da família, e este fato é salientado por Davi Caldas, transcrevendo cartas do poeta a seu maior amigo, o Dr. José Manuel de Freitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, iniciada a Guerra do Paraguai, não podendo oferecer serviços pessoais, por ser enfermiço e asmático, ofereceu ao governo 10% desses minguados vencimentos, para ajudar nas despesas de guerra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao Dr. José Coriolano de Souza Lima. Aceito e agradeço, em nome do governo imperial, o oferecimento que em ofício de 18 do mês passado fez Vossa Mercê de dez por cento de seus ordenados de juiz municipal e de órfãos dos termos reunidos de Príncipe Imperial, Marvão e Independência, para as despesas de guerra, a contar daquela data. a) Franklin Américo de Meneses Dória – Presidente” (publicado em “A Imprensa” de 1865).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1866, conseguiu ser promovido a Juiz de Direito, cabendo-lhe a comarca de Pastos Bons, no Maranhão. Ali esteve até ser acometido da moléstia que o levou ao túmulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também em Pastos Bons teve que enfrentar a primeira e, talvez a única luta de sua vida. Era juiz municipal o Dr. Manuel Belisário Henrique da Cunha, representando a família, uma das grandes proprietárias do Estado. Coriolano, desvinculado do meio, queria fazer justiça pura. O Dr. Manuel Belisário, por sua vez, tinha que defender interesses de seus correligionários, entrando, por isso, em atrito com o juiz de direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ânimos foram-se acirrando com detratações e diz-que-disse. A imensa legião dos leva-e-traz punha lenha na fogueira. Coriolano ia-se exaltando cada vez mais. Esta luta de homens cultos tornou-se assunto e distração única da pacata cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado dessa luta inglória foi ter sido o poeta acometido de congestão cerebral, em 1869, aos quarenta anos de idade (*), e retornar à terra natal, seu querido sertão de Crateús, para morrer.&lt;br /&gt;(*) Incompletos. Morreu em agosto (24) e completaria quarenta em outubro (29). (Nota do Coordenador)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coriolano era dum escrúpulo exagerado, até mesmo em política. Em 1866, já estando ele em Pastos Bons, foram-lhe dados 23 votos, para Deputado à Assembléia Geral, na Corte. Estes votos, dados espontaneamente, representavam um colégio eleitoral completo, pois que as eleições eram por graus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impressionado pelo efeito que esses votos pudessem causar no candidato oficial, seu amigo, de lá mesmo de sua comarca, escreveu esclarecendo o assunto e agradecendo os votos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lendo na “Imprensa” de 3 de fevereiro do corrente ano, nº 28, o resultado da apuração de votos da eleição a que se procedeu nessa província para um deputado geral, vi que me haviam honrado com 23 votos. Pois bem: declarando a quem me ler que estava longe de supor que me dessem um voto, porque não tive a idéia de preterir nesse sufrágio a muitos patrícios que me precedem em serviços e inteligência, devo, todavia, assegurar a esses amigos que me distinguiram com os seus votos, que muito e muito os estimo e agradeço: 1º) porque de modo algum embaciaram o triunfo de meu ilustrado patrício e parente, o Exmo. Sr. Dr. Antônio Borges Leal Castelo Branco; 2º porque foram voluntários e inspirados. Pastos Bons, no Maranhão, 6 de maio de 1866. a) J. Coriolano S. Lima” (publicado na “Imprensa” de Teresina).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;A seguir, transcrevemos várias opiniões sobre Coriolano e sua obra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esmaragdo de Freitas, em discurso na Academia, iniciou fazendo um paralelo entre as comemorações feitas no Maranhão, no centenário d Gonçalves Dias, e o de José Coriolano, ambos nascidos na mesma época, e o silêncio reinante no Piauí, o desconhecimento do poeta, pelos próprios acadêmicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salienta que eles, Gonçalves Dias e Coriolano, se irmanam no amor com que tratam suas pequenas pátrias. Lembra haver sido o Touro Fusco ridicularizado, pelos intelectuais da época, porque cantava um herói-bicho, mas observa que o Catingueiro, com a encantadora ingenuidade de que está repassado, redunda num hino triunfal à nossa vida matuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Crisóstomo da Rocha Cabral extasia-se ante a obra do poeta e diz: “E ele cantou. Cantou como ninguém mais, com tanta doçura e entusiasmo, simplicidade e heroísmo, alma religiosa, olhar panteísta, a expressão própria de seu povo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O valoroso Touro Fusco é um poemeto que ainda não teve igual em nenhuma literatura, pela audácia de cantar em versos heróicos a estória de um novilho famoso, que luta e morre como herói, e nos deixa saudades, como as figuras humanas ou semidivinas de uma epopéia homérica ou virgiliana.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franklin Távora destacou especialmente a parte nitidamente popular da poesia de Coriolano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na fiel pintura dos costumes do norte, musa elegante, generalisadora, erudita, só encontra rival em Juvenal Galeno”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O seu caráter, costumes, crenças e expressões, antes direi, a alma daquela região, as idéias, os assuntos, a vida que ele canta nos seus versos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O inverno ou a seca, o gado, os campos de criação, merecem-lhe fiéis descrições”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode-se dizer que no seu livro está perfeitamente desenhado o Piauí, não digo tudo, mas está fotografada toda a zona sertaneja onde domina a industria pastoril”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Touro Fusco, interessante poemeto escrito nas férias do segundo ano; o Catingueiro, Primeiras Águas, O Velho Caçador de Onças, a Canção do Serrano e tantas outras poesias insertas nas Impressões e Gemidos, ou injustamente preteridas pelo espírito de seleção que as determinou, são a mais irrefutável prova desse acerto” (“Um Poeta do Norte”, em “Gazeta de Notícias”, transcrito na Revista da Academia nº 17, de 1938).”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucídio Freitas, em “História da Poesia no Piauí” (1918), pinta-o como: “um delicioso evocador, um paisagista capaz de plasmar toda a grandeza triste da nossa terra. E há nas suas descrições um pequeno beijo de saudade, leve como uma pluma, apaixonado como uma carícia nupcial. Nenhum poeta de seu tempo o iguala”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Pinheiro, na secura de seus conceitos, diz que ele “foi, efetivamente e, sobretudo um dos mais amenos cultores da poesia no Piauí”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio Chaves, que o escolheu para patrono de sua cadeira na Academia, traçando-lhe o perfil, disse que: “passou pela vida cantando com a simplicidade de um crente e o entusiasmo de um justo, tendo sempre a sua alma através dos céus e através do infinito, bebendo a harmonia dos astros e a canção do luar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Poesias Publicadas em 1870&lt;br /&gt;(na mesma ordem da edição de 1870)&lt;br /&gt;(Notas de A. Tito Filho na Edição de 1973)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;GRANDEZA DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Que cena majestosa se me of’rece (1)&lt;br /&gt;Onde quer que um olhar pasmoso fite!&lt;br /&gt;Que notas, que harmonia deleitável&lt;br /&gt;Respira a natureza que me cerca!&lt;br /&gt;Aqui manso ribeiro o prado corta,&lt;br /&gt;Ali mais apressado o rio rola,&lt;br /&gt;Mais além ronca o mar em fúria aceso!&lt;br /&gt;Aqui a leve brisa me bafeja,&lt;br /&gt;E após ela o tufão me açoita a fronte!&lt;br /&gt;Ali pequeno arbusto reverdece,&lt;br /&gt;Mais além mira o céu d’árvore a cúpula!&lt;br /&gt;A roseira que ostenta donairosa (2)&lt;br /&gt;A flor que faz inveja às outras flores,&lt;br /&gt;Que os homens enamora com seus mimos,&lt;br /&gt;Que os ares embalsama com perfumes,&lt;br /&gt;Das murmurantes auras embalada,&lt;br /&gt;Aqui parece rir co’a (3) natureza!&lt;br /&gt;Ali mil outras flores se desfazem&lt;br /&gt;Os campos matizando, em doce cheiro!&lt;br /&gt;Sobre altivas mangueiras gorjeando,&lt;br /&gt;Ou sobre altas palmeiras buliçosas&lt;br /&gt;Estão mil aves ternas à porfia,&lt;br /&gt;Enquanto roxa luz difunde a aurora!&lt;br /&gt;O sol já mostra o disco no horizonte,&lt;br /&gt;E a metade vingando do seu curso,&lt;br /&gt;Em pino cresta o orbe com seus raios!&lt;br /&gt;Já descai (4)no caminho do ocidente&lt;br /&gt;E em breve além do mar se envolve em trevas!&lt;br /&gt;O mar converte em fogo as águas suas,&lt;br /&gt;As nuvens doiro e prata se agaloam,&lt;br /&gt;Os favônios expiram nos palmares,&lt;br /&gt;E o homem nesse instante ao céu se eleva!&lt;br /&gt;Não tarda os horizontes incendidos&lt;br /&gt;Nova forma tomarem: uma estrela&lt;br /&gt;Seus trêmulos fulgores já reflete&lt;br /&gt;Sobre a rugosa face do oceano,&lt;br /&gt;Em seguida mais outras e outras muitas!&lt;br /&gt;A lua que surgiu de sob as águas,&lt;br /&gt;Ou que o rosto mostrou d’além dos montes,&lt;br /&gt;No espaço se equilibra, e sobre a terra&lt;br /&gt;Aos viventes derrama os seus favores!&lt;br /&gt;Óh ! quanta poesia ! óh ! quanto assombro&lt;br /&gt;Onde quer que um olhar pasmoso fite!&lt;br /&gt;O homem que a virtude traz no peito,&lt;br /&gt;Mais a chama cristã no peito ateia!&lt;br /&gt;Ao ímpio que o remorso traz na mente,&lt;br /&gt;Mais a mente o remorso lhe atribula!&lt;br /&gt;O blasfemo que, os céus escarnecendo,&lt;br /&gt;Soltou vozes, que aos céus injuriaram,&lt;br /&gt;Qual o cão que raivoso ladra à lua,&lt;br /&gt;E que alfim (5) já cansado inútil pára&lt;br /&gt;O sacrílego peito comprimindo,&lt;br /&gt;De blasfemar inútil também cessa.&lt;br /&gt;Que pode um grão de areia movediça&lt;br /&gt;Contra a rocha em que o mar se quebra iroso?&lt;br /&gt;Que pode pobre argila sobre argila&lt;br /&gt;Contra Deus que sustenta infindos mundos?&lt;br /&gt;Que pode o homem frágil pequenino&lt;br /&gt;Contra Deus, que o gerou do pó, do nada?&lt;br /&gt;Senhor! o teu poder é grande, imenso !&lt;br /&gt;Tudo quanto é sublime a ti se deve.&lt;br /&gt;Óh minha doce Mãe! – quem no teu peito&lt;br /&gt;Depositou afetos tão sagrados?&lt;br /&gt;Virgem meiga e gentil, que o mundo adora,&lt;br /&gt;Quem te fez tão amável? Esse riso,&lt;br /&gt;Que nos prende e fascina, encanta, arrouba,&lt;br /&gt;Quem t’o (6) depositou nos róseos lábios?&lt;br /&gt;Aves, que gorjeais na umbrosa selva,&lt;br /&gt;A quem deveis o deleitoso canto?&lt;br /&gt;Pois quem tais maravilhas fez no mundo?&lt;br /&gt;Foi Deus, que às flores também deu aroma,&lt;br /&gt;Macio e fresco ciciar às brisas,&lt;br /&gt;Sibilos ao tufão, sussurro às folhas,&lt;br /&gt;Brandura à fonte, correnteza ao rio;&lt;br /&gt;Foi Deus que fez os mares procelosos,&lt;br /&gt;Que lhes deu ondas, escarcéus e vagas,&lt;br /&gt;Que às campinas deu relvas e matizes,&lt;br /&gt;Ao sol fulgores, às estrelas brilho,&lt;br /&gt;E à lua doce luz que a mente aplaca;&lt;br /&gt;Foi Deus que deu um pugilo informe, inerte,&lt;br /&gt;Fez o homem moral à imagem sua!&lt;br /&gt;Óh ! quem há que se iguale ao Deus supremo,&lt;br /&gt;Se ele é só o supremo sobre tudo?&lt;br /&gt;Quem há que o Criador co’a criatura&lt;br /&gt;Compare, se de Deus seu ser dimana?&lt;br /&gt;Senhor ! – o teu poder é grande, imenso!&lt;br /&gt;O mar no-lo (7) revela em seus gemidos,&lt;br /&gt;A terra nos seus verdes atavios,&lt;br /&gt;A flor no seu perfume, o sol nas cores,&lt;br /&gt;As aves no seu canto deleitável,&lt;br /&gt;O céu no seu azul que se marcheta&lt;br /&gt;De milhões de prodígios luminosos,&lt;br /&gt;Quando a noite se desdobra sobre a terra&lt;br /&gt;Seu manto de mistério a todos grato!&lt;br /&gt;Meu Deus ! Senhor meu Deus! quanto és sublime!&lt;br /&gt;Ao teu gesto potente a fronte curvam&lt;br /&gt;O grande, o rico, o pobre, o sábio, o néscio!&lt;br /&gt;O mar que enfurecido em flor rebenta,&lt;br /&gt;O bravo furacão que os bosques prostra,&lt;br /&gt;A fera que rugindo atroa os ares,&lt;br /&gt;O raio que resvala pelo espaço,&lt;br /&gt;O trovão que estrondeia retumbando,&lt;br /&gt;A nuvem que desata em catadupas&lt;br /&gt;E o corisco veloz que caracola,&lt;br /&gt;Tudo, tudo a teus pés, ó Deus se humilha,&lt;br /&gt;Tudo, tudo a teu nome um hino entoa!&lt;br /&gt;E o homem que a razão fez neste mundo,&lt;br /&gt;Depois do teu poder, o mais potente;&lt;br /&gt;O homem que possui um’alma eterna,&lt;br /&gt;Que outra vida lhe of’rece além da campa,&lt;br /&gt;Dos brutos se rebaixa à classe ignóbil,&lt;br /&gt;E as leis posterga ao criador benigno!&lt;br /&gt;..............................................................&lt;br /&gt;Porém, Senhor, perdão p’ro (8) homem frágil,&lt;br /&gt;Que o fizeste d’argila; atende ao mísero:&lt;br /&gt;Quando seus lábios trêmulos soltarem&lt;br /&gt;O suspiro final, que o mundo exige;&lt;br /&gt;Quando seus olhos turvos se cobrirem&lt;br /&gt;Co’o vítreo manto, regelado, eterno;&lt;br /&gt;Quando apagar-se (9) do seu peito a flama;&lt;br /&gt;Quando o frio eternal gelá-lo todo;&lt;br /&gt;Quando a morte, Senhor, tirar-lhe a vida&lt;br /&gt;Nesse céu de venturas, - misterioso –&lt;br /&gt;Dá-lhe asilo, Senhor, lhe cede a glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) of’rece. Oferece. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;(2) Donairosa. Derivado de donaire. É o latim donarium, donairum, donairo. A forma donaire teve influência espanhola. A gente pronuncia donaire tal como se escreve.&lt;br /&gt;(3) C’oa. Em lugar de com a. Necessidade de contagem de sílabas poéticas. Em com a há duas sílabas poéticas reduzidas a uma.&lt;br /&gt;(4) Descai. Verbo descair: deixar prender ou cair.&lt;br /&gt;(5) Alfim. Hoje pouco usado. O mesmo que enfim, finalmente.&lt;br /&gt;(6) To. Combinação dos pronomes te e o. Este o está no lugar de riso. Quem depositou o riso (o) nos lábios teus? (te) Te aqui tem função de posse.&lt;br /&gt;(7) No-lo. Combinação dos pronomes nos e o. Nesta combinação o nos perde o s e o pronome o toma a velha forma lo. Este lo na poesia está no lugar de poder: no-lo revela.&lt;br /&gt;(8) P’ro. Para o. Necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;(9) Quando apagar-se. O verbo está no futuro do subjuntivo. Deveria ser quando se apagar. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;CRATEÚS (1)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Lindo sertão meus amores,&lt;br /&gt;Crateús, onde nasci, (2)&lt;br /&gt;Que saudade, que rigores,&lt;br /&gt;Sofre meu peito por ti!&lt;br /&gt;São amargos dissabores&lt;br /&gt;Que em funda taça bebi!&lt;br /&gt;Que saudade, ó meus amores,&lt;br /&gt;Crateús, onde nasci!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta incessante saudade&lt;br /&gt;Me espedaça o coração!&lt;br /&gt;Eu gemo na soledade (3)&lt;br /&gt;Esses tempos que lá vão...&lt;br /&gt;Crateús, minha beldade,&lt;br /&gt;Meu lindo, ameno sertão,&lt;br /&gt;Que dura, fera saudade&lt;br /&gt;Me atormenta o coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vezes, em pé, na praia,&lt;br /&gt;Me lembro dos mimos teus!&lt;br /&gt;Dessas c’roas (4), onde ensaia&lt;br /&gt;A rola (5) os gemidos seus!&lt;br /&gt;Onde a lua se desmaia&lt;br /&gt;Alvacenta – lá dos céus!&lt;br /&gt;Ó quantas vezes na praia&lt;br /&gt;Em cismo nos mimos teus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ondas que vêm chorosas&lt;br /&gt;Na lisa praia morrer,&lt;br /&gt;Lembram-me as auras queixosas&lt;br /&gt;Nos teus vales a gemer!&lt;br /&gt;Lembram-me as moitas verdosas,&lt;br /&gt;Ondeando-se a volver!&lt;br /&gt;Ondas, não vinde chorosas&lt;br /&gt;Na lisa praia morrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que dias esses d’outr’ora&lt;br /&gt;Que o tempo ingrato levou!&lt;br /&gt;Do meu lar eu via a aurora&lt;br /&gt;Que sorrindo despontou!&lt;br /&gt;O galo co’a voz canora,&lt;br /&gt;Cantava : có-córô-cô!&lt;br /&gt;Ai ! esses dias d’outr’ora&lt;br /&gt;O tempo ingrato levou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje meu peito não goza&lt;br /&gt;A dita que já gozou!&lt;br /&gt;Hoje minh’alma saudosa&lt;br /&gt;Chora o tempo que passou!&lt;br /&gt;Ó sorte desventurosa&lt;br /&gt;Que meus prazeres turvou!&lt;br /&gt;Infeliz de quem não goza&lt;br /&gt;Venturas que já gozou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crateús, que dor tão viva!&lt;br /&gt;Ai tempos que já lá vão!&lt;br /&gt;Ao teu nome a dor se aviva&lt;br /&gt;Que sente meu coração!&lt;br /&gt;Assim sofre a sensitiva (6)&lt;br /&gt;Ao toque de incauta mão!&lt;br /&gt;Crateús, que dor tão viva&lt;br /&gt;Ai eras (7) que já lá vão !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se os sinos tocam meu pranto&lt;br /&gt;Corre, banha o rosto meu!&lt;br /&gt;Seus dobres lembram-me tanto&lt;br /&gt;Os dobres do sino teu!&lt;br /&gt;Eis do sol, o roxo manto,&lt;br /&gt;No ocaso além – se escondeu!&lt;br /&gt;Trocam trindades... (8) meu pranto&lt;br /&gt;Corre, banha o rosto meu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso ver uma bela,&lt;br /&gt;Não posso, lindo sertão;&lt;br /&gt;Logo me lembro daquela...&lt;br /&gt;Que vive em meu coração.&lt;br /&gt;Crateús, onde está ela,&lt;br /&gt;Dá-lhe lembranças, que eu não...&lt;br /&gt;Não posso ver uma bela,&lt;br /&gt;Não posso lindo sertão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-lhe lembranças... e escuta&lt;br /&gt;Se a bela por mim gemeu...&lt;br /&gt;Se gemer... a brisa arguta&lt;br /&gt;Me traga o gemido seu.&lt;br /&gt;Ah ! se minh’alma o desfruta ...&lt;br /&gt;Crateús se o gozo eu...&lt;br /&gt;Quem dera ! – Sertão, escuta ...&lt;br /&gt;Escuta se ela gemeu ! ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E adeus, terra, onde a alvorada&lt;br /&gt;Primeira p’ra mim raiou!&lt;br /&gt;Onde a primeira morada&lt;br /&gt;Meu pai querido assentou!&lt;br /&gt;Onde o galo, à madrugada,&lt;br /&gt;Cantando, me despertou!&lt;br /&gt;Onde, à primeira alvorada,&lt;br /&gt;Ouvi-lhe o có-rócô-cô!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Crateús. Hoje município e cidade do Ceará. Pertenceu ao Piauí e constituía os municípios piauienses de Independência e Príncipe Imperial.&lt;br /&gt;2) José Coriolano de Sousa Lima nasceu na fazenda Boavista, do termo da antiga vila de Príncipe imperial, que pertencia ao Piauí (veja nota 1).&lt;br /&gt;3) Soledade. Estado de quem se acha só. Lugar ermo, onde alguém vive curtindo saudades.&lt;br /&gt;4) C’roas. Coroas. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação. Monte de areia, no leito dos rios. No Norte também se diz croa.&lt;br /&gt;5) Noutro local deste livro há comentário sobre rola (pássaro).&lt;br /&gt;6) Sensitiva. Planta, cujas folhas e folíolos têm a propriedade de se fechar, quando se lhes toca (Aurélio).&lt;br /&gt;7) Eras. O mesmo que tempos, épocas.&lt;br /&gt;8) Trindades. Toque das ave-marias. Tardinha (neste sentido só usado no plural).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Aurora&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Douram-se os prados ao romper d’aurora,&lt;br /&gt;Que surge à hora que prazer só diz,&lt;br /&gt;Os horizontes de listões (1) se arreiam,&lt;br /&gt;Aves gorjeiam nos rosais gentis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na clara e doce sussurrante fonte,&lt;br /&gt;Que do alto monte se despenha e cai,&lt;br /&gt;O roxo manto de ondeantes cores&lt;br /&gt;Com seus lavores a atenção atrai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas verdes folhas, onde o orvalho oscila,&lt;br /&gt;Brilha e rutina matinal rubim, (2)&lt;br /&gt;Que a meiga aurora coloriu, raiando,&lt;br /&gt;Co’o matiz brando de um primor sem fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As brancas nuvens que através do espaço,&lt;br /&gt;Do lume baço, pelo ar se vão,&lt;br /&gt;Cingem brocados de um lavor perfeito&lt;br /&gt;Como se feito por virgínea mão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A flor donosa, que do calix pende,&lt;br /&gt;Cheiro recende que se eleva ao céu;&lt;br /&gt;Tudo se expande, se promete vida&lt;br /&gt;À luz querida do cambiante véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da cumieira, no trinado vário,&lt;br /&gt;Quanto o canário nos atrai, seduz!&lt;br /&gt;Chilra a andorinha na cornija santa,&lt;br /&gt;E o galo canta co’a fulgente luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Douram-se os prados ao romper da aurora,&lt;br /&gt;Que surge à hora que prazer só diz,&lt;br /&gt;Os horizontes de listões se arreiam,&lt;br /&gt;Aves gorjeiam nos rosais gentis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz, em tanto, que listões formara&lt;br /&gt;Já mais se aclara pelo espaço além;&lt;br /&gt;A luz d’aurora que assomou dourada&lt;br /&gt;É dissipada pelo albor que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a criancinha, que acordando chora,&lt;br /&gt;Logo afervora maternal amor;&lt;br /&gt;A linda virgem, que do sono acorda,&lt;br /&gt;Só se recordar de brincar e flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre artista, que o trabalho presa,&lt;br /&gt;Apenas reza, se encomenda a Deus,&lt;br /&gt;Todo se afana no trabalho duro,&lt;br /&gt;Que é seu futuro mais dos filhos seus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E prados e aves, e perfume e montes,&lt;br /&gt;E orvalho e fontes, e listões no ar,&lt;br /&gt;“Hosana” (3) tudo ao Criador entoa,&lt;br /&gt;Que a seus pés voa, que lh’os (4)vai beijar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criancinha, que acordou chorosa,&lt;br /&gt;Virgem formosa, que sonhou com flor,&lt;br /&gt;O artista pobre, que o trabalho estima,&lt;br /&gt;Tudo se anima co’o fulgente albor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E antes que o dia radioso assome,&lt;br /&gt;E que o sol dome todo o ar com luz,&lt;br /&gt;Na mente um hino fervoroso e santo&lt;br /&gt;Eu devo, em tanto, consagrar à Cruz. (5)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;A luz dourada, que listões formara,&lt;br /&gt;Quanto se aclara pelo espaço além!&lt;br /&gt;A luz d’aurora que surgiu dourada,&lt;br /&gt;É dissipada pelo albor que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a natureza como está sorrindo&lt;br /&gt;Ao astro lindo que apontando vem!&lt;br /&gt;Tudo progride na ciência e arte!&lt;br /&gt;Por toda parte resplandece o bem!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Listão. Faixa. Risca larga. Existe o variante listrão.&lt;br /&gt;2) Rubim. Pedra preciosa de cor vermelha. Em sentido figurado, como no caso, cor vermelha. Há a variante rubi, mais usada. Palavra de propcedência latina.&lt;br /&gt;3) Hosana. Da língua hebraica . Significa: salve, também louvamos. Breve oração dirigida a Jeová, pedindo socorro, tirada do Salmo 118. Aclamação do povo, marchando em tono do altarna festa dos tabernáculos: “A maior parte das orações pronunciadas nesta solenidade, começavam pelo hosana” (John D. Davis – Dicionário da Bíblia” – 280). A multidão dos discípulos que acompanhavam a jesus na sua entrada em Jerusalem aclamava-o, dizendo: “Hosana, filho de Davi”. Hosana corresponde a canto de alegria. No sentido religioso é expressão de júbilo. Substantivo masculino: o hosana. Usa-se hosana também como interjeição.&lt;br /&gt;4) Lh’os. Combinação do pronome lhe (em função possessiva) com o pronome os (objeto direto): que vai beijar os (pés) lhe (dele).&lt;br /&gt;5) Cruz. Deus. Religião.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As Aves da Minha Terra&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;As aves da minha terra,&lt;br /&gt;Quer no sertão, quer na serra,&lt;br /&gt;Sabem falar!&lt;br /&gt;Esta seu fado carpindo, (1)&lt;br /&gt;Aquela a lira ferindo&lt;br /&gt;No seu trovar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras aos matos ensina&lt;br /&gt;Doces nomes que amofinam&lt;br /&gt;Seus corações;&lt;br /&gt;Esses nomes tão queridos,&lt;br /&gt;Sempre tristes – repetidos&lt;br /&gt;Nas solidões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vai findando o dia,&lt;br /&gt;E que, escondido, alumia (2)&lt;br /&gt;Ainda o sol,&lt;br /&gt;A pomba (3) no tronco antigo&lt;br /&gt;Carpe saudades do amigo&lt;br /&gt;Ao arrebol!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De outra parte saltitando&lt;br /&gt;De galho em galho cantando&lt;br /&gt;Gentil sofreu, (4)&lt;br /&gt;Toca na lira afinada&lt;br /&gt;Uma canção modulada&lt;br /&gt;Que o amor lhe deu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquela que além se esconde,&lt;br /&gt;Lá chama (ninguém responde)&lt;br /&gt;“Ó Zabelê!” (5)&lt;br /&gt;Tão triste! Lá foi –se embora,&lt;br /&gt;E a amada que tanto chora&lt;br /&gt;Ninguém n’a vê!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquela que ali suspira,&lt;br /&gt;Que sofre, que até delira&lt;br /&gt;Num seco pão,&lt;br /&gt;Em tom sentido e penoso&lt;br /&gt;Lá chama o chorado esposo&lt;br /&gt;“João-corta-pão!” (6)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;também a rola gemendo&lt;br /&gt;o esposo que viu morrendo&lt;br /&gt;se lastimou!&lt;br /&gt;Seu fim co’o sol comparando&lt;br /&gt;No ocaso, diz suspirando:&lt;br /&gt;“Fogo-apagou!” (7)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da cegueira que não o deixa&lt;br /&gt;O caboré já se queixa&lt;br /&gt;Cantando ao sol,&lt;br /&gt;Repetindo assim o nome&lt;br /&gt;Da doença que o consome:&lt;br /&gt;“Terçol-terçol!...” (9)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também da beira do rio&lt;br /&gt;Quando tudo é já sombrio&lt;br /&gt;De um mulungu,(10)&lt;br /&gt;A infeliz, a desgraçada&lt;br /&gt;Chama com voz abafada:&lt;br /&gt;“Jacurutu!”(11)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas... que soldado tão belo&lt;br /&gt;Faz com seu peito amarelo&lt;br /&gt;A guarda ali?&lt;br /&gt;É uma ave mui guerreira,&lt;br /&gt;Que, pulando na aroeira (12)&lt;br /&gt;Diz: “Bem-te-vi!” (13)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também diz um, todo o dia,&lt;br /&gt;Quando o sol põe-se ou radia,&lt;br /&gt;E surge além;&lt;br /&gt;Chamando pela esposinha,&lt;br /&gt;Dia a saudosa avezinha,&lt;br /&gt;“Vem vem!”(14)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede lá também aquela,&lt;br /&gt;Chama-se a tal bacharela (15)&lt;br /&gt;Pega (16)ou cancão; (17)&lt;br /&gt;Ela sorri-se, ela fala,&lt;br /&gt;Assobia, canta, estala...&lt;br /&gt;Que compr’ensão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis ali outra – tão bela!&lt;br /&gt;Rompendo, qual sentinela,&lt;br /&gt;O denso véu&lt;br /&gt;Da mudez da noite escura,&lt;br /&gt;Quando, vendo a criatura,&lt;br /&gt;Grita: “tetéu!” (18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dai, porém, ao papagaio (19)&lt;br /&gt;Da oratória o louro (20), daí-o,&lt;br /&gt;Pois nisto estou:&lt;br /&gt;No dizer, no estilo é uma,&lt;br /&gt;É das aves na tribuna&lt;br /&gt;O Mirabeau! (21)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É terra que tem primores&lt;br /&gt;A terra dos meus amores,&lt;br /&gt;Onde nasci!&lt;br /&gt;As aves de lá se falam,&lt;br /&gt;Cantam, suspiros exalam&lt;br /&gt;No Piauí!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Carpindo. Verbo carpir. Emprego no sentido de prantear, chorar. O verbo carpir não conjugado na primeira pessoa (singular) do indicativo presente. Em conseqüência não tem o subjuntivo presente.&lt;br /&gt;2) Alumia. Noutro local há comentário sobre este verbo.&lt;br /&gt;3) Pomba. Fêmea do pombo. Os autores românticos tiveram muita afeição por esta ave, símbolo da inocência.&lt;br /&gt;4) Sofreu. Também sofrê. É o corrupião. Onomatopéia: tomam-se as onomatopéias traduzidas em palavras humanas para designar o animal que as pronuncia.&lt;br /&gt;5) Zabelê. Copio: “De pés vermelhos e de corpo quase todo vermelho, a primeira impressão para quem vê, de longe, a Zabelê, é de que se trata da Juriti-piranga (ordem Columbiformes, espécie Oreopeleia); e, como o seu canto é de uma nostalgia e ternura inigualáveis, ainda mais se positiva a impressão de que ela é a Juriti-piranga. Entretanto, é muito maior do que a Juriti; o seu tamanho aproxima-se mais de uma inhuma ou de um mutum; sendo assim mais desenvolvida, a natureza lhe permitiu o hábito de andar pelo chão, de caminhar ou correr comumente pelo solo” e adiante: “quanto à origem da palavra Zabelê, não há dúvida de que é tupi, e, quanto ao significado, afirmam que é um enunciado onomatopaico” (Bugyja Britto – Zabelê – 8).&lt;br /&gt;6) João-corta-pau. João tem grande voga no Brasil para a designação de aves. O João-corta-pau pertence à família dos Caprimúlgidas. Plural: Joões-corta-pau.&lt;br /&gt;7) Fogo-apagou. Noutro local há comentário sobre fogo-apagou.&lt;br /&gt;8) Caburé. Nome dado a uma espécie de mocho pequeno. Nascentes dá à palavra origem tupi. Com a significação de “o propenso a morar no mato”. Vive isolado. Só sai de noite.&lt;br /&gt;9) Terçol-terçol. Terçol é pequeno abscesso no bordo das pálpebras. “Lindo olho tem o caburé” – diz-se por ironia.&lt;br /&gt;10) Mulungu. Árvore leguminosa. Nome de uma árvore africana. Nome africano.&lt;br /&gt;11) Jucurutu. Ave de canto triste, plangente. Nome tupi.&lt;br /&gt;12) Aroeira. Árvore de madeira muito dura.&lt;br /&gt;13) Bem-te-vi. Ave muito conhecida. Quando canta parece repetir: bem-te-vi. Daí o nome.&lt;br /&gt;14) Vem-vem. Nome dado a vários gaturamos. Plural vem-vens.&lt;br /&gt;15) Bacharela. Empregada a palavra no sentido de mulher faladora. Aplica-se à pega.&lt;br /&gt;16) – 17) pega ou canção. Ave faladora. Com o nome de pega se batiza a meretriz.&lt;br /&gt;17)&lt;br /&gt;18) Tetéu. Ave pernalta.&lt;br /&gt;19) Papagaio. Ave trepadora, notável pela facilidade com que imita a voz humana. Parece que a origem é o latim papagallus, no provençal papagai, espanhol papagayo. Tido o papagaio como sabido e esperto. Há estórias de papagaios notáveis. No folclore brasileiro o papagaio aparece como herói de muitas aventuras. Anedota de papagaio se tem na conta de anedota imoral.&lt;br /&gt;20) Louro. Nome que se dá ao papagaio. Assim já cantavam os troveiros medievais:&lt;br /&gt;Papagaio louro&lt;br /&gt;Do bico doirado,&lt;br /&gt;Leva esta carta&lt;br /&gt;Ao meu bem amado.&lt;br /&gt;21) Mirabeau. Honoré Gabriel Victor Riqueti, conde de Mirabeau, francês (1749-1791). Famoso orador. Pertenceu à assembléia francesa e da tribuna lançou a frase célebre e desafiadora: “Estamos aqui por vontade do povo e daqui só sairemos pela força das baionetas”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Só um Anjo Será&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A flor que melindrosa se baloiça&lt;br /&gt;No melindroso, delicado pé,&lt;br /&gt;Não é como o meu bem tão melindrosa,&lt;br /&gt;Não é, não é, não é!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aurora que o levante purpureia, (1)&lt;br /&gt;Que os horizontes colorindo vem,&lt;br /&gt;Não tem aquelas lindas, róseas faces,&lt;br /&gt;Não tem, não tem, não tem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa que sussurra nas palmeiras&lt;br /&gt;É doce quando a tarde em calma está;&lt;br /&gt;Mas voz tão maviosa como a dela&lt;br /&gt;Não há, não há, não há!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A flauta (2) que desoras (3) suspirando&lt;br /&gt;Quebra da noite a plácida soidão, (4)&lt;br /&gt;Não é como o seu canto – direi sempre&lt;br /&gt;Que não, que não, que não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguma virgem bela ataviou-se&lt;br /&gt;Para mais realçar o todo seu,&lt;br /&gt;Esse todo o meu bem – sem atavios –&lt;br /&gt;Venceu, venceu, venceu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Su’alma e coração são compassivos,&lt;br /&gt;Ela tem o candor de um serafim, (5)&lt;br /&gt;É, sim, a minha amada um tipo d’anjo;&lt;br /&gt;É, sim, é sim, é sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só um anjo de Deus, dos céus baixado,&lt;br /&gt;Que à celeste mansão remontará,&lt;br /&gt;Será como o meu bem perfeito e puro,&lt;br /&gt;Será, será, será!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Purpureia. Verbo purpurear. Dar cor de púrpura (vermelho escuro)&lt;br /&gt;2) Flauta. Também frauta. Formas variantes.&lt;br /&gt;3) Desoras. Melhor que o poeta houvesse empregado a locução a desoras, fora de horas, alta noite. Também se usa a desora, como neste passo de Manuel Bernardes: “... estrondos noturnos que a desora se ouviam”.&lt;br /&gt;4) Soidão. Forma antiquada de solidão. Felinto Elísio empregou-a: “Na soidão dos escuros corredores”.&lt;br /&gt;5) Serafim. Nome de entes celestiais que estavam à roda do trono de Deus, na visão de Isaias. Cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam a face, com outras duas cobriam os pés e com duas voavam. Figuradamente, pessoa formosa.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLaqMmrzTII/AAAAAAAAAgg/Ok2GQVwWksI/s1600-h/SÃ³+um+anjo+serÃ¡.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239562350011567234" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLaqMmrzTII/AAAAAAAAAgg/Ok2GQVwWksI/s400/S%C3%B3+um+anjo+ser%C3%A1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;strong&gt;Às Seis Horas da Manhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A mente está mais tranqüila,&lt;br /&gt;A natura é mais louçã,&lt;br /&gt;Tudo tem mais resplendores&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traja a aurora vestes d’ouro,&lt;br /&gt;Matizando o colo (1), a chã,&lt;br /&gt;Dando à corrente brilhantes&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negligente sobre o leito&lt;br /&gt;Meiga virgem, linda e sã,&lt;br /&gt;Inda jaz, cismando amores&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras vezes levantada&lt;br /&gt;Saúda o terno galã,&lt;br /&gt;Que um adeus fruir viera&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela ao acenar-lhe&lt;br /&gt;Co’o mais formoso ademã, (2)&lt;br /&gt;Mostrou quanto era ditosa&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele disse: “Oh! mais se firma&lt;br /&gt;O donoso talismã&lt;br /&gt;Do nosso amor! – m’o (3) asseguram&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Libando da esposa um osc’lo (4)&lt;br /&gt;Nos lábios cor de romã, (5)&lt;br /&gt;Procura o esposo o trabalho&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda a gentil criança&lt;br /&gt;Chorando a gritar mamã!&lt;br /&gt;Logo a mãe ao seio aquece-a&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desgraçado recorda&lt;br /&gt;Sonhada aventura – vã&lt;br /&gt;Mas essa mesma o consola&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já brinca à beira do lago&lt;br /&gt;Mui esbelta a jaçanã, (6)&lt;br /&gt;Nessas horas dos folgares,&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aves trinam nas selvas,&lt;br /&gt;E grita a maracanã, (7)&lt;br /&gt;As brisas serenas sopram&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horas! vós sois precursoras&lt;br /&gt;Do prazer, como do afã!&lt;br /&gt;É tudo vida e trabalho&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá surge o sol levantino!&lt;br /&gt;Prostai-vos, raça pagã,&lt;br /&gt;De Deus a sombra que surde&lt;br /&gt;Às seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Colo. Emprego no sentido de zona de transição entre raiz e caule.&lt;br /&gt;2) Ademã. Sinal externo, com que se manifesta o gosto, ou desprazer, e assim qualquer afeto da alma; gesto (Morais).&lt;br /&gt;3) Mo. Combinação do pronome átono me com o demonstrativo o (isto): me asseguram isto.&lt;br /&gt;4) Ósc’lo. Ósculo. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;5) Romã. Fruta, de cor rósea.&lt;br /&gt;6) Jaçanã. Ave ribeirinha, de bela plumagem. É o tupi-guarani nhaçanã.&lt;br /&gt;7) Maracanã. Ave. Do tupi maracá = m (b) aracá (o maracá, o chocalho), nã (semelhante, parecido): semelhante ao maracá, equiparado ao chocalho (veja Romão da Silva – “Denominações Indígenas na Toponímia Carioca” – 235).&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nênia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(oferecida à minha querida irmã, Joana C. de A e S., por ocasião da morte de nosso querido e sempre lembrado pai)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A corda que mais sonora&lt;br /&gt;Soava em meu coração,&lt;br /&gt;Já não vibra alegremente&lt;br /&gt;As mesmas notas de então.&lt;br /&gt;Agora, envolvida em crepe, (1)&lt;br /&gt;Só exprime a minha dor;&lt;br /&gt;Quanto é triste o seu acento,&lt;br /&gt;Pungente e consternador!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó meu pai, que me educaste&lt;br /&gt;Na santa lei de Jesus;&lt;br /&gt;Que me deste bons exemplos,&lt;br /&gt;Os olhos fitos na Cruz;&lt;br /&gt;Por que deixaste este mundo&lt;br /&gt;Tão solitário e cruel,&lt;br /&gt;Onde sinto só tristezas,&lt;br /&gt;E sorvo somente fel?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreste... e eu sei que tu’alma&lt;br /&gt;Descansa eterna e feliz;&lt;br /&gt;M’o (2) dizem tuas virtudes,&lt;br /&gt;Tua vida santa m’o diz;&lt;br /&gt;Porém tua ausência eterna,&lt;br /&gt;Tão saudosa, tão fatal,&lt;br /&gt;Me dilacera as entranhas&lt;br /&gt;Com uma dor sem igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó vós, corações de filhos,&lt;br /&gt;Que inda hoje suspirais&lt;br /&gt;Por um pai piedoso e santo,&lt;br /&gt;Cuja memória ainda amais:&lt;br /&gt;Avaliai minhas mágoas&lt;br /&gt;E a dor do meu coração,&lt;br /&gt;Pois meu pai já não existe&lt;br /&gt;Minha mais doce afeição.&lt;br /&gt;Saudade que me acompanhas&lt;br /&gt;Pela morte de meu pai,&lt;br /&gt;Não sejas tão aflitiva;&lt;br /&gt;Fibras do peito chorai!&lt;br /&gt;E vós lágrimas saudosas,&lt;br /&gt;Por estas faces corre;&lt;br /&gt;Que eu não sei como inda vivo&lt;br /&gt;Sem meu caro pai, – não sei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu, corda que mais sonora&lt;br /&gt;Soava em meu coração,&lt;br /&gt;Vibra sons consoladores,&lt;br /&gt;Como as brisas da soidão;&lt;br /&gt;Vibra, sim, que este meu pranto&lt;br /&gt;É puro pranto de amor&lt;br /&gt;Por meu pai, que amarei sempre,&lt;br /&gt;Que hoje habita co’o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Crepe. Emprego no sentido de luto&lt;br /&gt;2) Mo. Combinação do pronome átono me com o demonstrativo o (isto): tuas virtudes me dizem isto.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Piauí&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Vós pensais que minha terra&lt;br /&gt;Menos que as outras encerra&lt;br /&gt;De beleza e de primor?&lt;br /&gt;Enganai-vos: é tão bela,&lt;br /&gt;Tão prendada que como ela&lt;br /&gt;Poucas há, se alguma o for.&lt;br /&gt;É terra, cujas campinas&lt;br /&gt;Se matizam de boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem tantas frutas gostosas,&lt;br /&gt;Tantas aves sonorosas,&lt;br /&gt;Tem um sol tão criador!&lt;br /&gt;Tem uma manhã luzida,&lt;br /&gt;Tem uma tarde sentida,&lt;br /&gt;Que recorda tanto amor!&lt;br /&gt;É terra, cujas campinas&lt;br /&gt;Se matizam de boninas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem caças mui saborosas,&lt;br /&gt;Que vivem tão descuidosas,&lt;br /&gt;Sem temer o caçador!&lt;br /&gt;Suas madeiras têm favos&lt;br /&gt;Que abrigam seus filhos bravos&lt;br /&gt;Da fome e mais do calor.&lt;br /&gt;É terra, cujas meninas&lt;br /&gt;Mostram nas faces boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus rios são caudalosos,&lt;br /&gt;Navegáveis e piscosos,(1)&lt;br /&gt;Emanam dizendo – amor!&lt;br /&gt;Tem lindas flores fragrantes, (2)&lt;br /&gt;Ouro, prata e diamantes,&lt;br /&gt;E outras minas de valor.&lt;br /&gt;Fogem por entre boninas&lt;br /&gt;As nascentes cristalinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem um céu tão anilado,&lt;br /&gt;De noite tão estrelado,&lt;br /&gt;Tão gentil e encantador,&lt;br /&gt;Que eu não sei se assim o digo&lt;br /&gt;Porque conservo comigo&lt;br /&gt;O que chamam próprio amor.&lt;br /&gt;Mas quem nega que as meninas&lt;br /&gt;Mostram nas faces boninas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus filhos são mui briosos,&lt;br /&gt;São, em geral, talentosos,&lt;br /&gt;Têm à pátria fido (3) amor;&lt;br /&gt;Suas filhas são fagueiras,&lt;br /&gt;São lindas, são feiticeiras, (4)&lt;br /&gt;De branca ou morena cor.&lt;br /&gt;É terra cujas meninas&lt;br /&gt;Mostram nas faces boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem uma lua saudosa,&lt;br /&gt;Uma brisa harmoniosa,&lt;br /&gt;Que exala suave odor;&lt;br /&gt;Tem mancebos (5) dedicados,&lt;br /&gt;Valorosos, extremados&lt;br /&gt;Na paz, na guerra, no amor.&lt;br /&gt;Tem vales e tem colinas&lt;br /&gt;Matizadas de boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vereis nas altas palmeiras,&lt;br /&gt;Ou nas copadas mangueiras&lt;br /&gt;Chilrar o alado (6) cantor;&lt;br /&gt;Vereis, libando a doçura&lt;br /&gt;Do cravo, da rosa pura&lt;br /&gt;O fulgido beija-flor.&lt;br /&gt;Vê-lo-eis pelas campinas&lt;br /&gt;Beijar olentes boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós pensais que minha terra&lt;br /&gt;Menos que as outras encerra&lt;br /&gt;De beleza e de primor?&lt;br /&gt;Enganai-vos: é tão bela,&lt;br /&gt;Tão prendada que como ela&lt;br /&gt;Poucas há, se alguma o for.&lt;br /&gt;É terra, cujas campinas&lt;br /&gt;Se matizam de boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha terra é o El Dorado, (7)&lt;br /&gt;Deleitoso, afortunado,&lt;br /&gt;Que Walter Raleigh (8) sonhou;&lt;br /&gt;É o país de Cocanha, (9)&lt;br /&gt;Onde a ventura é tamanha&lt;br /&gt;Que a vida nunca abafou!&lt;br /&gt;Oh! ide ver a minha terra&lt;br /&gt;Que tanta beleza encerra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Piscosos. Abundante em peixes. Pelo latim pisce, como representação excepcional do grupo sc.&lt;br /&gt;2) Fragrantes. Aromáticas. Perfumadas. Não confundir com flagrante.&lt;br /&gt;3) Fido. Pelo latim fidu, o mesmo que fiel.&lt;br /&gt;4) Feiticeiras. Emprego no sentido de mulher que encanta por sua beleza. Atraente.&lt;br /&gt;5) Mancebo. É o latim mancipiu, moço, prisioneiro de guerra, escravizado por ser mais útil ao trabalho. Emprego no sentido de jovem.&lt;br /&gt;6) Alado. Latim alatu. Que tem asas, pássaro.&lt;br /&gt;7) Eldorado. Explicação de nascentes: “lugar imaginário, cheio de riquezas incalculáveis (De Eldorado, o dourado, nome do soberano de um país imaginário da América do Sul, o qual ao amanhecer revolvia-se em pó de ouro).” De R. Magalhães Junior a observação: “Por estas palavras era designada uma terra do ouro, que se supunha localizada na América do Sul. Nela existiriam os maiores depósitos desse metal precioso em todo o mundo e não haveria pobres, vivendo todos na maior abundância. A lenda se originou, sem dúvida, da apreensão, por Pizarro, dos tesouros dos Incas, no Peru. Aplica-se a expressão, nos dias de hoje, a todas as regiões em que abundam ouro, petróleo ou outras riquezas. Voltaire, em Candide, ou L’optimisme, fez o seu herói visitar o Eldorado, nas imediações do Paraguai, e aí não tinha curso o dinheiro, por inútil, pois até as crianças, nas ruas, brincavam com pepitas de ouro...” (“Dicionário de Provérbios e Curiosidades” – 116).&lt;br /&gt;8) Walter Railegh. Também se escreve Ralegh. Cortesão, navegador, colonizador, escritor. Inglês, viveu entre os séculos XVI e XVII.&lt;br /&gt;9) País de Cucunha. País da abundância, onde tudo é deleitoso. Criação do fabulário da idade Média – segundo R. Magalhães Junior -, que cita Maurice Rat para informar haver a expressão aparecido pela primeira vez no século XII. R. Magalhães Junior transcreve Capistrano de Abreu: “Por Gabriel soares sabemos que a gente de tratamento só comia farinha de mandioca fresca, feita no dia. O mesmo autor dá uma lista, forçosamente incompleta, das conservas e doces, transplantados uns de além-mar, aprendidos outros na terra. Dir-se-ia um país de Cocagne”. Cocagne é forma francesa.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como a Flor do Bulebule (1)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os cabelos de Maria&lt;br /&gt;À mais leve exalação&lt;br /&gt;Se embalançam,&lt;br /&gt;Brincam, dançam.&lt;br /&gt;Buliçosos eles são,&lt;br /&gt;Como a flor do bulebule,&lt;br /&gt;Aos beijos da viração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anelados por seus ombros&lt;br /&gt;De uma candura sem fim,&lt;br /&gt;Ora adejam,&lt;br /&gt;Ora beijam&lt;br /&gt;O seu seio de marfim. (2)&lt;br /&gt;Como a flor do bulebule,&lt;br /&gt;A brisa agita-os assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem a visse descansando&lt;br /&gt;Sua face sobre a mão&lt;br /&gt;Docemente&lt;br /&gt;Negligente,&lt;br /&gt;Dissera-a etérea visão,&lt;br /&gt;Ou a flor do bulebule,&lt;br /&gt;Se não sopra a viração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas e a brisa se levanta&lt;br /&gt;Como as aves de manhã,&lt;br /&gt;Os cabelos,&lt;br /&gt;Louros, belos,&lt;br /&gt;Da terna virgem – louçã,&lt;br /&gt;Como a flor do bulebule,&lt;br /&gt;Beija-os a brisa da chã. (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cabelos de Maria,&lt;br /&gt;Aos beijos da viração&lt;br /&gt;Se embalançam,&lt;br /&gt;Brincam, dançam&lt;br /&gt;Resplendem meigo clarão.&lt;br /&gt;Como a flor do bulebule,&lt;br /&gt;Seus lindos cabelos são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Bulebule. Ervinha, cuja flor se agita facilmente com qualquer vento. Figuradamente, o que é buliçoso, inquieto.&lt;br /&gt;2) Marfim. Emprego figurado: branco.&lt;br /&gt;3) Chã. Solo. Superfície da terra.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Correr da Vida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surge a aurora purpurina,&lt;br /&gt;Na roseira abre um botão,&lt;br /&gt;Brilha n’água cristalina&lt;br /&gt;Dessa aurora almo (1) clarão.&lt;br /&gt;Mas passou... não volta a aurora,&lt;br /&gt;A fonte não mais colora,&lt;br /&gt;Nem o botão nessa hora&lt;br /&gt;Há de mais abrir-se, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exala a flor doce aroma,&lt;br /&gt;Os gozos prazer nos dão,&lt;br /&gt;O riso aos lábios assoma&lt;br /&gt;De acordo co’o coração.&lt;br /&gt;Mas esse aroma sumiu-se,&lt;br /&gt;Esse prazer extingui-se,&lt;br /&gt;Esse riso consumiu-se,&lt;br /&gt;Jamais nunca voltarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se meiga aurora resplende,&lt;br /&gt;É outra – a de ontem morreu!&lt;br /&gt;O botão que se desprende,&lt;br /&gt;Não é o que emurcheceu!&lt;br /&gt;O cheiro, o prazer gozado,&lt;br /&gt;Tudo – lá jaz no passado,&lt;br /&gt;Tudo, lá jaz olvidado&lt;br /&gt;Na era em que se perdeu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa que hoje cicia,&lt;br /&gt;Que dela amanhã? – morreu!&lt;br /&gt;A hora passada, o dia&lt;br /&gt;Não volta, desapareceu! (2)&lt;br /&gt;Mais perto estamos da morte,&lt;br /&gt;Trilhe este ou aquele norte,&lt;br /&gt;Ninguém evita seu corte,&lt;br /&gt;Dá-se à terra o que ela deu.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Almo. Noutro local deste livro há comentário sobre almo&lt;br /&gt;2) Desparecer. Noutro local deste livro há comentário sobre desparecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Sobre o Mar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos crebos (1) sons das empoladas ondas,&lt;br /&gt;Que o barco fende, perpassando ovante,&lt;br /&gt;Modelo as dores de meu peito aflito,&lt;br /&gt;Afiro as mágoas de meu peito amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solitário entre o mar e o firmamento,&lt;br /&gt;Procuro serenar meus tristes males,&lt;br /&gt;Porém o pensamento esbaforido&lt;br /&gt;Erras nestes azuis, equóreos (2) vales.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que sulcando as ondas marulhosas,&lt;br /&gt;Arrisco minha vida já precária?&lt;br /&gt;Por que não findar meus tristes dias&lt;br /&gt;No seio de uma gruta solitária?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não! Morrer sem vê-la, longe dela&lt;br /&gt;Fora morrer mil mortes num só dia.&lt;br /&gt;Morrer!... quero viver para fitá-la...&lt;br /&gt;Morra depois embora de alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta vida reluz nos seus encantos!&lt;br /&gt;Nos seus olhos gentis quantos fulgores!&lt;br /&gt;Mas eu... pobre de mim! – luto co’a (3) morte,&lt;br /&gt;Gemo ao recontro de pungentes dores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez que os frescos ares que respira,&lt;br /&gt;Me façam renascer, voltar-me a vida;&lt;br /&gt;Talvez que do seu hálito no ambiente&lt;br /&gt;Possa minha saúde ser mantida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez! Avante, ó barco e bem depressa!&lt;br /&gt;Leva-me ao suspirado porto amigo;&lt;br /&gt;Oh! leva-me, que eu tenho neste peito&lt;br /&gt;Muitas saudades que afogar comigo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Crebo. Repetido, amiudado.&lt;br /&gt;2) Equóreos. Relativo ao mar. Origem latina.&lt;br /&gt;3) Co’a. Noutro local deste livro há comentário sobre co’a&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Hino ao Criador&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, tu és o Deus, o pai celeste,&lt;br /&gt;Que minha mãe adora ajoelhada;&lt;br /&gt;Por mim, por meus irmãos, por meus parentes,&lt;br /&gt;Por todos, neste mundo, ela não cessa&lt;br /&gt;De dirigir-te aos céus freqüentes súplicas.&lt;br /&gt;Suas lágrimas que manam saudosas&lt;br /&gt;Por meu Pai, que ela amava mais que tudo,&lt;br /&gt;Depois do teu amor que ao dele excede,&lt;br /&gt;São outras tantas preces que se elevam&lt;br /&gt;A ti, Senhor, por seu repouso eterno!&lt;br /&gt;Tu foste de meu Pai o deus propício;&lt;br /&gt;Por ti acrisolou-se na virtude&lt;br /&gt;Vivendo como vive o justo e o sábio,&lt;br /&gt;Morrendo como morre o sábio e o justo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, o teu poder tudo proclama:&lt;br /&gt;O inseto humilde que se escapa aos olhos,&lt;br /&gt;A enorme fera que no corpo avulta,&lt;br /&gt;A dura pedra, o vegetal virente,&lt;br /&gt;A terra, o espaço, o céu, a luz, as trevas,&lt;br /&gt;E o homem que fizeste à imagem tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquele lindo arroio que serpeia&lt;br /&gt;Por entre flores, ervas e pedrinhas,&lt;br /&gt;Mandaste-lhe correr sereno e puro,&lt;br /&gt;E o arroio correu!&lt;br /&gt;Àquele mar sanhudo que de encontro&lt;br /&gt;Vem quebrar-se nas duras penedias,&lt;br /&gt;Mandaste-lhe gemer nos seus embates,&lt;br /&gt;E o mar, Senhor, gemeu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquela várzea, que verdeja ao longe,&lt;br /&gt;Àqueles férteis prados recamados&lt;br /&gt;De mimoso capim, por onde pastam&lt;br /&gt;De minha Mãe as brancas ovelhinhas,&lt;br /&gt;Mandaste a chuva fecundar no inverno,&lt;br /&gt;E a chuva os fecundou!&lt;br /&gt;Mandaste à terra que seu seio abrisse,&lt;br /&gt;E nele recebesse o grão que a vida&lt;br /&gt;Dos povos alimenta; e ao grão mandaste&lt;br /&gt;Crescer e produzir: e o grão crescendo,&lt;br /&gt;Aos olhos do colono, que o mirava,&lt;br /&gt;Produziu e vingou! (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quanto o meu Senhor foi previdente&lt;br /&gt;Quando do mundo tirou do caos horrível!&lt;br /&gt;Como estas laranjeiras fez sombrias&lt;br /&gt;E lhes deu flores e dourados frutos!&lt;br /&gt;Como à pinha (2) lhe deu sabor tão grato!&lt;br /&gt;Como deu à romã tão doces bagos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor! Tu és a fonte donde emanam&lt;br /&gt;Vida e prazer, amor e poesia!&lt;br /&gt;O doce sabia nos seus gorjeios,&lt;br /&gt;O lindo pintassilgo (3) nos seus descantes, (4)&lt;br /&gt;O canário amarelo em seus trinados,&lt;br /&gt;As aves da soidão, que amam as trevas,&lt;br /&gt;Tudo, tudo, Senhor, Deus de proclama&lt;br /&gt;Imenso, Criador, Onipotente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te saúda a rosa quando se abre&lt;br /&gt;Aos beijos da manhã na voz da brisa?&lt;br /&gt;Não são tipos de amor que te revelam&lt;br /&gt;O cravo (5), o bogari , (6) os brancos lírios? (7)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Múltipla a natureza em elementos,&lt;br /&gt;Tudo tem sua voz para louvar-te:&lt;br /&gt;As flores o perfume; o canto as aves;&lt;br /&gt;O mar seus escarcéus; o sol fulgores;&lt;br /&gt;O céu, onde rutilam tantos mundos,&lt;br /&gt;Milhões de estrelas que cintilam belas;&lt;br /&gt;E o homem, ledos hinos de harmonia,&lt;br /&gt;Do coração brotados fervorosos,&lt;br /&gt;Que lh’os (8) dita a razão por teus favores.&lt;br /&gt;Hosana, (9) a Deus nos céus! Na terra Hosana!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó Deus de minha Mãe, Deus piedoso,&lt;br /&gt;Que na terra e no céu meu Pai amava,&lt;br /&gt;Aceita deste mísero vivente&lt;br /&gt;As flores, os incensos que te envia&lt;br /&gt;Nos seus versos de amor; - flores, incensos,&lt;br /&gt;Sem galas, sem perfumes, sem sinceros,&lt;br /&gt;Filhos d’uma alma que te adora crente.&lt;br /&gt;Oh! aceita-os, Senhor! se não desprezas&lt;br /&gt;A voz da brisa, o sussurrar da fonte,&lt;br /&gt;O bulício das ramas que te elevam&lt;br /&gt;Um cântico de amor fervente e terno,&lt;br /&gt;Jamais desprezarás a voz daquele&lt;br /&gt;Que por ti modelaste na feitura,&lt;br /&gt;Superior à toda natureza&lt;br /&gt;E somente sujeito ao teu destino.&lt;br /&gt;Sim! aceita-os, Senhor, e teus favores&lt;br /&gt;Derrama-os sobre mim, por piedade,&lt;br /&gt;E sobre minha Mãe e minha amada,&lt;br /&gt;E sobre os meus irmãos e a Pátria minha.&lt;br /&gt;Derrama-os. Minha voz será constante,&lt;br /&gt;Senhor, em proclamar-te o Deus propício&lt;br /&gt;De meus Pais, - o meu Deus que adoro humilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários:&lt;br /&gt;1) Vingou. Empregado no sentido de amadurecer, medrar, crescer: as sementeiras vingaram.&lt;br /&gt;2) Pinha. O mesmo que ata, fruta.&lt;br /&gt;3) Pintassilgo. Pássaro&lt;br /&gt;4) Descantes. Concerto de vozes.&lt;br /&gt;5) Cravo. Flor do craveiro&lt;br /&gt;6) Bogari. Flor. Também se diz bogarim&lt;br /&gt;7) Lírios. Flor.&lt;br /&gt;8) Lhos. Combinação dos pronomes átonos lhe e os: dita a razão a ele (lhe) homem estas cousas (os).&lt;br /&gt;9) Hosana. Noutro local há comentário sobre hosana.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Mar e o Vento&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E o vento e o mar viram nascer o gênero humano, crescer a selva florescer a primavera; e passaram e sorriram-se.&lt;br /&gt;(A Herculano – Eurico)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Irmãos, sócios nas fúrias, quem não sente&lt;br /&gt;O gelo do terror ao contempla-vos!&lt;br /&gt;Em cada vaga, que se arroja irosa,&lt;br /&gt;Em cada sibilar, que rijo açoita,&lt;br /&gt;Eu ouço a voz do Imenso, a vos do Eterno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! como assemelhai-vos majestosos&lt;br /&gt;Àquele que vos deu poder tamanho!&lt;br /&gt;Como zombais nas vossas tempestades&lt;br /&gt;Do mísero mortal, fraco e mofino!&lt;br /&gt;- É que de Deus representais o verbo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vossos esforços combinados,&lt;br /&gt;Os vossos temporais, vossos horrores&lt;br /&gt;Se cruzam n’amplidão do espaço imenso,&lt;br /&gt;Converte-se o ateu (1), o cristão ora,&lt;br /&gt;E o guerreiro gentil olvida a espada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vós como passais – altivo – ousado!&lt;br /&gt;Como sorris da própria humanidade!&lt;br /&gt;Que se curva, humilhada, às vossas iras!&lt;br /&gt;- É que Deus vos criou primeiro que o homem,&lt;br /&gt;E em vossas fúrias estampou seu verbo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rugi! Gemei! ó mar, ó tempestade!&lt;br /&gt;Erguei aos ares vagalhões indômitos!&lt;br /&gt;Enchei o espaço de tufões (2) medonhos!&lt;br /&gt;Que vos pode domar a raiva insana,&lt;br /&gt;Que cava abismos, que soçobra armadas? (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem vos pode domar? Deus, Deus somente.&lt;br /&gt;Passai – sorri – zombai da humanidade.&lt;br /&gt;Quem da afronta ousará tomar vingança?&lt;br /&gt;O homem? – este não, que o escarnecestes:&lt;br /&gt;- Somente o Criador, de quem sois verbo. (4)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Ateu. Formação grega: a (elemento privativo) e theo – teo (Deus). Sem Deus. Que não crê em Deus.&lt;br /&gt;2) Tufão. Vento violento. Parece que se trata do árabe tufan.&lt;br /&gt;3) Armadas. Forças navais. Navios de guerra.&lt;br /&gt;4) Verbo. Referência ao Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Diz o Evangelho: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. O Verbo fez-se homem e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, glória como Filho unigênito do Pai” (São João – I, 1, 14). O Verbo feito homem é Jesus Cristo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Catingueiro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci e crie-me nas bastas catingas,(1)&lt;br /&gt;Nas selvas umbrosas (2) de meu Piauí;&lt;br /&gt;Não gosto das praças, seus usos detesto,&lt;br /&gt;Que males e dores não sofrem-se (3) aí!&lt;br /&gt;Ditoso me julgo, tocando a viola,&lt;br /&gt;Cantando os amores que temos aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vivo contente de ser catingueiro, (4)&lt;br /&gt;Da caça, da pesca, das frutas rendeiro. (5)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando da roça, nas horas douradas,&lt;br /&gt;Sentidas que a rola (6) diz fogo apagou, (7)&lt;br /&gt;Vi uma donzela (8) risonha, formosa,&lt;br /&gt;Que amor em peito pra sempre plantou.&lt;br /&gt;Pedi-a, ma (9) deram, casei-me com ela,&lt;br /&gt;E Deus nosso leito d’amor fecundou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Co’a esposa querida, co’os caros filhinhos,&lt;br /&gt;Que vida que eu passo! que ternos carinhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o dia é de festa, se é santo (10) ou domingo,&lt;br /&gt;Eu dispo (11) a camisa do quente algodão,&lt;br /&gt;E visto o meu fato (12), que tanto custou-me, (13)&lt;br /&gt;Se acaso não quero vestir meu gibão; (14)&lt;br /&gt;E vou-me pra vila, que o padre me ordena&lt;br /&gt;Que à missa não falte, não falte ao sermão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto na igreja, de joelhos curvados,&lt;br /&gt;Minh’alma não cisma do mundo em cuidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não cisma em cuidados, que toda se prende&lt;br /&gt;Às chagas, sofridas por nós, de Jesus;&lt;br /&gt;Meus lábios suplicam... e as preces contritas,&lt;br /&gt;Humildes se abraçam co’a trava da Cruz, (15)&lt;br /&gt;Se abraçam – que nela de Cristo os discip’los (16)&lt;br /&gt;Enxergam seu norte, (17) seu anjo, sua luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ditoso me julgo na crença primeira&lt;br /&gt;Que a mãe carinhosa ditou-me (18) à lareira. (19)&lt;br /&gt;Cumprido o preceito que a igreja nos manda&lt;br /&gt;No seu mandamento primeiro, (20) saí,&lt;br /&gt;E a casa do padre vigário procuro,&lt;br /&gt;Que ele é meu compadre – melhor nunca vi!&lt;br /&gt;Co’o riso nos lábios, me diz: “Como passa?&lt;br /&gt;Sem ter almoçado não vá-se (21) daqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes espero; mas outras, saudoso,&lt;br /&gt;Regresso à choupana, (22) que eu amo extremoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh quadro de encantos! de graças ornado!&lt;br /&gt;Sim: vede-o, invejai-m’o . Que vida esta aqui!&lt;br /&gt;- A esposa na porta, co’o riso da esp’rança, (23)&lt;br /&gt;Aponta-me rindo: “Filhinhos, lá... vi!”&lt;br /&gt;E as lindas crianças olvidam seus brincos: (24)&lt;br /&gt;“Mamãe! - Gritam elas – papai vem ali”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei! – minha esposa foi logo abraçando,&lt;br /&gt;E bênçãos (25) e beijos aos filhos fui dando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mimosos afagos me faz a consorte,&lt;br /&gt;Em roda os filhinhos me chamam papai,&lt;br /&gt;Me contam mil cousas, me pedem bolinhos;&lt;br /&gt;Quem vai tão ditoso no mundo – quem vai?&lt;br /&gt;Ó vós das cidades notai os enlevos&lt;br /&gt;De nossas catingas, senhores, notai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temos cuidados, que a Virgem Maria&lt;br /&gt;A pobre choupana dos pobres vigia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil frutas encontro nas vastas catingas&lt;br /&gt;Nas várzeas e campos do meu Piauí:&lt;br /&gt;Cajus, (26) guabirabas, (27) maduras pitombas, (28)&lt;br /&gt;Dendês (29) e palmeiras, cajás, (30) buriti, (31)&lt;br /&gt;Também há mangabas (32) e umbus (33) tão gostosos!&lt;br /&gt;Pequis (34) e juçaras, (35) e o bom bacuri. (36)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vida e doçura nos densos palmares,&lt;br /&gt;Em nossos ubérrimos, (37) frescos pomares!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nossos açudes, (38) lagoas e rios,&lt;br /&gt;Meu Deus! que fortuna! quão provido és!&lt;br /&gt;Que boas branquinhas, (39) que peixes gostosos,&lt;br /&gt;Piaus (40) e corvinas, (41) mandis, (42) mandibés! (43)&lt;br /&gt;Aqui só tem fome quem vive na rede,&lt;br /&gt;As mãos amarradas, atados os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não troco esta vida, pois outra mais bela&lt;br /&gt;Não vejo no mundo, nem farta como ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No inverno que vida! que dias alegres!&lt;br /&gt;A chuva na terra, na terra o feijão,&lt;br /&gt;O arroz, a maniva (44) e o milho amarelo,&lt;br /&gt;Que nascem e medram no fértil sertão.&lt;br /&gt;Das vacas que mugem – de bafo cheiroso –&lt;br /&gt;Mungimos (45) o leite que faz requeijão. (46)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite a coalhada (47) na branca tigela (48)&lt;br /&gt;Se estende na mesa tão branca como ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas praças se mente, nas praças se zomba&lt;br /&gt;De nós catingueiros – dos filhos daqui:&lt;br /&gt;Que importa? – desprezo seus usos tiranos,&lt;br /&gt;Que a gente sufocam! – não quero-os (49) pra mi? (50)&lt;br /&gt;Ditoso me julgo nas margens virentes&lt;br /&gt;Floridas, umbrosas do meu Piauí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não faltam-nos caças nas matas sombrias:&lt;br /&gt;Queixadas, (51) veados, (52) tatus (53)e cotias. (54)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belezas dos campos, belezas donosas, (55)&lt;br /&gt;Que os olhos deslumbram nos dias de abril!&lt;br /&gt;A várzea verdeja de flores toucada, (56)&lt;br /&gt;No vale baloiçam-se flores a mil!&lt;br /&gt;E a coma das altas, verdosas colinas&lt;br /&gt;Ondeia, flutua de um modo gentil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode ter gozo nenhum verdadeiro&lt;br /&gt;Quem vive no mundo sem ser catingueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orquestras das pacas – que valem, que servem!&lt;br /&gt;Da minha viola prefiro o rojão; (58)&lt;br /&gt;Prefiro os tangeres (59) que desse umbuzeiro,&lt;br /&gt;Pesado de frutos, ferindo-me estão;&lt;br /&gt;Prefiro essa orquestra que as aves modulam,&lt;br /&gt;Que calam delícias no meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Delícias! Delícias! – prazer que extasia&lt;br /&gt;Nas asas sonoras da doce poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa-me (60) a vida dos homens da praça?&lt;br /&gt;Que importa? Que digam se tenho razão:&lt;br /&gt;Em nossas catingas mil frutos pendentes&lt;br /&gt;O gosto me excitam em toda a sazão; (61)&lt;br /&gt;Em suas madeiras mil favos (62) se criam,&lt;br /&gt;Mil favos gostosos – tão doces que são!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nambus, (63) codornizes (64) abundam nos matos&lt;br /&gt;Carões (65) nas lagoas, marrecas e patos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas praças que zombam de mim: que me importa?&lt;br /&gt;Co’a esposa, co’os filhos em torno ao fogão,&lt;br /&gt;Eu vivo ditoso, não tenho remorsos,&lt;br /&gt;Em quanto a viola desfiro o rojão!&lt;br /&gt;E as coplas (66) alegres com ele se casam&lt;br /&gt;Do peito nascidas, do meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esposa, filhinhos, cantemos, cantemos,&lt;br /&gt;De Deus a bondade louvemos, louvemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci e criei-me nas bastas (67) catingas,&lt;br /&gt;Frondentes, sombrosas – do meu Piauí;&lt;br /&gt;Não gosto das praças, seus usos detesto,&lt;br /&gt;Que males e dores não sofrem-se aí!&lt;br /&gt;Ditoso me julgo, tocando a viola,&lt;br /&gt;Cantando os primores que temos aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem disse o vigário que nós catingueiros&lt;br /&gt;Vivemos mais fartos que em londr’os (68) banqueiros.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Catingas. O nome do poema é “O Catingueiro” – e catingueiro é o que habita a catinga. Esta palavra catinga também se escreve caatinga. Aliás, neste sentido em que Coriolano emprega a palavra, aparece sempre caatinga, embora os dicionários também registrem a variante catinga: “Por caatinga, entende-se um aglomerado de plantas lenhosas, de baixa altura, cuja composição, longe de ser uniforme, varia extraordinariamente de acordo com a qualidade do solo, do sistema fluvial e com a topografia geral do terreno. O xerofitismo é o seu elemento básico. As folhas caducam e desaparecem completamente nas secas. Será curioso assinalar que a grande quantidade de folhas das florações das caatingas poderia ser elemento de grande significação para sua sobrevivência. Essa transformação, porém, não se realiza por motivo da umidade do solo. Todavia, abundam nas caatingas tubérculos radiculares providos de bactérias nitrificantes, cujo tipo mais notável é representado pelas leguminosas. Essas bactérias hibernam nas secas para reaparecerem em grande atividade logo que desabam as primeiras chuvas. Dá-se, então, o milagre do verde, que surpreende o vaijante habituado à paisagem desoladora do estio” (Carlos porto – “Roteiro do Piauí” – (114-115). Mais abaixo (pág. 115) salienta o consagrado estudioso: “a caatinga é a vegetação típica do Nordeste, a mais profusa e a que lhe imprime feição peculiar”. Nascentes tira caatinga ou catinga do tupi Ka’a (mato) e tinga (branco). Macedo Soares transcreve a definição que St. Hilaire deu de catinga: “mato que perde as folhas anualmente, e ostenta menos vigor que o mato virgem – e cujas folhas são ora brancacentas, ora avermelhadas, de um bolor ou ferrugem que as cobre” (Dicionário). Acha o dicionarista que nesta acepção catinga vem do tupi-guarani cating, bolor, ferrugem. Acha ainda que caá-ting, mato branco, “como dão todos os escritores, inclusive Batista Caetano, nem tem propriedade”. Há também catinga, com transpiração fétida, bodum dos negros, que Batista Caetano tira do tupi-guarani cati, bolor, contração de caquâ ting, crescido branco (bolor). O cardeal Saraiva registrou catinga (fedor) como vocábulo de Angola. Esclarece Macedo Soares: “Mas, o que se pode concluir é que, em Portugal, o sucedâneo de bodum era, como na colônia do Brasil, o tupi-guarani catinga, e que esta palavra passou, como tantas outras, para a África na boca dos negros repatriados. O certo é que ela não se acha em vocabulário africano, nem nas relações dos viajantes”.&lt;br /&gt;2) Umbrosas. Cheias de sombra. Procede do latim umbra, sombra.&lt;br /&gt;3) Não sofrem-se. Na época em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: não se sofrem.&lt;br /&gt;4) Catingueiro. Veja observação de n° 1.&lt;br /&gt;5) Rendeiro. Indivíduo que cobra rendas. Arrendatário.&lt;br /&gt;6) Rola. No linguajar indígena nheengatu a rola tem o nome de juriti. Juruti ou juriti é o tupi yiruti e uruti. Alfredo da Mata disse da rola:”Bonita rola (Leoptoptila rufolixa rich. e Bern, ordem Columbidae), que não tem manchas metálicas nas asas, o que distingue a rola do juruti (Veja Nunes Pereira – Moron Gueta – um Decameron Indígena” – 641)&lt;br /&gt;7) Fogo-apagou. O canto da rola parece dizer fogo-apagou, razão pela qual ela é conhecida por esta expressão.&lt;br /&gt;8) Donzela. É o latim dominicella, diminutivo de dona (latim domina) e originalmente significou moça nobre. A palavra passou a denominar a mulher solteira, virgem.&lt;br /&gt;9) Ma. Combinação dos pronomes átonos me e a, representativos de objetos indireto e direto, respectivamente.&lt;br /&gt;10) Santo. Dia santo, santificado.&lt;br /&gt;11) Dispo. Primeira pessoa do presente do indicativo do verbo despir, irregular.&lt;br /&gt;12) Fato. Roupa. Morais tira a palavra do espanhol hato.&lt;br /&gt;13) Que tanto custou-me. No tempo em que José Coriolano escreveu não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diz: que tanto me escutou.&lt;br /&gt;14) Gibão. Traje do vaqueiro, de couro curtido, de bode ou de vaqueta.&lt;br /&gt;15) Cruz. Referência ao martírio de Cristo rumo ao monte Calvário.&lt;br /&gt;16) Discip’los. Discípulos. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;17) Norte. Empregado no sentido de rumo, direção.&lt;br /&gt;18) Que a mãe carinhosa ditou-me. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se dirá: que a mãe carinhosa me ditou.&lt;br /&gt;19) Lareira. Laje do lar no qual se acende o fogo.&lt;br /&gt;20) Mandamento primeiro. São dez os mandamentos da Lei de Deus. Eis o primeiro: “Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas”.&lt;br /&gt;21) Não vá-se. No tempo em que José Coriolano escreveu não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Hoje se dirá: não se vá.&lt;br /&gt;22) Choupanha. Casa rústica de madeira ou de palha.&lt;br /&gt;23) Esp’rança. Esperança. Por necessidade de metrificação, o poeta suprimiu uma sílaba da palavra.&lt;br /&gt;24) Brincos. Folguedos, brincadeiras.&lt;br /&gt;25) Bênçãos. De modo geral, as camadas populares não dizem bênção, mas conservam a tônica latina benção (oxítona).&lt;br /&gt;26) Cajus. Fruto do cajueiro. Tem o nome científico de anacardium occidentale. Fruta de que há duas partes alimentares: o pendúnculo carnoso e doce, que se come cru e de que se fazem doces, sorvetes, cajuadas, cajuína; e a amêndoa da castanha (sendo esta o verdadeiro fruto do cajueiro) e que depois de desembaraçada )ao fogo) do pericarpo algo oleoso e cáustico, usa-se à maneira de amêndoa da Europa, em doces e confeitos, e também sob a forma de farinha (veja A. J. de Sampaio – “A alimentação Sertaneja e do Interior da Amazônia” – 225) Muito popular a castanha assada. Para Romão da silva caju é nome indígena: (a) ca (chifre) ajú igual a ayú (o pomo amarelo). Cf. “Denominaçõesd Indígenas na Toponímia Carioca” – 83. Macedo Soares (Dicionário) entende que vem de caá, folha, planta, mais ju igual a jub, amarelo.&lt;br /&gt;27) Guabiraba. Fruto da guabirabeira. Nascentes tira do tupi gwa’bi, comestível, e rab, relativo de ab, pelo, por alusão a ser tormentoso, razão pela qual se chama cabeluda.&lt;br /&gt;28) Pitomba. Fruto da pitombeira.&lt;br /&gt;29) Dendês. Fruto da palmácea africana e da espécie amazônica. Cultivada para a produção de óleo ou azeite de dendê. Nome africano de palmeira do Congo e da Guiné, introduzida no Brasil. Forma derivada, dendezeiro.&lt;br /&gt;30) Cajás. Fruta muito apreciada para refrescos, sorvetes, cambicas. Vem do tupi cã igual a (a) cã. (osso, caroço) e já igual a yá (fruta) – a fruta de caroço, o fruto que é todo caroço.&lt;br /&gt;31) Buriti. Nome científico: mauritia vinifera. Palmeira muito alta. Dá frutos comestíveis. “em tempo de calamidade – escreveu Almeida Pinto – o povo erra pela matas à procura destes frutos, para mitigar a fome; mas o uso cotidiano e prolongado deles determina um amarelidão na cútis”. Macedo Soares acrescenta:”O tronco fornece por incisão excelente suco vinhoso; as folhas têm variadas aplicações; op caule fornece madeira de construção: faz lembra a tamareira dos desertos da África Central”. Palavra indígena: imbiriti – de i (água) mais mbiriti, que emite, que bota, que escorre. Na Amazônia se diz miriti. Dos cocos do buriti se prepara vinho e a famosa buritizada (doce de polpa do fruto). O óleo é alimentar.&lt;br /&gt;32) Mangaba. Fruto delicado. Estomacal. Dele se faz doce. O leite é aconselhado contra a tuberculose pulmonar. Do tupi-guarani mangab, fruto que fornece borracha. De fato, o leito coagulado fornece borracha de superior qualidade (Veja – Macedo Soares – Dicionário).&lt;br /&gt;33) Umbu. Também imbu, forma preferível, talvez do tupi ia-imbu, fruto que dá água. Comestível. Da polpa do fruto bem maduro se prepara a imbuzada, com leite e açúcar. Também se faz o doce de imbu. Os tubérculos do imbuzeiro são comestíveis e deles, segundo Gilberto Freyre, se prepara cocada de batata de imbu.&lt;br /&gt;34) Pequis. Josué de Castro dá o pequi como fruto indígena (“Geografia da Fome” – 211). Este fruto isento de casca é cozido com água e sal e comido puro ou com farinha d’água. Também se come cru, ou cozido com feijão, ou arroz. Escreve-se ainda piqui, mas pequi é melhor. Muito usado o óleo de pequi, obtido da polpa do fruto e da semente.&lt;br /&gt;35) Juçara. Romão da Silva (op.cit.) oferece o seguinte como etimologia: - ju igual yu (espinho; fragoso; pungente) çara (ser, o que é) – ju igual a yu (espinho, espinhento) içara igual a yçara (cerca, esteio, tapume) – a cerca ou tapume de espinho; o esteio fragoso ou espinhento. E acrescenta: “Diz-se no comum do espinho utilizado pelos índios à guisa de agulha”. E adiante: “Jiçara e iuçara (q.v) designa uma casta de palmeira (Euterpe edulis), a que chamam também açaí; a fruta dessa palmeira da qual se faz uma beberagem saborosa e muito apreciada no Norte do Brasil” (pág. 214). Para Macedo Soares, açaí provém de ia (fruta) e çai, que chora, bota água. Raimundo Morais disse do açaí, o mesmo que juçara: “Amassado, produz um vinho purpurino, aromático, que é tomado com açúcar e farinha d’água ou farinha de tapioca. Em Belém, capital paraense, as amassadeiras de açaí assinalam as respectivas quitandas com uma bandeirinha encarnada” (O meu dicionário das Cousas da Amazônia” – 66)&lt;br /&gt;36) Bacuri. Fruto e semente comestíveis. De Raimundo Morais: “O fruto, amarelo, parece uma laranja grande. A polpa é branca, acidulada e doce. A compota é fina, delicada, incomparável. O sorvete – simplesmente delicioso. Dos frutos naturais da planície é o mais gostoso. Os filhos, como são chamados os gomos sem caroço do fruto, comidos crus, com farinha d’água torrada, constituem uma sobremesa excelente” (op. Cit – 72). Esses gomos sem caroço, pelo menos no Piauí, recebem o nome de língua.&lt;br /&gt;37) Ubérrimo. Superlativo absoluto sintético de úbere (abundante).&lt;br /&gt;38) Açude. Palavra de origem árabe.&lt;br /&gt;39) Branquinhas. Peixinho de água doce.&lt;br /&gt;40) Piaus. Peixe. Nome indígena: “pele manchada”.&lt;br /&gt;41) Corvinas. Peixe saboroso. Deriva-se de corvo por causa da cor.&lt;br /&gt;42) Mandis. Nome indígena: “pele manchada”.&lt;br /&gt;43) Mandibés. Nome de peixe. Denominação indígena.&lt;br /&gt;44) Maniva. Explicação de nascentes: “Planta da mandioca, também chamada maniveira. Caule da mandioca (Norte). (Do tupi mani’iwa, arvore de mani; Mani era o nome de uma jovem que morreu de amores e de cujo corpo, segundo uma lenda, brotou a raiz da planta)”.&lt;br /&gt;45) Mungimos. Verbo mungir. Ordenhar.&lt;br /&gt;46) Requeijão. Lacticínio, geralmente de fabricação caseira, feito de leite de vaca ou de cabra.&lt;br /&gt;47) Coalhada. De coagulare, latim. Morais registra coagular, coalhar e qualhar. E acrecenta que a forma divergente coalhar melhor se escreve qualhar. Aurélio só registra coagular e coalhar. Em “Geografia da Fome”, Josué de Castro refere-se ao alimento: “E não é só com milho que se consome leite em abundância nop serttão do Nordeste, mas de muitas outras formas. Misturtando com café de manhãzinha, ou com a colhada fresca ou escorrida...” (pág. 204). Coalhada é o leite coagulado, geralmente de vaca. Coalhada, em tijelas de barro, nos sertões do Nordeste (A.J.Sampaio –“A alimentação Sertaneja e do interior da Amazônia” – 241). Anoto estas considerações de Martins de Aguiar: “É o mesmo caso de coalho, coalhar, coalhada, coalheira. De co-alhar passou a cu-a-lhar e, em fim, a cua-lhar (qualhar). Qualhar é clássico e está no sapiente Morais. É a única feição gráfica que deve tomar o verbo (e todos os cognatos), pelo menos no Brasil, onde só um tolíssimo pedante proferirá cu-alhar. Se em Portugal o fazem, nobreza e povo, é que influiu nos eruditos a lembrança do étimo latino, coagulare, e o vulgo se pôs docilmente a imitá-los”. (“Notas de Português de Felinto e Odorico” – 425)&lt;br /&gt;48) Tigela. Origem latina. Vaso de louça ou de barro. Forma de xícara, sem asas.&lt;br /&gt;49) Não quero-os. No tempo em que José Coriolano escreveu, não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: não os quero.&lt;br /&gt;50) Mi. Forma arcaica do pronome mim. No latim, mihi. A nasal m de mihi nasalou a vogal i, de que resultou mi, mim. As nasais possuem a tendência de nasalização das vogais com que estão em contato. No português arcaico já aparece mim.&lt;br /&gt;51) Queixadas. Porco bravio. Espécie de porco-do-mato. Substantivo feminino.&lt;br /&gt;52) Veado. Do latim venato, animal de caça.&lt;br /&gt;53) Tatus. De ta (pelo, confundindo com ca), casca, escama, e tu que pode ser tou igual a toó abs. de oó, encorpado, denso. Há duas espécies de tatu: a tatu-peba (de peb, chato) e o tatu-bola.&lt;br /&gt;54) Cutias. Animal roedor. Romão da Silva tira cutia de a-cu-ti ou a-gu-ti, o indivíduo que come com as patas dianteiras, feito gente.&lt;br /&gt;55) Donosas. Feminino de donoso, elegante, gracioso, belo.&lt;br /&gt;56) Toucada. Emprego em sentido figurado, orlado, encimado.&lt;br /&gt;57) Coma. Folhagem das árvores, copa.&lt;br /&gt;58) Rojão. Câmara Cascudo acentua que conheceu a forma velha de rojão, aí por 1910: era pequeno trecho musical, tocado a viola ou rabeca (por ambas também), antes do verso cantado pelo cantador.como na cantoria do desafio não havia acompanhamento musical, os trechos eram executados antes do verso e depois, para o descanso do primeiro cantador e pausa para o adversário prepara a resposta. Depois de 1918 – continua ele – rojão tem nova significação, valendo duração, medida, forma, estilo da cantoria, sua extensão e modelo (veja – dicionário de Folclore Brasileiro).&lt;br /&gt;59) Tangeres. Substantivo masculino plural desusado. Significa tocatas, soadas, ou sonatas de instrumentos músicos. No caso, emprego figurado. Na pronuncia o ge é aberto.&lt;br /&gt;60) Que importa-me. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: que me importa.&lt;br /&gt;61) Sazão. Estação do ano. Figuradamente, tempo apropriado à colheita de frutas.&lt;br /&gt;62) Favos. É o depósito de mel das abelhas.&lt;br /&gt;63) Nambus. Ave. Tem os pés e bicos vermelhos e por canto um assobio longo e estridente. Também aparecem inamu, inhambu, enambu, nhambu. Etimologia proposta por Rodolfo Gareia; y demonstrativo (igual a o que, aquele que), am, em (pé) e bur (emergia): o que emerge em pé, a prumo; ou de y – am (a que se levanta, mais ba, estrondado); ou de y – nhumbú (o que corre surdindo, ou emergindo, ou que levanta o vôo rumorejando).&lt;br /&gt;64) Codornizes. Plural de codorniz. Origem latina. O mesmo que codorna, ave campestre, caça muito procurada.&lt;br /&gt;65) Carão. Ave.&lt;br /&gt;66) Coplas. Estrofe de certo número de versos que faz parte de uma canção ou cançoneta.&lt;br /&gt;67) Bastas. Feminino de basto, espesso, denso, abundante.&lt;br /&gt;68) Londres. Capital do Reino Unido (United Kingdon of Great Britain and Northern Ireland). Constituído de Inglaterra, Gales, Escócia e Irlanda do norte. A chamada Grã Bretanha, a maior ilha da Europa, é constituída da Inglaterra, Gales e Escócia. O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do norte, na área metropolitana, tem uns dez milhões de habitantes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Virgem do Crateús&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Oh! não!... pincel, não pode o mais sublime&lt;br /&gt;Pintar o brilho teu!&lt;br /&gt;A poesia te cante; ela se exprime&lt;br /&gt;Co’a linguagem do céu.&lt;br /&gt;(D. Antônia Gertudres Purich – Portuguesa)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Há na minha província uma ribeira,&lt;br /&gt;Um sertão, onde eu vi a vez primeira&lt;br /&gt;Sorrir-me da existência a doce luz:&lt;br /&gt;Tem o nome da tribo (1)que o habitava,&lt;br /&gt;Quando ao rude tapuia (2) entregue estava,&lt;br /&gt;Esse nome, sabei-o, - “Crateús.” (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem matas sombrias, espaçosas,&lt;br /&gt;Não tem serras soberbas, grandiosas,&lt;br /&gt;Que apontem gigantescas para o céu:&lt;br /&gt;Tem somente campinas decoradas&lt;br /&gt;De campestres ervinhas perfumadas,&lt;br /&gt;Que estendem sobre o chão seu verde véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem várzeas vicejantes, salpicadas,&lt;br /&gt;De um sem número de flores nacaradas,&lt;br /&gt;E brancas como a rosa e o jasmim;&lt;br /&gt;E d’outras mui gentis, cheirosas flores,&lt;br /&gt;Tão belas no matiz, nas várias cores,&lt;br /&gt;Esmaltando o tapete de capim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois foi nessa ribeira, em que a verdura&lt;br /&gt;Parece uma alongada cobertura,&lt;br /&gt;Tecida pela mão do próprio Deus,&lt;br /&gt;Onde também gozou a luz primeira,&lt;br /&gt;Aquela que é rainha da ribeira&lt;br /&gt;Na formosura d’anjo e dotes seus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pintá-la... tentativa sem proveito!&lt;br /&gt;Só a mente a concebe, só o peito,&lt;br /&gt;E os olhos, que deslumbram o seu fulgor!&lt;br /&gt;Palavras... essas não, que a não descrevem,&lt;br /&gt;Que lhes faltam perfumes; não se atrevem&lt;br /&gt;Nem sequer a esboçar-lhe a tez., a cor!&lt;br /&gt;Quem pudera pintar-lhe os fios (4) louros?&lt;br /&gt;Os meigos, vivos olhos - dois tesouros,&lt;br /&gt;Que pudera-os (5) pintar? – Certo, ninguém!&lt;br /&gt;Azula-se debalde o firmamento,&lt;br /&gt;Debalde o graminoso pavimento&lt;br /&gt;Verdeja sobre a terra - aqui – além! –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, tentemos, talvez...; busquemos cores:&lt;br /&gt;Que modelos gentis, encantadores&lt;br /&gt;Nos of’recem (6) o céu, a terra, o mar;&lt;br /&gt;Há’í cores por certo primorosas;&lt;br /&gt;Mas não são como as cores graciosas&lt;br /&gt;Dos olhos que eu procuro, em vão pintar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles têm um volver tão deleitoso!&lt;br /&gt;Uma luz que a luzir infiltra um gozo,&lt;br /&gt;Que as fibras vão queimar no coração!&lt;br /&gt;Que abrasa sem matar, que dá mais vida,&lt;br /&gt;Parece uma centelha despedida&lt;br /&gt;Lá do céu... mas não sei se será, não!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua boca de rosa, seu sorriso&lt;br /&gt;Entreaberto – parece um paraíso!&lt;br /&gt;Seus dentes, nem o gelo (7) é branco assim!&lt;br /&gt;Se ela dá-me (8) uma fala modulada&lt;br /&gt;Pelas falas dos anjos – afinada, -&lt;br /&gt;Se ela ri-se (9) donosa para mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! que eu homem não fico! – mudo e frio,&lt;br /&gt;Me converte em estátua o calefrio (10)&lt;br /&gt;Que nos gélidos membros me coou!&lt;br /&gt;Empanam-se-me os olhos, enlanguescem&lt;br /&gt;E das faces as cores desfalecem&lt;br /&gt;Como o lírio pendido que murchou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que belas são as cores da alvorada!&lt;br /&gt;A aurora tem a face tão rosada!&lt;br /&gt;É meiga em seu sorrir – é meiga, sim!&lt;br /&gt;Tem flores, tem perfumes – é tão bela!&lt;br /&gt;Mas não tem o que tem no riso dela&lt;br /&gt;Quando ri-se, (11) donosa para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher ela não é: silfo (12) ligeiro,&lt;br /&gt;Percorrendo, talvez, o mundo inteiro,&lt;br /&gt;Anda ao peito a acordar novo sentir!...&lt;br /&gt;É, talvez, uma idéia sedutora...&lt;br /&gt;É, talvez, um sorriso da SENHORA, (13)&lt;br /&gt;Que pairou sobre a terra a refulgir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me dera gozar um só instante –&lt;br /&gt;Agora – aquele olhar tão cintilante,&lt;br /&gt;Que só têm as estrelas lá no céu!&lt;br /&gt;Quem me dera! Tão longe!... o que faz ela?&lt;br /&gt;Dorme? Sonha? – Talvez! Nem eu, donzela,&lt;br /&gt;Poder do sonho teu rasgar o véu!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infeliz que sou eu! Nunca julguei-o, – (14)&lt;br /&gt;Este inferno, em que ardo, em que me ateio!&lt;br /&gt;Mas de que me queixar? – quem m’o forjou?&lt;br /&gt;Ajuntei em montões os combustíveis,&lt;br /&gt;Acendi, aticei-os! E, insofríveis,&lt;br /&gt;Ardo neles! Meu Deus! Que infeliz sou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insofríveis! Oh! não: por ti querida,&lt;br /&gt;Eu dera de bom grado a própria vida;&lt;br /&gt;Qu’importa?... A dura ausência terá fim.&lt;br /&gt;Serei, serei um dia venturoso,&lt;br /&gt;O futuro me acena dadidoso;&lt;br /&gt;Que bens que ele entesoura para mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! e quanto eu te adoro, ó minha imagem!&lt;br /&gt;Gemerei; mas não temas vassalagem,&lt;br /&gt;De meu peito pra outra: oh! isto não.&lt;br /&gt;Sou firme como a rocha combatida,&lt;br /&gt;Donde a vaga recua espavorida,&lt;br /&gt;Como a fé que desprende a contrição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Linda virgem, feitiço (15) de minh’alma,&lt;br /&gt;Nem sabes quanto sofro! Em doce calma&lt;br /&gt;Tu, porém, bebe o ar desse sertão!&lt;br /&gt;Linda virgem, meu anjo, meu tormento,&lt;br /&gt;Sobe às asas sutis do veloz vento&lt;br /&gt;Vem dar-me um lenitivo ao coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é moça, meu Deus! – é uma idéia&lt;br /&gt;Angélica, querida, que volteia&lt;br /&gt;Em torno à mente minha: mulher não!&lt;br /&gt;É talvez, um sorriso da SENHORA,&lt;br /&gt;Transformado em imagem sedutora&lt;br /&gt;Que pede neste mundo adoração.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Tribo. Referência aos Crateús, índios que habitaram a região do hoje município de Crateús, Ceará. No tempo em que o poeta escreveu, Crateús pertencia ao Piauí – com o nome de dois municípios – Independência e Príncipe Imperial. O Piauí trocou os dois pelo de Amarração, hoje Luís Correia, porto marítimo. O Ceará fundiu os municípios de Independência e Príncipe Imperial num só, com o nome de Crateús. Odilon Nunes, mais de uma vez, no 1º Volume de “Pesquisas para a História do Piauí”, faz referência aos índios Crateús. Eis um passo: “Em 1703, os Anapurus pedem aldeamento, mas um pouco mais tarde estão a perturbar a tranqüilidade dos colonos, e assim também os Crateús que levam o desassossego ao Ceará e Piauí e contra os quais toma o Governador de Pernambuco medidas repressivas”. (pág. 109).&lt;br /&gt;2) Tapuia. Índios bárbaros. Tapuias habitavam o norte, e tinham muitas tribos com várias denominações.&lt;br /&gt;3) Crateús. Veja nota 1.&lt;br /&gt;4) Fios. Empregado como cabelos.&lt;br /&gt;5) Quem pudera-os pintar. Na época em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: quem os pudera pintar ou quem pudera pintá-los.&lt;br /&gt;6) Of’recem. O poeta suprimiu a vogal e para diminuir uma sílaba (necessidade de metrificação).&lt;br /&gt;7) Gelo. Empregado no lugar de neve.&lt;br /&gt;8) Se ela dá-me. Na época em que o poeta escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: se ela me dá.&lt;br /&gt;9) Se ela ri-se. Veja nota 8.&lt;br /&gt;10) Calefrio. Também calafrio. Formas variantes.&lt;br /&gt;11) Quando ri-se. Veja nota 8.&lt;br /&gt;12) Silfo. “Ser macho sobrenatural, que, segundo crenças celtas e germânicas, ocupava no mundo invisível posto intermediário entre gnomo e a fada”. (Nascentes).&lt;br /&gt;13) Senhora. Nossa Senhora.&lt;br /&gt;14) Nunca julguei-o. Veja nota 8&lt;br /&gt;15) Feitiço. Para uns provém de feito mais sufixo iço, nome dado ao ídolo feito pelo próprio adorador. Para outros promana do latim facticiu, com evolução fonética normal. Empregado como encantamento, encanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Careço de Teu Amor&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu careço (1) de ti, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como da rotação carece a terra,&lt;br /&gt;Como d’alma carece o corpo imbele, (2)&lt;br /&gt;Como o mundo de tudo quanto encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu careço da luz desses teus olhos,&lt;br /&gt;Como as plantas da luz do sol carecem,&lt;br /&gt;E da gota d’orvalho a flor no prado,&lt;br /&gt;E da mansão celeste os que falecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu careço do teu riso fagueiro,&lt;br /&gt;Como o crepusc’lo (3)do fulgir d’aurora,&lt;br /&gt;Como carece o arrebol do ocaso,&lt;br /&gt;E a terna virgem do chorar que chora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu careço do teu falar tão meigo,&lt;br /&gt;Como dos bosques das brisas sussurrantes,&lt;br /&gt;Como os regatos do arenoso leito,&lt;br /&gt;Por onde se deslizam murmurantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, do teu hálito, careço, ó bela,&lt;br /&gt;Como o vivente do ar que se respira,&lt;br /&gt;Como os astros do céu, onde fulguram,&lt;br /&gt;Como a rosa do aroma que transpira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu amor careço, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como das ondas da praia em que se quebram,&lt;br /&gt;Como as aves do canto mavioso&lt;br /&gt;Com que tão docemente se requebram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu amor careço, ó minha amada,&lt;br /&gt;Como o nauta carece da bonança,&lt;br /&gt;Como um peito que geme consternado&lt;br /&gt;Carece de seus males a mudança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu és o meu santelmo, (4) a minha vida,&lt;br /&gt;Sem ti o q’eu seria? um desgraçado,&lt;br /&gt;Folha seca do ramo desprendida,&lt;br /&gt;Um fantasma na vida já penado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou se não fora muito: apenas sombra,&lt;br /&gt;De um ente que amou tanto, e, malfadado,&lt;br /&gt;Vive dores curtindo e acerbas penas,&lt;br /&gt;Os dias consumindo desgraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu te amo, como se ama a meiga aurora,&lt;br /&gt;A noite de luar, a flor do prado,&lt;br /&gt;Os favônios (5) brincões, e as harmonias&lt;br /&gt;Dos cantores gentis do bosque ondado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual alma e carinhosa mãe solicita&lt;br /&gt;O filhinho que aperta sobre o peito,&lt;br /&gt;Assim eu te consagro amor tão íntimo&lt;br /&gt;Que não posso dizer-t’o (6) com efeito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Maria, meu anjo, quanto te amo&lt;br /&gt;Eu não posso dizer-t’o! Como ousara&lt;br /&gt;Sem palavras que exprimam quanto sinto!&lt;br /&gt;Como eu te amo, ninguém talvez amara!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu és o meu santelmo, a minha vida,&lt;br /&gt;Sem ti o q’eu seria? – um desgraçado,&lt;br /&gt;Folha seca do ramo desprendida,&lt;br /&gt;Um fantasma na vida já penado!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Eu careço. Rigorosamente o verbo carecer significa não ter: ele carece de razão, isto é, não tem razão. Aparece também em grandes escritores como necessitar, da forma em que empregou o poeta.&lt;br /&gt;2) Imbele. Fraco, sem forças.&lt;br /&gt;3) Crepusc’lo. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação. Crepúsculo.&lt;br /&gt;4) Santelmo. Chama azulada que, principalmente, em ocasiões de tempestade, aparece nos mastros dos navios, por efeito da eletricidade (Aurélio).&lt;br /&gt;5) Favônios. Vento fagueiro, suave.&lt;br /&gt;6) Dizer-to. To aqui é combinação do pronome átono te com o demonstrativo o: dizer-te isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Voto de Gratidão&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(À filantropia do ilustre cidadão inglês o Sr. George Patchett, tão bem prodigalizada na calamitosa quadra epidêmica em que nos achamos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Semper bonus, nomenque tuum, laudesque manebunt.”&lt;br /&gt;(Virgílio)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Poeta, não me curvo ante os altares&lt;br /&gt;Da lisonja que sempre detestei;&lt;br /&gt;Nunca da lira fiz subir aos ares&lt;br /&gt;Vendidos cantos, - nunca os modulei.&lt;br /&gt;Só presto culto à cândida amizade,&lt;br /&gt;À virtude, ao herói só prestarei;&lt;br /&gt;Só me curvo ante o altar da Divindade;&lt;br /&gt;No pó da infâmia nunca rojarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estro de minha pátria, santo enleio,&lt;br /&gt;Que meu peito dilata, ó gratidão!&lt;br /&gt;Derrama nestes metros (1) que encadeio&lt;br /&gt;Tua doce e suave inspiração.&lt;br /&gt;Que eu diga em poucos versos as virtudes&lt;br /&gt;Daquele piedoso coração,&lt;br /&gt;Onde não cabem preconceitos rudes,&lt;br /&gt;E só ferve o ardor da compaixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho querido de Albion, (2) teu nome&lt;br /&gt;Entre nós assumiu alto renome,&lt;br /&gt;Co’o o heróico Pernambuco há de morrer;&lt;br /&gt;Mas, enquanto o pendão de sua glória&lt;br /&gt;Tremular nos anais de nossa história,&lt;br /&gt;Teu nome abençoado há de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sorte, que te olhou tão davidosa,&lt;br /&gt;Não a vês a sorrir-te mais donosa,&lt;br /&gt;Mostrando-te um porvir de tanta luz?&lt;br /&gt;É o fogo celeste que fulgura!...&lt;br /&gt;Que espera decorar-te a fronte pura&lt;br /&gt;Do lume etéreo, que no céu transluz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filha de Deus, excelsa caridade!&lt;br /&gt;Com teus louros de tanta piedade&lt;br /&gt;Engrinaldaste a fronte do bretão: (3)&lt;br /&gt;São louros eternais, que não fenecem.&lt;br /&gt;Imarcescíveis – nunca se esvaecem,&lt;br /&gt;Perfumados do orvalho de Sião. (4)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este povo tão nobre e hospitaleiro,&lt;br /&gt;Que, sempre denodado, do estrangeiro&lt;br /&gt;Soube o jugo tirano sacudir,&lt;br /&gt;Não se humilha à mentida potestade,&lt;br /&gt;Mas aos feitos da santa caridade&lt;br /&gt;Profunda gratidão sabe nutrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe! Terra de bravos, belicosa,&lt;br /&gt;Nos triunfos, doutrora, tão famosa,&lt;br /&gt;Quando em prol de seus foros batalhou,&lt;br /&gt;Repeliu sempre o ousado aventureiro;&lt;br /&gt;Mas hoje ao heroísmo do estrangeiro&lt;br /&gt;Tributa as homenagens que ganhou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz do povo quando na batalha&lt;br /&gt;Expõe o peito impávido à metralha&lt;br /&gt;Ensurdecido aos ecos do canhão,&lt;br /&gt;Por libertar a pátria escravizada;&lt;br /&gt;E depois – beija a mão abençoada&lt;br /&gt;Do estranho que leniu sua aflição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pátria de Newton, 5 Inglaterra, exulta&lt;br /&gt;Aos sons da lira brasileira – inculta!&lt;br /&gt;Novo lustre realça os brilhos teus.&lt;br /&gt;Nas artes, no comércio poderosa,&lt;br /&gt;Nova c’roa (6) te cinge luminosa,&lt;br /&gt;Mais grata aos homens e mais grata a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas dores, bretão, não tens poupado&lt;br /&gt;À terna filha, ao filho desvelado,&lt;br /&gt;À mãe solícita, ao afanado pai?&lt;br /&gt;Quantas dores, bretão, tens removido&lt;br /&gt;Do par ditoso que somente unido&lt;br /&gt;Ditosa a vida no correr lhe vai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem sublime! Herói – que herói se chama&lt;br /&gt;Aquele que se aquece à pia (7) chama&lt;br /&gt;Da caridade – aceita o voto meu&lt;br /&gt;De eterna gratidão, - filho somente&lt;br /&gt;De um peito brasileiro incandescente&lt;br /&gt;À nobre ação que te franqueia o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho querido de Albion, teu nome&lt;br /&gt;Entre nós assumiu alto renome,&lt;br /&gt;Co’o o heróico Pernambuco há de morrer;&lt;br /&gt;Mas, enquanto o perdão de sua glória&lt;br /&gt;Tremular nos anais de nossa história,&lt;br /&gt;Teu nome abençoado há de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife (pelo cólera), 22 de março de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Metros. O mesmo que versos.&lt;br /&gt;2) Álbiom. Antigo nome da Inglaterra. Pronuncia-se Ólbion. Ainda hoje por Álbion se designa literalmente a Inglaterra. Em inglês a palavra não toma acento gráfico. Pode em português escrever-se Albião.&lt;br /&gt;3) Bretão. Da Bretanha. O mesmo que inglês.&lt;br /&gt;4) Sião. Em hebraico Zion, Tsion. Nome de uma das colinas de Jerusalém. Nome que também poeticamente se aplicou a toda a cidade de Jerusalém. Tornou-se o símbolo da esperança da volta do povo judeu para a Palestina. Sião tem sido motivo poético desde o rei-poeta Davi e outros autores dos salmos bíblicos, até Dante e Camões.&lt;br /&gt;5) Newton (Isaac). Físico e matemático inglês (1642 – 1727). Descobridor da gravitação e da teoria das cores. Obra principal: “Philosophiae naturalis principia mathematica” (Princípios matemáticos da filosofia natural), em que a formulação definitiva da mecânica de Galileu e abriu caminho para as descobertas do setor da mecânica celeste e continuou incontestada até a formulação da teoria da relatividade. Estabeleceu os fundamentos do cálculo infinitesimal.&lt;br /&gt;6) C’roa. Coroa. Suprimida uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;7) Pia. Piedosa.&lt;br /&gt;Observação: No final da poesia, José Coriolano escreveu: pelo cólera. Segue-se o estudo.&lt;br /&gt;CÓLERA-MORBUS. Ou cólera-morbo, ou simplesmente cólera. Assim descreve Drigalski a respeito deste mal. “Tão rica em maravilhas mas tão fértil em calamidades, tão freqüentemente maltratada pela natureza como pelos conquistadores é a Índia, que foi em todos os tempos e que é ainda a sede de um outro mal terrível. Na planície compreendida entre o delta do Ganges, o Hongli, o Bramaputra e os contrafortes do Himalaia uma epidemia violenta irrompe freqüentemente. No mais quente verão – na estação fria isto se produz mais raramente – acontece sempre que um indígena, depois de ter consumido os belos frutos da região, bebido da água de uma lagoa sagrada ou de algum poço, seja presa de uma doença repentina. Todo o corpo parece esvaziar-se numa diarréia irrepreensível; apesar do calor, o doente não pode transpirar. Sofre uma sede insaciável, sua face torna-se toda parda, seu corpo se desseca, seus membros tornam-se arroxeados e frios. A voz fica tão fraca, que ele só pode falar com grandes esforços. Perde logo os sentidos”. Todos os continentes conheceram o terrível mal. Na América do Sul, só em 1869 foi extinto.&lt;br /&gt;Cólera, como paixão, ira, frenesi é a palavra feminina. E quanto à doença, deve dizer-se o cólera ou a cólera? Referindo-se à doença, Aurélio dá cólera como substantivo feminino e masculino: a cólera, o cólera.&lt;br /&gt;Eis anotação de Silveira Bueno: “ O substantivo cólera é feminino, mas no composto cólera-morbus vem predominando o gênero masculino de morbus. A maioria dos gramáticos insiste no gênero: a cólera-morbus. A maioria, porém, do povo teima em levar ao masculino: o cólera-morbus. Quem vencerá? O povo” (Questões de Português” – pág. 87).&lt;br /&gt;Napoleão Mendes de Almeida sustenta que “o composto cólera-morbo é do gênero feminino”.&lt;br /&gt;Por esta forma se manifesta Cândido de Figueiredo: “Ao ler diariamente os numerosos telegramas que nos anunciam os casos coléricos da Rússia, de Paria, e da Itália, sinto destes calafrios, que não exprimem terror, mas uma repugnância instintiva pelo nome que dão à epidemia: o cólera”. (“Lições da Língua Portuguesa” 2º vol – 1901 – Lisboa – pág. 300). E acrescenta: “A palavra cólera, de origem grega, é feminina em todos os dicionários do respectivo idioma; passou para o latim, e ali também conservou o gênero feminino; passou para o português e aqui foi sempre feminino na boca dos mestres da língua e nos dicionários de melhor nome”.&lt;br /&gt;Julgo oportuno transcrever estas considerações de Vasco Botelho de Amaral (“Problemas da Linguagem e do Estilo” – 1948 – págs. 190 a 192): “Quem abrir um dicionário de grego, como o de Bailly, por exemplo, encontra lá o vocábulo khole, biles, fel, e, no sentido figurado, cólera, ira. Em kholera, feminino, já se lê o sentido especial da doença. O latim recebeu do grego a palavra e pode ver-se em Quicherat que o vocábulo cholera, também feminino, significa na língua latina a biles, ou a doença da cólera, ou o sentimento da ira.&lt;br /&gt;Tanto nesses dicionários, grego de Bailly ou latino de Quicherat, como noutros, toda gente pode verificar que o vocábulo greco-latino referia muita vez o próprio vômito que caracteriza tão medonha doença.&lt;br /&gt;Temos, pois, que a palavra cólera já no grego e no latim nomeava a doença física e a doença sentimental, com a biles como base das perturbações, e já nessas línguas era feminina.&lt;br /&gt;Passemos agora a ver o que aconteceu em francês.&lt;br /&gt;Consultando etimólogos franceses, como Dauzat, aprendemos que o latim cholera deu em francês choléra (como nome da doença caracterizada pelos vômitos, isto é, pelas perturbações biliosas) e colère, isto é, ira.&lt;br /&gt;Colère é feminina em francês. Mas le choléra (o nome da doença) é masculino.&lt;br /&gt;Ora, como em Portugal há muita gente que se limita a papaguear a França, o gênero masculino francês do nome da doença começou a aparecer em traduções portuguesas. Começou quando?&lt;br /&gt;Quando – não se sabe. Mas eu direi: sempre que a doença flagela alguma região do globo, a língua francesa espalha a notícia e os tradutores portugueses espalham a asneira de cólera no masculino.&lt;br /&gt;Ora, não está certo que os nossos diários e, em reflexo do noticiário das agências, também as emissoras, ora empreguem a palavra num gênero ora noutro. Uns chamam a essa horrível doença a cólera; outros o cólera.&lt;br /&gt;De estranhar é que a nossa Imprensa e a nossa Rádio concedam à palavra dois gêneros.&lt;br /&gt;Mas eu ainda me admiro mais de não haver censura para certas indisciplinas. A vítima é sempre a língua portuguesa; e o resultado, a desorientação do público.&lt;br /&gt;Em Portugal e no Brasil foram vários os filósofos que se ocuparam do gênero da palavra cólera. Entre outros, defenderam a feminilidade de cólera os autores seguintes: Leite de Vasconcelos, Cândido de Figueiredo. Ribeiro de Vasconcelos, Gonçalves Viana.&lt;br /&gt;Era de supor que, depois das advertências desses Mestres da língua, não mais tornasse a aparecer “o cólera” em letra de forma. Redondo engano. A palavra hoje continua a ser tratada como hermafrodita pelos tradutores e pelos redatores portugueses.&lt;br /&gt;Não se julgue que tal gênero incorreto não aparece em obras de responsabilidade. O excelente Dicionário de Aulete e Valente apresenta cólera no masculino, o que é verdadeiramente lamentável.&lt;br /&gt;Além da sobredita razão de o vocábulo ser em grego e em latim o mesmíssimo que traduz a doença e o sentimento, além dessa razão, há ainda a contribuir para o gênero feminino a terminação em a, peculiar de tal gênero, e o uso dos melhores autores portugueses.&lt;br /&gt;Os mais competentes autores de obras de Medicina em Portugal e no Brasil adotaram sempre a cólera, e não o cólera, à francesa.&lt;br /&gt;Artistas da pena sempre lhe deram esse gênero, como Alexandre Herculano, o qual em O Monge de Cister escreveu:&lt;br /&gt;“Com rapidez da cólera ou da peste...” (IX, tomo I, 17ª edição).&lt;br /&gt;Muitas vezes acrescenta-se à palavra cólera o vocábulo latino morbus, isto é, doença. Como é masculino, toma-se em francês o conjunto le cholère-morbus como masculino. Os tradutores portugueses imitam e dizem “o cólera-morbus”.&lt;br /&gt;Ainda neste caso, devemos, porém, corrigir para o feminino, considerando morbus como um elemento justaposto de cólera, que é feminino.&lt;br /&gt;No dicionário de Dificuldades indiquei aos estudiosos esta abonação de Garret, nas Obras Completas: “é a cólera-morbus”.&lt;br /&gt;Em suma: o cólera, o cólera-morbus são erros. A cólera ou, então, a cólera-morbo – sempre feminino. Eis a correção indiscutível”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Donzela e a Sensitiva&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A donzela é prazenteira,&lt;br /&gt;Como a aurora quando raia;&lt;br /&gt;Tão fulgente,&lt;br /&gt;Tão nitente,&lt;br /&gt;Como a luz que o sol espraia:&lt;br /&gt;Ela é como a sensitiva, (1)&lt;br /&gt;Que ao leve toque desmaia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão meiga como o riso&lt;br /&gt;Da criancinha inocente;&lt;br /&gt;É mimosa,&lt;br /&gt;Duvidosa&lt;br /&gt;Qual luz d’aurora nascente:&lt;br /&gt;Ela é como a sensitiva,&lt;br /&gt;Que do toque se ressente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A donzela tem caprichos,&lt;br /&gt;Como as vagas caprichosas;&lt;br /&gt;É qual bela&lt;br /&gt;Meiga estrela&lt;br /&gt;Sobre as águas marulhosas:&lt;br /&gt;Ela é como a sensitiva,&lt;br /&gt;Como as flores mais donosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes nas faces dela&lt;br /&gt;Brilha a cor que tem a rosa,&lt;br /&gt;Desbotada,&lt;br /&gt;Desmaecida&lt;br /&gt;Depois vê-se a cor mimosa.&lt;br /&gt;Ela é como a sensitiva,&lt;br /&gt;Que se ofende melindrosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, às vezes a donzela&lt;br /&gt;É como a cecém (2)cheirosa&lt;br /&gt;Sempre amada,&lt;br /&gt;Festejada;&lt;br /&gt;Outras vezes melindrosa.&lt;br /&gt;Assim como a sensitiva,&lt;br /&gt;Como as vagas – caprichosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A donzela oculta espinhos&lt;br /&gt;Como a rosa em defensiva;&lt;br /&gt;Se embravece,&lt;br /&gt;Mas murchece&lt;br /&gt;Depois como a sensitiva!&lt;br /&gt;Às vezes ela é tão branda!&lt;br /&gt;Outras vezes tão altiva!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Sensitiva.Planta. Noutro local há comentário sobre sensitiva.&lt;br /&gt;2) Cecém. O mesmo que açucena.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Órfã de Amor&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;A Rosa Desfolhada&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quanto minha sina se assemelha&lt;br /&gt;À triste sina desta pobre flor!&lt;br /&gt;Ambas sofremos o rigor da sorte,&lt;br /&gt;Ambas somos, meu Deus, órfãs de amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quente estio dissecou-lhe as pet’las, (1)&lt;br /&gt;O vento desfolhou-a pelo chão,&lt;br /&gt;Faltou-lhe o orvalho da manhã serena,&lt;br /&gt;Como a mim o bater de um coração...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu foi meu rival! E o sol brilhante&lt;br /&gt;Que nos dias felizes me raiou,&lt;br /&gt;Também se converteu em sol nocivo,&lt;br /&gt;Que a seiva desta vida ressecou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também as mansas auras que brincavam&lt;br /&gt;Com meus soltos cabelos pelo ar,&lt;br /&gt;Tornaram-se tufões ardentes, rijos,&lt;br /&gt;E ousaram meus amores desfolhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém diz-me, flor, que te secaste&lt;br /&gt;Ao sol estivo, (2) que te fez morrer,&lt;br /&gt;Não há para o perfume e para a vida&lt;br /&gt;Uma terra em que devem reviver?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Pét’las. Pétalas. O autor suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;2) Estivo. De estio, de verão. Estival.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Vítima do Poder&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Fato)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pão, Senhor, um pão vos eu suplico,&lt;br /&gt;Oh, se não, desta vida alivia-me.&lt;br /&gt;Mil inferno, não valem, não importam&lt;br /&gt;Os tormentos cruéis que a alma me pugem!&lt;br /&gt;Desde muito, Senhor, meus longos males&lt;br /&gt;Hei servido comigo – a sós – em pranto;&lt;br /&gt;Mas a fome voraz me abrasa toda,&lt;br /&gt;E a vossos pés prostrada um pão esmolo!&lt;br /&gt;Meu marido morreu, da sanha vítima&lt;br /&gt;De tiranos mandões – assassinado!&lt;br /&gt;Culpado nunca foi, - honesto e probo,&lt;br /&gt;Tendo o voto prestado em prol da pátria,&lt;br /&gt;Foi convicto (1) de crime! Oh tirania!&lt;br /&gt;Meu filho, que a seu pai sobrevivera,&lt;br /&gt;Que curava de mim pobre, abatida,&lt;br /&gt;Foi gemer na chibata desvalido,&lt;br /&gt;Deixando desolada a mãe viúva!&lt;br /&gt;E que crime, Senhor, meu filho tinha?&lt;br /&gt;Que vícios, que maldades no seu peito&lt;br /&gt;Podiam asilar-se em tal idade?&lt;br /&gt;Ah! seus crimes, seus vícios eram estes:&lt;br /&gt;O ser filho de um pai honesto e probo,&lt;br /&gt;O cuidar de uma mãe misera e velha,&lt;br /&gt;Que o esposo dia e noite pranteava,&lt;br /&gt;Único apoio de um irmãzinha, o único&lt;br /&gt;Que bis restava, além do pai celeste.&lt;br /&gt;Potentados da terra, homens sinistros,&lt;br /&gt;Que a sede saciais no sangue nosso,&lt;br /&gt;Essa sede cerval, (2) - temei perversos,&lt;br /&gt;Temei de Deus a vingadora espada,&lt;br /&gt;Que mil galopes fulmina aos infratores&lt;br /&gt;Dos seus santos preceitos de igualdade.&lt;br /&gt;Senhor, se acaso sois também tirano,&lt;br /&gt;Se é férreo vosso peito, ímpio, sangrento,&lt;br /&gt;Vossa esmola desprezo, e só desejo&lt;br /&gt;Que esta vida fatal tirai-m’a presto. (3)&lt;br /&gt;Meu Deus! meu deus! perdão! vede – eu deliro!&lt;br /&gt;Entre as vascas cruentas d’agonia,&lt;br /&gt;Meu esposo me fala, e o desgraçado,&lt;br /&gt;O meu querido filho das entranhas&lt;br /&gt;Eu – lá vejo gemer sob a chibata,&lt;br /&gt;Curvado, envolto em sangue e sem alento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;* *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim delirava a triste,&lt;br /&gt;Do tempo exposta ao rigor;&lt;br /&gt;Oh! que peito humano houvera&lt;br /&gt;Infenso à tamanha dor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolto seu corpo em trapos,&lt;br /&gt;Como seu rosto em palor,&lt;br /&gt;Rojava no chão a triste&lt;br /&gt;Agonizante – em furor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois soltou um gemido,&lt;br /&gt;Tremeu e quêda (4)ficou:&lt;br /&gt;Toquei-a! que horror! – gelada!&lt;br /&gt;A desgraçada expirou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quantos assim se acabam,&lt;br /&gt;Como essa pobre acabou!&lt;br /&gt;Seu filho sob a chibata&lt;br /&gt;Quem sabe? – talvez findou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a orfanzinha, coitada!...&lt;br /&gt;Que será dela também!&lt;br /&gt;Oh! quanto a pobre criança&lt;br /&gt;Na vida sofrido tem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é sonho isto que ledes,&lt;br /&gt;Nem poética ficção,&lt;br /&gt;Pois eu vi convulsa a pobre,&lt;br /&gt;Vi-a estendida no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois toquei o seu corpo!&lt;br /&gt;Coitada! Não tinha ação,&lt;br /&gt;Da terra havia voado&lt;br /&gt;Para a celeste mansão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Convicto. Qualificativo do réu cujo crime ficou provado.&lt;br /&gt;2) Cerval. Relativo ao cervo.&lt;br /&gt;3) Tirai-ma presto. O ma corresponde à combinação dos pronomes me e a: tirai a vida (ela: a) a mim (me). Presto: com presteza.&lt;br /&gt;4) Queda. Feminino do adjetivo quedo (quê). Que não se move. Calmo. Sossegado.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nos Anos de Maria&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(em 21 de dezembro de 1856)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já um sol Deus tinha feito&lt;br /&gt;Quis Deus fazer outro sol&lt;br /&gt;Com crepusc’lo (1)mais fagueiro&lt;br /&gt;Com mais fagueiro arrebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já uma aurora existia&lt;br /&gt;Ornada d’oiro e rubim (2)&lt;br /&gt;Porém Deus fez outra aurora&lt;br /&gt;Mais formosa para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nos céus milhões de estrelas&lt;br /&gt;Cintilavam a fulgir;&lt;br /&gt;Porém Deus fez outra estrela&lt;br /&gt;Que tem mais doce luzir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já uma luz espargia&lt;br /&gt;Sua luz d’almo (3) fulgor;&lt;br /&gt;Porém Deus fez outra lua&lt;br /&gt;Mais bela por seu langor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já mil flores recendiam,&lt;br /&gt;O cravo, a rosa, o jasmim;&lt;br /&gt;Porém Deus das flores todas&lt;br /&gt;Criou outra flor pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sol novo, e a nova aurora,&lt;br /&gt;E a nova estrela a luzir,&lt;br /&gt;E a nova flor, que eu adoro,&lt;br /&gt;E a nova lua a fulgir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És tu, Maria formosa,&lt;br /&gt;Mulher fagueira e gentil,&lt;br /&gt;Que os mesmos astros supera&lt;br /&gt;Que giram no céu d’anil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sol dos amores&lt;br /&gt;De meigos fulgores&lt;br /&gt;Sepulta os ardores&lt;br /&gt;No mar ou lá não?&lt;br /&gt;Num bar bem estreito:&lt;br /&gt;Sepulta-os de feito&lt;br /&gt;No mar de meu peito&lt;br /&gt;No meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a aurora nitente,&lt;br /&gt;Fagueira, ridente,&lt;br /&gt;Com manto rubente&lt;br /&gt;De roxo clarão,&lt;br /&gt;Me cura as feridas&lt;br /&gt;Na ausência sofridas,&lt;br /&gt;No pranto embebidas&lt;br /&gt;Do meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a estrela donosa&lt;br /&gt;Fadada, formosa,&lt;br /&gt;Querida, mimosa,&lt;br /&gt;De meigo clarão,&lt;br /&gt;Também no meu peito&lt;br /&gt;No mar bem estreito&lt;br /&gt;Tremula de feito,&lt;br /&gt;No meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a lua saudosa,&lt;br /&gt;Gentil, langorosa,&lt;br /&gt;De luz duvidosa,&lt;br /&gt;De frouxo clarão,&lt;br /&gt;No mar bem estreito&lt;br /&gt;Também de meu peito&lt;br /&gt;Reflete de feito&lt;br /&gt;No meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a flor engraçada,&lt;br /&gt;A flor perfumada,&lt;br /&gt;De todos amada&lt;br /&gt;No pátrio sertão,&lt;br /&gt;Exalam odores,&lt;br /&gt;Mimosos favores,&lt;br /&gt;Por ser os amores&lt;br /&gt;De meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol vem lá do oriente,&lt;br /&gt;Sepultar-se no ocidente&lt;br /&gt;Tingindo de fogo o mar,&lt;br /&gt;Dando á borboleta amores&lt;br /&gt;Nos refletidos fulgores,&lt;br /&gt;No refletido brilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez nasce brilhante&lt;br /&gt;Outra vez morre inflamante,&lt;br /&gt;Tingindo de purp’ra (4) o céu;&lt;br /&gt;Às trevas sucede o dia,&lt;br /&gt;Ao dia a noite sombria&lt;br /&gt;Coberta de escuro véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sempre o sol é fulgente&lt;br /&gt;Quando vem lá do oriente&lt;br /&gt;No occíduo (5) mar se ocultar,&lt;br /&gt;Durante o curso aclarando&lt;br /&gt;Montes, prados, e lançando&lt;br /&gt;Sobre tudo o seu brilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém este sol descrito&lt;br /&gt;Mesmo belo está proscrito&lt;br /&gt;D’outro sol pelo fulgor;&lt;br /&gt;D’outro sol que dentro d’alma&lt;br /&gt;Derrama cousa que acalma&lt;br /&gt;Gemidos de um trovador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um sol que é um céu formando&lt;br /&gt;Nele vê-se cintilando&lt;br /&gt;Mil planetas, é a flor&lt;br /&gt;Mais galante e meiga e pura,&lt;br /&gt;Tem a celeste figura&lt;br /&gt;Dos anjinhos do Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este sol mais refulgente,&lt;br /&gt;Que eu adoro ardentemente,&lt;br /&gt;Este sol do meu amor,&lt;br /&gt;Hoje viu a luz primeira,&lt;br /&gt;Luz vital, grata, fagueira,&lt;br /&gt;Luz de meigo resplendor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Crepúsc’lo. O poeta suprimiu uma sílaba por exigência de metrificação.&lt;br /&gt;2) Rubim. Há comentário noutra parte do livro.&lt;br /&gt;3) Almo. Noutro local há comentário sobre esta palavra.&lt;br /&gt;4) Púrp’ra. Púrpura. Veja nota 1.&lt;br /&gt;5) Occíduo. O mesmo que ocidental.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sabes Amar?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Talvez amar não saibas! Não, não sabes,&lt;br /&gt;Se vives satisfeito, se ela o vive;&lt;br /&gt;Se, quando te sorri, teu peito folga;&lt;br /&gt;Se uma palavra terna que te envia,&lt;br /&gt;Te arrebata ao pináculo da glória,&lt;br /&gt;E faz-te ouvir o sussurrar das brisas,&lt;br /&gt;E o murmúrio da fonte que serpeia,&lt;br /&gt;E o canto ingênuo das sonoras aves,&lt;br /&gt;E a deliciosa música dos anjos:&lt;br /&gt;Se assim é teu amor, amar não sabes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se teu peito torturado geme,&lt;br /&gt;Quando o sorriso nos seus lábios pousa,&lt;br /&gt;Se tua alma se alegra a sós contigo,&lt;br /&gt;Quando os seus olhos umedece o pranto;&lt;br /&gt;Se, a meiga voz te cala n’alma&lt;br /&gt;Seus ternos, suavíssimos acentos,&lt;br /&gt;Descrer do que ela diz, do que ela jura,&lt;br /&gt;E logo te arrependes e te humilhas,&lt;br /&gt;E incrédulo, depois, o amor praguejas:&lt;br /&gt;Se assim é o teu amor – amar tu sabes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de uma vez em minha triste vida&lt;br /&gt;Amor tenho ensaiado... hoje em meu peito&lt;br /&gt;À virgem do sertão derramo olores.&lt;br /&gt;Porém ela sorri, quando em me rio,&lt;br /&gt;É ditosa, é feliz, se eu sou ditoso.&lt;br /&gt;No passado houve alguém que escarnecia&lt;br /&gt;Do meu pranto e sofrer, mas que chorava,&lt;br /&gt;Se nos meus olhos, se nas minhas frases&lt;br /&gt;Descobria sinais de aprazimento: (1)&lt;br /&gt;Essa... amava-me, sim, mas era um monstro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor não gera em mim delícias brandas&lt;br /&gt;Nem razoável acho-o em seus efeitos:&lt;br /&gt;Faz-me o peito ferver em duras fráguas,&lt;br /&gt;E faz-me apetecer martírios dela!&lt;br /&gt;Sim, vê-la sempre rindo, encantadora,&lt;br /&gt;Botão que desabrocha ao romper d’alva,&lt;br /&gt;A falar-me de amor como os eflúvios&lt;br /&gt;Da noite que branqueja em noite estiva,&lt;br /&gt;Oh! fora para mim tormento e morte!&lt;br /&gt;Não quero o seu amor assim, - não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê-me o rosto a esp’rança (2) fulgorosa?&lt;br /&gt;Vê-me nos lábios o sorrir dos crentes?&lt;br /&gt;Vê-me nos olhos a paixão que brilha?&lt;br /&gt;Pois mostre-me no rosto o desalento,&lt;br /&gt;Mostre-me os lábios trêmulos sem vida,&lt;br /&gt;Mostre-me os olhos lânguidos de pena.&lt;br /&gt;Mas, se comigo sente as dores minhas,&lt;br /&gt;Eu vejo nela a serpe (3) que se finge;&lt;br /&gt;Se ao ver-me alegre, prazenteira folga,&lt;br /&gt;Eu julgo seu prazer filho do engano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar é mui difícil, pois só ama&lt;br /&gt;Quem sente amor contrário como eu sinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Aprazimento. Prazer. Contentamento.&lt;br /&gt;2) Esp’rança. Esperança. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;3) Serpe. O mesmo que serpente.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Êxtase&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Minh’alma, às vezes, de visões bem cheia&lt;br /&gt;Deixando a terra se remonta aos céus!&lt;br /&gt;Presa nas asas de eternal idéia,&lt;br /&gt;Descansa à sombra do espaldar de Deus!&lt;br /&gt;Momento doce que embriaga a mente&lt;br /&gt;Em doce arroubo que lhe faz sentir!&lt;br /&gt;Batendo as asas para o Céu ridente,&lt;br /&gt;Eia, minh’alma, vai ao Céu fruir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto é sublime do Supremo (1)a obra&lt;br /&gt;Que misteriosa se revela além!&lt;br /&gt;Segredo! – aos juizes do Senhor se dobra&lt;br /&gt;Tudo! – quem pode-os (2) penetrar? Ninguém!&lt;br /&gt;Somente o bardo nas canções singelas&lt;br /&gt;Do Eterno (3) o templo poderá abrir!&lt;br /&gt;Bate, minh’alma, tuas asas belas,&lt;br /&gt;Eia, minh’alma, vai ao Céu fruir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa as terrenas ilusões do mundo,&lt;br /&gt;Sobe, minh’alma, canta Hosana a Deus,&lt;br /&gt;Beija-lhe o sólio (4) com prazer profundo,&lt;br /&gt;Em coro – unidas com os anjinhos seus.&lt;br /&gt;Olvida as pompas que no mundo passam&lt;br /&gt;Qual da loureira (5) o desleal sorrir;&lt;br /&gt;Esquece enganos, que o porvir te embaçam:&lt;br /&gt;Eia, minh’alma, vai ao Céu fruir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando houveres em prazer banhado&lt;br /&gt;Teus seios – fartos – dos perfumes lá,&lt;br /&gt;Volta, minh’alma, do meu corpo ao lado&lt;br /&gt;Saudosa pousa, suspirando cá.&lt;br /&gt;Espera a hora do tremendo juízo, (6)&lt;br /&gt;Que há de no campo Josafá (7) surgir:&lt;br /&gt;E então que glória – dir-te-ei num riso:&lt;br /&gt;Eia, minh’alma, vai ao Céu fruir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Supremo. Deus.&lt;br /&gt;2) Quem pode-os. Na tempo em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: quem os pode.&lt;br /&gt;3) Eterno. Deus.&lt;br /&gt;4) Sólio. O mesmo que trono.&lt;br /&gt;5) Loureira. Loureira emprega-se como mulher de vida desregrada, também como mulher provocante e sedutora.&lt;br /&gt;6) Juízo. Referência ao juízo final, julgamento que Deus fará de todos os homens, no fim do mundo: “Serão todas as gentes congregadas em torno de Jesus Cristo, que separará uns dos outros como o pastor separa os cabritos das ovelhas, e assim porá as ovelhas à direita, e os cabritos (os pecadores) à esquerda”. (Padre J. Lourenço – Dicionário da Doutrina Católica”. 133).&lt;br /&gt;7) Josafá. Parece que o poeta não se refere ao célebre rei Josafá, de Judá. A referência parece feita ao vale de Josafá, identificado com o vale de Cedron, onde os católicos romanos e os maometanos dizem ser o lugar do juízo final. Simples conjetura.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os Dez Mandamentos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;1º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu te amo, ó bela! em ti, por ti, me inflamo...&lt;br /&gt;Meu peito já não sente um outro efeito&lt;br /&gt;Que não do teu amor! Se durmo e chamo...&lt;br /&gt;O lábio pronuncia&lt;br /&gt;Teu nome que radia&lt;br /&gt;N’est’alma, meu amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não juro à outra... não: oh! eu perjuro!...&lt;br /&gt;Eu? – nunca! Antes morrer numa espelunca (1)&lt;br /&gt;Como o tigre acoimado, fero (2) e duro.&lt;br /&gt;Jurar à outra bela,&lt;br /&gt;Trair-te, a ti, (3) por ela?...&lt;br /&gt;Isso não, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejas? queres?... Bem! Pra que tu vejas&lt;br /&gt;Que eu quero obedecer a quem venero,&lt;br /&gt;Viverei encerrado, se o almejas&lt;br /&gt;Nos domingos e dias&lt;br /&gt;De festas, d’alegrias,&lt;br /&gt;Viverei, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respeito aos caros pais. Negar-te o preito&lt;br /&gt;Que pede a amada e o amador concede&lt;br /&gt;Para os obedecer? (4) – não quer meu peito.&lt;br /&gt;Tudo farei, mas nisso,&lt;br /&gt;Não, não, doce feitiço, (5)&lt;br /&gt;Isso não, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida que ao mortal é tão querida&lt;br /&gt;Tira-la eu? Não: que horror que isto me cala!&lt;br /&gt;Mas em tua defesa – eu homicida (6)&lt;br /&gt;Serei, eu assassino,&lt;br /&gt;Tigre, monstro ferino,&lt;br /&gt;Mas por ti, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem visse teus encantos, quem sentisse&lt;br /&gt;O doce mimo que te envolve, e fosse&lt;br /&gt;Capaz de te ofender, e não nutrisse&lt;br /&gt;Um coração de fera,&lt;br /&gt;De tigre ou de pantera, (7)&lt;br /&gt;Isso não, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta, esse não furta: qual atleta,&lt;br /&gt;Desejo tem de herói: porém um beijo&lt;br /&gt;Eu morro para furtar-t’o: assim a meta&lt;br /&gt;Do heroísmo tocara;&lt;br /&gt;Somente assim furtara,&lt;br /&gt;Só assim, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E falso testemunho, em cujo encalço&lt;br /&gt;Descrido, eu apanhado, eu desmentido,&lt;br /&gt;Não, nunca levantei! Porém refalso (9)&lt;br /&gt;Um fato, uma verdade&lt;br /&gt;Por um f’licidade (10)&lt;br /&gt;Gozar-te, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comigo, tu, querida! Oh! eu contigo,&lt;br /&gt;Logrando o mago (11) céu, que ando sonhando&lt;br /&gt;No grêmio do consórcio, sacro abrigo&lt;br /&gt;Das pudibundas (12) almas,&lt;br /&gt;Sonhar lascivas palmas...&lt;br /&gt;Isso não, meu amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10º&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cobiça de que é d’outrem, que enfeitiça&lt;br /&gt;Um peito pouco nobre, à inveja afeito,&lt;br /&gt;Em mim seu torpe facho não atiça.&lt;br /&gt;Porém cobiço, bela,&lt;br /&gt;Os mimos que revela&lt;br /&gt;Teu coração de amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dez (13) se encerram em dous.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo a Deus (14) e a ti me inflamo...&lt;br /&gt;A Ele por ser Deus, tu, porque d’Elle&lt;br /&gt;És o mais precioso e gentil ramo.&lt;br /&gt;Depois da Divindade,&lt;br /&gt;A ti, minha beldade,&lt;br /&gt;A ti o meu amor.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;Observação: são dez os mandamentos da Lei de Deus: 1) adorar a Deus e amá-lo sobre todas as cousas; 2)não invocar o santo nome de Deus em vão; 3) santificar os domingos e festas de guarda; 4)honrar pai e mãe; 5) não matar; 6) gastar castidade nas palavras e nas obras; 7) não furtar; 8)não levantar falsos testemunhos; 9) guardar castidade nos pensamentos e nos desejos; 10) não cobiçar as cousas alheias.&lt;br /&gt;1) Espelunca. Lugar imundo. Origem grega, pelo latim.&lt;br /&gt;2) Fero. Noutro local há observação sobre fero.&lt;br /&gt;3) Trair-te, a ti – Caso de pleonasmo. Na frase há dois objetos: te e a ti.&lt;br /&gt;4) Para os obedecer. Embora antigamente se usasse o verbo obedecer com objeto direto (os), hoje se fixou o objeto indireto (lhes), como no caso.&lt;br /&gt;5) Feitiço. Noutro local há observação sobre feitiço.&lt;br /&gt;6) Homicida. Em homicida há a raiz latina de homine (homem), seguida da vogal de ligação dos elementos latinos, que é i, finalmente cida, derivado da raiz do verbo latino caedo, caedis, caedere, cecidi, caesum, com a significação de ferir, matar. Deveria ser hominicida, mas suprimiu-se uma das duas sílabas próximas nasais, fato a que se dá o nome da haplologia (simplificação). Noutro local, veja o que escrevi a respeito de bondadoso.&lt;br /&gt;7) Pantera. Animal carnívoro muito violento.&lt;br /&gt;8) Descrido. Particípio de descrer.&lt;br /&gt;9) Refalso. O poeta empregou o verbo refalsar, que os dicionários não agasalham, sim o verbo refalsear, enganar, atraiçoar.&lt;br /&gt;10) F’licidade. Felicidade. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;11) Mago. Emprego no sentido de delioso, encantador.&lt;br /&gt;12) Pudibundas. Que tem muito pudor.&lt;br /&gt;13) Os dez. referência aos mandamentos, antes citados.&lt;br /&gt;14) Amo a deus. Caso de objeto direto com preposição. Assim pode aparecer o objeto direto quando representado por nome próprio, e noutros casos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Virgem e a Roseira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;Linda virgem pensativa&lt;br /&gt;Vagava só num jardim,&lt;br /&gt;Seu rosto estava tristonho&lt;br /&gt;Amor a tornara assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos não tinham vida,&lt;br /&gt;Nem suas faces rubor,&lt;br /&gt;Que uma rival despiedada (1)&lt;br /&gt;Lhe roubara o seu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu numa bela roseira&lt;br /&gt;Um semi-aberto (2) botão,&lt;br /&gt;Querendo a virgem colhê-lo,&lt;br /&gt;Estendeu-lhe a nívea mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-lhe a roseira; “Donzela,&lt;br /&gt;Acaso algum mal te fiz?”&lt;br /&gt;A mão recolhendo a virgem:&lt;br /&gt;- Não roseira, assim lhe diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não supus que mal fazia&lt;br /&gt;- Em tirar-te este botão;&lt;br /&gt;- Pra suprir a falta deste,&lt;br /&gt;- Outros muitos brotarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornou-lhe a verde roseira:&lt;br /&gt;“Tu virgem, não pensas bem!&lt;br /&gt;Se um amante te hão roubado,&lt;br /&gt;Procura, pois, outro bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se àquele só votavas&lt;br /&gt;Tua extremosa paixão,&lt;br /&gt;Eu dentre todos prefiro&lt;br /&gt;Também só este botão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Linda virgem pensativa,&lt;br /&gt;Que vagava num jardim,&lt;br /&gt;Voltou cismando mais triste!&lt;br /&gt;Amor a tornara assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Despiedada. Que não tem piedade. Cruel.&lt;br /&gt;2) Semi-aberto. Semi é o elemento latino com a significação de a) quase; b) metade, meio; c) um tanto.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLXtNOZrutI/AAAAAAAAAgY/6hwg4PJJHl4/s1600-h/A+virgem+e+a+roseira.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239354552975342290" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ubYmfNN6URg/SLXtNOZrutI/AAAAAAAAAgY/6hwg4PJJHl4/s400/A+virgem+e+a+roseira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O Triste Arcano! (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Lamento a sorte que me faz poeta,&lt;br /&gt;Não que eu engenhe divinais canções;&lt;br /&gt;Poeta n’alma cuja dor secreta&lt;br /&gt;Do peito faz-me rebentar vulcões!...&lt;br /&gt;Tenho um segredo que na fria lousa&lt;br /&gt;Comigo à terra deverá baixar;&lt;br /&gt;No peito guardo-o, pois ali repousa&lt;br /&gt;O triste arcano que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embalde tenho consumido os anos&lt;br /&gt;Em falsas cismas... em penar sem fim;&lt;br /&gt;Não saiba o mundo, de fatais enganos,&lt;br /&gt;Aquele arcano... que só cumpre a mim!&lt;br /&gt;A campa gélida comigo desça.&lt;br /&gt;São desventuras que convém calar;&lt;br /&gt;Basta que eu saiba-o (2) e que Deus conheça&lt;br /&gt;O triste arcano, que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dize-lo aos homens... não no (3) quer o peito;&lt;br /&gt;Que importa aos homens o segredo meu?&lt;br /&gt;Soubera-o o anjo... se não fosse afeito&lt;br /&gt;Àquelas juras... como o penso eu.&lt;br /&gt;Porém os anjos não perjuram... minto!&lt;br /&gt;É triste a cisma que me faz chorar!&lt;br /&gt;Do peito viva no fiel recinto&lt;br /&gt;O triste arcano, que me fez penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz julgai-me! Não no sou, por certo!&lt;br /&gt;Anri meu peito, vê-lo-eis de dor&lt;br /&gt;Contudo, enfermo, qual baixei incerto,&lt;br /&gt;Lançado às rochas por um mar de horro.&lt;br /&gt;Segredo infausto que, talvez na campa,&lt;br /&gt;Meus curtos dias me fará murchar!&lt;br /&gt;E a lousa (4) apenas saberão que estampa&lt;br /&gt;O triste arcano, que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rireis! – qu’importa – não permita o fado&lt;br /&gt;A sorte, um anjo, ou a mulher, ou Deus&lt;br /&gt;Que o peito vosso, qual o meu, penado&lt;br /&gt;Concentre males como os males meus.&lt;br /&gt;Males que pode desfazer somente&lt;br /&gt;Um riso d’anjo... de mulher falaz... (5)&lt;br /&gt;Mas não que a fala, que o sorrir desmente&lt;br /&gt;O triste arcano, que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corram meus dias lacrimosos, mestos, (6)&lt;br /&gt;Julgem-me os homens, por demais feliz;&lt;br /&gt;Fruindo julguem-me prazeres festos, (7)&lt;br /&gt;E ocultem versos o que o rosto diz!&lt;br /&gt;Comigo – aos sorvos – beberei meus males&lt;br /&gt;Até meus dias, meu viver findar;&lt;br /&gt;Nem leve a brisa pelos amplos vales&lt;br /&gt;O triste arcano, que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embalde tenho consumido os anos&lt;br /&gt;Em falsas cismas... em penar sem fim;&lt;br /&gt;Não saiba o mundo, de fatais enganos,&lt;br /&gt;Aquele arcano... que só cumpre a mim!&lt;br /&gt;À campa gélida comigo desça:&lt;br /&gt;Basta que eu saiba e que Deus conheça&lt;br /&gt;O triste arcano, que me faz penar.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Arcano. Segredo profundo. É o latim arcanu, secreto, oculto.&lt;br /&gt;2) Que eu saiba-o. Na tempo em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.&lt;br /&gt;3) No. Nos clássicos, principalmente, o pronome átono, acusativo de 3ª pessoa, o, a, os, as assume, por assimilação, a forma no, na, nos, nas, depois de vozes nasais.&lt;br /&gt;- Viam-no chegar.&lt;br /&gt;- Não na deixariam prear impunemente (Rui).&lt;br /&gt;- Que não sabe a arte, não na estima (Camões).&lt;br /&gt;No português de hoje, depois de bem, não e quem, vai desaparecendo o modelo clássico: não o desejo, por exemplo.&lt;br /&gt;4) Lousa. Emprego já comentado noutra parte deste livro, com a mesma significação.&lt;br /&gt;5) Falaz. Que engana intencionalmente.&lt;br /&gt;6) Mestos. Tristes.&lt;br /&gt;7) Festos. O mesmo que festivos. Pronúncia aberta (fés)&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Vida Humana é Sofrer&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É breve o viver d’aurora,&lt;br /&gt;Mas essa vida d’um’hora&lt;br /&gt;Brilha, fulgura e colora&lt;br /&gt;Tudo ao seu alvorecer;&lt;br /&gt;Pura nasce e morre pura,&lt;br /&gt;Não sabe se há desventura,&lt;br /&gt;Mas a humana criatura&lt;br /&gt;Nasce e sofre até morrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vive o sol somente um dia&lt;br /&gt;Foco de luz, de poesia,&lt;br /&gt;Muitos climas alumia&lt;br /&gt;De seus raios co’o fulgor;&lt;br /&gt;Dá vida às plantas nascentes,&lt;br /&gt;Aquece os bosques virentes,&lt;br /&gt;Torna as águas transparentes,&lt;br /&gt;Todo (ou tudo) é brilho e resplendor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem a flor bem curta vida,&lt;br /&gt;Porém na estação florida&lt;br /&gt;Vive entre galas (1) – querida&lt;br /&gt;Impera no toucador. (2)&lt;br /&gt;Tem uma cor de beleza:&lt;br /&gt;Branca, - parece a simpleza;&lt;br /&gt;Rósea, - parece a pureza,&lt;br /&gt;Ofendida em seu pudor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as ramas que vicejam&lt;br /&gt;As ternas aves se beijam,&lt;br /&gt;E das brisas que bafejam&lt;br /&gt;Sentem em torno o frescor;&lt;br /&gt;Mas o homem vem ao mundo,&lt;br /&gt;Sofre em breve um golpe fundo,&lt;br /&gt;Depois outro mais profundo&lt;br /&gt;E morre entre ais e entre dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, o homem um só instante&lt;br /&gt;Vivendo, sofre constante&lt;br /&gt;Dissabores sempre avante,&lt;br /&gt;Sempre avante até morrer!&lt;br /&gt;Brilha a aurora e o nitente,&lt;br /&gt;Recende a flor inocente,&lt;br /&gt;Beijam-se as aves contente, (3)&lt;br /&gt;E o homem sempre a sofrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Galas. Pompa. Fausto. Abundância. Alegria.&lt;br /&gt;2) Toucador. Espécie de cômoda encimada por um espelho e que serve a quem se touca ou penteia (Aurélio).&lt;br /&gt;3) Beijam-se as aves contente. O poeta empregou contente no singular, com o valor de advérbio: beijam-se contentemente as aves.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Que eu Quero&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em quanto a sorte me persegue avara,&lt;br /&gt;E a dor dos males me deslustra o rosto,&lt;br /&gt;Tenho um consolo: no futuro hei posto&lt;br /&gt;Minha esperança mais donosa e cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se das turbas através eu passo&lt;br /&gt;E não lhes ouço murmurar meu nome,&lt;br /&gt;Penso que a sorte, que a cruel consome&lt;br /&gt;Tantos castelos (1) que velando faço!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então os olhos, a cismar, dilato,&lt;br /&gt;E encaro a esfera que me está suspensa...&lt;br /&gt;E num arroubo de uma idéia imensa&lt;br /&gt;À porta augusta dos vindouros bato!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez – orgulho – que a avareza cega,&lt;br /&gt;Talvez – um erro – que me embala a mente;&lt;br /&gt;Mas, quem não olha pra o futuro crente?&lt;br /&gt;Quem destes sonhos – tão gentis – renega?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cubra-me o corpo muito embora aterra,&lt;br /&gt;E em meu jazigo, (2) em cuja paz repousa,&lt;br /&gt;Nenhum letreiro me decore a lousa, (3)&lt;br /&gt;Nem caia um pranto, que a saudade encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero pranto, nem letreiro ou flores,&lt;br /&gt;Quero somente que meu nome e glória&lt;br /&gt;No tempo augusto da imortal memória&lt;br /&gt;Radie ao evos (4) co’imortais fulgores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Castelos que velando faço. Castelos no ar. Imaginar coisas excelentes mas irrealizáveis.&lt;br /&gt;2) Jazigo. Sepultura, túmulo&lt;br /&gt;3) Lousa. Pedra funerária que se coloca sobre a sepultura.&lt;br /&gt;4) Evo. Século. Perpetuidade.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Primeiras Águas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foge, pavoroso espectro (1)&lt;br /&gt;Maça magra e poeirenta,&lt;br /&gt;Deixa vir o guapo jovem&lt;br /&gt;Que a tudo, meigo, aviventa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teu ossudo regaço (2)&lt;br /&gt;De medonha catadura,&lt;br /&gt;Só chilra o grilo, a cigarra,&lt;br /&gt;Só há poeira e secura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém nos frescos domínios&lt;br /&gt;Do jovem que assoma rindo&lt;br /&gt;As árvores vêm florescendo&lt;br /&gt;E os prados também florindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho tronco lascado, (3)&lt;br /&gt;Que tinha a seiva perdido,&lt;br /&gt;Sente as fibras se lhe incharem,&lt;br /&gt;E brota reverdecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jericó (4) suculento,&lt;br /&gt;Que na seca se encolhera,&lt;br /&gt;Caindo no chão a chuva,&lt;br /&gt;Mais belo reverdecera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gentil cebola brava, (5)&lt;br /&gt;Dos prados lindo ornamento,&lt;br /&gt;Pelas várzeas e campinas&lt;br /&gt;Brinca e se embala c’o vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos galhos reflorescentes&lt;br /&gt;Os canoros passarinhos&lt;br /&gt;Se lembram de seus amores,&lt;br /&gt;Se fazem ternos carinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E troveja pra o nascente,&lt;br /&gt;E o tempo todo empardece,&lt;br /&gt;E a terra inchada verdeja,&lt;br /&gt;E o velho tronco enverdece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quanta é minha ventura&lt;br /&gt;Por gozar na minha terra&lt;br /&gt;De amor os brandos influxos,&lt;br /&gt;Que esta gentil quadra encerra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colono imaginando&lt;br /&gt;No seu lar, no seu porvir,&lt;br /&gt;Mostra no rosto a esperança&lt;br /&gt;Nos lábios mostra o sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fazendeiro contente&lt;br /&gt;Dá largas ao coração;&lt;br /&gt;Sente o peito dilatar-se&lt;br /&gt;Nos campos do seu sertão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a semente cai na terra&lt;br /&gt;Pelas mãos do lavrador;&lt;br /&gt;Mil frutos dela se esperam&lt;br /&gt;Entre risos, entre amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o fazendeiro à porteira&lt;br /&gt;Abóia (6) as vacas que vêm&lt;br /&gt;Berrando pelos bezerros&lt;br /&gt;Que o curral seguros tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notai aquela vaquinha:&lt;br /&gt;Que berro saudoso – momm!...&lt;br /&gt;Pois ela chama o filhinho,&lt;br /&gt;Que responde ao terno som!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Te os sapinhos nos charcos&lt;br /&gt;Festejam ao modo seu&lt;br /&gt;Esta quadra deleitosa&lt;br /&gt;Que a natureza nos deu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! vida, quem não te inveja,&lt;br /&gt;Nem sente gosto e prazer:&lt;br /&gt;Senti-los, sem invejar-te,&lt;br /&gt;Não sei como possa ser!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a chuva cai em torrente,&lt;br /&gt;E a terra toda alagou;&lt;br /&gt;Corem riachos e grutas,&lt;br /&gt;Mais de um açude sangrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus! Prestai-me saúde&lt;br /&gt;Neste meu sertão gentil,&lt;br /&gt;Onde o inverno é tão belo,&lt;br /&gt;Onde o céu tem tanto anil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Espectro. Sentido figurado. Espantalho.&lt;br /&gt;2) Regaço. Sentido figurado: lugar onde se repousa.&lt;br /&gt;3) Lascado. Rachado, quebrado.&lt;br /&gt;4) Jericó. Planta da caatinga. Pode secar completamente sem morrer.&lt;br /&gt;5) Cebola-brava. Planta da família Narcisáceas.&lt;br /&gt;6) Abóia. Do verbo aboiar, derivado de boi. Aboiar é cantar à frente do gado; toada pouca variada e triste; serve para guiar e pacificar as reses, e sobre estas exerce muita influência, quando saudosa e em viagem”. (Juvenal Galeno). Aboio é canto sem palavra, marcado exclusivamente em vogais, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado. (Cascudo). Os vaqueiros abóiam para orientação dos companheiros. Para atrair o gado. Para guiar a boiada. Também se diz aboiado, como Euclides da Cunha: “... ecoam melancolicamente notas do aboiado...”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Um Passamento&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste rola, por que gemes?&lt;br /&gt;Tua dor quem motivou,&lt;br /&gt;Que te carpes nestas horas,&lt;br /&gt;Quando o sol já se ocultou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lastimoso e triste sino&lt;br /&gt;Quem te ensinou a dobrar&lt;br /&gt;Deste modo tão penoso&lt;br /&gt;Que o peito faz-me (1) ansiar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brisa serena da tarde,&lt;br /&gt;Por que passas a gemer&lt;br /&gt;Pelas folhas da mangueira?&lt;br /&gt;Por que vens-me (2) entristecer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sol formoso, que douravas&lt;br /&gt;O céu com teu arrebol,&lt;br /&gt;Por que perdeste essa cores,&lt;br /&gt;Que eu tanto te amava, sol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lua pálida, mimosa,&lt;br /&gt;Astro belo, inspirador,&lt;br /&gt;Por que mais lânguido brilho&lt;br /&gt;Ressumbra do teu fulgor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosa bela, purpurina,&lt;br /&gt;Por que te murchaste assim?&lt;br /&gt;Lírio, por que te secaste?&lt;br /&gt;Por que morreste, jasmim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração, por que sofres?&lt;br /&gt;Por que bates, coração?&lt;br /&gt;Que desgraças me anuncias&lt;br /&gt;Nesta tua agitação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! já sei: tudo me indica&lt;br /&gt;Triste nova, que se deu;&lt;br /&gt;Tudo lamenta uma esposa,&lt;br /&gt;Que bela e jovem morreu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ah! – lembrei-me que a esposa,&lt;br /&gt;Se para o mundo morreu,&lt;br /&gt;Para o céu mais venturosa&lt;br /&gt;Entre glórias reviveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Que o peito faz-me. Na época em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: que o peito me faz.&lt;br /&gt;2) Por que vens-me? Veja nota 1&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Beijos Mudos &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero dar-t’os na face,&lt;br /&gt;Na lisa fronte não quero,&lt;br /&gt;Nem quero um beijo que estale&lt;br /&gt;Nos lábios com todo o esmero:&lt;br /&gt;Eu quero um lânguido beijo,&lt;br /&gt;Mudo abrasado de pejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero que ninguém saiba&lt;br /&gt;Que eu te beijei, meu encanto;&lt;br /&gt;Eu gosto dos beijos mudos,&lt;br /&gt;São beijos que sabem (1) tanto!&lt;br /&gt;Depois – as brisas loureiras&lt;br /&gt;São por demais chocalheiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta que os lábios se rocem&lt;br /&gt;Mudos, bem mudos de pejo;&lt;br /&gt;É testemunha indiscreta&lt;br /&gt;A brisa de um som de um beijo,&lt;br /&gt;Pode contar no arvoredo&lt;br /&gt;O que se fez em segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as flores podem ter zelos (2)&lt;br /&gt;Invejar nossa ventura&lt;br /&gt;Podem ferver tantos beijos&lt;br /&gt;Nas flores pela espessura!&lt;br /&gt;E podem brisas e flores&lt;br /&gt;Divulgar nossos amores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso delícias minhas,&lt;br /&gt;Toma um terno e mudo beijo!&lt;br /&gt;Não é mais doce e macio?&lt;br /&gt;Não tem mais fogo e mais pejo?&lt;br /&gt;Um beijo assim sabe tanto!&lt;br /&gt;Toma inda outro, meu encanto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Sabem. Verbo saber. Empregado no sentido de ter sabor.&lt;br /&gt;2) Zelos. No plural corresponde a ciúmes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Rei&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reis da terra o que sois? Oh quase um nada&lt;br /&gt;(G. Dias)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no trono soberbo, brilhante&lt;br /&gt;De pedras luzentes e de ouro e cetim, (1)&lt;br /&gt;O rei se espreguiça, notando o cambiente (2)&lt;br /&gt;Das sedas custosas e do ouro e rubim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mente lhe fogem tristeza humanas,&lt;br /&gt;Que humanas tristezas não sentem os reis;&lt;br /&gt;Circumdam-lhe o sólio volúpias insanas,&lt;br /&gt;E em torpes prazeres imerso vê-lo-eis. (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Real diadema, cingindo-lhe a fronte,&lt;br /&gt;Mortal não supõe-se, (4) mas julga-se um Deus,&lt;br /&gt;Nos vastos domínios – quem há que o afronte,&lt;br /&gt;Não são-lhe (5) os vassalos quais vis pigmeus? (6)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixelas (7) riquíssimas, taças doiradas,&lt;br /&gt;Manjares opíparos – tudo primor,&lt;br /&gt;O gosto lhe excitam, e as horas passadas&lt;br /&gt;No vinho, na gula que lhe trazem torpor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do marmor, (8) do jaspe (9) deslumbram-lhe as cores,&lt;br /&gt;E as vestes refulgem com mago esplendor;&lt;br /&gt;Dos vasos pendentes exalam-se as flores&lt;br /&gt;De em torno a seu trono perfumes e odor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil quadros lascivos vigiam-lhe o leito,&lt;br /&gt;Forrados de sedas, de moles coxins; (10)&lt;br /&gt;Mil quadros que acendem-lhe (11) a flama no peito,&lt;br /&gt;Que em beijos apagam-lhe (12) maus serafins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os paços (13) se atulham de infames vassalos,&lt;br /&gt;De damas corruptas, de vis cortesãos,&lt;br /&gt;Que todos procuram os reis para honrá-los,&lt;br /&gt;Curvar-lhes os joelhos, beijar-lhes as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São todos sedentos de fama e de glória,&lt;br /&gt;Sem feitos briosos, sem nobres ações!&lt;br /&gt;A vida estudai-lhes: vereis sua história,&lt;br /&gt;Manchada de crimes, de negras paixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vereis suas frontes ao peso curvadas&lt;br /&gt;De louros sangrentos de vítimas mil!&lt;br /&gt;Zombando – profanos! – das cousas sagradas&lt;br /&gt;Com riso de mofa, com ar senhoril!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vereis ondular-lhes na mente orgulhosa&lt;br /&gt;Enxames, sem conta, de idéias cruéis;&lt;br /&gt;Vereis sua pena mover-se impiedosa,&lt;br /&gt;Selando mil mortes, - cruentos lauréis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiranos do mundo, num lago de horrores&lt;br /&gt;A purp’ra (14) profana, nem podem lavar!&lt;br /&gt;E a purp’ra manchada, que escorre em cruores, (15)&lt;br /&gt;Não sabe outra cousa, que o vício acatar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abutres famintos, flagelo dos povos&lt;br /&gt;São todos os testas-coroados, - os reis;&lt;br /&gt;Voltejam-lhe o leito febris, sempre novos,&lt;br /&gt;Prazeres impuros, - tais sempre os vereis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;História de monstros – dos reis é a história:&lt;br /&gt;Um bom dentre centos, - os mais são maus reis;&lt;br /&gt;Deveres conculcam, dos homens escória,&lt;br /&gt;São massas inertes, são massas sem leis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São massas (16)inertes, que um rei sem virtude&lt;br /&gt;É rei só na forma, no peito não é:&lt;br /&gt;Senhores se dizem, e em tal atitude&lt;br /&gt;Nos gozos que passam somente têm fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta livre não me curvo ao ouro&lt;br /&gt;Dos reis perversos, que tiranos são:&lt;br /&gt;O falso brilho do seu vil tesouro&lt;br /&gt;Ofusca a escravos, mas a livres não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente a escravos, pois o povo é nobre&lt;br /&gt;Por natureza, mais gentil brazão&lt;br /&gt;Que esses ganhados do suor do pobre&lt;br /&gt;Como os dos reis pela mor (17) parte o são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os reis detesto, porque neles vejo&lt;br /&gt;Impresso o selo de um viver de horror;&lt;br /&gt;Direis que o fausto que o circunda invejo,&lt;br /&gt;Dizei-o embora, que hei de vós só dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizei-o embora! Mas sabei que o peito&lt;br /&gt;Do poeta é livre, como livre sou;&lt;br /&gt;Não crê nos ídolos da grandeza, e preito&lt;br /&gt;Só rende ao justo que ação justa obrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No livro magno que contém a história&lt;br /&gt;Dos reis mundanos, o que aí vereis?&lt;br /&gt;Sinistros feitos e fatal memória&lt;br /&gt;Legada aos evos por ignóbeis reis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse Alexandre, (18) que às nações deixara&lt;br /&gt;Um nome cel’bre, (19) que jamais ganhou,&lt;br /&gt;Ébrio – execrável! O seu braço alçara&lt;br /&gt;Ferindo aquele que o até (20) salvou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma pátria que no livre seio&lt;br /&gt;Produziu Brutus (21)e gerou Catão, (22)&lt;br /&gt;Gemeu nos ferros, no infernal enleio&lt;br /&gt;De reis protervos – como todos são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, lêde os feitos de um cruel Tibério, (23)&lt;br /&gt;E os de um Calígula (24) inda mais cruel;&lt;br /&gt;Vêde, fazendo lupanar do império&lt;br /&gt;De Cláudio a esposa, (25) sensual, infiel!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Nero... (26) o monstro ainda mais que a fera&lt;br /&gt;Cruento e mau, de coração cerval,&lt;br /&gt;Páginas negras de sangrenta era&lt;br /&gt;Juntou à história mais cruel, fatal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse guerreiro que apregoa a fama,&lt;br /&gt;Que para sempre no Waterloo (27) caiu;&lt;br /&gt;Em cujo peito laborava a flama&lt;br /&gt;Incendiaria – qual jamais luziu!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui um tirano que usurpou impérios,&lt;br /&gt;E que da esposa vil repúdio fez! (28)&lt;br /&gt;Como os Calígulas e cruéis Tibérios&lt;br /&gt;Foi Bonaparte (29)tão cruel, talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De quantos Neros se recheia o mundo!&lt;br /&gt;Não posso, oh nunca! – querer bem aos reis;&lt;br /&gt;Num mar de gozos, nesse pego (30) imundo&lt;br /&gt;Os reis polutos sempre aí vereis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos reis inveja... não se ajusta ao peito&lt;br /&gt;Do poeta livre, como livre sou;&lt;br /&gt;Não creio em ídolos de grandeza, e preito&lt;br /&gt;Só rendo ao justo que ação justa obrou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Cetim. Tecido lustroso e macio. Origem árabe.&lt;br /&gt;2) Cambiante. Gradação de cores. Cor indistinta. Alguns estudiosos lhe atribuem indiferentemente o masculino e o feminino. Escritores de grande notoriedade empregaram cambiante no masculino: “A fé e a superstição misturam os seus reflexos num cambiante confuso” (Manuel Bandeira).&lt;br /&gt;3) Vê-lo-eis. Ao futuro do presente não se junta, depois dele, o pronome átono. Ou o pronome vem antes do verbo – não o vereis, ou no meio do verbo: vê-lo-eis.&lt;br /&gt;4) Não supõe-se. Na época em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: não se supõe.&lt;br /&gt;5) Se são-lhe. Veja nota 4.&lt;br /&gt;6) Pigmeus. De muito pequena estatura.&lt;br /&gt;7) Baixelas. Utensílios empregados no serviço da mesa.&lt;br /&gt;8) Mármor. Termo poético. O mesmo que mármore.&lt;br /&gt;9) Jaspe. Tipo de quartzo que apresenta grande variedade de cores.&lt;br /&gt;10) Coxim. Almofada, ou travesseiro, para descanso.&lt;br /&gt;11) Que acendem-lhe. Veja nota 4.&lt;br /&gt;12) Que em beijos apagam-lhe. Veja nota 4.&lt;br /&gt;13) Paço. Forma evolvida do latim palatiu. Este latim deu duas formas portuguesas: palácio e paço.&lt;br /&gt;14) Púr’pra. Púrpura. José Coriolano suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação. Púrpura é substância vermelho-escura. Também vestuário dos reis, como na poesia.&lt;br /&gt;15) Cruores. Sangue que corre, sangue que sai dos vasos. Matéria corante que entra na composição do sangue. Parte coagulante do sangue (Nascentes).&lt;br /&gt;16) Massas. Emprego no sentido de corpos.&lt;br /&gt;17) Mor. Forma contraída de maior.&lt;br /&gt;18) Alexandre. Veja noutro local herói de Alexandria, que é o mesmo Alexandre, ou Alexandre III o Grande (356 – 323 a.C.). Rei da Macedônia. Destruiu Tebas. Venceu Dario. Conquistou Tiro, Gaza e o Egito. Fundou Alexandria. Apoderou-se da Babilônia. Um dos maiores guerreiros da história da humanidade.&lt;br /&gt;19) Cel’bre. Célebre. Supressão de sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;20) Que o até salvou. Próclise é a colocação do pronome átono antes do verbo. No caso houve reforço da próclise.&lt;br /&gt;21) Brutus. Político e escritor romano (85 – 42 a.C.). Protegido de César, mas participou da conspiração contra este, que, vendo-o brandir um punhal, gritou: Tu quoque, Brute, fili mi! (Tu também, Brutu, meu filho!).&lt;br /&gt;22) Catão. Marcus Porcius Cato, dito Catão o Antigo (234 – 149 a.C.). tribuno. Político austero e honesto. Lutou contra o luxo das mulheres. No senado exigiu o aniquilamento da cidade de Cartago.&lt;br /&gt;23) Tibério. (Tiberius Julius Caesar). 42 a.C – 37 d.C. Imperador romano. Tomado de desconfiança e misantropia, retirou-se para a ilha de Capri, deixando parte de suas responsabilidades a Sejano, que tramou a queda do imperador. Tibério mandou matar Sejano e vários membros do senado e da família imperial.&lt;br /&gt;24) Calígula. (Caius Caesar Augustus Germanicus) – dito Calígula (12 d.C – 41). Imperador romano. Foi educado entre os soldados, responsáveis por seu cognome de cáliga, calçado militar. Sucessor de Tibério. Enlouqueceu no poder. Extravagante e cruel. Quis que seu cavalo Incitatus fosse nomeado cônsul. Lamentava que o povo romano não tivesse apenas uma só cabeça para que pudesse degolá-la de um só golpe. Assassinado.&lt;br /&gt;25) Do império de Cláudio a esposa. Cláudio I (Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus – 10 a.C., 54 d.C.). Imperador romano. Epiléptico. Drenou o lago Fucino. Sofreu a influência de suas esposas Messalina, depois Agripina. Esta o envenenou. José Coriolano faz referência especialmente a Messalina (Valeria Messalina), que se entregou à devassidão e foi executada por ordem do imperador.&lt;br /&gt;26) Nero (Lucius Domitius Nero Claudius). Nasceu em 37 d.C. Faleceu em 68. Sucessor de Cláudio. Mandou matar o irmão Britânico e a própria mãe. Cruel. Imperador romano, realizou governo despótico e libertino, que contou com a cumplicidade da segunda esposa Popéia, acusou os cristãos do incêndio de Roma, e pelos cristãos foi acusado de incendiá-la. Perseguiu o cristianismo. Abandonou o poder depois de declarado inimigo público pelo senado. Fez-se matar por um liberto.&lt;br /&gt;27) Waterloo. Escreveu José Fonseca Fernandes: “Waterloo é uma povoação a quinze quilômetros do centro de Bruxelas (Bélgica). Deu nome à batalha em que Napoleão Bonaparte foi vencido pelos exércitos reunidos dos ingleses de Wellington e prussianos de Bulow e Blücher, última e derradeira batalha em que se empenhou o maior general-de-campo da idade contemporânea. Uma batalha que Napoleão perdeu na última hora por ter faltado tirocínio militar a um de seus marechais, Grouchy, o indeciso auxiliar que não soube incorporar-se ao grosso das tropas em combate, permitindo às reservas prussianas comandadas por Blücher que decidissem a sorte da contenda” (“Europa de Sempre” – 176).&lt;br /&gt;28) E que da esposa, vil repúdio fez. Referência ao fato de se ter Napoleão Bonaparte divorciado de sua mulher Joséphine Tascher de La Pagerie para casar-se com Maria Luísa, da Áustria.&lt;br /&gt;29) Bonaparte. Napoleão I, imperador dos franceses de 1804 a 1815. General. Cobriu-se de glória como guerreiro em quase todo o mundo do seu tempo. Venceu a Itália. Ocupou Alexandria no Egito. Restabeleceu a ordem na França. Restaurou a paz religiosa. Participou da redação do código civil, um dos maiores monumentos jurídicos de todos os tempos. Anexou a ilha de Elba à França. Nomeado Presidente da República italiana. Reorganizou a Alemanha. Reformou a universidade e realizou grandes obras de urbanismo. Quando anexou a Holanda, atingiu o máximo de poder. Foi desastrosa a guerra que fez à Rússia. Abdicou do trono. Exilado em Elba, mas voltou ao poder. Perdeu finalmente a batalha de Waterloo. Abdicou segunda vez. Feito prisioneiro pelos ingleses na ilha de Santa Helena, aí faleceu seis anos depois.&lt;br /&gt;30) Pego. O mesmo que pélago, mar profundo. O poeta empregou a palavra em sentido figurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;A Rosa Defendendo-se &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa roseira formosa,&lt;br /&gt;Vicejante, bela, airosa,&lt;br /&gt;Despontava linda rosa,&lt;br /&gt;Entre espinhos e entre odor;&lt;br /&gt;Quis colhe-la à madrugada,&lt;br /&gt;Mas a roseira agastada&lt;br /&gt;Me fere a mão desdenhada,&lt;br /&gt;Que logo foge co’a dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual o guerreiro valente&lt;br /&gt;Que, ferido mortalmente,&lt;br /&gt;Descansa e co’o combatente&lt;br /&gt;Vai nova luta travar;&lt;br /&gt;Assim eu esperançoso,&lt;br /&gt;Ousado, cavalheiroso,&lt;br /&gt;Tendo o botão odoroso&lt;br /&gt;Da roseira conquistar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém a roseira altiva&lt;br /&gt;A fresca chaga me aviva&lt;br /&gt;Aos meus desejos esquiva&lt;br /&gt;Co’o mesmo espinho d’então;&lt;br /&gt;Fujo ainda mais pressuroso,&lt;br /&gt;Já me tornando medroso,&lt;br /&gt;Já sentindo estrepitoso&lt;br /&gt;Me bater o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então todo amedrontado&lt;br /&gt;Pelo poder denodado&lt;br /&gt;Do lindo botão amado&lt;br /&gt;Que a roseira em si contém,&lt;br /&gt;Já no meu fado reflito,&lt;br /&gt;Em minha sorte medito,&lt;br /&gt;E quase vencido grito:&lt;br /&gt;- Sou fraco como ninguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, outra tentaiva&lt;br /&gt;Inda faço, mas me esquiva&lt;br /&gt;A roseira, é dor mais viva&lt;br /&gt;Fez-me então exp’rimentar; (1)&lt;br /&gt;E logo as armas deponho,&lt;br /&gt;Envergonhado e tristonho,&lt;br /&gt;No verde tronco risonho&lt;br /&gt;Sem que mais queira tentar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a roseira, vegetante&lt;br /&gt;Apenas, zela constante&lt;br /&gt;Seu lindo botão fragrante&lt;br /&gt;Que só tem beleza e odor;&lt;br /&gt;Como a donzela a beleza,&lt;br /&gt;Que lhe deu a natureza,&lt;br /&gt;E a su’alma de pureza&lt;br /&gt;Não há de zelar co’ardor? (2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sê, pois, qual tal a roseira,&lt;br /&gt;Ó donzela prasenteira,&lt;br /&gt;Se de tu’alma fagueira&lt;br /&gt;Quisesse um mimo roubar;&lt;br /&gt;Sê assim, anjo donoso,&lt;br /&gt;Que Deus, sempre bondadoso, (3)&lt;br /&gt;Neste mundo tormentoso&lt;br /&gt;Não quis para alívio dar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Exp’rimentar. Experimentar. Necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;2) Co’ardor. Com ardor. Necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;3) Bondadoso. Forma rigorosamente correta ao lado de bondoso. Esta resultou de haplologia: supressão de uma sílaba quando no vocábulo há outra próxima do mesmo valor: da, do (dentais). O mesmo se passa com caridadoso (caridoso).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Feliz Tempo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Momentos felizes, momentos ditosos&lt;br /&gt;Em que desfrutei&lt;br /&gt;Tua meiga presença, teu rosto de graças,&lt;br /&gt;Em que me arroubei;&lt;br /&gt;Mas eles se foram, passaram veloces (1)&lt;br /&gt;E eu triste fiquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, Maria, meu peito consulto,&lt;br /&gt;Responde: não sei!&lt;br /&gt;Lhe noto incerteza, por isso em meus braços&lt;br /&gt;Te unir poderei!&lt;br /&gt;Venturas me agoura? (2) Contigo momentos&lt;br /&gt;Felizes terei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora somente me restam gemidos,&lt;br /&gt;Pois nada alcancei;&lt;br /&gt;Meus lábios quiseram se abrir e pedir-te,&lt;br /&gt;Porém me calei!&lt;br /&gt;Meu fado maldigo; mas como se eu mesmo&lt;br /&gt;Meu dano causei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos nutrindo tão grata esperança...&lt;br /&gt;Assim viverei;&lt;br /&gt;Se a mão delicada me deres de esposa,&lt;br /&gt;Feliz eu serei!&lt;br /&gt;Se a mão me negares de esposa, ó querida,&lt;br /&gt;Então morrerei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não achas, Maria, tão duro dizer-se:&lt;br /&gt;“Jamais o amarei?”&lt;br /&gt;não achas tão doce, tão grato afirmar-se:&lt;br /&gt;“Sim, tua serei?”&lt;br /&gt;Pois olha, Maria, sincero te digo:&lt;br /&gt;- Eu sempre te amei.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Veloces. Forma latina, muita usada antigamente. Hoje, veloz, velozes.&lt;br /&gt;2) Agoura. Verbo agourar. Empregado no sentido de prever, predizer. Fazer agouro, agourar, hoje se emprega quase sempre em mau sentido.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;À Morte&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Do Visconde de Almeida Garret.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não morre o gênio, sobrevive a fama,&lt;br /&gt;Não morre o sábio, seu renome voa&lt;br /&gt;Em meio às eras que o repetem sempre,&lt;br /&gt;Retumba altíloquo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se abate as asas na gelada lousa, (1)&lt;br /&gt;Pairando frio, se bordeja à campa,&lt;br /&gt;Não morre o vate, nos anais fastosos (2)&lt;br /&gt;Seu nome exalça-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa a morte, pois se a vida extingue&lt;br /&gt;Do sábio, fica-lhe renome eterno?&lt;br /&gt;Se da memória resplandece o templo,&lt;br /&gt;Que importa o túmulo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de três séculos sobre o luso (3) vate&lt;br /&gt;Que importa pesem, se Camões (4) perpassa&lt;br /&gt;Nos moles carmes, (5) nas endechas (6) tristes,&lt;br /&gt;No canto altíssono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantor mavioso! não findou tua vida.&lt;br /&gt;Pairou no topo dos umbrais da morte;&lt;br /&gt;Ei-la se expande, esvoaçando em torno&lt;br /&gt;Do orbe terráqueo. (7)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, nos teus versos de imortal beleza&lt;br /&gt;Sorriem-te os evos através dos tempos!&lt;br /&gt;Repousa a fama sobre o mundo como&lt;br /&gt;No céu o espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantor mavioso, do cantor do Gama, (8)&lt;br /&gt;Rival nas letras e na glória infinda,&lt;br /&gt;Teu nome ecoa lá nos peitos lusos&lt;br /&gt;Qual nos brasílicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o bardo rude do alaúde tosco&lt;br /&gt;Tristes saudades te dirige triste;&lt;br /&gt;Se vive a fama, se o esp’rito (9)goza,&lt;br /&gt;O vate falta-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soam teus versos como mestos soam&lt;br /&gt;Repercutidos, virginais suspiros;&lt;br /&gt;Decresce a arte, se lamenta o mundo&lt;br /&gt;Pelo teu trânsito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém que importa? – Sobrevive a fama,&lt;br /&gt;Não morre o sábio, seu renome voa&lt;br /&gt;Em meio às eras que o repetem sempre,&lt;br /&gt;Retumba altíloquo!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;Observação: Almeida Garret pertenceu à celebre trindade de romantismo português. Os dois outros: Castilho e Alexandre Herculano. Foi poeta, dramaturgo, romancista.&lt;br /&gt;1) Lousa. Noutro local há comentário sobre lousa neste sentido.&lt;br /&gt;2) Fastosos. De fasto. Grande, notável, pomposo.&lt;br /&gt;3) Luso. O mesmo que português.&lt;br /&gt;4) Camões. Maior gênio literário de Portugal. Grande lírico. Épico notável. Autor de “Os Lusíadas”, epopéia que, em 1972, completou quatrocentos anos de publicada. Chamou-se Luiz Vaz de Camões.&lt;br /&gt;5) Carmes. Poema. Versos líricos.&lt;br /&gt;6) Endechas. Poesia triste. Canção melancólica.&lt;br /&gt;7) Terráqueo. Que tem terras e águas.&lt;br /&gt;8) Cantor mavioso do cantor do gama. Cantor do Gamam foi Camões. Vasco da Gama, o descobridor do caminho marítimo da índias, é o herói da epopéia nacional portuguesa “Os Lusíadas”. Quando José Coriolano diz cantor mavioso do cantor do Gama, está a referir-se a Garret, pois Garret escreveu o poema “Camões”.&lt;br /&gt;9) Espr’ito. Espírito. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Infante&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de ver um infante (1)&lt;br /&gt;Alegre andar pelo prado&lt;br /&gt;A correr;&lt;br /&gt;Gosto de ver-lhe o semblante&lt;br /&gt;De pureza sombreado&lt;br /&gt;Florescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de vê-lo correndo&lt;br /&gt;Em busca da borboleta&lt;br /&gt;A fugir;&lt;br /&gt;Gosto de ouvir-lhe dizendo&lt;br /&gt;Uma gracinha indiscreta&lt;br /&gt;A sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de vê-lo sisudo&lt;br /&gt;Quando a mãe o repreende&lt;br /&gt;Porque errou;&lt;br /&gt;Gosto de vê-lo assim mudo&lt;br /&gt;Quando a lágrima que pende&lt;br /&gt;Borbulhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de vê-lo chorando&lt;br /&gt;Porque alguém de coitadinho&lt;br /&gt;O chamou, (2)&lt;br /&gt;Quando na relva brincando&lt;br /&gt;Com seu pequeno irmãozinho&lt;br /&gt;Se zangou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede-o correndo – tão lindo!&lt;br /&gt;Mas um queda, coitado&lt;br /&gt;Lá deu!&lt;br /&gt;Dizei-lhe: “É nada.” Sorrindo,&lt;br /&gt;Não mostrará acalmado&lt;br /&gt;Que sofreu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede-o no colo materno&lt;br /&gt;Cândidos beijos colhendo&lt;br /&gt;Como vai!&lt;br /&gt;Vede-o também como terno&lt;br /&gt;Mil graças está fazendo&lt;br /&gt;Para o pai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó infante! Ó belo anjinho!&lt;br /&gt;Quem dera no mundo fosses&lt;br /&gt;Sempre assim...&lt;br /&gt;Tens encetado o caminho...&lt;br /&gt;Teus dias inda são doces!&lt;br /&gt;Mal de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal de mim – que hei já chegado&lt;br /&gt;À quadra fatal da vida,&lt;br /&gt;A do amor;&lt;br /&gt;Já fui, qual tu, fortunado;&lt;br /&gt;Hoje tenho a alma ferida&lt;br /&gt;Pela dor!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! que dos anos da infância&lt;br /&gt;Nem eu mais a memória posso&lt;br /&gt;Conservar!&lt;br /&gt;Nem mais dessa bela estância (3)&lt;br /&gt;Da vida – a mimosa história&lt;br /&gt;Sei contar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei – que a vida do adulto&lt;br /&gt;É um mistério constante,&lt;br /&gt;Um sofrer;&lt;br /&gt;Num leito de dor sepulto,&lt;br /&gt;Não tem alívio um instante,&lt;br /&gt;Te (4) morrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis porque gosto do infante&lt;br /&gt;Alegre, andando no prado&lt;br /&gt;A correr;&lt;br /&gt;Gosto de ver-lhe o semblante&lt;br /&gt;De pureza sombreado&lt;br /&gt;Florescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Infante. Emprego no sentido de criança no período da infância.&lt;br /&gt;2) De coitadinho o chamou. No sentido de dar nome, apelidar, o verbo chamar não admite, hoje, o pronome o, mas o pronome lhe.&lt;br /&gt;3) Estância. Emprego no sentido de quadra, período.&lt;br /&gt;4) Te. Por até. Assinala Silveira Bueno que os textos arcaicos apresentam variadas formas da atual preposição e, algumas vezes, advérbio até: ata, ataa, ta, ta, tee, até, te (“A Formação Histórica da Língua Portuguesa” – 181). No texto te por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Coragem &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(pelo cólera) (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não descrede da sorte: o mal nem sempre&lt;br /&gt;Vos há de lacerar a doce vida:&lt;br /&gt;Portai-vos corajosos; não descrede (2)&lt;br /&gt;Da bondade do Céu na dura lida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu é previdente: pelas dores&lt;br /&gt;Com que o morbo (3) vos há ceifado a vida,&lt;br /&gt;Nesse eterno jardim, de olor eterno,&lt;br /&gt;Vos destina uma sorte mais subida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não descredo do Céu: co’as mãos erguidas&lt;br /&gt;Louvai a mão divina que suspende&lt;br /&gt;No curso o mesmo sol; que, majestoso,&lt;br /&gt;Manda ao mar dividir-se, e ele se fende!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não descrede do Céu: correi ao leito&lt;br /&gt;Onde jaz sem recurso o triste, o pobre,&lt;br /&gt;Prestai-lhe esses sufrágios que dimanam&lt;br /&gt;De um peito caridoso e grande e nobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia morreremos; pois corramos&lt;br /&gt;Sem descanso a exercer a caridade;&lt;br /&gt;Não pode uma ação boa ser banida,&lt;br /&gt;Nem esquece-la a divinal bondade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos momentos da vida nenhum gozo&lt;br /&gt;Se pode comparar ao gozo santo&lt;br /&gt;Que frui o caridoso junto ao leito&lt;br /&gt;Que o mísero verte amargo pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vede (4) em poucos dias tantos nomes&lt;br /&gt;Gravados sobre o templo da memória?&lt;br /&gt;Não vede em poucos dias laureados&lt;br /&gt;Tantos bravos e heróis? – que maior glória?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto tremular a grimpa alçada&lt;br /&gt;Aos brios desta terra belicosa,&lt;br /&gt;Um nome ler-se-á no seu fastígio:&lt;br /&gt;O nome da pessoa caridosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avante, meus irmãos! Se a Deus se pode&lt;br /&gt;Rival atribuir na vida e fama,&lt;br /&gt;Será rival de Deus o caridoso&lt;br /&gt;Que vela o moribundo ao pé da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Cólera. Veja estudo noutro local.&lt;br /&gt;2) Não descrede. O imperativo negativo se faz com o subjuntivo presente: não descreais.&lt;br /&gt;3) Morbo. Veja o estudo a respeito de cólera.&lt;br /&gt;4) Não vede. O imperativo negativo é feito com o subjuntivo presente: não vejais. Admite-se não vede porque na época em que José Coriolano escreveu muitas questões da língua ainda não estavam disciplinadas.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Velho Caçador de Onça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“Avante meus camaradas,&lt;br /&gt;Vamos às matas bater;&lt;br /&gt;Coragem! Fogo na onça&lt;br /&gt;Quando a onça arremeter,&lt;br /&gt;Que o meu facão amolado&lt;br /&gt;Lh’hei de na guela meter;&lt;br /&gt;Que eu não sei que cousa é medo,&lt;br /&gt;Não sei, nem quero saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele cão, que ali vedes, (2)&lt;br /&gt;Trinta mil réis (3) me custou!&lt;br /&gt;Faltará chuva em janeiro,&lt;br /&gt;Mas nunca me ele (4) faltou!&lt;br /&gt;Se a onça ronca raivosa,&lt;br /&gt;Se um ah cão! Me ele escutou,&lt;br /&gt;É polv’ra (5) – o bicho na cava&lt;br /&gt;Meu tubarão (6) acuou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvi-me este canto agora;&lt;br /&gt;Sabeis que eu não minto, não:&lt;br /&gt;Eu caçava no peeiro (7)&lt;br /&gt;O meu cavalo alazão: (8)&lt;br /&gt;Vi uma onça comendo-o,&lt;br /&gt;Estumei-lhe (9) o tubarão.&lt;br /&gt;Ele filou-lhe na curva,&lt;br /&gt;E eu puxei pelo facão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fera, escumando raiva,&lt;br /&gt;Urrando, a mim se botou!&lt;br /&gt;Da mão arrancou-me o ferro (10)&lt;br /&gt;Co’a tapa que me soltou!&lt;br /&gt;Mas eu o braço lhe enterro&lt;br /&gt;Guela dentro que a afogou!&lt;br /&gt;E a fera co’os finos dentes&lt;br /&gt;O braço me mastigou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei – assim – aleijado,&lt;br /&gt;Mas inda movo o facão;&lt;br /&gt;Não temo onças, nem almas,&lt;br /&gt;Nem os vivos, temo, não&lt;br /&gt;Esperai!... vejo trilhada&lt;br /&gt;De rastro (11) a vereda... Ah cão!&lt;br /&gt;Palavras não eram ditas,&lt;br /&gt;Já corria o tubarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a encosta do serro (12) empinado&lt;br /&gt;Uma onça pintada acuou;&lt;br /&gt;Eram brasas seus olhos medonhos,&lt;br /&gt;Muitos cães já o monstro matou!&lt;br /&gt;Um restava – estafado – sangrento –&lt;br /&gt;Que avançava aos estumos d’iscou! (13)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para um canto jaziam cançados&lt;br /&gt;Muitos bravos com pedras na mão!&lt;br /&gt;Um somente co’a fera lutava,&lt;br /&gt;Açulando (14) o fiel tubarão!&lt;br /&gt;Cada grito d’iscou! Retumbava&lt;br /&gt;Qual retumba no espaço o trovão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era só, mas seu rosto brilhava&lt;br /&gt;Como brilha o semblante do herói!&lt;br /&gt;Muitas vezes à boca da furna&lt;br /&gt;Investia valente – qual sói (15)&lt;br /&gt;Ser o bravo guerreiro ferido&lt;br /&gt;Que a ferida não mostra que dói!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lidava e lidava – afilando&lt;br /&gt;O brioso, fiel tubarão;&lt;br /&gt;E uma pedra vibrando, raivoso,&lt;br /&gt;Fez a fera rolar pelo chão&lt;br /&gt;Tremeu ela... gemeu... dando um urro&lt;br /&gt;Que troou como troa o trovão!&lt;br /&gt;E o guerreiro das matas repete&lt;br /&gt;Novo golpe que o onça matou;&lt;br /&gt;E, co’o peito incendido (16) de glória,&lt;br /&gt;Seus amigos, por fim animou&lt;br /&gt;Com a rude canção que dos lábios&lt;br /&gt;Entre vivas e aplausos cantou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou filho destas catingas,&lt;br /&gt;Donde vós também os sois;&lt;br /&gt;Nunca temi o novilho,&lt;br /&gt;Como a onça temer pois?&lt;br /&gt;Co’o ferrão (17) topo-os na testa,&lt;br /&gt;Inda vindo dois a dois!&lt;br /&gt;Não me abate o frio inverno,&lt;br /&gt;Nem de agosto os quentes sóis. (18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive dor de dente,&lt;br /&gt;Nunca tive indigestão,&lt;br /&gt;Nunca doeu-me (19) a cabeça&lt;br /&gt;Nunca sofri retenção, (20)&lt;br /&gt;Nunca andei pelas cidades,&lt;br /&gt;Nunca passei do sertão,&lt;br /&gt;Nunca rojei, suplicando,&lt;br /&gt;Pelos pés do cortesão.(21)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com setenta anos de idade&lt;br /&gt;Inda não sei me torcer;&lt;br /&gt;Ando de pé quase sempre,&lt;br /&gt;Sofro o frio sem tremer;&lt;br /&gt;Lamento os moços de agora&lt;br /&gt;Que vivem tudo a temer;&lt;br /&gt;Nunca chorei nos meus dias,&lt;br /&gt;Nunca me ouviram gemer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou solteiro, - não casei-me&lt;br /&gt;Porque Deus não permitiu;&lt;br /&gt;Amei uma linda moça&lt;br /&gt;Como igual nunca se viu!&lt;br /&gt;Mais leve que uma veada (22)&lt;br /&gt;Que o caçador pressentiu,&lt;br /&gt;Ela não era da terra,&lt;br /&gt;Co’os os anjos ao céu subiu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confessou-me que no mundo&lt;br /&gt;Eu só era o seu amor!&lt;br /&gt;Que vez, tocando a rabeca, (23)&lt;br /&gt;Vi-lhe (24) no rosto o palor, (25)&lt;br /&gt;E uma lágrima comprida&lt;br /&gt;Banhar-lhe o seio d dor!&lt;br /&gt;Nem pai nem mãe tinha ela,&lt;br /&gt;Tinha-os levado o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivia do seu trabalho,&lt;br /&gt;Honrada como ninguém!&lt;br /&gt;Pelos quereres (26) da vida&lt;br /&gt;Eu adorava-a que nem&lt;br /&gt;Tenho palavras que possam&lt;br /&gt;Pintar-vos todo o meu bem!&lt;br /&gt;Mas ela foi-se e eu cá vivo,&lt;br /&gt;Enquanto a hora não vem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprezei o casamento,&lt;br /&gt;Do mundo não quis saber;&lt;br /&gt;Meus pobres pais em meus braços&lt;br /&gt;Eu vi-os também morrer.&lt;br /&gt;Poucos amigos me restam...&lt;br /&gt;As onças vivo a bater.&lt;br /&gt;- Sou cristão, assisto à missa,&lt;br /&gt;confesso-me; eis meu viver.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a rude canção que cantava&lt;br /&gt;O Senhor do fiel tubarão,&lt;br /&gt;Que zombava do mundo e das onças,&lt;br /&gt;E dos males, das eras (27) de então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Onça. Nome vulgar nas espécies de animal carnívoro do gênero felino. De modo geral, a onça pintada ou verdadeira, de ocorrem as espécies suçuarana e tigre. À onça preta se dá o nome de onça-tigre, muito feroz.&lt;br /&gt;2) Vedes. Verbo ver na 2ª pessoa do plural do indicativo presente.&lt;br /&gt;3) Trinta mil réis. Mil réis era a antiga moeda brasileira. Em 1942 passou a cruzeiro, dividido em centavos. Reis é plural de real (moeda).&lt;br /&gt;4) Nunca me ele faltou. Próclise é a colocação do pronome átono antes do verbo. Os clássicos costumavam colocar o átono antes do reto, quando ocorria na frase advérbio notadamente de negação. O fato se chamou e se chama reforço da próclise.&lt;br /&gt;5) Polv’ra. Por pólvora. Supressão de uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;6) Tubarão. O cão, o cachorro.&lt;br /&gt;7) Peeiro. Lugar onde se peiam os animais.&lt;br /&gt;8) Alazão. Cavalo cor de canela. É palavra árabe.&lt;br /&gt;9) Estumei. Verbo estumar. Assanhar (os cães) por meio de gritos e assobios apropriados.&lt;br /&gt;10) Ferro. O facão.&lt;br /&gt;11) Rasto. Também pode dizer-se e escrever-se rastro.&lt;br /&gt;12) Serro. Pronuncia fechada (ser). Espinhaço.&lt;br /&gt;13) Estumos de iscou. Os dicionários não agasalham estumo. Tenho impressão que o poeta empregou estumo como grito, assobio (para assanhar os cães). Macedo Soares diz que estumar é verbo tirado da interjeição ist! ist! “com que se estumam os cães”. Assim estumo seria deverbal de estumar. O poeta empregou ainda iscou. Há o verbo iscar, o mesmo que açular (os cães). Mas iscou na expressão acima está como interjeição.&lt;br /&gt;14) Açulando. Do verbo açular. Instigar (cães) por meio de gestos, gritos. Emprega-se também em sentido figurado: irritar, provocar.&lt;br /&gt;15) Sói. Verbo soer. Defectivo. Significa costumar e só se conjuga nas seguintes formas: sói, soem (indicativo presente); soia, soías, soía, soíamos, soíeis, soíam (pretérito imperfeito do indicativo; soído (particípio).&lt;br /&gt;16) Incendido. É o verbo incender, acender, inflamar.&lt;br /&gt;17) Ferrão. Ponta aguda de ferro.&lt;br /&gt;18) Sóis. Plural de sol.&lt;br /&gt;19) Nunca doeu-me. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: nunca me doeu.&lt;br /&gt;20) Retenção. Prisão de ventre. Dificuldade de evacuar.&lt;br /&gt;21) Cortesão. Empregado no sentido de homem de corte, palaciano.&lt;br /&gt;22) Veada. Fêmea do veado. Venatum. Adjetivo latino do verbo venari (caçar). Tal adjetivo indicava, a princípio, todo e qualquer animal obtido pela caça. Hoje veado designa o antigo cervo.&lt;br /&gt;23) Rabeca. Espécie de violino, quatro cordas de tripa friccionadas com um arco de crina, untado no breu.&lt;br /&gt;24) Vi-lhe. Correto emprego do lhe em função possessiva, correspondente a seu, dele.&lt;br /&gt;25) Palor. Cor pálida.&lt;br /&gt;26) Quereres. Emprego de querer como substantivo. Ato de querer: o querer, os quereres (vontade).&lt;br /&gt;27) Eras. Plural de era: época.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em Que Pensas?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(pelo cólera) (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estas horas, quando em noite turbida&lt;br /&gt;Elevam todos seu esp’rito (2) a Deus,&lt;br /&gt;Temendo os males que ao mortal misérrimo&lt;br /&gt;Envolver tentam nos horrores seus;&lt;br /&gt;A estas horas, quando a chuva em cântaros&lt;br /&gt;Alaga as ruas tão intensa assim,&lt;br /&gt;Que mais assusta os timoratos ânimos,&lt;br /&gt;Bela, em que pensas? Pensarás em mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além rouqueja pelo espaço altíssono&lt;br /&gt;A voz do Eterno no feroz trovão,&lt;br /&gt;Que abala a terra ao fuzilar contínuo&lt;br /&gt;Que à terra vibra do Senhor a mão.&lt;br /&gt;Enquanto a guerra pelo espaço horrífico&lt;br /&gt;Os elementos travam feia assim,&lt;br /&gt;Dormes ou cuidas, linda virgem cândida?&lt;br /&gt;Bela, em que pensas? Pensarás em mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! tu respiras junto à mãe solícita,&lt;br /&gt;Sem que um idéia de volteje má;&lt;br /&gt;Nem talvez pensas que o cruel contágio&lt;br /&gt;Possa ferir-me sem que eu volte lá!&lt;br /&gt;E eu entre os males, entre as duras fráguas&lt;br /&gt;Em ti só penso! Crê-lo-ás assim?&lt;br /&gt;Mas tu tão longe, criatura Angélica...&lt;br /&gt;Bela, em que pensas? Pensarás em mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não queira a sorte, nem o Céu propício&lt;br /&gt;Que eu morra inglório, sem gozar feliz&lt;br /&gt;Os teus encantos que na vida fazem-me&lt;br /&gt;Olvidar males, de que amor maldiz.&lt;br /&gt;Goze eu a glória, seja embora efêmera,&lt;br /&gt;De nos teus braços ser ditoso assim&lt;br /&gt;Como cogito no sonhar poético...&lt;br /&gt;Bela, em que pensas? Pensarás em mim?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Cólera. Veja estudo noutro local.&lt;br /&gt;2) Esp’rito. Espírito. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Filha do Deserto&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu sou a triste filha do deserto,&lt;br /&gt;Que Deus na terra ingrata abençoou;&lt;br /&gt;Se suspiros e lágrimas desperto,&lt;br /&gt;Consolações e paz também eu dou.&lt;br /&gt;Quando as pompas do mundo te enfastiam,&lt;br /&gt;E os prazeres sensuais, que te inebriam,&lt;br /&gt;Derramam-te o horror no coração,&lt;br /&gt;Quem é que, entre sorrindo e lacrimosa,&lt;br /&gt;Que mãe enternecida e piedosa,&lt;br /&gt;A ter com Deus te guia pela mão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou o amigo oásis (1) do deserto,&lt;br /&gt;Que Deus ao viajante fabricou;&lt;br /&gt;Se as saudades da pátria em ti desperto,&lt;br /&gt;Em ti também à pátria um gênio dou&lt;br /&gt;Onde o luso escreveu essa epopéia, (2)&lt;br /&gt;Gigante filha dessa nobre idéia,&lt;br /&gt;Que deu a Portugal fama e brasão? (3)&lt;br /&gt;Onde é que o vate geme suspiroso&lt;br /&gt;As desgraças de um mundo tormentoso,&lt;br /&gt;Fértil em males, fértil em traição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou a companheira do proscrito, (4)&lt;br /&gt;Como fui do Alverenga e do Dirceu; (5)&lt;br /&gt;Se gemidos arranco ao peito aflito,&lt;br /&gt;Também extingo-os no regaço meu.&lt;br /&gt;Acrisola-se em mim a penitência,&lt;br /&gt;Faço em mim ver o ateu a Onipotência,&lt;br /&gt;Dos olhos seus rasgando o denso véu;&lt;br /&gt;Em mim todos encontram pronto meio&lt;br /&gt;De chegar-se ao Eterno ao imenso seio,&lt;br /&gt;De ganhar-se um asilo lá no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era em mim o Sinai, (6) em que contrito&lt;br /&gt;Moisés (7) quarenta dias jejuou,&lt;br /&gt;E o Horto, (8) em que o discípulo maldito (9)&lt;br /&gt;Com um ósculo ao Mestre (10) atraiçoou;&lt;br /&gt;E o Horebe, (11)junto ao qual a sarça ardia,&lt;br /&gt;E o presépio, em que viu a luz do dia&lt;br /&gt;E a Estrela mais gentil da redenção:&lt;br /&gt;Eu sou, mortais, a filha do deserto,&lt;br /&gt;Que o amor e a contrição em vós desperto:&lt;br /&gt;Eu sou, mortais, eu sou a solidão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Oásis. Lugar aprazível, coberto de vegetação, no deserto. No singular e no plural tem a mesma forma.&lt;br /&gt;2) Onde o luso escreveu essa epopéia. Referência ao poeta português Luís de Camões, autor do poema épico “Os Lusíadas”.&lt;br /&gt;3) Brasão. Noutro local há comentário sobre brasão.&lt;br /&gt;4) Proscrito. Desterrado.&lt;br /&gt;5) Alvarenga e Dirceu. Referência a Alvarenga Peixoto, poeta brasileiro do século XVIII integrante da chamada Escola Mineira, lírico; Dirceu é pseudônimo, ou nome árcade, de Tomás Antônio Gonzaga, português de nascimento, que se radicou em Vila Rica (Ouro Preto). Autor do célebre livro de poesias “Marília de Dirceu”. Marília foi Maria Joaquina Dorotéia de Seixas Brandão, sua noiva. Ambos os poetas se envolveram no movimento político da Inconfidência Mineira.&lt;br /&gt;6) Sinai. Nome de uma montanha, aonde chegaram os israelitas depois da saída do Egito. Do cimo deste monte foi proclamada a lei dos dez mandamentos e na sua base foi ratificado o pacto que formou a nacionalidade hebraica, que tinha Jeová por rei.&lt;br /&gt;7) Moisés. Grande legislador hebreu. Instruído na literatura egípcia, pois era filho adotivo de uma princesa do Egito. Descobriu que Deus o chamara para ser libertador dos israelitas, seus irmãos. Retirou-se do Egito. Muito refletiu, na solidão do deserto. Depois do episódio da sarça, Moisés voltou ao Egito. Aí tomou o comando do povo hebreu. No Sinai foi admitido a íntimas relações com Deus. Obteve de Deus os estatutos, baseados nos dez mandamentos. Numa das ocasiões em que foi chamado por Deus ao monte, jejuou quarenta dias e quarenta noites. Como organizador de um povo, Moisés dotou Israel com instituições civis e religiosas de primeira ordem. Possuía dotes de estadista.&lt;br /&gt;8) e 9) Horto e discípulo maldito. Referência ao Jardim das Oliveiras, onde Jesus foi preso por soldados, acompanhados de Judas Iscariotes. É o mesmo Jardim de Getsemâni.&lt;br /&gt;10) Com um ósculo atraiçoou o Mestre. De acordo com um sinal previamente combinado, a fim de indicar aos soldados a pessoa de Jesus, Judas adiantou-se e saudou o mestre, beijando-o na face.&lt;br /&gt;11) Horebe. Veja nota 6. é o monte Sinai.&lt;br /&gt;12) A sarça ardia. Quando terminou a meditação de Moisés no deserto (veja nota 7), foi ele surpreendido com o incêndio de uma sarça que ardia sem se consumir. Aproximando-se para observar o fenômeno, o Senhor o chamou no meio da sarça para ir libertar o seu povo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Noiva&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ei-la tão bela e casta – pensativa...&lt;br /&gt;Sobre a mão descasando a linda face!&lt;br /&gt;Ei-la de leve abrindo os róseos lábios&lt;br /&gt;E um ai soltando que em Jesus termina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! que uma lágrima dos meigos olhos&lt;br /&gt;Ora lhe inunda o encantador semblante;&lt;br /&gt;Mas um sorriso brinca-lhe nos lábios,&lt;br /&gt;Dando a seu pranto salutar antídoto! (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede-a, não mais suspira, a breve boca&lt;br /&gt;O sorriso descerra, pudibundo,&lt;br /&gt;Tão cheio de inocência e de candura,&lt;br /&gt;Tão pudibundo que de sê-lo cora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, dor! – de novo o pranto se sucede,&lt;br /&gt;De novo o riso nos seus lábios pousa!&lt;br /&gt;Virgem, virgem do amor, que alternativa&lt;br /&gt;Tu’alma ingênua assim contrista e alegra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sentes, virgem? Que mistério é este?&lt;br /&gt;Por que tu choras, enrubesces, ri-te?&lt;br /&gt;Como é que o pranto te sucede o riso?&lt;br /&gt;Como é que ao riso te sucede o pranto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgem, virgem de amor, eu te perscruto...&lt;br /&gt;Os recônditos, puros pensamentos&lt;br /&gt;Descortino-te, e sei porque suspiras&lt;br /&gt;Tão grato suspirar envolto em gozos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És noiva, em breve teus dias&lt;br /&gt;Vão tomar diversa cor,&lt;br /&gt;Não turvos, sempre serenos&lt;br /&gt;Nos doces laços do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pensas, virge, e suspiras,&lt;br /&gt;Se acendes na face a cor,&lt;br /&gt;Suspiras, virgem, de pura,&lt;br /&gt;Pensas nos laços do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu terno pranto coado&lt;br /&gt;Da saudade no rigor,&lt;br /&gt;O seio materno banha,&lt;br /&gt;Banha as mãos do genitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu riso adoça a lembrança&lt;br /&gt;Da posse desse penhor,&lt;br /&gt;Que por ti somente anhela&lt;br /&gt;Os doces laços de amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu’alma é como a de um anjo&lt;br /&gt;De um Serafim do Senhor;&lt;br /&gt;É pura como a das virgens&lt;br /&gt;Que habitam co’o Salvador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pensas, virge, e suspiras,&lt;br /&gt;Se acendes na face a cor&lt;br /&gt;Suspiras, virgem, de pura,&lt;br /&gt;Pensas nos laços de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu pensas! não sabes se acaso um futuro&lt;br /&gt;Pra ti se reserva de angústias pejado;&lt;br /&gt;Tu pensas! não sabes se o nó que meditas&lt;br /&gt;Será feliz sempre, ditoso, sagrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu choras! teu pranto saudades revela,&lt;br /&gt;Revela lembranças do tempo passado;&lt;br /&gt;Tu choras! teu pranto nos joelhos goteja&lt;br /&gt;Da mãe carinhosa, do pai desvelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu ri-te! teu riso te afaga a lembrança&lt;br /&gt;De unires-te (2) àquele que te é tão prezado;&lt;br /&gt;Tu ri-te! (3) teu riso demonstra a certeza&lt;br /&gt;De seres, ó virgem, penhor muito amado.&lt;br /&gt;Tu coras! o nácar (4) que às faces te sobe.&lt;br /&gt;Que o rosto formoso te faz mais rosado,&lt;br /&gt;Ó virgem, demonstra que és pura, que és bela,&lt;br /&gt;Que um nó tu meditas difícil, sagrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a virgem que pensa na sorte futura,&lt;br /&gt;Que chora saudosa – do tempo passado,&lt;br /&gt;Que ri-se (5) à lembrança de mútuo amor terno,&lt;br /&gt;Que cora de um laço tão puro e sagrado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! não! essa virgem, tão puro, tão santa,&lt;br /&gt;Às portas tremendas do templo sagrado,&lt;br /&gt;Um beijo não cede, não vende perjura&lt;br /&gt;Ao vil que a requesta, profano, malvado.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Antídoto. É o emprego anti (contra) e doto (dado). Antídoto significa dado contra. Contraveneno. O poeta empregou a palavra em sentido figurado: remédio contra um mal moral.&lt;br /&gt;2) Na época em que o poeta escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.&lt;br /&gt;3) Vide nota 2&lt;br /&gt;4) Nácar. Cor de carmim. Cor-de-rosa.&lt;br /&gt;5) Que ri-se. Veja as notas 2 e 3&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nênia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(À morte de meu colega Manuel Alexandrino da Silva Girão, falecido no dia 8 de maio de 1855, quando estudante do 1º ano da Faculdade de Direito do Recife.)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Frágil homem, mortal, que és tu no mundo,&lt;br /&gt;No grande espaço do universo solto?&lt;br /&gt;- Hoje vida e prazer; - hoje alegria:&lt;br /&gt;- Amanhã cinza ou nada, em morte envolto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje vida e consolo; hoje esperança,&lt;br /&gt;Reluta a mente co’o poder da sorte:&lt;br /&gt;Mas não reluta, por lhe ser defeso, (1)&lt;br /&gt;Co’o tremendo poder que vem da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela tirana, com seu ferro ervado,&lt;br /&gt;Prostra o mancebo no florir dos anos;&lt;br /&gt;Desfaz a glória de seus sonhos magos,&lt;br /&gt;Sem que vença o porvir de seus arcanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó morte, és bem cruel! Por que roubaste&lt;br /&gt;O filho pelo qual a mãe suspira?&lt;br /&gt;Por que roubaste o devotado amigo,&lt;br /&gt;Cuja lembrança tanta dor inspira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ah! que a flor singela da campina&lt;br /&gt;Muitas vezes abate o vento forte,&lt;br /&gt;Como a vida singela do mancebo&lt;br /&gt;Muitas vezes decepa a crua morte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tua vida exalou-se, como o incenso, (2)&lt;br /&gt;Como esvai-se da flor o doce cheiro,&lt;br /&gt;Fugiu de sobre a terra como foge&lt;br /&gt;A cristalina fonte de um ribeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi unir-se ao Senhor, grato consolo!&lt;br /&gt;Que um prêmio lá no céu tem a virtude;&lt;br /&gt;Foi unir-se ao Senhor, que o céu acolhe,&lt;br /&gt;Quando morre contrita a juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a dor que min’alma dilacera&lt;br /&gt;Quanto é pungente! Que cruel saudade!&lt;br /&gt;Quanto é breve, meu Deus, quanto aflitiva&lt;br /&gt;A vida humana nesta soledade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frágil homem, mortal, que és tu no mudo,&lt;br /&gt;No grande espaço do universo solto?&lt;br /&gt;- Hoje vida e prazer; - hoje alegria:&lt;br /&gt;- Amanhã cinza ou nada, em morte envolto.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) e 2) Defeso e incenso. Palavras comentadas noutro local deste livro.&lt;br /&gt;Observação: três espécies de cantos ou poemas havia na antiga Roma recitados nas exéquias de pessoas notáveis: a nênia era declamada ou cantada junto à fogueira, em que se incinerava o cadáver; o epitáfio era gravado sobre a urna; e o epicédio era pronunciado na cerimônia dos funerais, estando o corpo presente. O vocábulo epitáfio ainda tem a mesma significação. A nênia e o epicédio são hoje elegias fúnebres compostas para celebrar ou lamentar a perda de pessoa ilustre e querida (Veja – Olavo Bilac e Guimarães Passos – “Tratado de Versificação” – 135, 136)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entrevista&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero pedir-lhe uma coisa.&lt;br /&gt;“Duas e três: diga, peça.”&lt;br /&gt;Não se zangue: dê-me um beijo.&lt;br /&gt;“Tudo farei, menos essa...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixe disso: dê-me um beijo.&lt;br /&gt;“Logo lhe dou, não se vexe.” (1)&lt;br /&gt;É que você não me estima.&lt;br /&gt;“Não diga tal, não se queixe.” (2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por que não dá-me (3) o beijo?&lt;br /&gt;“Não lh’o dou por ser donzela.” (4)&lt;br /&gt;Pois então dê-me um abraço.&lt;br /&gt;“Bem tola, se caiu nela!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada então você quer dar-me?&lt;br /&gt;“Dou-lhe este róseo botão.”&lt;br /&gt;Somente! nada mais dá-me? (5)&lt;br /&gt;“Dou-lhe mais meu coração.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderei dispor só dele?&lt;br /&gt;“Esta é boa! Por que não?”&lt;br /&gt;Então não tem outro dono?&lt;br /&gt;“Por Deus lhe juro que não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém... quando dá-me (6) o beijo?&lt;br /&gt;“Quando der-lhe (7)a minha mão.”&lt;br /&gt;Mesmo à face dos altares?&lt;br /&gt;“Deus me defenda! Aí não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! já sei, você tem medo.&lt;br /&gt;“Medo, não; vergonha, sim.”&lt;br /&gt;Pois escute: é um segredo...&lt;br /&gt;“Ai beijou-me! Só assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) e 2) o poeta rimou vexe (ê) com queixe. Não é rima perfeita, mas muito usada.&lt;br /&gt;3) Não dá-me. Na época em que José Coriolano poetou, não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: não me dá.&lt;br /&gt;4) Donzela. Emprego no sentido de virgem. Mulher virgem.&lt;br /&gt;5) Nada mais dá-me. Veja nota 3&lt;br /&gt;6) Quando dá-me. Veja nota 3.&lt;br /&gt;7) Quando der-lhe. Veja nota 3.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Só Eu Não Morro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre a inocente criança,&lt;br /&gt;Esperanças de seus pais;&lt;br /&gt;Morre a donzela formosa,&lt;br /&gt;Nem coram-lhe as faces mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre o poeta mimoso&lt;br /&gt;Que em brandos versos cantou&lt;br /&gt;Sua pátria, seus amores,&lt;br /&gt;E tudo que o inspirou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre o catre (1) da velhice&lt;br /&gt;Sempre querido o ancião,&lt;br /&gt;Deixa o filho inconsolável,&lt;br /&gt;Deixa mais de um coração!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa que sobre a tarde&lt;br /&gt;Vem co’as ramas cochichar,&lt;br /&gt;Se perde no espaço imenso,&lt;br /&gt;Nem pode mais murmurar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morre a flor que se embalança&lt;br /&gt;Na linda haste que a sustem,&lt;br /&gt;Tudo morre neste mundo:&lt;br /&gt;Morre a virtude também!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo morre, é bem verdade!...&lt;br /&gt;Mas eu por que vivo sou?&lt;br /&gt;Se as flores e as virgens morrem,&lt;br /&gt;Por elas por que não vou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu irei... é bom que finde&lt;br /&gt;Este leal coração,&lt;br /&gt;Que há tantos anos padece,&lt;br /&gt;Sem achar consolação!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flores donosas da terra,&lt;br /&gt;Mimosas virgens de Deus,&lt;br /&gt;Não morrei, (2) por vós eu parto,&lt;br /&gt;Lembrai-vos de mim. Adeus!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Catre. Cama pobre, miserável.&lt;br /&gt;2) Não morrei. Trata-se de imperativo negativo. O imperativo negativo faz-se com o subjuntivo presente: não morrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Hino à Tarde&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eis a tarde de primores rica!&lt;br /&gt;Em mimos co’a manhã rivalizando.&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Marques de Paranaguá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde meiga e gentil, se tu não fosses&lt;br /&gt;Mais triste que a manhã, mais melancólica,&lt;br /&gt;Quantas vezes comigo meditando,&lt;br /&gt;Precursora do sol te julgaria!&lt;br /&gt;Mas, depois, atentando em teus langores,&lt;br /&gt;Na dor, na compaixão que em ti transluzem,&lt;br /&gt;Conheço o teu fadário neste mundo&lt;br /&gt;Não es ditosa, - não – e só tens risos&lt;br /&gt;Para o filho infeliz da desventura.&lt;br /&gt;Tarde meiga e gentil, amo-te muito!&lt;br /&gt;Que peito pode haver ingrato e rude&lt;br /&gt;Aos influxos suaves que respiras,&lt;br /&gt;Sem do passado refletir saudoso&lt;br /&gt;Nos dias de prazer que já gozamos!&lt;br /&gt;Ou em que em teu seio, ébrio de saudade,&lt;br /&gt;Não gema e não suspire, e aos tristes olhos&lt;br /&gt;Não mande um pesaroso pranto – amigo!&lt;br /&gt;Oh! sim – eu chorarei, porque meu peito&lt;br /&gt;Às vezes no chorar encontra alívio.&lt;br /&gt;Tarde meiga e gentil, amo-te muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se compassiva os corações tu prendes,&lt;br /&gt;Como nos prende com seu pranto a órfã,&lt;br /&gt;Se a mente em santo arroubo nos enlevas,&lt;br /&gt;Como o riso da virgem pudibunda&lt;br /&gt;Que o selo marca de um sofrer intenso,&lt;br /&gt;Porque da frouxa, dissonante lira&lt;br /&gt;Sentidos carmes te ofertar não devo?&lt;br /&gt;Oh! sim – eu cantarei, porque meu peito&lt;br /&gt;Às vezes no cantar encontra alívio.&lt;br /&gt;Tarde meiga e gentil, amo-te muito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta é bela a manhã, surgindo alegre&lt;br /&gt;Das partes do oriente, em que se arreia (1)&lt;br /&gt;Que formosos listões (2) de fogo e púrpura,&lt;br /&gt;Que sua cor dourada comunicam&lt;br /&gt;Às campinas, à fonte, às cumeadas!&lt;br /&gt;O levantino (3) mar é todo rosas&lt;br /&gt;No seu leito de areia a espreguiçar-se&lt;br /&gt;Oh! quanto a aurora despontando é bela!&lt;br /&gt;Tarde, filha do céu, os teus encantos&lt;br /&gt;Não lhe ficam somenos: (4) tu guarneces&lt;br /&gt;Também as nuvens brancas de escalarte,&lt;br /&gt;Quando além do poente o sol se esconde.&lt;br /&gt;Um manto sobre o mar também estendes&lt;br /&gt;De vermelhos listões também formado.&lt;br /&gt;Vales, campinas, fonte e campanários&lt;br /&gt;Com seu meigo arrebol também matizas.&lt;br /&gt;Se a natureza ri-se (5) com seus raios,&lt;br /&gt;Se bafejam as auras docemente,&lt;br /&gt;Enchendo de fragrância os horizontes,&lt;br /&gt;Também, tarde gentil, no teu regaço,&lt;br /&gt;Ao sepultar-se o sol, as aves trinam,&lt;br /&gt;Suspira a natureza, as auras sopram,&lt;br /&gt;Embalsamando os ares de fragrância.&lt;br /&gt;Em ti se encontra amor, ledice, encanto!&lt;br /&gt;O proscrito, (6) nas lágrimas que entorna,&lt;br /&gt;No teu suave seio alívio encontra;&lt;br /&gt;Encontra alívio aos duros sofrimentos&lt;br /&gt;O desgraçado que de amor padece.&lt;br /&gt;Chora a tarde o extremoso amigo a ausência&lt;br /&gt;Do amigo que no peito traz gravado.&lt;br /&gt;Choram os pais pelos ausentes filhos,&lt;br /&gt;E os filhos pelos pais ausentes choram.&lt;br /&gt;O amante pela amada em dor se fina (7)&lt;br /&gt;E a amada pelo amante em dor consome-se.&lt;br /&gt;Todos carpem à tarde, e acham consolo,&lt;br /&gt;Se da ausência os rigores crus suportam.&lt;br /&gt;Extático (8) o poeta te contempla!&lt;br /&gt;E que idéias tão ternas se associam&lt;br /&gt;Por teu tristonho porte despertadas!&lt;br /&gt;Te semelhas à virgem que suspira,&lt;br /&gt;E como ela também és triste e bela.&lt;br /&gt;Mas na tua tristeza o mel se bebe&lt;br /&gt;Que tranqüiliza os corações que sofrem.&lt;br /&gt;Num triste cogitar se encontra às vezes&lt;br /&gt;Lenitivo, que os males dissipando,&lt;br /&gt;Torna a mente de novo ao seu descanço.&lt;br /&gt;Ó tarde, doce amiga, quanto te amo!&lt;br /&gt;Que vezes me ofereceste desafogo&lt;br /&gt;As saudades que assaz me acompanhavam!&lt;br /&gt;Que vezes dos meus olhos roxeados&lt;br /&gt;Já de muito chorar, mais novo pranto&lt;br /&gt;Arrancaste, a minh’alma consolando,&lt;br /&gt;Que em chorar também há consolo pronto!&lt;br /&gt;E quando esses momentos soidosos (9)&lt;br /&gt;Melancolia só me prodigavam,&lt;br /&gt;Onde soltava os meus gemidos longos&lt;br /&gt;Que “saudades e ausência” só diziam?&lt;br /&gt;Soltava-os nessas sombras que ministras&lt;br /&gt;De copado arvoredo sussurante&lt;br /&gt;Ou no abrigo das penhas que resistem&lt;br /&gt;Aos embates do vento duro e forte.&lt;br /&gt;Ó tarde! – quanto és grata aos que padecem!&lt;br /&gt;Quanto mais tu das trevas te aproximas,&lt;br /&gt;Mais exultam d’alegres dous amantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, céus! – que feliz coincidência&lt;br /&gt;Mais a tarde enfeitiça no meu canto!&lt;br /&gt;Eu escuto uma voz que me desperta&lt;br /&gt;Na mente altiva pensamentos puros,&lt;br /&gt;No peito nobre sentimentos caros.&lt;br /&gt;Pobre virgem! quem sabe o que ela sofre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que belo quadro – agora – além contemplo!&lt;br /&gt;Perto de mim – sereno – se desliza&lt;br /&gt;O meu velho Poty. (10) Como amoroso&lt;br /&gt;Recebe na rugosa e limpa face&lt;br /&gt;Macios beijos das trementes ramas,&lt;br /&gt;Que as margens lhe embelecem de verdura!&lt;br /&gt;Que sons tão meigos! – que trinados ternos!&lt;br /&gt;São canoros cupidos (11) que saudosos&lt;br /&gt;Despedem-se da tarde que se ausenta.&lt;br /&gt;E lá voa também a parda rola (12)&lt;br /&gt;Do movediço galho do mofumbo,&lt;br /&gt;Que deixou de gemer neste momento;&lt;br /&gt;E vai no interior, talvez, da selva&lt;br /&gt;Em procura do esposo que ela adora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horas propícias, horas de repouso,&lt;br /&gt;Em que o duro trabalho abandonando&lt;br /&gt;O rude camponês, fruir vem mimos&lt;br /&gt;Da linda esposa que na porta espera&lt;br /&gt;E graças infantis, travessos brincos&lt;br /&gt;De tenra prole, que sentada em torno&lt;br /&gt;Da carinhosa mãe, lhe pede um conto,&lt;br /&gt;Uma história de fadas, de Trancoso, (13)&lt;br /&gt;Onde falem pombinhas e outras aves,&lt;br /&gt;A piaba, (14) a sardinha, outros pescados,&lt;br /&gt;E a quem um beijo, uma promessa ilude,&lt;br /&gt;Convidando a dormir – tão crente e pura.&lt;br /&gt;Ó horas de repouso, eu vos saúdo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, agora mesmo, além vogando,&lt;br /&gt;Garbosa como um cisne, uma barquinha&lt;br /&gt;Conduza sobre o mar sereno e quedo&lt;br /&gt;Ditoso amante porque aos lares volta,&lt;br /&gt;Depois de haver em doce amigo abraço&lt;br /&gt;Afogado a saudade que o pungia&lt;br /&gt;Ou pode ser que alguém... (talvez que um bardo) (15)&lt;br /&gt;Infeliz chore a perda irreparável&lt;br /&gt;Da prenda que o amava e que constante&lt;br /&gt;Amor lhe merecia do imo (16) peito.&lt;br /&gt;Talvez, que agora mesmo, sobre a laje,&lt;br /&gt;Que dela cobre os restos preciosos,&lt;br /&gt;Ensine, soluçando, às mansas brisas,&lt;br /&gt;Tristes endechas, (17) suspirosas nênias! (18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde, tarde de amor, que som penoso&lt;br /&gt;Te quebra a placidez do almo remanso,&lt;br /&gt;Prenhe d’inspirações que infudem n’alma&lt;br /&gt;Um sentir que nos lembra a Eternidade?&lt;br /&gt;É o toque do sino que anuncia&lt;br /&gt;A hora angelical: (19) eia... rezemos;&lt;br /&gt;Um momento, sequer, aos céus divinos&lt;br /&gt;Nossa mente se eleve em santo arroubo!&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;Só tu, ó tarde, encerra tais encantos!&lt;br /&gt;Ó tarde mais gentil que a manhã bela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já por outro hemisfério o sol radia!&lt;br /&gt;E mal no ocaso seu fulgor vislumbra.&lt;br /&gt;A noite já desdobra sobre a terra&lt;br /&gt;Sombrio véu que a torna erma e tranqüila.&lt;br /&gt;Já tremulam no céu tíbios luzeiros,&lt;br /&gt;Decorando de brilho a azul esfera, (20)&lt;br /&gt;Já rutila saudosa e meiga lua,&lt;br /&gt;Beijando o vale ameno e a flor do lago!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a deus, ó tarde meiga, um ai recebe&lt;br /&gt;Deste que te cantou.&lt;br /&gt;Sê formosa como é sempre a bonina (21)&lt;br /&gt;Que em ti desabrochou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a virgem que ardente o bardo adora,&lt;br /&gt;Que em teu seio chorou;&lt;br /&gt;Que gemeu, por não vê-lo em teu regaço,&lt;br /&gt;Que tanto suspirou.&lt;br /&gt;E adeus mais outra vez, ó tarde amiga,&lt;br /&gt;Tarde do coração;&lt;br /&gt;Dá-me sempre de amor saudoso pranto,&lt;br /&gt;Dá-me consolação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ti, somente em ti penso nos dias&lt;br /&gt;Passados – que lá vão...&lt;br /&gt;Contigo e só contigo os males choro&lt;br /&gt;Do triste coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E adeus, terceira vez, tarde querida,&lt;br /&gt;Meu inocente bem&lt;br /&gt;Outros bardos inspira e prende meiga&lt;br /&gt;Por onde vais – além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem teus amores e perfumes castos&lt;br /&gt;Que gosto a vida tem?&lt;br /&gt;Adeus! – té amanhã: sentidos versos&lt;br /&gt;Sempre inspirar-me vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Arreia. Verbo arrear, ornamentar, enfeitar.&lt;br /&gt;2) Listões. Palavra já comentada.&lt;br /&gt;3) Levantino. Relativo ao Levante (o mesmo que leste).&lt;br /&gt;4) Somenos. Adjetivo. De qualidade inferior.&lt;br /&gt;5) Se a natureza ri-se. No tempo em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje: se a natureza se ri ou se se ri a natureza.&lt;br /&gt;6) Proscrito. Observação neste local deste livro.&lt;br /&gt;7) Em dor se fina. Verbo finar-se, morrer.&lt;br /&gt;8) Extático. Enlevado, maravilhado. Não confundir com estático (que está em repouso, parado).&lt;br /&gt;9) Soidosos. Forma antiquada de saudoso.&lt;br /&gt;10) Poti. Já observado noutro local.&lt;br /&gt;11) Cupidos. Personificação do Amor. Amantes. Não confundir com cupido.&lt;br /&gt;12) Rola. Já observada a palavra noutro local.&lt;br /&gt;13) Trancoso. Aparece na expressão “História de Trancoso”. Afrânio Peixoto escreveu nas notas ao seu romance “Bugrinha”: “Outro livro que Portugal e o Brasil conheceram e vão esquecendo injustamente, “Contos de História e Proveito e Exemplo”, muito popular em tempo, entre as nossas populações rústicas. Além de livro de leitura e edificação, trazia, apensas, regras de urbanidade e polícia moral, com que educava nas boas maneiras. Várias vezes ouvi, na minha infância o ditado: - São histórias de Trancoso – como cousa difícil de ser acreditada, pela piedade e bom regimento, ironia do povo ao ingênuo autor que lhe encantou e sujeitou a infância, contando-lhe aventuras para proveito e exemplo, para os fazer pessoas prudentes e graves, o que é sempre aborrecido e molesto. Ao bom Gonçalo Fernandes Trancoso deu recente e merecida ressurreição o mais formoso volume da “Antologia Portuguesa”, que dirige o sábio Agostinho de Campos (Lisboa, 1921)”. (“Bugrinha) – pág. 350).&lt;br /&gt;14) Piaba. Peixe de água doce. Peixe pequeno.&lt;br /&gt;15) Bardo. Poeta.&lt;br /&gt;16) Imo. O mais profundo.&lt;br /&gt;17) Endechas. Palavra comentada noutro local.&lt;br /&gt;18) Nênia. Palavra comentada noutro local.&lt;br /&gt;19) Hora angelical. Angelical é o mesmo que angélico. Relativo aos anjos. Hora angelical é a hora do ângelus, oração em honra ao mistério da Encarnação. Toque do sino que indica aos fiéis o momento de recitar tal oração, no fim da tarde.&lt;br /&gt;20) Azul esfera. O firmamento.&lt;br /&gt;21) Bonina. Planta dos prados.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Rola e o Gavião&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Estava a rola em seu ninho,&lt;br /&gt;Quando aponta um gavião, (1)&lt;br /&gt;Que já tinha um borrachinho (2)&lt;br /&gt;Roubado a seu coração.&lt;br /&gt;“Que vem ver, ave inimiga?&lt;br /&gt;Não basta o que sofri eu?&lt;br /&gt;Talvez mui (3) breve se diga:&lt;br /&gt;A triste rola morreu!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rola – lhe diz o tirano,&lt;br /&gt;Dá-me esse pobre pagão; (4)&lt;br /&gt;Ficarás em paz este ano,&lt;br /&gt;Todo o resto da estação – (5)&lt;br /&gt;Diz-lhe a rola: “Ave inimiga,&lt;br /&gt;Dize: que mal te fiz eu?&lt;br /&gt;Talvez mui breve se diga:&lt;br /&gt;A triste rola morreu!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dá-me, inocente, mesquinha,&lt;br /&gt;Dá-me teu filho, se não (6)&lt;br /&gt;Eu juro comer asinha (7)&lt;br /&gt;Filho e mãe sem distinção –&lt;br /&gt;“Paciência, ave inimiga,&lt;br /&gt;Foi este o destino meu!&lt;br /&gt;Talvez mui breve se diga:&lt;br /&gt;A triste rola morreu!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a cruel ave despreza&lt;br /&gt;As queixas que ouvia em vão:&lt;br /&gt;Filho e mãe faz sua presa,&lt;br /&gt;Come-os com sofreguidão&lt;br /&gt;E voando a ave inimiga,&lt;br /&gt;Pra sempre o ninho esqueceu!&lt;br /&gt;Porém há tanto quem diga:&lt;br /&gt;A triste rola morreu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Gavião. Ave de rapina.&lt;br /&gt;2) Borrachinho. Diminutivo de borracho. Diz-se de borracho do filhote do pombo. José Coriolano empregou a palavra como filhote da rola. Silveira Bueno leciona que borracha, latim burrago, burraginis, derivado de burra, pele, era vasilha para líquidos, garrafa. Mas na borracha também se colocava vinho e daí se chegou a noção de bêbedo que se vê em borracho: cheio de vinho. O filhote de pombo – borracho – se prende a burra, pele, “mas sobre outro aspecto, sob o aspecto da cor: a pele nova é vermelha e a lã avermelhada, não clara, também era chamada burra. O borracho então, filhote de pombo, tem tal nome já pela cor da pele e também porque, em geral está gordinho, cheinho”. (“Questões de Português” – 1ª série – 68, 69).&lt;br /&gt;3) Mui. Já observado noutro local.&lt;br /&gt;4) Pagão. Empregado no sentido em que não tem padrinho, desprotegido.&lt;br /&gt;5) Estação. Cada uma das quatro partes do ano, diferentes pelas condições de temperatura (primavera, verão, outono e inverno).&lt;br /&gt;6) Se não. Separados os dois elementos quando significa caso não, como no texto.&lt;br /&gt;7) Asinha. Não se trata de diminutivo de asa, mas do advérbio depressa, sem demora, antiquado.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Morena&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Estende no cavalete (1)&lt;br /&gt;O pintor a branca tela,&lt;br /&gt;Já lhe transborda a paleta (2)&lt;br /&gt;De alambre, (3) jambo (4) e canela. (5)&lt;br /&gt;Não é a Vênus (6) dormindo,&lt;br /&gt;Nem também do mar saindo,&lt;br /&gt;Que o quadro vai animar:&lt;br /&gt;É a morena mimosa,&lt;br /&gt;De face tão setinosa,&lt;br /&gt;De tão mavioso olhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá vida, pintor, à tela,&lt;br /&gt;Empunha, poeta, a pena:&lt;br /&gt;Ei-la! Que moça tão bela!&lt;br /&gt;Que encantadora morena!&lt;br /&gt;Não sombreiam suas faces&lt;br /&gt;Rubim e corais (7) vivaces (8)&lt;br /&gt;Sobre um tez de marfim;&lt;br /&gt;Mas nas faces tem a musa (9)&lt;br /&gt;O garbo de uma Andaluza, (10)&lt;br /&gt;As graças de um Serafim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Painel soberbo! – nas aras&lt;br /&gt;Profanas de tempo adusto,&lt;br /&gt;Belezas assim tão raras&lt;br /&gt;Valem mais que heróico busto.&lt;br /&gt;Marca o guerreiro o nome&lt;br /&gt;No batalhar que o consome&lt;br /&gt;Entre lagos de cruor;&lt;br /&gt;A tua glória, morena,&lt;br /&gt;É perfumosa e serena&lt;br /&gt;E grata como a da flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobraçara Homero (11) a harpa (12)&lt;br /&gt;Para tecer-te odisséias, (13)&lt;br /&gt;Te invejara a breve charpa&lt;br /&gt;Essa mãe do pio Enéas, (14)&lt;br /&gt;Ossian (15) no seu alaúde&lt;br /&gt;Te consagrara não rude&lt;br /&gt;Um belo canto escocês; (16)&lt;br /&gt;E até das azuis campinas&lt;br /&gt;As plêiadas (17) peregrinas&lt;br /&gt;Te cobiçaram a tez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De alambre, jambo e canela&lt;br /&gt;Extrata, (18) pintor, as tintas,&lt;br /&gt;Extrata, e anime-se a tela&lt;br /&gt;Com essas cores distintas.&lt;br /&gt;Na tela o pincel, na história&lt;br /&gt;Do bardo a pena, - que glória!&lt;br /&gt;Vão-te a cor eternizar:&lt;br /&gt;Tu es na terra, morena,&lt;br /&gt;Fadada, como a Sirena (19)&lt;br /&gt;Nos régios paços do mar.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Cavalete. Armação de madeira, que lembra o cavalo.&lt;br /&gt;2) Paleta. O mesmo que palheta. “Tabuinha delgada, geralmente oval, com abertura para o polegar da mão esquerda, utilizada pelos pintores para dispor e combinar as tintas” (Nascentes).&lt;br /&gt;3) Alambre. É o âmbar. Resina fossilizada. Cor amarela.&lt;br /&gt;4) Jambo. Fruto. De cor loura, esbranquiçada, ou tirante a cor da gema do ovo.&lt;br /&gt;5) Canela. Árvore e especiaria. Cor alourada.&lt;br /&gt;6) Vênus. Da mitologia. Deusa da beleza e do amor, nasceu da espuma do mar.&lt;br /&gt;7) Corais. Concreção calcária e ramosa, geralmente vermelha.&lt;br /&gt;8) Vivaces. O mesmo que vivazes. Vivace é forma antiquada.&lt;br /&gt;9) Musa. Emprego no sentido de mulher inspiradora de um artista.&lt;br /&gt;10) Andaluza. Mulher da Andaluzia, capital Sevilha, na Espanha. As mulheres andaluzas são atrativas, têm algo secreto nos olhos, nos gestos, na personalidade. Inspiraram grandes pintores.&lt;br /&gt;11) Homero. Poeta épico grego cuja vida, desde o século VI a.C., tem sido assunto de lendas. Diziam-no cego. A ele são atribuídas as duas grandes epopéias “Ilíada” e “Odisséia”.&lt;br /&gt;12) Harpa. Instrumento musical de cordas, forma triangular.&lt;br /&gt;13) Odisséia. Título da epopéia de Homero. O poeta empregou odisséia como viagem cheia de aventuras extraordinárias.&lt;br /&gt;14) Enéias. Príncipe troiano, filho de Vênus e de Anquises, herói do poema “Eneida”, de Virgílio. Combateu corajosamente os gregos durante a guerra de Tróia. Aportou ao Lácio, território dos latinos. Daí nasceram Roma e a Itália.&lt;br /&gt;15) Ossian. Herói e poeta da Escócia (século III).&lt;br /&gt;16) Escocês. Natural da escócia. A mais setentrional das três partes das Ilhas Britânicas, ao norte da Grã-Bretanha.&lt;br /&gt;17) Plêiadas. Também plêiades. Designação geral das sete filhas de Atlas e de Plêiona. metamorfoseadas em estrelas.&lt;br /&gt;18) Extrata. Verbo extratar, extrair.&lt;br /&gt;19) Sirena. É o latim sirena, que, pelas transformações fonéticas normais, passou a sereia, ser mitológico, gênio feminino malfazejo, representado geralmente na forma de peixe, com cabeça e peito de mulher. Os primitivos navegadores acreditavam que a sereia, que diziam ter canto mavioso, atraía os marujos para o mar, onde morriam afogados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;A Canção do Serrano (1)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus Senhor compadecido&lt;br /&gt;Nossas preces atendeu;&lt;br /&gt;A seca que ameaçava.&lt;br /&gt;Dentre nós despareceu. (2)&lt;br /&gt;Graças a Deus, temos chuva!&lt;br /&gt;Graças a Deus já choveu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eia, meus filhos, partamos,&lt;br /&gt;Vamos à serra plantar,&lt;br /&gt;Vamos as perdas passadas&lt;br /&gt;Este ano recuperar:&lt;br /&gt;Milho, arroz, feijão, farinha,&lt;br /&gt;Teremos tudo a fartar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a seca arrebenta,&lt;br /&gt;Coragem! Meus filhos, fé!&lt;br /&gt;Teremos bastante chuva,&lt;br /&gt;Boa safra de café.&lt;br /&gt;Graças à Virgem Maria,&lt;br /&gt;Louvores a San’José. (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta noite ouvi a porta&lt;br /&gt;Muitas vezes estalar;&lt;br /&gt;Esta noite a rã esteve&lt;br /&gt;Constantemente a raspar... (4)&lt;br /&gt;São sinais de bom inverno:&lt;br /&gt;Vamos, rapazes, plantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também reparei que à noite&lt;br /&gt;Esteve a relampejar&lt;br /&gt;Para as partes do nascente, (5)&lt;br /&gt;Toda noite num cortar!&lt;br /&gt;É sinal de bom inverno:&lt;br /&gt;Vamos, rapazes, plantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos, que a vida da serra.&lt;br /&gt;Tem primores que mais não!&lt;br /&gt;Nosso peito se dilata,&lt;br /&gt;Bate alegre o coração&lt;br /&gt;Quando chega o fresco inverno&lt;br /&gt;E foge o quente verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É belo à tona da terra&lt;br /&gt;Ver-se o legume brotar;&lt;br /&gt;É belo vê-lo ir crescendo,&lt;br /&gt;Crescendo até se fechar;&lt;br /&gt;É belo em manhã serena&lt;br /&gt;Na roça se passear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando o milho começa&lt;br /&gt;No roçado a pendoar, (6)&lt;br /&gt;E depois de pendoado,&lt;br /&gt;Principia a bonecrar, (7)&lt;br /&gt;E as vberdes, lindas bonecas&lt;br /&gt;Começam d’encabelar... (8)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! que então nada no mundo&lt;br /&gt;Eu jugo tão belo assim!&lt;br /&gt;Pode ser lá para os outros,&lt;br /&gt;Mas, não é cá para mim;&lt;br /&gt;Nos gostos não há escolha:&lt;br /&gt;Não há nada bom, nem ruim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse, digo e direi sempre:&lt;br /&gt;Nada me sabe agradar&lt;br /&gt;Como a vista deleitosa&lt;br /&gt;D eum roçado a verdejar!&lt;br /&gt;E como as loiras espigas (9)&lt;br /&gt;Ao lume assando a estalar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um atilho (10) de espigas&lt;br /&gt;De milho trago na mão.&lt;br /&gt;Ou no ombro atravessado,&lt;br /&gt;Julgo-me mais que um barão! (11)&lt;br /&gt;Não troco a vida da serra&lt;br /&gt;Pelo viver cortesão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não invejo o pão das praças,&lt;br /&gt;Pois temos a nossa aipim; (12)&lt;br /&gt;Não há nada tão gostoso&lt;br /&gt;Como o nosso gergelim, (13)&lt;br /&gt;Como a nossa tapioca (14)&lt;br /&gt;E o beiju (15)co’o mondobim. (16)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O queijo também o temos;&lt;br /&gt;Que nos vem lá do sertão;&lt;br /&gt;Nada nos falta, meus filhos,&lt;br /&gt;Temos tudo em profusão,&lt;br /&gt;Não troco a vida serrana&lt;br /&gt;Pelo viver cortesão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Socorro-nos Deus com chuva,&lt;br /&gt;Que tudo vai bem assim:&lt;br /&gt;Pra completar nossos gozos&lt;br /&gt;Vem a moagem (17) por fim,&lt;br /&gt;A rapadura, (18) a batida (19)&lt;br /&gt;E o enroscado (20) alfinim. (21)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não invejemos a vida&lt;br /&gt;Que desfruta o cortesão:&lt;br /&gt;Somos aqui poderosos,&lt;br /&gt;Somos nobres que mais não:&lt;br /&gt;Temos a enxada por cetro, (22)&lt;br /&gt;O machado por brasão. (23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eia, meus filhos, partamos,&lt;br /&gt;Vamos à serra plantar,&lt;br /&gt;Vamos as perdas passadas&lt;br /&gt;Este ano recuperar:&lt;br /&gt;Pois que o timbre do serrano&lt;br /&gt;Consiste no trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Serrano. Pessoa que habita as serras.&lt;br /&gt;2) Despareceu. O mesmo que desapareceu.&lt;br /&gt;3) São José. Esposo de Maria, mãe de Jesus. Ocupava-se no ofício de carpinteiro. Viva em Nazaré. Parece que morreu antes da crucificação de Jesus, pois não se houve falar dele em companhia das mulheres que estavam junto à cruz do Calvário. Também Jesus não teria recomendado sua Mãe aos cuidados do apóstolo João, se José ainda vivesse.&lt;br /&gt;4) A rã esteve a raspar. Penso que raspar aqui está como sinônimo de arranhar, tocar mal, causar sensação desagradável ao ouvido.&lt;br /&gt;5) Nascente. Ponto do horizonte donde parece surgir o sol.&lt;br /&gt;6) Pendoar. O mesmo que apendoar, guarnecer de pendões. Botar pendão (o milho).&lt;br /&gt;7) Bonecar. Derivado de boneca, espiga de milho em flor.&lt;br /&gt;8) Encabelar. Criar cabelos. Referência aos cabelos da espiga de milho.&lt;br /&gt;9) Espiga. É a parte do milho que termina o colmo e contém os grãos. Latim spica.&lt;br /&gt;10) Atilho. Feixe de espigas de milho.&lt;br /&gt;11) Barão. Título dignitário. Homem ilustre.&lt;br /&gt;12) Aipim. Dos tipos de mandioca (raiz de Jatropha Manihot Euphorbiacea, da qual se faz a respectiva farinha). Dois tipos são comestíveis: a mandioca amarga (Manihot uitilissima), com que se fabricam a farinha de mandioca, beijus, polvilho etc, e o aipim ou aipi (mandioca doce, mandioca mansa ou macaxeira), que se usa cozido, assado ou frito, em bolos etc.&lt;br /&gt;13) Gergelim. Já por variada forma se grafou este nome: gerzelim, zirgelim, gingilim, girgelim,jingeli, gegeri. Fixada a grafia gergelim. Planta da Índia. Bem secas as sementes, torradas, socam-se no pilão com farinha de mandioca, sal e açúcar, ou só farinha e sal, “e dão um prato de cheiro e gosto deliciosos”.&lt;br /&gt;14) Tapioca. Alteração de tipioca. De tipiog (tipioca) em Batista Caetano. Trata-se da farinha de tapioca, que é a goma de mandioca umedecida e preparada, e que fica granulosa.&lt;br /&gt;15) Beiju. Também beju, biju. Há muitos tipos de beijus. É o bolo de massa de mandioca ou da tapioca. Do tupi mbeiú, o enroscado, o enrolado.&lt;br /&gt;16) Mudubim. Na classificação de Lineu, arachis hippojoea. As sementes são comidas cruas ou torradas. Acreditam-se que sejam afrodisíacas. Fornecem óleo para uso culinário e farmacêutico. Leio em Macedo Soares: “A sua celebridade consiste no seguinte: depois de fecundado o ovário, o pendúnculo da flor dobra-se procurando a terra, crescendo até penetrar no chão, onde o fruto desenvolve-se e amadurece”. José Coriolano grafou mudubim, mas a palavra tem variada grafia: mandubi, mendubi, mendobi, mendobim, manobi, mundubi e outras. Fixou-se amendoim, por intercorrência de amêndoa. A palavra provém do linguajar indígena: mandubi ou manduí.&lt;br /&gt;17) Moagem. Ato de moer. O autor faz referência à época de moagem da cana-de-açúcar.&lt;br /&gt;18) Rapadura. Açúcar de tipo inferior, produzido sob a forma de tijolos ou blocos de qualquer formato.&lt;br /&gt;19) Batida. Tipo de rapadura, alvo, não em forma de tijolos.&lt;br /&gt;20) Enroscado. O mesmo que enrolado. Dobrado em roscas.&lt;br /&gt;21) Alfenim. No vocabulário de Mario Sette (“Arruar”) está alfenim com esta definição: “Substantivo masculino. Confeito alvíssimo, sólido mas delicado e quebradiço, muito agradável ao paladar, preparado com melado, que se deixa ao fogo até atingir um ponto especial, quando, então, se retira a massa do fogo, estendendo-se sobre um mármore ou qualquer outra superfície fria. Depois de parcialmente esfriada, puxa-se a massa com as mãos polvilhadas de goma, até alvejar e solidificar, podendo-se antes, dar-lhe as mais variadas formas”.&lt;br /&gt;22) Cetro. Bastão de comando – uma das insígnias da realeza. Poder soberano, Coriolano empregou cetro em sentido figurado.&lt;br /&gt;23) Brasão. Conjunto de insígnias que compõem o escudo de armas de um país, de uma cidade, de uma corporação, de uma família. Honra. Empregado em sentido figurado.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mudanças&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudou-s o sol que despontava rindo,&lt;br /&gt;Desmereceu-lhe a luz, perdeu o brilho,&lt;br /&gt;Embaçado por grossas, pardas nuvens,&lt;br /&gt;Já não difunde raios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meiga aurora já não tem primores,&lt;br /&gt;Matiz os campos, nem frescura os vales,&lt;br /&gt;Murcharam as belezas d’outro tempo,&lt;br /&gt;Que os olhos atraiam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é mais estrelado o céu da noite,&lt;br /&gt;Por crepes (1) nebulosos sempre envolto,&lt;br /&gt;Não mostra mais em tela acetinada&lt;br /&gt;Da lua o branco disco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o manto sombrio da tristeza,&lt;br /&gt;Só quebrando a soidão (2) piar sinistro&lt;br /&gt;D’aves mil (3) agoureiras, (4) são as noites,&lt;br /&gt;Meu Deus, tão merencórias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não cicia no arvoredo a brisa,&lt;br /&gt;Nem além rumoreja o bosque espesso,&lt;br /&gt;Já não serpeiam límpidos regatos&lt;br /&gt;Nem sussurra a cascata!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixaram de trinar os passarinhos,&lt;br /&gt;Secaram colos (5) e vergéis e prados,&lt;br /&gt;Tudo, tudo mudou-se, a natureza&lt;br /&gt;Vai regressar ao nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já balouça o vento as verdes copas&lt;br /&gt;As flores não disparsem mais perfumes!&lt;br /&gt;Quem uma tal mudança produzira,&lt;br /&gt;Eu bem saber quisera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ah! nada mudou-se (6)– eu só me iludo!&lt;br /&gt;Meus olhos, sim, mudaram-se de tristes:&lt;br /&gt;Tudo existe no estado primitivo:&lt;br /&gt;Eu somente mudei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda fulge o sol e do levante&lt;br /&gt;Surgindo, ri donoso e luz do mundo,&lt;br /&gt;É a aurora serena, e meiga ainda,&lt;br /&gt;Os horizontes doura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De estrelas coruscantes é juncado&lt;br /&gt;Ainda o céu de anil, onde passeia&lt;br /&gt;A branca lua, que um lençol de prata&lt;br /&gt;Estende sobre a terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São as noites tranqüilas, não as cobrem&lt;br /&gt;Tristes mantos que induzam tristes cismas: (7)&lt;br /&gt;Sob a mangueira lá suspiram langues&lt;br /&gt;Dois amantes felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa no arvoredo ainda cecia,&lt;br /&gt;Ainda rumoreja o bosque espesso,&lt;br /&gt;Serpeiam os regatos com doçura,&lt;br /&gt;Ainda rui a cascata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento ainda balança as verdes copas,&lt;br /&gt;As flores ainda exalam seus perfumes,&lt;br /&gt;Tudo existe no estado primitivo,&lt;br /&gt;Eu somente mudei-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda as aves docemente trinam,&lt;br /&gt;Só meus olhos de triste se mudaram,&lt;br /&gt;Vendados da incerteza nada enxergam,&lt;br /&gt;Lânguidos sem vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgraçado de mim que tudo vendo,&lt;br /&gt;Da paixão ofuscado nada vejo;&lt;br /&gt;Se a brisa me bafeja murmurosa,&lt;br /&gt;Rijo tufão concebo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! triste condição é do amante&lt;br /&gt;Que, vendo, nada vê de quanto o cerca,&lt;br /&gt;Embora tão patente como o lume&lt;br /&gt;Que o sol derrama a pino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim vivo, ó meu anjo, ó doce amada,&lt;br /&gt;Deslumbrado co’a luz desses teus olhos,&lt;br /&gt;Que rompendo a amplidão imensa e vasta,&lt;br /&gt;Minha razão ofuscam!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Crepes. Emprego em sentido figurado: cor negra.&lt;br /&gt;2) Soidão. Solidão. Já observada noutro local a palavra.&lt;br /&gt;3) De aves mil. Mil, quando proposto, indica grande quantidade.&lt;br /&gt;4) Agoureiras. Agoureiro; que faz mau agouro. Agouro é predição supersticiosa.&lt;br /&gt;5) Colos. Observação noutro local deste livro.&lt;br /&gt;6) Nada mudou-se. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.&lt;br /&gt;7) Cismas. Receio supersticioso. Meditação. Neste sentido é feminina. Cisma no masculino significa desacordo, desunião. Rebelião pela qual as pessoas se separam da sua religião.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eugênia Belém&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Narciso Cordo&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na primavera dos anos&lt;br /&gt;Era Eugênia tão formosa&lt;br /&gt;Como a branca estrela d’alva,&lt;br /&gt;Como a redolente rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu casto peito era templo&lt;br /&gt;Desses singelos amores,&lt;br /&gt;Que o doce lar perfumando&lt;br /&gt;Se matizam de mil cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A núbil, formosa virgem&lt;br /&gt;Era a fadinha (1) do campo,&lt;br /&gt;Colhia flores de dia,&lt;br /&gt;E de noite o pirilampo. (2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca a paz lhe pertubaram&lt;br /&gt;Aflições, nem dissabores,&lt;br /&gt;Nem as faces setinosas&lt;br /&gt;Envergonhados rubores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de pegar no sono&lt;br /&gt;A menina encatadora&lt;br /&gt;Inocentinha, arroubada&lt;br /&gt;Se encomendava à Senhora. (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E descuidosa e indolente&lt;br /&gt;Andava pela campinas&lt;br /&gt;A perseguir borboletas,&lt;br /&gt;A colher sempre boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eis que topa com ela&lt;br /&gt;Apaixonado Narciso;&lt;br /&gt;Vê-la, amá-la, desposá-la&lt;br /&gt;Foi todo o seu paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contava Eugênia três lustros, (4)&lt;br /&gt;E quatro seu belo esposo;&lt;br /&gt;Que vida cheia de encanto!&lt;br /&gt;Que lindo par venturoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses eram passados&lt;br /&gt;Depois da celebração&lt;br /&gt;Das bodas (5) afortunadas,&lt;br /&gt;De tão ditosa união.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o déspota Solano (6)&lt;br /&gt;Contra o Brasil move a guerra, (7)&lt;br /&gt;E do par que jubilava&lt;br /&gt;Toda a ventura desterra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! que no peito do esposo&lt;br /&gt;Pulsa um coração ardente,&lt;br /&gt;Que geme da pátria amada&lt;br /&gt;O mal, o p’rigo (8) iminente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ei-lo, la vai para a guerra&lt;br /&gt;Viver vida amargurada;&lt;br /&gt;Que despedida custosa!&lt;br /&gt;Que dura ausência chorada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voluntário! Deus te escute&lt;br /&gt;Nesses campos pantanosos,&lt;br /&gt;Que voltes ao lar querido&lt;br /&gt;Trazendo troféus honrosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem poucos meses são idos&lt;br /&gt;Depois que partiu-se o bravo,&lt;br /&gt;A granadeira (9) troveja&lt;br /&gt;E já prostra tanto escravo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que soldado ali peleja&lt;br /&gt;Nesse ardido atrevimento?&lt;br /&gt;Co’o a baioneta calada (10)&lt;br /&gt;Vale mais que um regimento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem há de ali, senão ele,&lt;br /&gt;Batalhar com ar de riso&lt;br /&gt;E dando vivas à pátria,&lt;br /&gt;Quem há de, se não Narciso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sibilam, zunem-se as balas,&lt;br /&gt;Sem a fronte lhe ferirem,&lt;br /&gt;Outras sente desdenhoso&lt;br /&gt;Aos pés – humil (11)– caírem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém que Narciso é este&lt;br /&gt;Que assim às balas sorri?&lt;br /&gt;- Um voluntário da pátria&lt;br /&gt;Das margens lá do Poti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belicoso campesino,&lt;br /&gt;Quem te instruiu nas batalhas?&lt;br /&gt;Quem nos lábios debuxou-te&lt;br /&gt;Este desprezo às metralhas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca um passo recuaste,&lt;br /&gt;Nunca temeste o inimigo!&lt;br /&gt;Quem pela pátria combate,&lt;br /&gt;Não teme, arrosta o perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que por ti uma santa,&lt;br /&gt;Tua esposa noite e dia,&lt;br /&gt;Reza de joelhos chorosa&lt;br /&gt;À Virgem Santa Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reza, reza, boa Eugênia,&lt;br /&gt;Pela pátria e pelo esposo;&lt;br /&gt;O céu nem sempre é nublado,&lt;br /&gt;Nem sempre o mar tormentoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera, que a fé é base&lt;br /&gt;Da consoladora esp’rança; (12)&lt;br /&gt;Espera! À negra procela&lt;br /&gt;Que vez sucede a bonança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nação há aí possante&lt;br /&gt;Que na sua juventude&lt;br /&gt;Haja ceifado iguais louros&lt;br /&gt;Com tanto garbo e virtude?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha pátria, o mundo culto&lt;br /&gt;Para vós se volta atento,&lt;br /&gt;Pasma! Admira a vitória&lt;br /&gt;Dessa batalha incruenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por terra e mar que triunfos!&lt;br /&gt;Quanto é sublime e quão belo&lt;br /&gt;Ver Pedro (13) em Uruguaiana, (14)&lt;br /&gt;Barroso (15) em Riachuelo! (16)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Heróis já tão conhecidos&lt;br /&gt;Nas matas de Tuiuti, (17)&lt;br /&gt;Como Curuzu (18) tomaram,&lt;br /&gt;Tomarão Curupaiti. (19)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aurora lá se apavona,&lt;br /&gt;O dia bem perto está&lt;br /&gt;Em que render-se há por força,&lt;br /&gt;Ou por vontade Humaitá. (20)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há de ser nossa a vitória&lt;br /&gt;De Francia (21) vergôntea ímpia!&lt;br /&gt;Tão certa, oh sim, como a aurora&lt;br /&gt;Ser precursora do dia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É meia noite! ela dorme&lt;br /&gt;Na rede sosinha ali...&lt;br /&gt;Nem sonha ver-me disforme...&lt;br /&gt;E eu dela tão perto - aqui!&lt;br /&gt;Dorme talvez descançada,&lt;br /&gt;De um doce sonho embalada,&lt;br /&gt;Que lhe sorri traiçoeiro&lt;br /&gt;Como a brisa suspirosa&lt;br /&gt;Que sussurra perfumosa&lt;br /&gt;Nas ramas do pequizeiro. (22)&lt;br /&gt;Oh sina mesquinha, avara&lt;br /&gt;Para a pátria e para mim!&lt;br /&gt;Quando ela nunca pensara&lt;br /&gt;De me ver voltar assim!&lt;br /&gt;De não lhe dizer na volta:&lt;br /&gt;“Eugênia, engrinalda a fronte,&lt;br /&gt;Teu riso angélico solta,&lt;br /&gt;Saúda o novo horizonte!&lt;br /&gt;Caiu sob o gládio invicto&lt;br /&gt;Da tríplice – ultriz aliança (23)&lt;br /&gt;Esse tirano maldito,&lt;br /&gt;Novo Rosas (24) na pujança.”&lt;br /&gt;Mas quanto o mortal se ilude!&lt;br /&gt;Tudo lhe sai ao contrário!&lt;br /&gt;Real somente a virtude.&lt;br /&gt;É toda mágua e fadário&lt;br /&gt;Este pélago (25) profundo&lt;br /&gt;De Circes (26) cheio – este mundo!&lt;br /&gt;São fados – quem lhe resiste?&lt;br /&gt;Fortuna... sorte... destino...&lt;br /&gt;Nume impiedoso e ferino,&lt;br /&gt;Para mim nunca sorriste!&lt;br /&gt;Hoje alegre? – amanhã triste...&lt;br /&gt;Depois feliz? – mais adiante&lt;br /&gt;Liba-se o cálice feleo, (27)&lt;br /&gt;E o lábio que não repele-o,&lt;br /&gt;Traga-lhe o amargor num instante!&lt;br /&gt;Mas porque gemo queixumes,&lt;br /&gt;Quando já libo os perfumes&lt;br /&gt;Deste lar que é todo meu?&lt;br /&gt;Inválido! – Embora. E ela...&lt;br /&gt;Tão meiga, tão pura e bela...&lt;br /&gt;Quem sabe quanto sofreu! –&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;Guerreiro que te bateste&lt;br /&gt;Nos campos do Jatai, (28)&lt;br /&gt;Que as hostes bravo venceste&lt;br /&gt;Nas matas do Tuiuti,&lt;br /&gt;Que o braço esquerdo perdeste&lt;br /&gt;No ataque a Curupaiti,&lt;br /&gt;Esta demora é funesta&lt;br /&gt;A ela e fatal a ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pan, pan, pan!&lt;br /&gt;- Meu Deus, quem bate&lt;br /&gt;Tão tarde, a tal hora aqui!&lt;br /&gt;- Pan, pan, pan!&lt;br /&gt;- Já meia noite&lt;br /&gt;Gemeu o meu Jacamim! (29)&lt;br /&gt;- Pan, pan, pan&lt;br /&gt;- Acorda, Firma,&lt;br /&gt;Vem te deitar junto a mim.&lt;br /&gt;Ouviste bater lá fora?&lt;br /&gt;Alguém perdeu-se n aestrada.&lt;br /&gt;Ó lá de dentro, (30) pousada&lt;br /&gt;Ao pobre infeliz perdido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus, bater-se a tal hora,&lt;br /&gt;Depressa, Firma, o vestido,&lt;br /&gt;Oh! vamos, é dever nosso&lt;br /&gt;Dar pousada ao peregrino,&lt;br /&gt;Vamos, negar-lh’a (31)não posso,&lt;br /&gt;Repare se dorme Nino.&lt;br /&gt;Dorme, mana, (32) o coitadinho.&lt;br /&gt;Ei-lo! Parece um anjinho!&lt;br /&gt;E o peregrino?... – É verdade!&lt;br /&gt;Lá fora... ao frio... tão tarde!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, vamos abrir-lhe a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite estava sombria&lt;br /&gt;E derramava a luz morta&lt;br /&gt;Da lua que se sumiu.&lt;br /&gt;Abriu-se a porta.&lt;br /&gt;- Senhora,&lt;br /&gt;Não tema sair cá fora,&lt;br /&gt;Bem sei que é fora de hora,&lt;br /&gt;Que a lua além se ocultou;&lt;br /&gt;Não tenha de mim receio;&lt;br /&gt;Honra, dever e virtude&lt;br /&gt;Me foram da vida esteio&lt;br /&gt;Em toda vicissitude,&lt;br /&gt;Meu ser se não transformou.&lt;br /&gt;Nunca fiz mal neste mundo&lt;br /&gt;A ninguém nunca farei;&lt;br /&gt;Voto respeito profundo&lt;br /&gt;Tanto à donzela mimosa,&lt;br /&gt;Como à velhice rugosa;&lt;br /&gt;Se fiz algum mal... não sei!&lt;br /&gt;Se meu coração a fundo&lt;br /&gt;Conhecesse, ah! – saberia&lt;br /&gt;A fada destas campinas,&lt;br /&gt;Destas virentes colinas,&lt;br /&gt;Quanto dó (33) mereceria&lt;br /&gt;Este pobre sem ventura,&lt;br /&gt;Que oscila... gemente aqui!&lt;br /&gt;Que deixou sem sepultura&lt;br /&gt;Lá junto a Curupaiti,&lt;br /&gt;Um braço á bala arrancado!&lt;br /&gt;Senhora, o pobre aleijado&lt;br /&gt;Vem de longe... dessa guerra,&lt;br /&gt;Onde se vê rubra a terra&lt;br /&gt;Do sangue dos nossos bravos&lt;br /&gt;Derramados por escravos&lt;br /&gt;Ao jugo desse Lopes,&lt;br /&gt;Desse déspota e tirano,&lt;br /&gt;Que recrudesce cad’ano,&lt;br /&gt;Que tantos males nos fez,&lt;br /&gt;E que está fazendo aos nossos&lt;br /&gt;Com traições, torpedos, fossos; (34)&lt;br /&gt;Na protérvia, (35) na bruteza&lt;br /&gt;Tigre sangrento e faminto&lt;br /&gt;Do sangue da pátria tinto;&lt;br /&gt;Aborto da natureza!&lt;br /&gt;Reflete no horrido sonho&lt;br /&gt;A satânica (36) maldade&lt;br /&gt;Que do coração ferrenho&lt;br /&gt;Mostra toda a feridade.&lt;br /&gt;Engenho perverso e vil&lt;br /&gt;Tão fatal à humanidade,&lt;br /&gt;E sobretudo ao Brasil!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entre senhor, nesta choça&lt;br /&gt;Não se despede ninguém,&lt;br /&gt;Pois é obrigação nossa&lt;br /&gt;Acolher a todos bem.&lt;br /&gt;Dê-me notícias da guerra,&lt;br /&gt;Se é que da guerra vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Venho, senhora, da terra&lt;br /&gt;Que nos tem a paz roubado,&lt;br /&gt;Porém estou fatigado;&lt;br /&gt;Depois que o braço perdi,&lt;br /&gt;Ando tão desajeitado,&lt;br /&gt;Que sinto no andar enfado,&lt;br /&gt;Cousa que nunca senti!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdeu então o seu braço&lt;br /&gt;N’algum encontro, senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh sim! voou pelo espaço&lt;br /&gt;No ataque a Curupaiti.&lt;br /&gt;Não tenho dele saudade,&lt;br /&gt;Pois pela pátria o perdi;&lt;br /&gt;E até co’a horrível dor,&lt;br /&gt;(Foi talvez do céu vontade)&lt;br /&gt;Estranho prazer senti,&lt;br /&gt;Prazer de novo dulçor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;- Agora que descançastes,&lt;br /&gt;Dizei-me se lá na guerra&lt;br /&gt;Vistes alguém desta terra,&lt;br /&gt;Das margens cá do Poti?&lt;br /&gt;- Conheci, senhora, um bravo,&lt;br /&gt;Filho aqui desta ribeira,&lt;br /&gt;vi-o sempre na fileira&lt;br /&gt;combatendo o guarani. (37)&lt;br /&gt;Era casado, e vi muito&lt;br /&gt;No ardor do márcio (38) conflito&lt;br /&gt;A esposa chamar aflito&lt;br /&gt;E a cara pátria também.&lt;br /&gt;- E o nome, senhor, do bravo&lt;br /&gt;Da esposa o nome também?&lt;br /&gt;- Se acaso bem me recordo...&lt;br /&gt;O dele... Narciso Cordo,&lt;br /&gt;O dela... Eugênia Belém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis ali o par ditoso,&lt;br /&gt;Jovem, lindo, afortunado,&lt;br /&gt;Em doce abraço enlaçado,&lt;br /&gt;Em mudo enlevo de amor!&lt;br /&gt;Soluça agora de gozo&lt;br /&gt;A lembrança dessas máguas,&lt;br /&gt;Dessa ausência, dessas fráguas&lt;br /&gt;De fogo tão queimador!&lt;br /&gt;Deixa-los: findo o transporte&lt;br /&gt;Voltarão depois à vida;&lt;br /&gt;Que meiga fase sentida&lt;br /&gt;Dos lábios lhes brotará!&lt;br /&gt;Das saudades a coorte (39)&lt;br /&gt;Dos suspiros na vanguarda&lt;br /&gt;Desertaram desta quadra, -&lt;br /&gt;Onde o amor só reinará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vês, Eugênia, este maneta (40)&lt;br /&gt;Tão feio que causa dó,&lt;br /&gt;Mas não se parece ainda&lt;br /&gt;De Eugênio co’o Manquitó. (41)&lt;br /&gt;Perdeu pela pátria o braço,&lt;br /&gt;Feliz por perde-lo só,&lt;br /&gt;Feliz por ti, por mim nunca,&lt;br /&gt;Pois fora melhor morrer&lt;br /&gt;Para salvar nossa pátria,&lt;br /&gt;Do que vê-la ainda sofrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amigo, eu sinto que a bala&lt;br /&gt;Te houvesse o braço levado;&lt;br /&gt;Porém Deus, que é previdente,&lt;br /&gt;Que cura o mal que pressente,&lt;br /&gt;Nos há bem recompensado:&lt;br /&gt;Por um braço que perdeste,&lt;br /&gt;Dous braços, Narciso, achaste!&lt;br /&gt;Vem cá, - vês este menino?&lt;br /&gt;Repara – quanto é celeste!&lt;br /&gt;- Tão belo!&lt;br /&gt;- Se chama Nino.&lt;br /&gt;Dous braços nele encontraste;&lt;br /&gt;Se a bala um dos teus roubou-nos,&lt;br /&gt;Com dous o céu compensou-nos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Te lembras? – quando partiste&lt;br /&gt;Me deixaste de esperanças...&lt;br /&gt;Entre dores e lembranças...&lt;br /&gt;E o amargo pranto, tão triste!&lt;br /&gt;O pobre Nino nasceu!&lt;br /&gt;Dous anos breve (42) completa;&lt;br /&gt;Narciso, é a tua imagem!&lt;br /&gt;Sabido! A sua linguagem&lt;br /&gt;Já parece desse atleta&lt;br /&gt;Que à cara pátria volveu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! quanto sou venturoso&lt;br /&gt;Por tanta felicidade!&lt;br /&gt;Do amor da cara metade (43)&lt;br /&gt;Encontro o melhor penhor!&lt;br /&gt;Cresce, meu anjo formoso,&lt;br /&gt;Cresce meu futuro bravo;&lt;br /&gt;Livrarás – quem sabe? – o escravo&lt;br /&gt;Das mãos do cruel senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cresce, cresce, meu menino,&lt;br /&gt;Cresce, cresce para o bem;&lt;br /&gt;Vale Deus em teu destino&lt;br /&gt;E teus pais Cordo e Belém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amado, meu bem Narciso,&lt;br /&gt;Como é bele esta deveza!&lt;br /&gt;Repara na natureza,&lt;br /&gt;Mais graça nela diviso!&lt;br /&gt;A precursora do dia!&lt;br /&gt;Nas novas galas que muda,&lt;br /&gt;Que pompas, que louçania!&lt;br /&gt;Como a flor é mais cheirosa!&lt;br /&gt;Como alegre o passarinho&lt;br /&gt;A meiga aurora saúda&lt;br /&gt;Cantando sobre o raminho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha Eugênia, esta ventura&lt;br /&gt;Só Deus a fez para os pobres,&lt;br /&gt;Pois no torreão (44) dos nobres&lt;br /&gt;Reina a soberba e o festim,&lt;br /&gt;Mas aqui nesta fragura,&lt;br /&gt;Onde demora a cabana,&lt;br /&gt;Para Deus temos hozana!&lt;br /&gt;Perfumes tem o jasmim.&lt;br /&gt;- Quando com a foice aguçada&lt;br /&gt;Descer o anjo à cabana&lt;br /&gt;Montado no seu corcel,&lt;br /&gt;Não chores por mim amada,&lt;br /&gt;Mas antes entoa hozana&lt;br /&gt;Ao santo Deus de Israel. (45)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá onde tudo é doçura,&lt;br /&gt;Onde tudo é poesia,&lt;br /&gt;Onde se goza a ventura&lt;br /&gt;Sem mescla de desprazer,&lt;br /&gt;Lá nos veremos um dia&lt;br /&gt;Nessa região feliz,&lt;br /&gt;Onde se vai reviver!&lt;br /&gt;Lá unirei o meu peito&lt;br /&gt;O bravo Francisco Luiz; (46)&lt;br /&gt;Herói, Eugênia, perfeito,&lt;br /&gt;Filho deste Piauí, (47)&lt;br /&gt;Onde nasceste e nasci.&lt;br /&gt;Morreu de balas passado&lt;br /&gt;A vinte e dous de setembro,&lt;br /&gt;O corpo todo crivado...&lt;br /&gt;Sem ter inteiro um só membro!&lt;br /&gt;Outro mais bravo não vi!&lt;br /&gt;Saudades à sua memória!&lt;br /&gt;Foi neste ataque intentado&lt;br /&gt;Sem fruto a Curupaiti,&lt;br /&gt;Porém famoso na história,&lt;br /&gt;Onde também teu Narciso&lt;br /&gt;Perdeu o seu braço, - glória&lt;br /&gt;Para nós, - pra outros risos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu e tu e o nosso Nino,&lt;br /&gt;Firma também, nossos pais,&lt;br /&gt;Nossos parentes e amigos,&lt;br /&gt;Lá nos céus seremos tais!&lt;br /&gt;Lá se goza de uma vida&lt;br /&gt;De delícias sem iguais!&lt;br /&gt;A vida lá tem prazeres,&lt;br /&gt;Que não desfrutam mortais!&lt;br /&gt;Ame-se a pátria, a virtude,&lt;br /&gt;Que gozos lá perenais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas em quanto o alto destiono&lt;br /&gt;Nos não desviar da rota...&lt;br /&gt;Façamos do nosso Nino&lt;br /&gt;Um guerreiro, um patriota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cresce, cresce bom menino,&lt;br /&gt;Cresce, cresce para o bem,&lt;br /&gt;Vele Deus em teu destino,&lt;br /&gt;E teus pais Cordo e Belém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Fadinha. Diminutivo de fada, que é ente sobrenatural com o poder de predizer destinos e fazer encantamentos. Por extensão, mulher formosa, assim empregado pelo poeta.&lt;br /&gt;2) Pirilampo. Do grego piro, fogo, e lampo, facho, do verbo lampein, brilhar. Pirilampo, que brilha como fogo. O mesmo que vaga-lume. Melhor seria pirolampo, pois o o é a vogal de ligação de elementos gregos, mas entrou no hábito da coletividade pirilampo.&lt;br /&gt;3) Senhora. Nossa Senhora.&lt;br /&gt;4) Lustro. Período de cinco anos.&lt;br /&gt;5) Bodas. Casamento, núpcias.&lt;br /&gt;6) Solano. Solano Lopez, ditador do Paraguai.&lt;br /&gt;7) Guerra. Referência à Guerra do Paraguai, que principiou em 1864.&lt;br /&gt;8) P’rigo. Perigo. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;9) Granadeira. Conjunto de granadas. Granada é explosivo.&lt;br /&gt;10) Baioneta-calada. Baioneta é arma de aguda ponta que se adapta à extremidade do cano da espingarda, do fuzil. Muitos dicionaristas apontam como origem o francês bayonnette. Tirado da cidade francesa de Bayonne, onde a arma foi fabricada pela primeira vez. Baineta-calada: posta em posição para investir contra o inimigo.&lt;br /&gt;11) Húmil. O mesmo que humilde.&lt;br /&gt;12) Esp’rança. Esperança. O poeta suprimiu uma sílaba por necessidade de metrificação.&lt;br /&gt;13) Pedro. Pedro II, imperador do Brasil, que chegou a Uruguaiana em 11-9-1865.&lt;br /&gt;14) Uruguaiana. Cidade ocupada por tropas paraguaias (Rio Grande do Sul). Uruguaiana foi cercada por tropas brasileiras e uruguaias. As tropas paraguaias renderam-se.&lt;br /&gt;15) Barroso. Almirante Francisco Manuel Barroso da Silva, comandante da esquadra brasileira na Batalha do Riachuelo (Guerra do Paraguai).&lt;br /&gt;16) Riachuelo. Arroio Riachuelo. Batalha do Riachuelo ganha por Barroso (11-6-1865 – Guerra do Paraguai).&lt;br /&gt;17) Tuiuti. Ganha batalha ganha pelos aliados (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai (24-5-1866).&lt;br /&gt;18) Curuzu. Pequena fortaleza paraguaia tomada pelos brasileiros no dia 3-9-1866.&lt;br /&gt;19) Curupaiti. Batalha de Curupaiti. Primeira derrota de argentinos ,brasileiros e uruguaios na guerra do Paraguai. Setembro de 1866).&lt;br /&gt;20) Humaitá. Doze meses de duração as lutas pela posse de Humaitá na Guerra do Paraguai. Foi ocupada pelas tropas aliadas.&lt;br /&gt;21) Francia. José Gaspar Rodriguez Francia, chamado Dr. Francia. Fundador da independência do Paraguai. Ditador. Nasceu em 1776 e faleceu em 1840. Ditador vitalício. Alcunhado El Supremo, governou até morrer. Grande estadista e déspota intransigente. Fortaleceu a economia paraguaia.&lt;br /&gt;22) Pequizeiro. Veja pequi, noutro local deste livro.&lt;br /&gt;23) Da tríplice – ultriz aliança. Referência à aliança do Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, na Guerra do Paraguai. Ultriz quer dizer que vinga. Aliança vingadora.&lt;br /&gt;24) Rosas. José Manuel Rosas (1793 – 1877). Soldado e trabalhador em fazendas de gado. Com o tempo e depois de muitas lutas tomou conta do governo de Buenos Aires. Deixou o governou e foi a ele chamado novamente.o seu poder foi ratificado por um plebiscito. Passou a governar despoticamente. Muitos foram fuzilados. Vários paises assumiram posições contra ele Buenos Aires foi bloqueada. Derrotado pelos brasileiros na batalha de Monte Caseros.&lt;br /&gt;25) Pélago. Veja pego noutro local.&lt;br /&gt;26) Circe. Feiticeira que transformou em porcos os companheiros de Ulisses, quando este aportou à sua ilha, para que o herói permanecesse mais tempo junto dela. Por vezes se faz referência a essa transformação para aludir a pessoas que embruteceram ou perderam as boas maneiras.&lt;br /&gt;27) Féleo. Relativo a fel. De fel.&lt;br /&gt;28) Jataí. Combate de Jataí. Encontro da Guerra do Paraguai (17-8-1865), decisivo para a sorte do general Estigarribia. Argentinos, brasileiros e uruguaios derrotaram o Paraguai.&lt;br /&gt;29) Jacamim. Também jacami. Ave dos campos, de canto singular. Do tupi já-acan-mim, o que tem cabeça pequena, ou já-acan-mii, aquele que move a cabeça.&lt;br /&gt;30) Ó lá de dentro. Modo, no interior, de chamar alguém.&lt;br /&gt;31) Negar-lha. O lha é combinação dos pronomes lhe e a: negar a ele (lhe) a pousada (a).&lt;br /&gt;32) Mana. O mesmo que irmã.&lt;br /&gt;33) Quanto dó. Como compaixão, tristeza, dó é palavra masculina.&lt;br /&gt;34) Fossos. Empregaod no sentido de fortificação, entrincheiramento.&lt;br /&gt;35) Protérvia. Insolência, desaforo, desavergonhamento.&lt;br /&gt;36) Satânica. Derivado de satã, o mesmo que satanás, diabo. Satanás em hebraico é satan.&lt;br /&gt;37) Guarani.de guá igual a guá (hár), o guerreiro, e rani igual a rini,os que guerreiam ou estão guerreando. Primitivamente – lembra Romão da silva – aplicou-se este nome a um dos grupos avançados da grande família lingüística americana, que ocupava o delta do rio Paraguai, e com que primeiro estabeleceram contato e comércio os conquistadores. Mais tarde passaram a chamar assim todos povos afins da bacia do Prata (veja “Denominações Indígenas na Toponímia Carioca” – 138). Guarani é o mesmo que paraguaio.&lt;br /&gt;38) Márcio. Derivado de Marte, deus da guerra, na mitologia.&lt;br /&gt;39) Coorte. Porção de gente armada. O poeta empregou figuradamente como grande quantidade.&lt;br /&gt;40) Maneta. Que não tem um braço.&lt;br /&gt;41) Manquitó. Que manqueja. Coxo.&lt;br /&gt;42) Breve. Adjetivo empregado como advérbio: brevemente.&lt;br /&gt;43) Cara-metade. A esposa com relação ao marido. A palavra cara, na expressão, vale querida, amada. O povo, porém, vê cara como dispendiosa.&lt;br /&gt;44) Torreão. Torre larga e ameada sobre um castelo (Aurélio).&lt;br /&gt;45) Deus de Israel. Israel foi a designação das tribos que se separaram de Judá, formando um dos dois reinos após a morte de Saul. Israel: nome do reino das dez tribos. Deus de Israel é o criador de todas as cousas, inclusive do homem e da mulher. Cristo é o filho de Deus de Israel.&lt;br /&gt;46) O bravo Francisco Luís. Monsenhor Joaquim Chaves transcreve documento de que copio: “No dia 4 de maio, pelas cinco horas da tarde, fez em Teresina sua entrada o contingente de Voluntários da Pátria fornecido pela vila de Barras, em número de 52 praças e 2 oficiais. Aos esforços do Capitão Luís Francisco Pereira de Carvalho e Silva, que foi o primeiro a inscrever-se no alistamento e o primeiro a procurar com o poder de persuasão e do estímulo fazer-se acompanhado de tantos cidadãos, muito se deve pela aquisição de tão importante número de voluntários”. (O Piauí na Guerra do Paraguai” – 17). E adiante, pág. 38: “Em Corrientes, no Estado argentino, faleceu no dia 7 de outubro último (1866), Francisco Luís Pereira de Carvalho e Silva, em conseqüência do ferimento de uma bala que lhe penetrou no peito direito, no ataque de Curupaiti, a 22 de setembro. Natural da cidade de Oeiras e residente na vila de Barras, onde se dava à vida pacífica da advocacia, apenas a Pátria pôs em prova a dedicação de seus filhos, o capitão Francisco Luís apresentou-se voluntário e seguiu com o 1º Corpo que desta Província partiu para o teatro da guerra. Não lhe obstaram o propósito a cara esposa e os ternos filhos, que oram ficam na viuvez, orfandade e pobreza. Fez a campanha de Uruguaiana. No combate de Curuzu o nobre piauiense portou-se heroicamente” (documento citado por Monsenhor Chaves”).&lt;br /&gt;47) Piauí. Nome indígena. De piau (o pele manchada, peixe) e i (rio) – o rio dos piaus,isto é, dos peixes de pele manchada.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Avarento&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quid juvat immensum te argenti pondus et auri&lt;br /&gt;Furti defossa timidum deponere tura?&lt;br /&gt;(Horácio – Sat.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede o pobre ancião na humilde choça&lt;br /&gt;Os tíbios olhos para os céus erguendo:&lt;br /&gt;Seus lábios trêmulos se dirigem súplices&lt;br /&gt;Aos pés do Eterno, desferindo graças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo despreza deste mundo as pompas;&lt;br /&gt;Dizem-nos os anos e a cerviz (1) pintada:&lt;br /&gt;Apalpa as contas que rolando descem&lt;br /&gt;No grosso fio; (2) só nos céus medita...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é ditoso, que a virtude é dita.&lt;br /&gt;- Vede o pobre ancião na humilde choça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus dias correm como os sons queridos&lt;br /&gt;Da fresca brisa que desperta as folhas;&lt;br /&gt;Correm serenos como os sons da flauta&lt;br /&gt;Que acorda as trevas do dormir profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pobre mesa não se estendem lautos,&lt;br /&gt;Gordos manjares que derramam n’alma&lt;br /&gt;Torpor e tédio: na frugal (3) comida,&lt;br /&gt;Bem mostra, sóbrio, que abomina a gula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é ditoso, que a virtude é dita.&lt;br /&gt;- Vede o pobre ancião na humilde choça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus dias correm como os sons queridos&lt;br /&gt;Da fresca brisa que desperta as flores&lt;br /&gt;Correm serenos como os sons da flauta&lt;br /&gt;Que acorda as trevas do dormir profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pobre mesa não se estendem lautos,&lt;br /&gt;Gordos manjares que derramam n’alma&lt;br /&gt;Torpor e tédio: na frugal (3) comida,&lt;br /&gt;Bem nostra, sóbrio, que abomina a gula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é ditoso, que a virtude é dita.&lt;br /&gt;- Vede o pobre ancião na humilde choça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem mobília no seu tosco albergue.&lt;br /&gt;Apóstolo fiel da caridade,&lt;br /&gt;Repele o luxo que arruína os povos,&lt;br /&gt;E socorre, propício, aos desgraçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede-o – levanta-se, e com passo incerto&lt;br /&gt;Passeia – olhando para certo lado&lt;br /&gt;Da humilde estância... aonde (5)os dias passa&lt;br /&gt;Puro – distante do viver da corte. (6)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é ditoso, que a virtude é dita.&lt;br /&gt;- Vede o pobre ancião na humilde choça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estudai-lhe do semblante lívido&lt;br /&gt;Todos os traços, estudai-lhe os olhos&lt;br /&gt;Baços, (7) erguidos para os céus, e os lábios&lt;br /&gt;Que a Deus parecem desferir (8) mil graças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, estudai-o ... Dir-vos-a seu rosto,&lt;br /&gt;A cerviz branca, seus olhares baços,&lt;br /&gt;Que aos céus se elevam e depois se abaixam, (9)&lt;br /&gt;E vão pregar-se, vão morrer num canto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É desgraçado - que a vareza torpe&lt;br /&gt;Faz a desgraça do mortal que a nutre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_________&lt;br /&gt;Oh! Não! Como é possível que a maldade,&lt;br /&gt;Que a torpe hipocrisia se rebuce&lt;br /&gt;Nas brancas roupas que a virtude veste?&lt;br /&gt;É possível, meu Deus, tanta impostura?&lt;br /&gt;¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨&lt;br /&gt;________&lt;br /&gt;É ele nada menos que um avarento!&lt;br /&gt;Prata e oiro conserva sob a terra:&lt;br /&gt;Um só real (10) não passam os seus gastos&lt;br /&gt;Dos juros extorquidos aos que presta (11)&lt;br /&gt;Dinheiro, cujo prêmio desejara&lt;br /&gt;Ao mês fosse de mil ou mais por cento!&lt;br /&gt;Porque julga o de dous, de três ou quatro&lt;br /&gt;Incapaz de dar pasto à vil cobiça&lt;br /&gt;E à sede de metal (12) que lhe devora&lt;br /&gt;O peito que se afez a torpes crimes!&lt;br /&gt;- É de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;E assim vive já próximo da campa, (13)&lt;br /&gt;Sem que a fome remova ao mendigo;&lt;br /&gt;Sem que ao despido corpo do indigente&lt;br /&gt;Uma vara (14) ministre de fazenda;&lt;br /&gt;Sem que atenda o gemer do pobre infante&lt;br /&gt;Que vive a tiritar de frio e fome&lt;br /&gt;E com a voz da inocência o pão esmola; (15)&lt;br /&gt;Sem que a sede sacie ao que a suporta,&lt;br /&gt;Pois que até lhe é penoso um gole d’água&lt;br /&gt;Dar a quem lh’o (16) suplica sequioso!&lt;br /&gt;- É de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prole, triste dela! – mal curada,&lt;br /&gt;Apenas tem por mestre a consciência!&lt;br /&gt;“Meus filhos, assim diz, viver só devem&lt;br /&gt;Esta vida qual eu vivido tenho.”&lt;br /&gt;E os míseros escravos que se afanam (17)&lt;br /&gt;No contínuo lidar – nus e famintos –&lt;br /&gt;No horror do desespero aos céus dirigem&lt;br /&gt;Maldições, maldições contra o tirano&lt;br /&gt;Que os dias amesquinha-lhes... que as carnes,&lt;br /&gt;Lhes despe – em tiras – do mirrado corpo!&lt;br /&gt;- É de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malvado! – que ensurdece ao grito infausto&lt;br /&gt;Da miséria! – nem sabe-lhe propicio&lt;br /&gt;Mitigar o sofrer um só instante!&lt;br /&gt;Coração mais ferino que o do tigre!&lt;br /&gt;Mais duro do que a rocha! Oh! vede o monstro:&lt;br /&gt;- Ao pobre que reclama o pão do dia,&lt;br /&gt;Ao cego, cuja indústria lhe é vedada,&lt;br /&gt;Ao mísero aleijado que o trabalho&lt;br /&gt;Não pode manejar, diz, feio e torvo:&lt;br /&gt;“Todos vós sois vadios – que trabalhem...&lt;br /&gt;- É de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que pensa o avaro? o qu’ele sonha?&lt;br /&gt;- Pensa e sonha chupar o sangue humano!&lt;br /&gt;Ao crime negro e vil oblações rende!&lt;br /&gt;A virtude, profano! – olvida e cospe:&lt;br /&gt;À viúva que vê envolta em trapos,&lt;br /&gt;Tendo ao seio apertado o orfãozinho,&lt;br /&gt;E que uma esmola, lacrimosa, pede;&lt;br /&gt;Embora honesta seja, diz-lhe: “Vai-te,&lt;br /&gt;Mulher torpe, que as cinzas do finado (18)&lt;br /&gt;Desonras com os teus nefando vícios.”&lt;br /&gt;- È de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, ei-lo que jaz na cama enfermo,&lt;br /&gt;Já sentido da morte o golpe extremo;&lt;br /&gt;Seus filhos que da morte o leito imundo,&lt;br /&gt;Pranteando-o, circundam, na desgraça&lt;br /&gt;Com a decrépita esposa hão de famélicos&lt;br /&gt;Morrer a míngua... Mas, no que ele cuida&lt;br /&gt;Que, mesmo agonizante, os frouxos olhos&lt;br /&gt;Não desprega de um lado... de um somente!&lt;br /&gt;- é que ali enterrada a prata, o oiro,&lt;br /&gt;Permanecem, que são “seu deus, seu tudo!”&lt;br /&gt;- É de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E muito embora à cabeceira tenha&lt;br /&gt;Do Senhor o ministro (19) que o exorta,&lt;br /&gt;A ninguém os tesouros seus descobre!&lt;br /&gt;As verdades do céu são-lhe fantasmas&lt;br /&gt;De feio aspecto, que o sofrer lhe agravam.&lt;br /&gt;Se os olhos cerra, (20)novo mundo encontra&lt;br /&gt;De tétricas visões que lhe torturam&lt;br /&gt;Os instantes cruéis que ao mundo o prendem!&lt;br /&gt;E sem restituir quanto usurpara,&lt;br /&gt;Impenitente morre e condenado!&lt;br /&gt;- È de tanto capaz um avarento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Cerviz. Emprego como cabeça.&lt;br /&gt;2) Fio. Cabelo.&lt;br /&gt;3) Frugal. Emprego no sentido de sóbrio, parco.&lt;br /&gt;4) Albergue. Asilo para pobres. O poeta empregou como habitação pobre.&lt;br /&gt;5) Aonde os dias passa. Hoje se diria: onde os dias passa. Emprega-se aonde com verbos dinâmicos, de movimento: aonde vais.&lt;br /&gt;6) Corte. Emprego no sentido de capital, centro do governo do país.&lt;br /&gt;7) Baço. Sem brilho. Escuro.&lt;br /&gt;8) Desferir. Lançar, atirar.&lt;br /&gt;9) Abaixam. Excelente emprego. É melhor abaixar quando existe objeto direto: abaixe os olhos.&lt;br /&gt;10) Real. Singular de réis. Mil réis era, até 1942, a unidade monetária brasileira.&lt;br /&gt;11) Presta. Do verbo prestar, o mesmo que emprestar.&lt;br /&gt;12) Sede de metal. Metal aqui vale dinheiro.&lt;br /&gt;13) Campa. Emprego no sentido de sepultura.&lt;br /&gt;14) Vara. Antiga medida de comprimento (1,10m).&lt;br /&gt;15) Esmola. Verbo esmolar.&lt;br /&gt;16) Lho. Combinação dos pronomes lhe e o: suplica a ele o, isto é, o gole d’água.&lt;br /&gt;17) Afanam. Verbo afanar-se, cansar-se, fatigar-se.&lt;br /&gt;18) Finado. Defunto. Que morreu.&lt;br /&gt;19) Ministro. Sacerdote. Padre.&lt;br /&gt;20) Cerra. Verbo cerrar. Fechar.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Consulta e Resposta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom dia, senhor Doutor!&lt;br /&gt;“Bom dia, senhor Soares!&lt;br /&gt;D’onde vem? “ – Dos pátrios lares,&lt;br /&gt;Desse sertão sedutor:&lt;br /&gt;Eu venho do Piauí.&lt;br /&gt;Trousse cento e tantos queijos&lt;br /&gt;Saborosos como os beijos&lt;br /&gt;Das mulatas (1)do Poti; (2)&lt;br /&gt;Porém, por desgraça minha,&lt;br /&gt;Fui ter a certa covinha...&lt;br /&gt;Que não direi ser de Caco, (3)&lt;br /&gt;Pois Caco já não existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde infelizmente assiste, (4)&lt;br /&gt;E onde tudo abarca e vende,&lt;br /&gt;Sem dar o menor cavaco, (5)&lt;br /&gt;Um certo atravessador. (6)&lt;br /&gt;Por fim de contas, entende&lt;br /&gt;Que, por ser grande senhor,&lt;br /&gt;Deve ao credor, bom ou mau,&lt;br /&gt;Responder sempre: babau! (7)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendi-lhe, senhor Doutor,&lt;br /&gt;Os queijos por atacado,&lt;br /&gt;Só por trezentos mil reis; (8)&lt;br /&gt;Venceu-se o prazo marcado,&lt;br /&gt;Fui cobrar do comprador,&lt;br /&gt;Insultou-me, - nem dez reis!&lt;br /&gt;Agora, o que hei de fazer&lt;br /&gt;Para os cobres (9) receber?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O letrado empavonou-se&lt;br /&gt;Na cadeira de balanço,&lt;br /&gt;Tossiu, cuspiu, asseou-se,&lt;br /&gt;Depois de breve descanso,&lt;br /&gt;Riscou estalante fósforo, (10)&lt;br /&gt;Acendeu louro charuto,&lt;br /&gt;E respondeu sem mais prólogo, (11)&lt;br /&gt;Em som grave e estilo arguto:&lt;br /&gt;(Soares reprime o fôlego&lt;br /&gt;e prega e concentra a vista&lt;br /&gt;na boca flórida, antíloqua&lt;br /&gt;do grande e Sábio jurista:&lt;br /&gt;vai ouvir na voz harmônica&lt;br /&gt;a resposta salomônica.) (12)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor soares, o caso&lt;br /&gt;Não me parece tão leve,&lt;br /&gt;Pois não o li no Parnaso, (13)&lt;br /&gt;Nem no afamado Vanguerve: (14)&lt;br /&gt;Porém, deixando de parte,&lt;br /&gt;Mais perluxas (15) citações,&lt;br /&gt;Dir-lhe-ei com engenho e arte,&lt;br /&gt;Sem Pandectas, (16) sem Lobões, (17)&lt;br /&gt;Que presto (18) e presto demande&lt;br /&gt;O tal brejeiro e malsim, (19)&lt;br /&gt;À casa citá-lo mande&lt;br /&gt;Por esperto beleguim, (20)&lt;br /&gt;E citar com hora certa;&lt;br /&gt;Pois, se ele vir não o encontra:&lt;br /&gt;Mergulhará como a lontra (21)&lt;br /&gt;Do caçador descoberta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas onde, senhor Doutor,&lt;br /&gt;Mergulhará, pois é fama&lt;br /&gt;Não há lá rio ou açude?&lt;br /&gt;“Aí em qualquer palude, (22)&lt;br /&gt;Ou nessa fétida lama&lt;br /&gt;Do brejo (23) do tal senhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom dia, senhor Doutor!&lt;br /&gt;“Bom dia senhor Soares!&lt;br /&gt;Como vai co’o devedor?”&lt;br /&gt;Em róseos, serenos mares!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos dizem com razão,&lt;br /&gt;Com sentimento ou vergonha&lt;br /&gt;Não há mais na carantonha (24)&lt;br /&gt;De tão velhaco truão. (25)&lt;br /&gt;Inda usou de escapatório, (26)&lt;br /&gt;Inda tentou mergulhar,&lt;br /&gt;Ou quem sabe? – mergulhou...&lt;br /&gt;Mas o sujeito é finório:&lt;br /&gt;Julgou prudente pagar&lt;br /&gt;Os queijos que me comprou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certificou o meirinho (27)&lt;br /&gt;Que ele se havia ocultado&lt;br /&gt;Para não vir a audiência;&lt;br /&gt;Mas, sabendo de caminho&lt;br /&gt;Que já tinha advogado,&lt;br /&gt;Concordou co’a consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora, já que sou velho,&lt;br /&gt;Quero lhe dar um conselho:&lt;br /&gt;Quem usa vender fiado,&lt;br /&gt;Logrado bem pode ser;&lt;br /&gt;Mas se fugir do tratante,&lt;br /&gt;Avante, pode vender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem o tratante na cara,&lt;br /&gt;Cousa rara! Certo quê, (28)&lt;br /&gt;Ferrete que o experiente&lt;br /&gt;Logo sente, logo vê.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Doutor, para o futuro&lt;br /&gt;Protesto andar mais seguro.&lt;br /&gt;Quanto lhe devo, doutor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não recebo dinheiro&lt;br /&gt;por consulta de credor&lt;br /&gt;feita contra caloteiro, (29)&lt;br /&gt;ou contra mau pagador.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito obrigado, Doutor.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Mulatas. Os dicionários ainda acolhem a significação de mu, mulo de pouca idade. Mulo é o mestiço de cavalo com besta, ou de burro com égua; mestiço de jumento com égua. Nascentes admite que se tenha derivado de mulo e sufixo ato – e acrescenta: “para o mestiço humano houve comparação com o híbrido animal”. Sá de Miranda, velhíssimo escritor português, empregou mulato como sinônimo de mulo: “Que possa livre quem queira / Cantando ir de noite à feira, / Ou domingo no mulato”. A. J. de Macedo soares indica, no Dicionário, o étimo latino moratus (fusco), italiano morato, espanhol mulato, francês mulâtre – e diz que é a etimologia mais natural. Comumente se emprega mulato como filho de branco com negro ou de negro com branca. Mestiço com sangue negro.&lt;br /&gt;2) Poti. Afluente do rio Parnaíba. Banha a cidade de Teresina. Nome tupi: as fezes. Poti também é camarão.&lt;br /&gt;3) Caco. Personagem da mitologia. Habitava nas imediações do Monte Aventino. Roubava os bois de Hércules e os conduzia para a sua cova, fazendo com que eles caminhassem de costas, a fim de que não fossem achados. Mas um deles berrou e Hércules arrombou a porta da caverna e matou o ladrão a bordoadas. Cova de Caco emprega-se como covil de larápios.&lt;br /&gt;4) Onde infelizmente assiste. Excelente emprego do verbo assistir na acepção de morar, residir.&lt;br /&gt;5) Cavaco. Emprego no sentido de prosa, conversa.&lt;br /&gt;6) Atravessador. Empregado no sentido de monopolizador, açambarcador (de gêneros)&lt;br /&gt;7) Babau. Interjeição indicativa de que uma cousa se acabou irremediavelmente.&lt;br /&gt;8) Mil-réis. Antiga moeda brasileira. Em 1942, passou a cruzeiro (Getúlio Vargas).&lt;br /&gt;9) Cobres. Dinheiro: “Em primeiro lugar pagarei aqueles cobres que devo...” (Artur de Azevedo – “Contos Efêmeros” – 61)&lt;br /&gt;10) Fósforo. Composto grego. Phos (fos), photo (foto) é luz; phoro (foro), do verbo phorein (forein), que produz.&lt;br /&gt;11) Prólogo. O que antecede, o que precede.&lt;br /&gt;12) Salomônica. Adjetivo referente a Salomão, nascido em Jerusalém, filho de Davi. Rei. Salomão significa pacífico. Começou a reinar no ano de 970 a.C., com 20anos. Pediu a Deus que pudesse sempre discernir entre o bem e o mal. Tornou-se célebre pelas suas decisões. Cultivou as artes e as ciências. Aumentou a riqueza pública. Sábio. Reinou 40 anos. Dois graves erros praticou: estabeleceu um harém com mil mulheres, que lhe perverteram o coração, e praticou enormes despesas na corte. Foi castigado.&lt;br /&gt;13) Parnaso. Do grego parnassós, parnessós, parnasós. Maciço montanhoso da Grécia. Antigo monte de Fócida, onde os gregos colocaram a morada de Apolo e das musas. Designa, simbolicamente o lugar habitado pelos poetas e, figuradamente os poetas em geral e a poesia. Dá-se também o nome a coletânea de poesias, a antologias poéticas e ao movimento literário chamado parnasianismo.&lt;br /&gt;14) Vanguerve. Penso que se trata do famoso jurisconsulto alemão Von Ihering.&lt;br /&gt;15) Perluxas. Presumidas.&lt;br /&gt;16) Pandectas. Ou Digestos de Justiniano. Do latim Pandectae – uma das partes principais da codificação de Justiniano, consistente numa coletânea metódica de fragmentos tirados das obras dos jurisconsultos romanos, e cuja redação foi confiada a uma comissão de 16 membros, dirigida por Triboniano.&lt;br /&gt;17) Lobões. Referência a Lobão, celebrado jurisconsulto de Portugal.&lt;br /&gt;18) Presto. Palavra comentada noutro local.&lt;br /&gt;19) Malsim. Tenho que o poeta empregou malsim no sentido hebraico da palavra: malfeitor.&lt;br /&gt;20) Beleguim. Agente de polícia. Meirinho.&lt;br /&gt;21) Lontra. Animal mamífero.&lt;br /&gt;22) Palude. Forma latina. O mesmo que paul.&lt;br /&gt;23) Brejo. Terreno alagadiço, pantanoso, inculto.&lt;br /&gt;24) Carantonha. Cara feia, carranca.&lt;br /&gt;25) Truão. Palhaço, bobo.&lt;br /&gt;26) Escapatório. Hoje se emprega mais o feminino escapatória. Morais registrou escapatório: Meio, ou destreza para sair de um embaraço e dificuldade, subterfúgio, tergiversação.&lt;br /&gt;27) Meirinho. Oficial de Justiça encarregado de diligências.&lt;br /&gt;28) Quê. Usado como substantivo.&lt;br /&gt;29) Caloteiro. Que passa calote, que é a dívida não paga. Palavra vinda do francês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;A Tempestade&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma parte do horizonte&lt;br /&gt;Pouco a pouco mostra a fronte&lt;br /&gt;De nuvens um torreão.&lt;br /&gt;O sol no mar sepultou-se,&lt;br /&gt;Da lua a face turvou-se,&lt;br /&gt;Lampeja tíbio clarão.&lt;br /&gt;Já o mar desperto geme,&lt;br /&gt;Já no bosque o vento freme,&lt;br /&gt;Retumba ao longe o trovão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já negreja no horizonte,&lt;br /&gt;Já minaz (1)ostenta a fronte&lt;br /&gt;De nuvens o torreão.&lt;br /&gt;De todo a noite fechou-se,&lt;br /&gt;O ar medonho nublou-se,&lt;br /&gt;Fuzila crebro clarão!&lt;br /&gt;O mar furioso ronca,&lt;br /&gt;Rouqueja na gruta bronca&lt;br /&gt;O vento e perto o trovão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro ponto negreja,&lt;br /&gt;Como à porfia a chameja&lt;br /&gt;O raio, e estoura o trovão!&lt;br /&gt;Dos bosques se humilha a coma,&lt;br /&gt;Estruge, sibila, assoma&lt;br /&gt;Turvo, iroso o furacão! (2)&lt;br /&gt;No ar se cruzam os raios,&lt;br /&gt;Os trovões causam desmaios,&lt;br /&gt;Horroriza a confusão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rasgam-se as nuvens pejadas,&lt;br /&gt;Grossas bombas despenhadas&lt;br /&gt;Rojam, alagam o chão.&lt;br /&gt;Cresce a chuva em cataratas,&lt;br /&gt;Sossobram-se mil fragatas,&lt;br /&gt;Retumba sempre o trovão!&lt;br /&gt;Dos cumes mil seixos rolam&lt;br /&gt;As águas prostram, assolam&lt;br /&gt;Os bosques em borbotão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual aqui a Deus invoca,&lt;br /&gt;Qual ali os céus provoca&lt;br /&gt;Com lastimosa oração!&lt;br /&gt;Vacila o teto e se abate&lt;br /&gt;Ao duro, ríspido embate&lt;br /&gt;Da chuva solta em cachão! (3)&lt;br /&gt;Mil gritos o ar atroam!&lt;br /&gt;Mil gemidos aos céus voam!&lt;br /&gt;Deus se move à compaixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já menos caem as águas,&lt;br /&gt;Menos cintilam as fráguas,&lt;br /&gt;Menos estala o trovão.&lt;br /&gt;Pouco a pouco o ar serena,&lt;br /&gt;Inda a cheia corre plena,&lt;br /&gt;Mas cessou o turbilhão.&lt;br /&gt;O mar no leito descansa.&lt;br /&gt;Perto já vem a bonança&lt;br /&gt;Ao cessar do furacão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em fim, a chuva extingui-se,&lt;br /&gt;O puro céu descobriu-se,&lt;br /&gt;Cessou de todo o trovão.&lt;br /&gt;No bosque a brisa cecia,&lt;br /&gt;O mar, que em fúria bramia,&lt;br /&gt;Quedou, quedando o tufão.&lt;br /&gt;No mar a lua de prata&lt;br /&gt;Já sua face retrata&lt;br /&gt;E esparge meigo clarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Minaz.termo poético: ameaçador.&lt;br /&gt;2) Furacão. Vento impetuosíssimo.&lt;br /&gt;3) Cachão. Borbotão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;A Lua&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua donosa lá surge fagueira&lt;br /&gt;Por trás da mangueira que ao vento murmura&lt;br /&gt;Por entre a folhagem mil círios (1) rutilam,&lt;br /&gt;Mil tochas cintilam da luz que fulgura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já toda se mostra ridente e formosa,&lt;br /&gt;Luzindo saudosa da esfera anilada,&lt;br /&gt;Suspiram poetas ao ver seus fulgores,&lt;br /&gt;E a virgem de amores é logo assaltada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não crestam, não queimam seus lânguidos raios,&lt;br /&gt;Não causam desmaios às plantas nascentes.&lt;br /&gt;Não são como os raios solares que abrasam,&lt;br /&gt;Desecam, arrasam as plantas virentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! como de casta na esfera azulada&lt;br /&gt;A face argentada (2) no vê transparente&lt;br /&gt;De cândida nuvem oculta medrosa.&lt;br /&gt;E logo donosa se mostra ridente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim faz a virgem que escuta do amante&lt;br /&gt;A fala anelante que amores lhe jura,&lt;br /&gt;As frases mimosas, que dizem carícias,&lt;br /&gt;Que exprimem blandícias de um’alma que é pura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como ela brilha donosa e fagueira&lt;br /&gt;Na verde mangueira que ao vento se embala!&lt;br /&gt;E como na mente que sofre e delira&lt;br /&gt;Um sonho me inspira que as dores me cala!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora lembrei-me (3) da terra querida,&lt;br /&gt;Em que minha vida passei noutra idade...&lt;br /&gt;Do anjo eu amava até mesmo esquivanças...&lt;br /&gt;Que doces lembranças! Que terna saudade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No céu entre estrelas teu rosto flutua,&lt;br /&gt;Tu és, branca lua, da noite a rainha;&lt;br /&gt;Mas ah! No teu seio que lágrimas chora&lt;br /&gt;A virgem que ora, que geme sozinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contigo o que sofre, resfolga, respira,&lt;br /&gt;Contigo suspira quem vive ditoso,&lt;br /&gt;Tu es meu santelmo nos tristes momentos&lt;br /&gt;Eu que meus tormentos deploro saudoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora lembrei-me da pátria querida,&lt;br /&gt;Em que minha vida gozei noutra idade&lt;br /&gt;Do anjo eu amava até mesmo esquivanças...&lt;br /&gt;Que doces lembranças! Que ternas saudades!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Círio. Círio é vela grande de cera. O poeta empregou a palavra como brilho.&lt;br /&gt;2) Argentada. Prateada. Do latim argentu, prata.&lt;br /&gt;3) Agora lembrei-me. Na época em que José Coriolano escreveu não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Noite de São João (1)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Radioso assoma o dia&lt;br /&gt;Festival de San’Joçao,&lt;br /&gt;Já se apavona (2) a alegria&lt;br /&gt;Nas asas da predição. (3)&lt;br /&gt;O bolo no forno estala&lt;br /&gt;Entre o cheiro que trescala,&lt;br /&gt;Que o olfato ferir nos vem;&lt;br /&gt;O pão-de-ló, (4) a cangica(5)&lt;br /&gt;Pelo olor também indica&lt;br /&gt;O gosto, o sabor que tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se ajunta a verde lenha,&lt;br /&gt;Já crepita a combustão;&lt;br /&gt;Venha o velho, o moço venha&lt;br /&gt;Às sortes (6) de San’João.&lt;br /&gt;O velho aspira à mor (7) vida,&lt;br /&gt;O moço à posse querida&lt;br /&gt;Daquela que é seu amor.&lt;br /&gt;As belas têm seus segredos,...&lt;br /&gt;Tremem-lhe’as sortes nos dedos...&lt;br /&gt;Abrem-n’as... Deus, que palor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém aquela sorri-se...&lt;br /&gt;São coisa do coração;&lt;br /&gt;O que foi? – (8) ela não disse,&lt;br /&gt;Só ela o sabe e San’João.&lt;br /&gt;Mas esta – aqui – entristece;&lt;br /&gt;Pois de repente enlanguece&lt;br /&gt;Aquele brilhante olhar!&lt;br /&gt;O que seria?! Donzela,&lt;br /&gt;Nesta palidez tão bela&lt;br /&gt;Quem te pode transformar?&lt;br /&gt;E ela diz: “Não creio em sortes&lt;br /&gt;Em noite de San’João.”&lt;br /&gt;E a outra diz: “Pois são fortes&lt;br /&gt;Mistérios de predição.”&lt;br /&gt;Aquela triste indolente,&lt;br /&gt;Machuca a pobre inocente,&lt;br /&gt;Que ao virgem seio pendeu.&lt;br /&gt;Esta afaga a flor mimosa,&lt;br /&gt;Que recende deleitosa&lt;br /&gt;No peito que a recebeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A feliz não satisfaz-se, (9)&lt;br /&gt;Não creu, talvez, em San’João;&lt;br /&gt;Em ais a outra desfaz-se&lt;br /&gt;Nascidos do coração.&lt;br /&gt;Da desdita ou da ventura&lt;br /&gt;Ei-las de novo em procura&lt;br /&gt;De trás da porta a escutar&lt;br /&gt;Um nome... um nome querido,&lt;br /&gt;Que seja o primeiro ouvido&lt;br /&gt;Para a bochecha soltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Júlia, a feliz, sufocava&lt;br /&gt;No peito a respiração;&lt;br /&gt;Lúcia, a triste, só pensava&lt;br /&gt;No rigor de San’João.&lt;br /&gt;Júlia quer ouvir um nome...&lt;br /&gt;Coitada! em vão se consome!&lt;br /&gt;Lúcia, sim, sorriu, corou!&lt;br /&gt;São revezes – que este mundo&lt;br /&gt;É um mar turvo e profundo:&lt;br /&gt;Quem sempre em calma o sulcou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos rostos confrangidos,&lt;br /&gt;De prazer quanta explosão,&lt;br /&gt;Se mal ou bem sucedidos&lt;br /&gt;Nas sortes de San’João!&lt;br /&gt;Um aqui nota a galera (10)&lt;br /&gt;Que lhe assinala uma era&lt;br /&gt;De glória, de mil troféus!&lt;br /&gt;Já outro um palácio nota&lt;br /&gt;De uma estrutura ignota&lt;br /&gt;Que vai topetar (11) co’os céus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que aqui na lisa fonte,&lt;br /&gt;Em noite de San’João,&lt;br /&gt;Inclinado mira a fonte,&lt;br /&gt;Que há de ver outra estação;&lt;br /&gt;Qual o ramo emurchecido&lt;br /&gt;Aguarda reverdecido&lt;br /&gt;Pela madrugada ver;&lt;br /&gt;Qual, por fim, anda nas brasas,&lt;br /&gt;Porém suspenso nas asas,&lt;br /&gt;Que um anjo quis-lhe (12)estender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o busca-pé (13) cabriola (14)&lt;br /&gt;Em noite de San’João,&lt;br /&gt;E pelo ar caracola, (15)&lt;br /&gt;Lá ruge como um vulcão!&lt;br /&gt;Lá vai chiando raivoso,&lt;br /&gt;Faiscando, estrepitoso,&lt;br /&gt;Fazendo tudo correr!&lt;br /&gt;Ouvem-se gritos, risadas!&lt;br /&gt;Oh meu Deus, que matinadas (16)&lt;br /&gt;Um busca-pé faz nascer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém o mais pitoresco&lt;br /&gt;Em noite de San’João,&lt;br /&gt;É, por certo, o compadresco, (17)&lt;br /&gt;Isto, sim, tem seu condão! (18)&lt;br /&gt;Que mal faz? – brinco inocente,&lt;br /&gt;Que estreita, que liga a gente&lt;br /&gt;Por laços santos assim!&lt;br /&gt;Ser-se compadre da bela&lt;br /&gt;Por gosto e vontade dela,&lt;br /&gt;Não é bom? –acho que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) São João. Áspero pregador. Degolado na Palestina, por volta do ano 31 da nossa era. De noite comemora-se a data com farta alimentação, danças, bebidas, adivinhações para casamento e morte, e acendem-se fogueiras, e soltam-se balões, e tocam-se fogos de artifício, bombas, traques, e dançam-se quadrilhas. Festa tradicional na Europa, notadamente em Portugal, e no Brasil, aonde chegou trazida pelo colonizador lusitano. Conta a tradição que o santo adormece durante o dia, no seu aniversário natalício. E à noite, ao enxergar o clarão do fogaréu aceso para homenageá-lo, desce dos céus e acompanha a oblação popular.&lt;br /&gt;2) Apavona. Verbo apavonar. O mesmo que empavonar. Envaidecer-se como o pavão.&lt;br /&gt;3) Predição. Ato de predizer. Profecia. No São João os pares namorados buscam adivinhar a sorte, na prática de adivinhações: duas agulhas numa bacia d’água revelarão casamento, se no fundo se ajuntam.&lt;br /&gt;4) Pão de ló. Bolo leve e fofo, feito de farinha de trigo, ovos e açúcar. No plural, pães-de-ló.&lt;br /&gt;5) Canjica. Iguaria feita de milho verde, leite e açúcar, muito usada no São João.&lt;br /&gt;6) Sortes. Veja nota 3.&lt;br /&gt;7) Mor. Forma reduzida de maior, mais longa.&lt;br /&gt;8) O que foi? Em frases interrogativas, alguns condenam o o antes do que. Mas muitos o admitem. Pode-se dizer corretamente: que foi?&lt;br /&gt;9) Não satisfaz-se. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: não se satisfaz.&lt;br /&gt;10) Galera. Palavra italiana. Embarcação.&lt;br /&gt;11) Topetar. Atingir. Subir às alturas de.&lt;br /&gt;12) Que um anjo quis-lhe. No tempo em que José Coriolano escreveu ainda não se havia disciplinado a colocação dos pronomes átonos. Colocação moderna: que um anjo lhe quis estender ou que um anjo quis estender-lhe. No caso, a primeira estaria de conformidade com a rima.&lt;br /&gt;13) Busca-pé. A tradição quer que o São João seja festivo e zoadento. Não devem faltar-lhe o foguetório e os busca-pés. O busca-pé é “produto pirotécnico que, posto no chão e incendiado, arde volteando rapidamente de um lado para outro dando um estouro no fim” (Nascentes).&lt;br /&gt;14) Cabriola. Verbo cabriolar, saltar.&lt;br /&gt;15) Caracola. Verbo caracolar; mover-se em espiral.&lt;br /&gt;16) Matinadas. Empregado com estrondo, algazarra.&lt;br /&gt;17) Compadresco. Relativo a compadre. No São João as pessoas se tornam compadres de fogueira.&lt;br /&gt;18) Condão. Poder sobrenatural. Dom. Prerrogativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;A Noite&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mostra-me, noite, os arcanos,&lt;br /&gt;Os altos segredos teus;&lt;br /&gt;Vejam meus olhos profanos&lt;br /&gt;O que só sabes e Deus.&lt;br /&gt;Tu que inspiras tantos gozos,&lt;br /&gt;Que a tantos fazes ditosos,&lt;br /&gt;Cede, ó noite, aos fervorosos,&lt;br /&gt;Anelantes rogos meus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob uma mangueira altiva&lt;br /&gt;Terno amante adormeceu,&lt;br /&gt;Mas antes da bela esquiva&lt;br /&gt;Puros favores colheu!&lt;br /&gt;Dessa tão meiga donzela,&lt;br /&gt;Tão formosa, tão singela,&lt;br /&gt;Que de dia jamais dela&lt;br /&gt;Um só favor mereceu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como roubas, noite, o pejo&lt;br /&gt;De virginal coração?&lt;br /&gt;Mas ah! tu serves de ensejo&lt;br /&gt;Também ao crime, à traição!&lt;br /&gt;Noite, noite! os teus arcanos (1)&lt;br /&gt;Não podem olhos profanos,&lt;br /&gt;Não podem olhos humanos&lt;br /&gt;Perscrutar, não podem, não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embuçado, numa esquina,&lt;br /&gt;Na mão sustenta o punhal,&lt;br /&gt;Ou cinge, torvo, a clavina (2)&lt;br /&gt;Perverso gênio do mal.&lt;br /&gt;Na mente o crime medita,&lt;br /&gt;Outros novos premedita,&lt;br /&gt;Em Deus, em nada acredita,&lt;br /&gt;Se não no ferro fatal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por que, noite, ao tirano&lt;br /&gt;Asilas no teu seio?&lt;br /&gt;E tu por que, desumano,&lt;br /&gt;Profanas o grêmio seu?&lt;br /&gt;Mas aí! O fuzil lampeja!&lt;br /&gt;Um tiro!... o punhal alveja!&lt;br /&gt;Em balde o mis’ro forceja...&lt;br /&gt;Gemendo, caiu... morreu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém ah! És inocente,&lt;br /&gt;Es mãe da consolação;&lt;br /&gt;Nos teus braços docemente&lt;br /&gt;Esquece o triste a aflição&lt;br /&gt;Em ti – na pedra gelada –&lt;br /&gt;Que cobre o amante, a amada,&lt;br /&gt;Sufraga-se soluçada,&lt;br /&gt;Mesta, carpida oração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó noite, não tens horrores,&lt;br /&gt;Espectro, fantasmas, não;&lt;br /&gt;Oh! que lindos resplendores&lt;br /&gt;Lá no céu! – estrelas são.&lt;br /&gt;Que luz propícia tão grata!&lt;br /&gt;- É dessa lua de prata&lt;br /&gt;Que na fonte se retrata,&lt;br /&gt;Que tem tão meigo clarão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, não tens, não tens horrores,&lt;br /&gt;Espectros, fantasmas, não;&lt;br /&gt;Oh! que sons cheios de amores&lt;br /&gt;Quebrando tua soidão!&lt;br /&gt;- É da flauta o som mavioso&lt;br /&gt;Que fende o ar saudoso,&lt;br /&gt;Seguido de harmonioso,&lt;br /&gt;Do sentido violão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite, noite, os teus arcanos,&lt;br /&gt;Os altos mistérios teus&lt;br /&gt;Não vejam olhos profanos,&lt;br /&gt;Saiba-os só tu, saiba-os Deus,&lt;br /&gt;Que importa que inspire gozos&lt;br /&gt;Que a tantos fazem ditosos&lt;br /&gt;Eu cedo dos desejosos,&lt;br /&gt;Anelantes rogos meus.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Arcano. Já comentado noutro local.&lt;br /&gt;2) Clavina. Arma de fogo. O mesmo que carabina.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gozemos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos lábios teus mimosos, que espargem mel e aroma,&lt;br /&gt;Que o néctar, (1) que a Ambrósia (2) mais doces, mais cheirosos,&lt;br /&gt;Fazei, ó minha amada, fazei-me uma redoma,&lt;br /&gt;Aonde os meus se fartem de amor, de puros gozos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é transitória, momentos poucos dura,&lt;br /&gt;Convém sugar-lhe o crêmor, (3) enquanto não se esvai,&lt;br /&gt;Que em vindo a feia morte, na fria sepultura&lt;br /&gt;Desfazem-se os prazeres, no espaço como um ai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gozemos, minha amada, no mais langue transporte&lt;br /&gt;Do néctar dulçuroso que a vida nos franqueia,&lt;br /&gt;Enquanto nossos corpos não gela a fria morte,&lt;br /&gt;Enquanto ao céu noss’alma não aleia. (4)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é um grande peso de horrível sofrimento,&lt;br /&gt;Se não se suavizasse nas práticas do amor,&lt;br /&gt;Seria um anteinferno (5) de dor e de tormento,&lt;br /&gt;Pior que escuro ergástulo, que acúleo (6) afligidor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gozo não é crime se além da natureza&lt;br /&gt;As asas não infecta no lodo da licença;&lt;br /&gt;O gozo puro e santo sublima, dá nobreza,&lt;br /&gt;E não ofende a alma, de Deus centelha imensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pois, ó minha amada, gozemos neste mundo,&lt;br /&gt;Que o gozo puro e santo também é do mortal;&lt;br /&gt;Só no antro das torpezas, no gozo infrene, imundo,&lt;br /&gt;Se ofende os bons costumes e a boa e sã moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Néctar. Bebida dos deuses na mitologia dos gregos e romanos. Bebida deliciosa.&lt;br /&gt;2) Ambrósia. Manjar dos deuses. Manjar delicioso.&lt;br /&gt;3) Crêmor. Cozimento feito com o suco de uma planta (Nascente).&lt;br /&gt;4) Aléia. Verbo alear, antiquado. O mesmo que adejar, voejar.&lt;br /&gt;5) Anteinferno. No composto, há o elemento ante, que indica contrariedade, contrário.&lt;br /&gt;6) Acúleo. Espinho.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quadras (1) à Meia Noite &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um momento eu penso nela,&lt;br /&gt;Por isso cometo um crime?&lt;br /&gt;Quem a beleza despreza?&lt;br /&gt;Quem de seus ferros se exime?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro que sou inocente,&lt;br /&gt;Pensando no corpo dela,&lt;br /&gt;Inocente como o cisne, (2)&lt;br /&gt;Como no leito a donzela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que mal faz que em minha mente,&lt;br /&gt;Onde se asila a candura,&lt;br /&gt;Consagre uma idéia virgem&lt;br /&gt;Àquela visão tão pura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaso ofendo os ditames&lt;br /&gt;Que a santa moral prescreve?&lt;br /&gt;Não, e nem ela o crimina,&lt;br /&gt;Nem a beleza proscreve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem tem coração e olhos,&lt;br /&gt;Quem possui um peito amante,&lt;br /&gt;Não pode ver sem surpresa&lt;br /&gt;Seu perfil meigo, elegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criminem a natureza&lt;br /&gt;Que a fez assim tão garbosa,&lt;br /&gt;Mas não criminem minh’alma&lt;br /&gt;Por mostrar-se afetuosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visão! Que de ti nada quero,&lt;br /&gt;Nada, porque quero pouco:&lt;br /&gt;Quisera só que me olhasses,&lt;br /&gt;Depois... me chamasses louco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso acaso roubavas&lt;br /&gt;Algum dos teus pundonores? (3)&lt;br /&gt;Com isso acaso traias&lt;br /&gt;Teus puros, castos amores?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que pois teus negros olhos&lt;br /&gt;Não queres fitar no vate?&lt;br /&gt;Minha mãe não a sentiste&lt;br /&gt;Tremer como o peito bate?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Supõe em mim um perverso&lt;br /&gt;Que olvida as leis da decência?&lt;br /&gt;Supõe em mim o profano&lt;br /&gt;Que esmaga a flor da inocência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, sou por demais caridoso,&lt;br /&gt;Amo, idolatro a virtude,&lt;br /&gt;Detesto as paixões grosseiras,&lt;br /&gt;Abomino o vício rude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, fita-me os olhos&lt;br /&gt;Uma só vez, e isto basta:&lt;br /&gt;Não perderás teus encantos,&lt;br /&gt;Nem deixarás de ser casta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem penses que além existe&lt;br /&gt;Quem te roube agora os louros,&lt;br /&gt;Não penses, que ela é mui rica&lt;br /&gt;De adorações, de tesouros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dos que o fogo consome,&lt;br /&gt;Mas desses que só dão glória,&lt;br /&gt;Que a pena do gênio escreve&lt;br /&gt;No grande livro da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso fita-me os olhos&lt;br /&gt;Uma só vez e isso basta:&lt;br /&gt;Não perderás teus encantos,&lt;br /&gt;Nem deixarás de ser casta.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Quadra. Estrofe de quatro versos.&lt;br /&gt;2) Cisne. Ave de muita beleza.&lt;br /&gt;3) Pundonor. Dignidade. Brio.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Com Pouco me Contento&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero mais nem desejo&lt;br /&gt;Que aquilo que Deus me deu:&lt;br /&gt;É bem feliz e ditoso&lt;br /&gt;Quem se contenta com o seu.&lt;br /&gt;Tenho uma lira, (1) uma esposa,&lt;br /&gt;Que posso querer mais eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus mimos me presta a lua,&lt;br /&gt;Sua luz me presta o sol,&lt;br /&gt;Por meu leito tenho a relva,&lt;br /&gt;Tenho a noite por lençol,&lt;br /&gt;Por cortinas tenho as nuvens&lt;br /&gt;Franjadas pelo arrebol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há quem seja mais rico&lt;br /&gt;Do que eu sou vivendo assim;&lt;br /&gt;Que me importam vãs (2) riquezas?&lt;br /&gt;Honras – que valem a mim?&lt;br /&gt;- Sou poeta – é quanto basta,&lt;br /&gt;- Sou de Deus profeta, em fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo a Deus e os pátrios lares,&lt;br /&gt;E minha pátria, o Brasil;&lt;br /&gt;Amo as belezas brasileiras,&lt;br /&gt;Uma, porém, mais que a mil;&lt;br /&gt;Amo tudo desta terra&lt;br /&gt;Tão formosa – tão genntil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero mais nem desejo&lt;br /&gt;Que aquilo que Deus me deu:&lt;br /&gt;É bem feliz e ditoso&lt;br /&gt;Quem se contenta com o seu.&lt;br /&gt;Tenho uma lira, uma esposa,&lt;br /&gt;Que posso querer mais eu?&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Lira. Emprego no sentido de poesia.&lt;br /&gt;2) Vãs. Plural de vã, inútil.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como Te Amei – Como Te Amo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amei-te quando era jovem&lt;br /&gt;Com esta heróica paixão,&lt;br /&gt;Que nobres afetos movem,&lt;br /&gt;Que brota do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu amor, se a pátria minha,&lt;br /&gt;Qual preferira... não sei!&lt;br /&gt;A pátria outros peitos tinha,&lt;br /&gt;Eu outro amor não terei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era assim que eu discorria&lt;br /&gt;Por esses tempos d’além;&lt;br /&gt;Em meu peito só cabia&lt;br /&gt;Teu amor, meu doce bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escabrosos, ínvios – serros,&lt;br /&gt;Dos grilhões (1) o estridor,&lt;br /&gt;Tudo fráguas, duros ferros,&lt;br /&gt;Sofrera por teu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por teu amor, minha amada,&lt;br /&gt;Eu dera a vida também,&lt;br /&gt;Hoje bela, afortunada,&lt;br /&gt;Mais feliz que a de ninguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como te amei nessa idade,&lt;br /&gt;Não sei, não te ouso dizer!&lt;br /&gt;Perguntai-o à imensidade,&lt;br /&gt;Ou a um vulcão a ferver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era amor ardendo em chamas!&lt;br /&gt;Não te lembras? – Era assim!&lt;br /&gt;Mas eram meigas as flamas...&lt;br /&gt;Porque sorrias pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois olha, escuta-me crente,&lt;br /&gt;Escuta, meu doce bem:&lt;br /&gt;Inda te amo intensamente&lt;br /&gt;Como nos tempos d’além!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apenas sinto no peito&lt;br /&gt;Mais pura a chama do amor,&lt;br /&gt;Da amizade santo efeito,&lt;br /&gt;Dos anos doce langor. (2)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Grilhões. Laço, cadeia.&lt;br /&gt;2) Langor. Desfalecimento.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;O&lt;br /&gt;Touro Fusco&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Vês aquele boi que rumina ali deitado&lt;br /&gt;sonolento na relva? Talvez seja um&lt;br /&gt;filósofo profundo que se ri de nós.&lt;br /&gt;A filosofia humana é uma vaidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Álvares D’Azevedo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Canto Primeiro&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Argumento&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assunto deste poemeto – invocação – nascimento do touro fusco – sua beleza física – sua primeira briga com o touro de nome lavrado – sua nomeada – ódio nascente contra o valeroso touro.&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou cantar heróis, nem esses feitos&lt;br /&gt;Que adornam os anais da humanidade;&lt;br /&gt;Nem incensos (1) queimar, nem render preitos&lt;br /&gt;À precária e terrena potestade:&lt;br /&gt;A um bruto vão meus versos feitos.&lt;br /&gt;Pois que aos brutos deu vida a Divindade;&lt;br /&gt;E eu, louvando do bruto o fino instinto,&lt;br /&gt;Mais amor e respeito por Deus sinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó minha doce infância suspirada,&lt;br /&gt;Que o tempo estragador levou consigo;&lt;br /&gt;Terna lembrança dessa vida amada,&lt;br /&gt;Que há de sempre viver, morrer comigo;&lt;br /&gt;Campos em que brinquei, onde fadada&lt;br /&gt;A vida me pulava sem perigo,&lt;br /&gt;Fazei que, embora pobre, o meu assunto&lt;br /&gt;Seja do meu sentir fiel transunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No belo Crateús, (2) sertão formoso,&lt;br /&gt;Obra sublime do Supremo Artista, (3)&lt;br /&gt;Num terreno coberto de mimoso, (4)&lt;br /&gt;Está sita a Fazenda Boa Vista”;&lt;br /&gt;Do Príncipe Imperial, (5) pravo e rixoso,&lt;br /&gt;Vila do Piauí, (6) seis léguas (7)dista:&lt;br /&gt;Ai, num massapé (8) torrado e brusco, (9)&lt;br /&gt;Nasceu o valoroso “touro-fusco”. (10)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em certo ano do século dezenove,&lt;br /&gt;Além de peste e fome assoladora,&lt;br /&gt;No pobre Crateús nem se quer chove,&lt;br /&gt;A seca é por demais abrasadora.&lt;br /&gt;Um aqui jaz faminto – nem se move!&lt;br /&gt;Outro ali, ante (11) a Imagem da Senhora, (12)&lt;br /&gt;Pede, em pranto banhado, ao bento Filho (13)&lt;br /&gt;Chuva, arroz e feijão, farinha e milho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi neste ano de peste e de carência&lt;br /&gt;Que o fusco neste mundo foi botado; (14)&lt;br /&gt;Mas da seca terrível a inclemência&lt;br /&gt;A mãe-vaca matou-lhe: ei-lo enjeitado! (15)&lt;br /&gt;Porem dele tratou com diligência&lt;br /&gt;O bom do criador, com tal cuidado&lt;br /&gt;Que, embora magro e feio e cabeludo,&lt;br /&gt;Foi crescendo o bezerro barrigudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era garrotinho, inda a bariga&lt;br /&gt;Parecia querer romper-lhe o couro;&lt;br /&gt;Quem olhava o infeliz – dava-lhe figa, (16)&lt;br /&gt;Dizendo: este nunca há de ser touro!&lt;br /&gt;Quantas vezes, me lembra. Eu tinha briga,&lt;br /&gt;Se barriga chamavam-no de soro&lt;br /&gt;A ponto de chorar, de coitadinho&lt;br /&gt;Chamar o desgraçado garrotinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano trinta e seis ou trinta e sete (17)&lt;br /&gt;Era pai de curral o belo touro;&lt;br /&gt;As proezas que fez, ainda repete&lt;br /&gt;Quem nunca lhe notou um só desdouro:&lt;br /&gt;Ouvir-lhe as duras brigas terror mete,&lt;br /&gt;Às vezes de prazer rebenta o choro!&lt;br /&gt;Se o fusco fosse gente, ele seria&lt;br /&gt;Mais herói que esse herói de Alexandria; (18)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco foi ele endireitando,&lt;br /&gt;Já suas finas pontas amolava&lt;br /&gt;Na dura ribanceira, onde passando,&lt;br /&gt;Uma e outra a seu turno ele enfiava.&lt;br /&gt;Já quando algum garrote ouvia urrando,&lt;br /&gt;Cavando com a mão também urrava;&lt;br /&gt;Te que, alfim, de peloso e barrigudo,&lt;br /&gt;Tornou-se um touro belo e cachaçudo. (21)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seus chifres não eram nem espaços, (22)&lt;br /&gt;Nem, combucos (23) também: pouco virados;&lt;br /&gt;Com que garbo gentil movia os passos,&lt;br /&gt;Quando vinha ao curral co’os outros gados!&lt;br /&gt;Era fusco na cor. Mas tinha traços&lt;br /&gt;De liso (24) pelas costas empalhados:&lt;br /&gt;Seu cupim (25) era grande e tão roliço&lt;br /&gt;Como em outro não vi igual toutiço! (26)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vinha ao curral, tocando adiante&lt;br /&gt;A manada (27) de vacas que guardava,&lt;br /&gt;Tinha um modo de andar tão elegante,&lt;br /&gt;Tão grave qu’eu com gosto lh’o (28)notava!&lt;br /&gt;Tinha um urro saudoso e retumbante&lt;br /&gt;Que nos vales florido reboava:&lt;br /&gt;Toda a terra do urro estremecia,&lt;br /&gt;E o mato em derredor todo tremia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me hei de lembrar da vez primeira,&lt;br /&gt;Em que ele se pegou com outro touro,&lt;br /&gt;Que veio da fazenda Cachoeira,&lt;br /&gt;Era grande e lavrado (29) em todo o couro;&lt;br /&gt;Sempre tinha vencido na ribeira,&lt;br /&gt;Donde vinha alcançar triunfo e louro;&lt;br /&gt;Mas, coitado! – saiu-lhe o ano bissexto, (30)&lt;br /&gt;Como diz o ditado ou reza o texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o fusco se viu em pé na frente&lt;br /&gt;Do lavrado inimigo que cavava,&lt;br /&gt;Numa moita amolando a ponta quente,&lt;br /&gt;Com as mãos para o ar o pó lançava;&lt;br /&gt;Mas eis que sério fica e de repente,&lt;br /&gt;Abanando a cabeça, que abaixava, (31)&lt;br /&gt;Contra o fero (32) inimigo ele arremete&lt;br /&gt;De um modo que o pavor em todos mete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trava-se a luta encarniçada e dura,&lt;br /&gt;Grande círculo descrevem na refrega,&lt;br /&gt;Já meia hora que a peleja dura,&lt;br /&gt;O fusco do inimigo se despega;&lt;br /&gt;Mas, de novo, sacode com bravura&lt;br /&gt;A testa, e novamente a luta pega&lt;br /&gt;Co’o lavrado que em pouco urra na ponta&lt;br /&gt;Do fusco que, espetando-o, se remonta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de um palmo saiu do oposto lado&lt;br /&gt;Do cachaço do mísero vencido&lt;br /&gt;A ponta com que viu-se (33) traspassado, (34)&lt;br /&gt;Os campos atroando suspendido!&lt;br /&gt;Todo o dia levara pendurado,&lt;br /&gt;Se seu próprio senhor, compadecido,&lt;br /&gt;Não o fosse arrancar do chifre brusco&lt;br /&gt;Do valente e brioso touro-fusco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em breve toda aquela redondeza&lt;br /&gt;Só do touro valente se ocupava:&lt;br /&gt;Se um urro, acaso, ouviam na devesa, (35)&lt;br /&gt;Diziam que o fusco quem urrava.&lt;br /&gt;Todos queriam ver sua fereza,&lt;br /&gt;Quando com outro touro ele brigava,&lt;br /&gt;E até vinham de mais de uma fazenda&lt;br /&gt;Muitos e muitos touros de encomenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos touros vencedor, nunca vencido,&lt;br /&gt;Era o fusco o terror daqueles campos,&lt;br /&gt;Seu urro, qual trovão, era temido,&lt;br /&gt;Seus olhos fuzilavam, quais relampos. (36)&lt;br /&gt;Era um touro valente e destemido,&lt;br /&gt;Seu valor e denodo não estampo-os: (37)&lt;br /&gt;Tudo quanto disser, é pouco, é nada,&lt;br /&gt;Pra (38) mostrar desse touro a nomeada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não faltava ao curral um só dia,&lt;br /&gt;Por demais era manso e curraleiro;&lt;br /&gt;Só brigava co’o (39) touro que queria,&lt;br /&gt;Mas nunca a procurar foi o primeiro;&lt;br /&gt;Furtar pelos roçados (40) nunca ia,&lt;br /&gt;Embora fosse o pasto mui (41) vasqueiro: (42)&lt;br /&gt;Todavia, lhe andava já na pista&lt;br /&gt;Na fazenda chamada Boa Vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários do Canto Primeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) Incenso. Incenso é resina aromática.Substância aromática destinada a servir em atos de culto. Há a incensação – ato de incensar com o turíbulo em algumas funções litúrgicas. O poeta empregou incenso em sentido figurado, como adulação, bajulação.&lt;br /&gt;2) Crateús. Existia no Piauí o povoado de Amarantes, mas os padres de Granja (Ceará), começaram a praticar ali batizados e casamentos, entre outros atos, até que a Assembléia Provincial do Ceará criou ali uma freguesia. Esbulhado o Piauí procurou reivindicar Amarração, porto marítimo. Conseguiu o que desejava em 1880, em troca de dois municípios cedidos ao Ceará: Independência e Príncipe Imperial, que se transformaram no município cearense de Crateús. O município de Amarração tem hoje o nome de Luís Correia. O autor, José Coriolano de Sousa Lima, nasceu (1829) na fazenda Boa vista, da antiga vila de Príncipe Imperial, que, na época, pertencia ao Piauí.&lt;br /&gt;3) Supremo Artista. Deus.&lt;br /&gt;4) Mimoso. Tipo de capim. Acentua Carlos Porto: “Os grandes e extensos tapetes de bromeliáceas do mimoso são típicos do Piauí, não figurando nos demais Estados nordestinos. Coriolano escreve: “É o capim mais delicioso para o gado”. (veja notas do autor).&lt;br /&gt;5) Príncipe Imperial. Veja nota 2.&lt;br /&gt;6) Vila do Piauí. Referência à vila de Parnaíba, Piauí, hoje cidade.&lt;br /&gt;7) Légua. Seis mil metros. No sertão, há léguas grandes, léguas pequenas e léguas de nada (Koster). Também a légua de beiço, anotada por Aurélio: “Indicação vaga dos sertanejos, feita com o beiço inferior distendido na direção que se deve percorrer: daqui até lá pode ter uma légua (é sempre muito mais)”.&lt;br /&gt;8) Massapé. Segundo o autor, terra preta, dura. Também se escreve massapé. Qualidade de terra preta, fina, gomosa. Os estudiosos divergem quanta à origem.&lt;br /&gt;9) Brusco. O autor empregou brusco no sentido de escuro, uma das acepções da palavra em português.&lt;br /&gt;10) Fusco. De pelo escuro.&lt;br /&gt;11) Ante. O mesmo que diante de.&lt;br /&gt;12) Senhora. Referência a Nossa Senhora.&lt;br /&gt;13) Bento Filho. Jesus Cristo&lt;br /&gt;14) Neste mundo foi botado. O verbo botar é de uso extensíssimo no Brasil. Teve o sentido de lançar de dentro para fora, expelir, portanto, parir.&lt;br /&gt;15) Enjeitado. No caso, enjeitado é o animal que se cria sem mãe. Reclama cuidados especiais. Daí porque recebe boa alimentação.&lt;br /&gt;16) Figa. Câmara Cascudo, no “Dicionário de Folclore”, anota: “É um dos mais antigos amuletos contra o mau-olhado... A figa latina, fícus, fica italiana, é a mão humana, em que o polegar está colocado entre o indicador e o médio”. E adiante, citando Furtunée Levy: “A figa esconjura o mal, o contratempo, a inveja, e provoca os bons fados”.&lt;br /&gt;17) 36 ou 37. 1836 ou 1837.&lt;br /&gt;18) Herói de Alexandria. Alexandre o grande, rei da Macedônia. Reinou a partir de 336 a.C. Notável guerreiro. Esteve no Egito, onde fundou Alexandria.&lt;br /&gt;19) Pontas. O mesmo que chifres.&lt;br /&gt;20) Te. Por até. Assinala Silveira Bueno que os textos arcaicos apresentam várias formas da atual preposição e, algumas vezes, advérbio até: ata, ataa, ta, tas, tee, até, te (”A Formação Histórica da Língua Portuguesa” - 181) Na tragédia “Castro”, de Antônio Ferreira, está: “M’acompanhará sempre, té que deixe. O meu corpo c’o teu...” (Sousa da Silveira – Textos Quinhentistas” – 262).&lt;br /&gt;21) Cachaçudo. De pescoço grosso. Derivado de cachaço. Dizia-se porco de cachaço, isto é, de pescoço gordo e grosso. No velho português cacho significou também pescoço grosso. Cachaço é aumentativo de cacho.&lt;br /&gt;22) Os seus chifres não eram nem espaços. Veja as notas explicativas do autor no verbete espaço.&lt;br /&gt;23) Combucos. Chifres combucos. Veja as notas explicativas do autor no verbete combucos.&lt;br /&gt;24) Tinha traços de liso. Liso é a cor vermelha, de cabelo fino.&lt;br /&gt;25) Cupim. Veja a nota explicativa do autor no verbete cupim.&lt;br /&gt;26) Toitiço. Parte posterior da cabeça, cachaço, alto da cabeça.&lt;br /&gt;27) Manada. Rebanho de gado. Do latim minata, de minare, conduzir, levar.&lt;br /&gt;28) Lho. Combinação do pronome lhe com o demonstrativo o. O lhe, aí, tem função possessiva: eu com gosto notava isto (o) dele, seu (lhe).&lt;br /&gt;29) Lavrado. Marcado.&lt;br /&gt;30) Ano bissexto. Ano de 366 dias. Os romanos tinham datas fixas nos meses para a contagem dos demais dias: as calendas, as nonas e os idos. “Acontece, porém, que os latinos, no ano bissexto, não inseriam o dia, que se deve acrescentar, depois do dia 28 de fevereiro, como fazemos nós, mas depois do dia 24, e como o dia 24 era o sextus dies antes das calendas de março, acontecia que o dia intercalado era chamado o segundo dia sexto, ou seja, bis sextus dies” (Napoleão Mendes de Almeida – “Dicionário de Erros, Correções e Ensinamentos de Língua Portuguesa”). Os latinos contavam os dias regressivamente.&lt;br /&gt;31) Abaixava. A forma abaixar é de excelente emprego, notadamente quando há objeto direto, como no texto.&lt;br /&gt;32) Fero. Feroz, cruel.&lt;br /&gt;33) Com que viu-se. No tempo em que José Coriolano de Sousa Lima escreveu, não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se diria: com que se viu.&lt;br /&gt;34) Traspassado. O mesmo que trespassado.&lt;br /&gt;35) Devesa. Quinta ou cerrado com matas, arvoredos. É o latim defensa, proibida.&lt;br /&gt;36) Relampos. Relampo, igual a relâmpago, é forma velha composta de re, no caso prefixo de intensidade, e lampo, em grego facho, do verbo lampein, brilhar.&lt;br /&gt;37) Não estampo-os. Na época em que José Coriolano de Sousa Lima escreveu ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Dir-se-ia hoje: não os estampo. Justifica-se não estampo-os como licença poética, por necessidade de rima.&lt;br /&gt;38) Pra. Em lugar de para. Necessidade de contagem de sílabas poéticas.&lt;br /&gt;39) Co’o. Em lugar de com o. necessidade de contagem de sílabas poéticas. Em com o há duas sílabas poéticas, reduzidas a uma em co’o.&lt;br /&gt;40) Roçados. Terreno para cultivo.&lt;br /&gt;41) Mui. Supressão de uma sílaba final de muito, por necessidade de contagem de sílabas. À figura dão os gramáticos o nome de apócope.&lt;br /&gt;42) Vasqueiro. Raro, difícil de obter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Canto Segundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Argumento&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda briga memorável do touro-fusco com o novilho chamado estrela – caráter e bravura deste touro – seu vencimento e triunfo do fusco – cresce o ódio contra este.&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia estava o fusco remoendo,&lt;br /&gt;Deitado molemente em seu serralho (1)&lt;br /&gt;Nas formosas novilhas se revendo,&lt;br /&gt;Se pensasse diria: quanto valho!&lt;br /&gt;Mas logo se levanta, atroz gemendo,&lt;br /&gt;Ouvindo d’outro touro feroz ralho:&lt;br /&gt;Era um forte novilho que escumava (2)&lt;br /&gt;De fora da porteira, (3) onde cavava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dous buracos dos lados tinha feito,&lt;br /&gt;E o lombo estava negro da poeira&lt;br /&gt;Que sobre ele caia: o largo peito&lt;br /&gt;Arfava, já não era a vez primeira.&lt;br /&gt;Uma moita movia, por despeito,&lt;br /&gt;Ou com raiva, talvez de tal maneira&lt;br /&gt;Que na ponta fincou-lhe um ped’ricalho (4)&lt;br /&gt;De um grosso, retorcido e verde galho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era grande o novilho e mui formoso,&lt;br /&gt;De brancos patacões (5) manchada a pele,&lt;br /&gt;Que era fina e de um preto mui lustroso,&lt;br /&gt;Que a vista a contemplá-la atrai e impele:&lt;br /&gt;Tinha um urro também estrepitoso,&lt;br /&gt;Que mostrava o vigor dos anos dele:&lt;br /&gt;Muitas vezes co’ um (6) urro e uma cornada (7)&lt;br /&gt;O imigo (8) havia posto em debandada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha ele no meio do negrume,&lt;br /&gt;Que a bela e larga testa lhe cobria,&lt;br /&gt;Uma estrela brilhante como o lume,&lt;br /&gt;Aceso em noite escura, que alumia; (9)&lt;br /&gt;Outr’ora, parecendo a cor que assume&lt;br /&gt;A clara papa-ceia (10) que radia (11)&lt;br /&gt;Lá na esfera celeste: assim, ao vê-la,&lt;br /&gt;Podíeis comparar do touro a estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamava-o (12) seu senhor “novilho-estrela,” (13)&lt;br /&gt;Já tendo muitas vezes exultado,&lt;br /&gt;Vendo a vítima que ele, ao suspende-la,&lt;br /&gt;Com a ponta cruel tinha varado.&lt;br /&gt;Efêmera ilusão! Teve de vê-la&lt;br /&gt;Em breve tão desfeita como o brado&lt;br /&gt;Que, soando nos amplos do deserto,&lt;br /&gt;Se perde pelo imenso espaço aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tanto, o touro-fusco, escavacando,&lt;br /&gt;A lama para os lados espargia, (14)&lt;br /&gt;Tão intensa que, a tudo enlameando,&lt;br /&gt;De lama tudo em roda ele cobria;&lt;br /&gt;E, gemendo e a cabeça maneando,&lt;br /&gt;Contra os fortes mourões, (15) arremetia,&lt;br /&gt;E os robustos mourões, estremecendo,&lt;br /&gt;Às cornadas do touro iam cedendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, o bom do vaqueiro, vendo o estado&lt;br /&gt;Em que o touro se achava belicoso, (16)&lt;br /&gt;Adiante se lhe pondo, sossegado&lt;br /&gt;Ficou ele de turvo e audacioso!&lt;br /&gt;Depois, tendo a porteira escancarado,&lt;br /&gt;Por ela sai o touro furioso,&lt;br /&gt;E, sem que o adversário diga: espere,&lt;br /&gt;Acene, geme e parte, chega e fere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como sobre o ferro que caldeia&lt;br /&gt;Bate o mestre ferreiro co’o martelo,&lt;br /&gt;E o sulfúreo (17) cascalho que encandeia&lt;br /&gt;Se espadana em faíscas, loiro e belo&lt;br /&gt;Do discípulo ajudado, que maneia (18)&lt;br /&gt;O malho alternativo, sem teme-lo,&lt;br /&gt;Tais soavam dos touros as cornadas,&lt;br /&gt;Faiscando nas duras marteladas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra em derredor ficou revolta,&lt;br /&gt;Como dizem que faz o curvo arado;&lt;br /&gt;Nenhum dos dous recua, noutra volta&lt;br /&gt;O fusco recuou como estafado;&lt;br /&gt;Mas, de novo gemendo, à luta volta,&lt;br /&gt;E em pouco a estrela berra pendurado&lt;br /&gt;Na ponta do sangrento, invicto touro.&lt;br /&gt;Que o sacode no ar: foi mais um louro. (19)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase exangue, sem vida e palpitante,&lt;br /&gt;Já a um canto estendido o estrelado.&lt;br /&gt;Enquanto, esbaforido (20) e triunfante,&lt;br /&gt;Em pé respira o fusco doutro lado.&lt;br /&gt;O suor que lhe corre gotejante&lt;br /&gt;Debaixo dele um poço tem formado;&lt;br /&gt;Porém o valeroso peito arqueja&lt;br /&gt;Como que ávido ainda de peleja!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco o vencido, melhorando,&lt;br /&gt;Lança ao fusco um olhar assim d’esguelha, (21)&lt;br /&gt;E, vendo o inimigo em pé, fungando,&lt;br /&gt;Abana tristemente com a orelha;&lt;br /&gt;Mas a custo, por fim, se alevantando, (22)&lt;br /&gt;Correu e se sumiu, como a centelha&lt;br /&gt;Que, atiçar-se a fogueira, transparece&lt;br /&gt;No espaço, e depois logo desparece. (23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fusco não o segue; generoso,&lt;br /&gt;Talvez, compadeceu-se do inimigo,&lt;br /&gt;E, entrando no curral, mui jubiloso,&lt;br /&gt;O vaqueiro exultou, sorriu consigo;&lt;br /&gt;E quem sabe se disse: o valeroso,&lt;br /&gt;Deste vasto curral amparo, abrigo,&lt;br /&gt;Se eu fora trovador, (24) a tua glória&lt;br /&gt;No templo gravaria da memória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros touros em brigas afamados,&lt;br /&gt;Vieram de lugares mui distantes&lt;br /&gt;Medir os seus dous chifres afinados&lt;br /&gt;Do fusco com os chifres perfurantes;&lt;br /&gt;Mas voltavam vencidos e cansados,&lt;br /&gt;Mais fracos e covardes (25) do que d’antes,&lt;br /&gt;Temendo em qualquer touro ver um filho&lt;br /&gt;Do velho lidador, feroz novilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando andavam nos campos vaquejando&lt;br /&gt;Os vaqueiros daquela redondeza&lt;br /&gt;Só falavam no touro que, brigando,&lt;br /&gt;Mostrava desmedida, atroz fereza.&lt;br /&gt;Alguns já lhe votavam ódio infando,&lt;br /&gt;Sem causa, baseado na vileza&lt;br /&gt;Do baixo coração, do baixo peito,&lt;br /&gt;Denegrido da raiva e do despeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um daqui, despeitado, assim já fala:&lt;br /&gt;Eu sei como vencer o valentaço:&lt;br /&gt;Se os touros não o vencem, uma bala&lt;br /&gt;Eu hei de lhe meter pelo cachaço. –&lt;br /&gt;Já outro diz dali, da mesma escala:&lt;br /&gt;Eis como poderei tolher-lhe o passo:&lt;br /&gt;Na bebida fazendo uma gangorra, (26)&lt;br /&gt;Depois de engangorrado, ele que corra. –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mortais! – se da razão a voz preclara&lt;br /&gt;Não levasse a verdade à vossa mente;&lt;br /&gt;Se Deus, próvido (27) e bom, que nos criara,&lt;br /&gt;Vos não desse “esse juiz reto e ciente:”&lt;br /&gt;Obraríeis pior que a fera ignara,&lt;br /&gt;Que o abutre voraz, que a vil serpente!&lt;br /&gt;Seria a vossa história um feio misto&lt;br /&gt;De horror e de torpezas – nunca visto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto se maquinam negros tramas, (28)&lt;br /&gt;Passa o fusco seus dias satisfeito;&lt;br /&gt;Só cuida no capim e em suas damas (29)&lt;br /&gt;Que têm lugar distinto no seu peito;&lt;br /&gt;Seus olhos o seduzem como as chamas&lt;br /&gt;Seduzem o escravo ao frio afeito;&lt;br /&gt;Nem se lembra de nada, e, ruminando, (30)&lt;br /&gt;Seu viver vai o fusco assim passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários do Canto Segundo&lt;br /&gt;1) Serralho. Palácio habitado pelo antigo sultão da Turquia, por príncipes e altos dignitários de estados maometanos, provido de um harém com muitas mulheres. Emprega-se também como casa de devassidão, lupanar. José Coriolano empregou serralho como o curral, em que as novilhas ficam à disposição do touro fusco.&lt;br /&gt;2) Escumava. De escuma, do germânico skuma. Há a forma espuma, do latim spuma, daí sai o verbo espumar.&lt;br /&gt;3) Porteira. Cancela.&lt;br /&gt;4) Pend’ricalho. O poeta suprimiu a vogal u por necessidade de contagem de sílabas poéticas: penduricalho, coisa pendente para enfeitar. Na voz do povo se ouve pendurucalho, corruptela de penduricalho. Acrescente-se que esta palavra quase sempre se usa no plural.&lt;br /&gt;5) Patacões. Aumentativo de pataca. Pataca, aqui tem velha acepção que encontro no Morais: mancha branca redonda.&lt;br /&gt;6) Co’um. Com um. Supressão do m para reduzir duas sílabas a uma por necessidade de contagem de sílabas poéticas.&lt;br /&gt;7) Cornada. Pancada com corno, com o chifre, chifrada. Corno é o mesmo que chifre, latim cornu.&lt;br /&gt;8) Imigo. Por inimigo. Necessidade de contagem de sílabas poéticas. Muitos clássicos da língua empregaram imigo.&lt;br /&gt;9) Alimia. Verbo alumiar. O mesmo que iluminar: “Tochas que mal alumiavam o aposento” (Alexandre Herculano – “Lendas e Narrativas” – I – 89). Conjuga-se regularmente: alumia, alumias, alumia, alumiamos, alumiais, alumiam. No Padre Antônio Vieira ora aparece alumeia, ora alumia. Esta última é a usada (cf. Francisco Fernades – Dicionário de Verbos e Regimes).&lt;br /&gt;10) Papa-ceia. A estrela Vésper. O planeta Vênus quando se avista de tarde; estrela da tarde (Aurélio).&lt;br /&gt;11) Radia. Verbo radiar, do latim radiare: lançar raios, luz ou calor. Do verbo radiar se fez outro – irradiar. O latim radiare deu ainda o português raiar.&lt;br /&gt;12) Chamava-o seu senhor novilho estrela. Na acepção de apelidar, dar nome, o verbo chamar deve ser usado com dativo seguido de predicativo do objeto. Construção mais segura: chamava-lhe seu senhor novilho estrela.&lt;br /&gt;13) Novilho estrela. Melhor estrelo. Estrelo – diz-se do boi que tem uma mancha branca na testa (Aurélio).&lt;br /&gt;14) Espargia. Espalhava.&lt;br /&gt;15) Mourões. Também mourão. “Esteio grosso firmemente fincado no solo, e a que se amarram reses destinadas ao corte, ou, para tratá-las, as reses indóceis” (Aurélio).&lt;br /&gt;16) Belicoso. Disposto para a guerra, para a luta. Derivado de bélico, relativo à guerra, pelo latim belicu.&lt;br /&gt;17) Sulfúreo. Da natureza do enxofre. Pelo latim sulfur, enxofre, e sufixo eo, que exprime semelhante a.&lt;br /&gt;18) Maneia. Verbo manear, o mesmo que manejar.&lt;br /&gt;19) Mais um louro. Louro foi empregado como glória, embora na qualidade de glória adquirida pelas letras, pelas artes ou pelas armas, sempre se emprega no plural – os louros.&lt;br /&gt;20) Esbaforido. Particípio de esbaforir. Composto de bafo, arquejante, fatigado.&lt;br /&gt;21) De esguelha. De soslaio, obliquamente, não em cheio.&lt;br /&gt;22) Alevantando. O mesmo que levantando: “Sobe ao púlpito das igrejas do sertão e não alevanta a imagem arrebatadora dos céus” (E. da Cunha o “Os Sertões” – 147).&lt;br /&gt;23) Desparece. Verbo desparecer, o mesmo que desaparecer. “Mas ambos desparecem num momento” – Camões (Veja – “A Chave dos Lusíadas” – José Agostinho – IV – 75).&lt;br /&gt;24) Trovador. Poeta da Idade Média. Cantava sobretudo o amor integral, o amor puro e o amor carnal. Cristina Leite define-o como poeta compositor de formação acurada (Veja “Canções de Hoje – Canções de Outrora” – 17). Por extensão, cantor.&lt;br /&gt;25) Covarde. Também correta a forma cobarde.&lt;br /&gt;26) Gangorra. Veja, noutro local, as notas explicativas de José Coriolano de Sousa Lima.&lt;br /&gt;27) Próvido. Há próvido e provido. Este último corresponde a prevenido, abastecido; o primeiro significa providente, que provê o futuro. A providência é a própria sabedoria de Deus. 28) Negros tramas. Corretísimo emprego de trama no masculino, correspondente a intriga, ardil (acepção figurada). A trama, feminino, corresponde a tecido: a trama do chapéu.&lt;br /&gt;29) Damas. Senhora, mulher. Do francês dame. O poeta empregou como as mulheres do touro, as novilhas, as vacas.&lt;br /&gt;30) Ruminando. Do verbo ruminar. O boi é ruminante, tem estômago com quatro cavidades pelas quais os alimentos passam sucessivamente, sofrendo entrementes nova mastigação. Ruminar é tornar a mastigar (os alimentos que já estiveram numa das quatro cavidades do estômago). Também se emprega ruminar figuradamente com o sentido de refletir por longo tempo.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Canto Terceiro&lt;br /&gt;Argumento&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reveses do fusco – é levado a brigar fora – vence o inimigo – leva dous tiros – é capado, e assim mesmo ainda é temido – sua morte – conclusão.&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra vez, e foi isso em fevereiro,&lt;br /&gt;O fusco vinha urrando da malhada, (1)&lt;br /&gt;Encontrou-o um tirano fazendeiro,&lt;br /&gt;Que deu-lhe uma tremenda ferroada;&lt;br /&gt;Mas, ao touro tão manso e curraleiro,&lt;br /&gt;Vendo-lhe o dono a pá (2) ensangüentada,&lt;br /&gt;Protestou contra um ato tão tirano,&lt;br /&gt;Praticado por quem se diz humano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, acaso, pensais que a sede humana&lt;br /&gt;Do sangue do inocente saciou-se?&lt;br /&gt;Não pensei-lo: a razão, tão soberana,&lt;br /&gt;Nos escolhos da inveja aniquilou-se!&lt;br /&gt;Inveja! Teu estímulo dimana&lt;br /&gt;Do sórdido egoísmo que chocou-se! (3)&lt;br /&gt;E sofra o pobre que só tem instinto&lt;br /&gt;As iras desse ser nobre e distinto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, em que o fusco ia passando,&lt;br /&gt;Saiu a seu encontro um preto-touro,&lt;br /&gt;E, como a ele foi desafiando,&lt;br /&gt;O fusco, sem temer, lhe (4) foi ao couro:&lt;br /&gt;O dono, que de parte estava olhando,&lt;br /&gt;E que do baque (5) ouviu o grande estouro,&lt;br /&gt;Caiu às ferroadas sobre o pobre,&lt;br /&gt;Cuja ação certamente não foi nobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O touro, que pra outro era valente,&lt;br /&gt;Não sabia ofender a humanidade!&lt;br /&gt;Entrou em seu curral muito doente,&lt;br /&gt;Corria o sangue em grande quantidade.&lt;br /&gt;Pobre bruto infeliz! E quem não sente&lt;br /&gt;Teu sofrer nessa longa e triste idade?&lt;br /&gt;Que vale ser humano na figura,&lt;br /&gt;Tendo a alma de fera ou penha (6) dura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltando ainda sarar de uma ferida,&lt;br /&gt;Foi levado a brigar com um touro estranho,&lt;br /&gt;Mas ele, vencedor em toda a vida,&lt;br /&gt;Aos triunfos juntou outro tamanho.&lt;br /&gt;Supunham que o veriam de corrida,&lt;br /&gt;Vencido do cruel, audaz castanho; (7)&lt;br /&gt;Porém, o seu senhor por fim de contas,&lt;br /&gt;Do fusco inda (8) maldiz as finas pontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, nas forjas da maldade&lt;br /&gt;Ao fusco se maquinam mais tormentos,&lt;br /&gt;Filhos só da cruel perversidade&lt;br /&gt;De peitos inumanos e sangrentos;&lt;br /&gt;Nem respeitam do bruto a longa idade!&lt;br /&gt;Só cuidam em pascer (9) ódios nojentos:&lt;br /&gt;Sabei, posteridade, qu’eu não minto,&lt;br /&gt;Nem tudo como foi descrevo ou pinto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, se quereis saber a que cinismo (10)&lt;br /&gt;Pode chegar o coração humano,&lt;br /&gt;Vede com que crueza e barbarismo&lt;br /&gt;Se trata o pobre bruto veterano.&lt;br /&gt;Desgraçado mortal: teu egoísmo&lt;br /&gt;Tem limites também, homem insano!&lt;br /&gt;Não maltrates um ente tão mofino,&lt;br /&gt;Que é obra, como tu, d’um Ser Divino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tempo de inverno. O Pai celeste&lt;br /&gt;Que os campos de verdura tapetiza,&lt;br /&gt;Quando o tronco de folhas se reveste,&lt;br /&gt;Quando a várzea de flores se matiza,&lt;br /&gt;Havia dado chuva. Nem a peste,&lt;br /&gt;Nem a fome que a gente atemoriza&lt;br /&gt;Grassava no sertão, onde a fartura&lt;br /&gt;Na colheita enxergava-se futura. (11)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num campo recamado de mimoso,&lt;br /&gt;Do orvalho matutino rociado, (12)&lt;br /&gt;Pastava o velho touro valeroso,&lt;br /&gt;Sem ter no seu instinto um só cuidado;&lt;br /&gt;Comendo aquele pasto saboroso,&lt;br /&gt;Que o nome mostra ser tão delicado,&lt;br /&gt;Talvez que não soubesse se vivia,&lt;br /&gt;Só podendo-o saber, porque comia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto havia um roçado verdejante&lt;br /&gt;De milho, de feijão, de arroz viçoso,&lt;br /&gt;Por causa do bom ano que, abundante,&lt;br /&gt;Tornava o sertanejo esperançoso;&lt;br /&gt;O capim tão gentil, refrigerante,&lt;br /&gt;Era em roda mui grato e copioso:&lt;br /&gt;Eis porque da campina sedutora&lt;br /&gt;Fizera o fusco sua manjedoura. (13)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu o touro pastando um bom roceiro,&lt;br /&gt;Que nunca para ele teve um riso,&lt;br /&gt;E, apontando a espingarda, mui veleiro, (14)&lt;br /&gt;Fez-lhe fogo na testa de improviso.&lt;br /&gt;O touro cambaleia... e, prazenteiro,&lt;br /&gt;Ensaia o seu algoz cruel sorriso;&lt;br /&gt;Mas, vendo qu’ele em pé inda ficava,&lt;br /&gt;Quem o crera! – de novo lhe atirava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda descarga foi mal dada,&lt;br /&gt;Ferindo o velho touro mui de leve,&lt;br /&gt;E, voltando-se co’a testa ensangüentada,&lt;br /&gt;O vaqueiro o tratou, que à morte esteve.&lt;br /&gt;Nunca mais sua voz tão entoada&lt;br /&gt;Nos campos foi ouvida, nem mais teve&lt;br /&gt;O curral por seu pai o touro bravo,&lt;br /&gt;Que viu render-lhe preito tanto escravo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teve, que o vaqueiro, desgostoso,&lt;br /&gt;Capou (15) o desgraçado que, sentido,&lt;br /&gt;Nunca mais fez ouvir o som famoso&lt;br /&gt;De seu urro saudoso e destemido.&lt;br /&gt;Agora, para um lado, desditoso,&lt;br /&gt;Vive o pobre, chorando entristecido,&lt;br /&gt;E, maior que o leão que a fab’la (16) conta,&lt;br /&gt;Nenhum touro lhe vem, tocar co’a ponta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XIV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que todos receiam que ele possa,&lt;br /&gt;Como dizem da fênix, (17) renascendo,&lt;br /&gt;Enxota-los com a ponta, embora grossa,&lt;br /&gt;Estragos nos cachaços lhes fazendo.&lt;br /&gt;E nisso têm razão. Quem uma coça (18)&lt;br /&gt;Uma vez suportou, segundo entendo,&lt;br /&gt;Jamais dela se esquece em toda a vida,&lt;br /&gt;Temendo a mão por quem foi despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveu penados anos. Seu cachaço,&lt;br /&gt;Esse belo toutiço, tão forçudo,&lt;br /&gt;Decresceu, já não tendo aquele espaço&lt;br /&gt;Que outrora resumia força e tudo:&lt;br /&gt;Do prazer à desdita há só um passo;&lt;br /&gt;Contra a sorte não vale esforço, estudo:&lt;br /&gt;E da sina quem há que se resguarde?&lt;br /&gt;Há de certa cumprir-se ou cedo ou tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu o touro-fusco abandonado,&lt;br /&gt;Posto que mui querido do vaqueiro,&lt;br /&gt;Por ter-se para um ermo retirado,&lt;br /&gt;Onde deu seu gemido derradeiro.&lt;br /&gt;E, tendo, felizmente, escorregado&lt;br /&gt;De cima, onde morreu, dum grande outeiro,&lt;br /&gt;Rolando, foi parar nu fundo do abismo,&lt;br /&gt;Defeso (19) do urubu ao barbarismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XVII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Possam meus versos rudes, sem beleza,&lt;br /&gt;Entre meus comarcãos (20) erguer um brado,&lt;br /&gt;Nos vales do sertão e n’aspereza,&lt;br /&gt;Fazendo o touro-fusco celebrado;&lt;br /&gt;Possam mostrar a nobre gentileza&lt;br /&gt;Do bruto que entre os seus foi respeitado;&lt;br /&gt;Possam mostrar que quem os brutos canta&lt;br /&gt;Do mundo ao Criador a voz levanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Comentários&lt;br /&gt;1) Malhada. Lugar onde comumente se reúne o gado, para ser trabalhado; lugar onde o gado costuma dormir, em lotes (uma das acepções de Aurélio, a nordestina).&lt;br /&gt;2) Pá. Omoplata da rês.&lt;br /&gt;3) Que chocou-se. No tempo em que José Coriolano poetou, ainda não estava disciplinada a colocação dos pronomes átonos. Hoje se escreve: que se chocou.&lt;br /&gt;4) Lhe foi ao couro. Excelente emprego do lhe em função possessiva: couro dele, seu couro.&lt;br /&gt;5) Baque. Queda, choque.&lt;br /&gt;6) Penha. Rocha, rochedo.&lt;br /&gt;7) Castanho. Cor de castanha.&lt;br /&gt;8) Inda. Por ainda. Forma muito velha no português.&lt;br /&gt;9) Pascer. O mesmo que pastar. Na conjugação o verbo pascer não tem as pessoas terminadas em a e o, com exceção da primeira do plural do subjuntivo presente: pasçamos.&lt;br /&gt;10) Cinismo. Empregado no sentido de falta de vergonha. Palavra de origem grega: de Kyon, Kynós, cão. Em cínico há o sufixo iço, relativo a. Na antiguidade, cinismo era o sistema dos filósofos cínicos – aquele que “desprezava as conveniências sociais”. O mais conhecido representante da filosofia cínica foi Diógenes – “rudeza e energia de caráter”. Divisa da escola: “supressão de todas as necessidades sociais”. Pregavam ainda os cínicos: o que é natural não é nunca imoral. Praticavam os atos naturais como os cães – daí cinismo corresponder a falta de pudor, desavergonhamento.&lt;br /&gt;11) Onde a fartura na colheita enxergava-se futura. Ordem inversa. Pura construção imitada de Camões. Entende-se: onde na colheita se enxergava a futura fartura.&lt;br /&gt;12) Do orvalho matutino rociado. No latim vulgar existiu talvez o verbo roscidare, com a significação de cair orvalho. Esse roscidare é a fonte do português rociar, orvalhar, umedecer, e do substantivo deverbal rocio, o mesmo que orvalho. Embora rociado seja também umedecido, penso que a construção é redundante: do orvalho matutino rociado, ou seja, do orvalho orvalhado.&lt;br /&gt;13) Manjedoura. Tabuleiro em que se deita o alimento para o gado. O poeta diz, entretanto, por extensão: fizera sua manjedoura da campina sedutora. O touro comia no campo.&lt;br /&gt;14) Veleiro. Veloz, rápido.&lt;br /&gt;15) Capou. Verbo capar. Extrair ou destruir os órgãos genitais.&lt;br /&gt;16) Fáb’la. O mesmo que fábula. O poeta suprimiu uma vogal por necessidade de diminuir o número de sílabas poéticas.&lt;br /&gt;17) Fênix.&lt;br /&gt;18) Coça. O mesmo que surra.&lt;br /&gt;19) Defeso. Proibido.&lt;br /&gt;20) Comarcãos. Plural de comarcão. Que vive numa mesma comarca, numa mesma região, num mesmo território.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas ao Touro Fusco:&lt;br /&gt;Mimoso&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É o capim mais delicioso para o gado. O seu mesmo nome está indicando o que ele é.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Massapé&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Assim geralmente chamam a uma terra preta e dura (glutinosa quando chove) semelhante à terra que cobre uma lagoa, quando seca.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Espaço&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Boi espaço é chamado aquele que tem os chifres muito abertos: daqui o uso vulgaríssimo de se dizer – chifres espaços.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Combucos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Dizem que um boi ou touro é combuco, ou tem as armações ou chifres combucos, quando, descrevendo estes, cada um, uma curva, as duas pontas se ficam olhando ou apontando uma para a outra.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fusco e Liso&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;São nomes com que se designam duas qualidades dde cores entre o vacum somente.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cupim&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Assim chamam o toutiço dos touros pela semelhança que tem com esse pequeno morro de terra, levantado ás vezes da superfície do chão, outras do meio de uma moita, ou já finalmente apegado a um tronco, a um ramo, onde residem os insetos do mesmo nome etc.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lavrado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Touro, vaca, bezerro etc; diz-se somente a respeito do vacum.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quem Urrava&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O relativo latino quis, de cujo acusativo quem se deriva o relativo português – quem, - tem aplicação tanto às pessoas como às cousas; o relativo português porém, se aplica exclusivamente às pessoas. Usando eu dele do seguinte modo: “quem urrava”, tive em vistas o costume que há entre os nossos vaqueiros de urrarem, muitas vezes, nos matos, ou porque se vêm perdidos, ou para darem sinal de que já se acham no ponto de reunião convencionada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dos touros vencedor, nunca vencido&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Este verso me foi sugerido por Bocage.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Novilho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Sem embargo de significar esta palavra – boi novo, - contudo, ela se dá no sertão ainda mesmo aos touros mais velhos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gangorra&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;É uma espécie de armadilha que se faz para prender os animais bravos, ordinariamente entre estreitos de serra ou boqueirões. Consta de um pequeno curral em roda de uma cacimba, ou aguada, com uma entrada ou porteira por onde facilmente entra o pobre bruto, e com uma saída que importa para ele um labirinto mais enredado do que o famoso de Creta. O animal engangorrado ou se deixar pegar ou terá de romper ou saltar a cerca.&lt;br /&gt;E por que não, se é doce a liberdade, e se já se foi o tempo das Ariadnas?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Castanho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A cor castanha é tão vulgar no cavalar como no vacum.&lt;br /&gt;Aquele que quiser ridicularizar os meus dous últimos versos da primeira oitava:&lt;br /&gt;“E eu, louvando do bruto o fino instinto,&lt;br /&gt;Mais amor e respeito por Deus sinto;”&lt;br /&gt;Ou os dous finais da última oitava:&lt;br /&gt;“Possam mostrar que quem os brutos canta&lt;br /&gt;Do mundo ao Criador a voz levanta,”&lt;br /&gt;lembre-se que o criado é um reflexo de Deus, por isso mesmo que é obra de suas mãos. “Pelos Santos se beijam os altares.” Seja, em fim, mais filósofo, não confunda as cousas, e verá que me sobeja razão. Ao menos a minha intenção foi pura. Deus o sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Olinda, 22 de fevereiro de 1856.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Poesias Inéditas&lt;br /&gt;(do arquivo do bisneto Alexandre Sauly Mourão, em originais escritos pelo próprio poeta)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A Bela Matuta Avarenta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menina, dize se queres&lt;br /&gt;Que eu seja teu arlequim?&lt;br /&gt;“Vá, Senhor, o seu caminho,&lt;br /&gt;Não bula comigo assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Responde-me, anda: permite&lt;br /&gt;Que eu seja teu campeão?&lt;br /&gt;“Eu não gosto destas graças,&lt;br /&gt;E nem meu pai também, não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valha-me Deus! – quero dar-te&lt;br /&gt;De marido a minha mão.&lt;br /&gt;“Quem sou eu! pobre matuta,&lt;br /&gt;Não zombe da gente, não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que importa? – eu tenho posses;&lt;br /&gt;Anjinho, que queres mais?&lt;br /&gt;“Meu Senhor, deixe-se disso,&lt;br /&gt;Tenho medo de meus pais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora... teus pais, matutinha,&lt;br /&gt;Hão de gostar da união...&lt;br /&gt;“Mas, Senhor, você é rico,&lt;br /&gt;Ou coitado pobretão?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menina, tenho no banco&lt;br /&gt;Meus bons continhos de réis.&lt;br /&gt;“Pode dar à sua noiva&lt;br /&gt;Brincos, colares, e anéis!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No curral anualmente&lt;br /&gt;Mil vaquinhas berram: mom!...&lt;br /&gt;“Eu gosto tanto de queijo!&lt;br /&gt;Meu Senhor, não acha bom?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito bom. E os mil bezerros&lt;br /&gt;Saltando, berrando: beé!...&lt;br /&gt;“Não há nada mais gostoso&lt;br /&gt;Do que leite com café.”&lt;br /&gt;Também as minhas boiadas&lt;br /&gt;Nas feiras vendem-se bem.&lt;br /&gt;“Meu Senhor, que bons vestidos,&lt;br /&gt;Que panos que as praças têm!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito lindos. Também tenho&lt;br /&gt;Cem cativos a lavrar.&lt;br /&gt;“Meu Senhor, é de verdade,&lt;br /&gt;Queres comigo se casar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho terras que produzem&lt;br /&gt;Doce cana e frutas mil.&lt;br /&gt;“Meu Senhor, diga uma coisa:&lt;br /&gt;Eu sou feia ou sou gentil?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera! – tenho rebanhos&lt;br /&gt;Que cobrem prados e val.&lt;br /&gt;“Meu Senhor, eu não sou bela,&lt;br /&gt;Quem dera que eu fosse tal!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho também uma carta&lt;br /&gt;Galardão do meu saber.&lt;br /&gt;“Ai! Doutor, se estes meus lábios&lt;br /&gt;Pudessem risonhos ser!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! Muito!... Enfim, sou poeta&lt;br /&gt;E canto só versos meus.&lt;br /&gt;“Poeta!... feliz daquela...&lt;br /&gt;Ai de mim! valha-me Deus!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas... que tens? por que suspiras&lt;br /&gt;Mudando de cor assim?&lt;br /&gt;“Que tenho! – sou desgraçada!&lt;br /&gt;Adeus! - coitada de mim!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem cá, minha matutinha,&lt;br /&gt;Contigo eu quero casar.&lt;br /&gt;“Ai, meu Deus, vou ser ditosa!&lt;br /&gt;D’alegre disse a chorar.”&lt;br /&gt;Recife, 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Compadecida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus lábios&lt;br /&gt;Purpúreos&lt;br /&gt;Ferinos&lt;br /&gt;Não são;&lt;br /&gt;Se falam,&lt;br /&gt;Proferem,&lt;br /&gt;Desferem&lt;br /&gt;Paixão...&lt;br /&gt;Co’a doce&lt;br /&gt;Voz dela&lt;br /&gt;Que bela&lt;br /&gt;Moção!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quisera&lt;br /&gt;Tocá-los,&lt;br /&gt;Beijá-los,&lt;br /&gt;Meu Deus!&lt;br /&gt;Quisera&lt;br /&gt;Fruí-los,&lt;br /&gt;Possuí-los&lt;br /&gt;Por meus!&lt;br /&gt;Mas eles&lt;br /&gt;São dela,&lt;br /&gt;Da bela,&lt;br /&gt;Só seus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia&lt;br /&gt;Toquei-lhe...&lt;br /&gt;Falei-lhe&lt;br /&gt;De amor;&lt;br /&gt;Sorrindo&lt;br /&gt;Me disse&lt;br /&gt;Que eu visse&lt;br /&gt;Melhor:&lt;br /&gt;Mas ela&lt;br /&gt;Fingiu-se,&lt;br /&gt;Traiu-se&lt;br /&gt;Na cor.&lt;br /&gt;No rosto,&lt;br /&gt;Nas faces&lt;br /&gt;Fugaces&lt;br /&gt;De amor,&lt;br /&gt;Sombreados&lt;br /&gt;De leve&lt;br /&gt;De breve&lt;br /&gt;Pudor,&lt;br /&gt;Se acende&lt;br /&gt;Ligeiro,&lt;br /&gt;Fagueiro&lt;br /&gt;Rubor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Co’a esp’rança&lt;br /&gt;Peguei-lhe,&lt;br /&gt;Toquei-lhe&lt;br /&gt;Na mão;&lt;br /&gt;Me disse&lt;br /&gt;Com fria&lt;br /&gt;Sombria&lt;br /&gt;Expressão:&lt;br /&gt;“Poeta,&lt;br /&gt;Tu mentes,&lt;br /&gt;Não sentes&lt;br /&gt;Paixão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu minto!...&lt;br /&gt;Pois mudo,&lt;br /&gt;Sisudo&lt;br /&gt;Fiquei&lt;br /&gt;E pranto&lt;br /&gt;Copioso&lt;br /&gt;Penoso&lt;br /&gt;Chorei!&lt;br /&gt;“Que sofres?&lt;br /&gt;(Pergunta&lt;br /&gt;E ajunta)&lt;br /&gt;Não sei!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo&lt;br /&gt;Toquei-lhe,&lt;br /&gt;Falei-lhe&lt;br /&gt;De amor;&lt;br /&gt;As faces&lt;br /&gt;Coraram,&lt;br /&gt;Mudaram&lt;br /&gt;De cor;&lt;br /&gt;Mas ela&lt;br /&gt;Não disse&lt;br /&gt;Que eu visse&lt;br /&gt;Melhor -&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já bate&lt;br /&gt;Seu peito&lt;br /&gt;Do efeito&lt;br /&gt;De amor!&lt;br /&gt;“Sou tua&lt;br /&gt;Te atesto.&lt;br /&gt;Protesto,&lt;br /&gt;Cantor!”&lt;br /&gt;Nem quando&lt;br /&gt;Falava&lt;br /&gt;Mudava&lt;br /&gt;De cor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soledade (Recife) 5 de junho de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fugace = adj. Poético. Ver Fugaz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Escrava&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já fui feliz e ditosa&lt;br /&gt;Nessas terras de além-mar,&lt;br /&gt;Hoje sou desventurosa,&lt;br /&gt;Vivo a gemer, a chorar!&lt;br /&gt;Ai minha infância mimosa!&lt;br /&gt;Ai vida de tanto amar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vezes sobre um rochedo&lt;br /&gt;Eu via a fonte correr!&lt;br /&gt;Nela plácido e quedo&lt;br /&gt;O meu semblante a rever!&lt;br /&gt;Nessa fonte, onde um segredo&lt;br /&gt;Há de com ela morrer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje aqui sou desprezada!&lt;br /&gt;Desprezam té minha cor&lt;br /&gt;Tão mimosa, aveludada,&lt;br /&gt;De tanto lustre e primor!&lt;br /&gt;Em cima disto, coitada!&lt;br /&gt;Tenho um tirano senhor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha voz tão maviosa&lt;br /&gt;Como as brisas de além-mar,&lt;br /&gt;Já não é mais sonorosa,&lt;br /&gt;Já nem quando diz – amar –&lt;br /&gt;Parece a brisa saudosa&lt;br /&gt;Na palmeira a ciciar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui livre como as areias&lt;br /&gt;Do meu país livres são;&lt;br /&gt;Cantava como as sereias,&lt;br /&gt;Que a cantar no mar estão;&lt;br /&gt;Nem já me corre nas veias&lt;br /&gt;Hoje o sangue como então!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Allah! Mil vezes maldito&lt;br /&gt;Quem do meu país natal&lt;br /&gt;Roubou-me, erguendo o grito&lt;br /&gt;Que ecoou pelo areal!&lt;br /&gt;Allah! Mil vezes maldito&lt;br /&gt;Esse monstro tão fatal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viverei desventurosa,&lt;br /&gt;Viverei sempre a chorar;&lt;br /&gt;Que importa se fui ditosa&lt;br /&gt;Nessas terras d’além-mar!&lt;br /&gt;Ai Allah! Que voz irosa!&lt;br /&gt;É meu senhor a ralhar!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 19 de abril de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Louquinha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vi-te à tardinha&lt;br /&gt;Co’as outras brincando,&lt;br /&gt;E eu lá escondido&lt;br /&gt;Na fresta espiando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu eras tão bela!&lt;br /&gt;Teus almos brinquedos&lt;br /&gt;Que lindos não eram!&lt;br /&gt;Tão simples, tão ledos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louquinha, louquinha,&lt;br /&gt;Sorrias, sorrias,&lt;br /&gt;Dançavas, dançavas,&lt;br /&gt;As palmas batias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu eras a fada&lt;br /&gt;Das fadas da festa,&lt;br /&gt;Alfim eu julgava&lt;br /&gt;Te olhando da fresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus! – que assembléia?&lt;br /&gt;Gentil, galhofeira,&lt;br /&gt;Na quinta encenada&lt;br /&gt;Ao pé da mangueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, meu anjinho,&lt;br /&gt;Sorrias, sorrias,&lt;br /&gt;Dançavas, dançavas,&lt;br /&gt;As palmas batias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Almos = puros&lt;br /&gt;Alfim = afinal, enfim&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Loureira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a vi que divagava&lt;br /&gt;Ao jardim colhendo flores,&lt;br /&gt;E que risonha que estava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misturavam-se os odores&lt;br /&gt;Do jasmim, da bela rosa&lt;br /&gt;Com seus suaves olores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a louquinha mariposa&lt;br /&gt;Já deixava a flor colhida&lt;br /&gt;Por outra flor mais mimosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era fado tanta lida!&lt;br /&gt;Talvez fosse, mas sua alma&lt;br /&gt;Por minh’alma foi descrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou era capela ou palma&lt;br /&gt;Que devia ser formada&lt;br /&gt;Em tributo à estação alma?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, que a virgem delicada&lt;br /&gt;Era o símb’lo da inconstância,&lt;br /&gt;Amava como a fragrância&lt;br /&gt;Ama a brisa enamorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;À Loureira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Linda virgem, de faces coradas,&lt;br /&gt;Que escarneces dos laços do amor,&lt;br /&gt;Estas juras assim refalsadas&lt;br /&gt;Hão de um dia abismar-te na dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vês borrifadas&lt;br /&gt;Do fel da traição&lt;br /&gt;As vozes fingidas,&lt;br /&gt;Que afetam paixão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dizem verdades, são vozes mentidas,&lt;br /&gt;Que juram perjúrios – não jures assim;&lt;br /&gt;Depois não profiras palavras sentidas&lt;br /&gt;Sem ter mais remédio, não gemas por fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No rol das perdidas&lt;br /&gt;Não entres, ai! – não;&lt;br /&gt;Olvida essas falas&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu riso enfeitiça, nos prendes, se falas,&lt;br /&gt;Mas todos se julgam amados por ti;&lt;br /&gt;No olor se perfumam que a todos exalas,&lt;br /&gt;E todos apostam que a sorte lhes ri!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No engano te embalas...&lt;br /&gt;Que má tentação&lt;br /&gt;Sorrisos falsários&lt;br /&gt;Que afetam paixão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez descuidosa, caprichos tão vários,&lt;br /&gt;Um dia te imerjam nas frágoas do horror,&lt;br /&gt;Envolvam te as carnes em rotos sudários&lt;br /&gt;E as faces te sequem da vida no albor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiranos, contrários&lt;br /&gt;Do teu coração&lt;br /&gt;São teus devaneios&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desdenha esses atos que aos olhos são feios&lt;br /&gt;Da virgem discreta, do mundo e do céu,&lt;br /&gt;Deslustram, profanam poluem-te os seios&lt;br /&gt;Tão puros ainda! Receia o labéu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despreza esses meios&lt;br /&gt;De vil sedução,&lt;br /&gt;Que forjam mentiras,&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temes os males?... loureira, suspira!&lt;br /&gt;Suspira dos males que encerra o porvir.&lt;br /&gt;Depois não te punjam remorsos que a lira&lt;br /&gt;Te afronta nos males... que podem surgir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é que delira?&lt;br /&gt;Quem carpe-se em vão?&lt;br /&gt;- Quem creu falsas juras,&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! Quão transitórias são essas venturas&lt;br /&gt;Que a mente te escalda! Recua, mulher,&lt;br /&gt;Recua do abismo, que em longas torturas&lt;br /&gt;Aguarda tragar-te... nem julga-as sequer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misérias futuras,&lt;br /&gt;Que má tentação!&lt;br /&gt;Te cavam amantes&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não zombes do mundo; teus olhos brilhantes,&lt;br /&gt;Que tanto seduzem, falando de amor,&lt;br /&gt;Somente se cravem – gentis – fascinantes -&lt;br /&gt;Nos olhos do jovem que amar o pudor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despreza inconstantes,&lt;br /&gt;Não jures em vão,&lt;br /&gt;Não crê traficantes&lt;br /&gt;Que afetam paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, março de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Labéo = desdoura, desonra&lt;br /&gt;Refalsado = muito falso, desleal, fingido&lt;br /&gt;Imergir = afundar&lt;br /&gt;Labéu = desdouro, desonra, mancha infamante&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;À Meia Noite&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Salve, horas melancólicas,&lt;br /&gt;Repouso dos mortais;&lt;br /&gt;Em vós o humano espírito&lt;br /&gt;Não dá suspiros e ais,&lt;br /&gt;Nem pensamentos tétricos&lt;br /&gt;Voltejam-lhe fatais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! Quanto são dulcíficos,&lt;br /&gt;Ó sono encantador!&lt;br /&gt;Os teus efeitos mágicos,&lt;br /&gt;O teu mago torpor!&lt;br /&gt;Oh!Que horas tão propícias&lt;br /&gt;Em que se esquece a dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem freme o vento alígero,&lt;br /&gt;Nem canta o sabiá;&lt;br /&gt;É paz, tudo é silêncio,&lt;br /&gt;Dormente tudo está;&lt;br /&gt;Somente o poeta estorce-se&lt;br /&gt;Cismando triste já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhou! Talvez intérprete&lt;br /&gt;De algum cruel porvir,&lt;br /&gt;Viu sobre frescos lábios&lt;br /&gt;Veneno atrós cair,&lt;br /&gt;Que os rubros lábios cândidos&lt;br /&gt;De morte fez tingir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós, horas melancólicas,&lt;br /&gt;Repouso dos mortais,&lt;br /&gt;Que a todos dais carícias&lt;br /&gt;Por que suspiros e ais&lt;br /&gt;Ao bardo marasconia&lt;br /&gt;Somente tristes dais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, março de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Estocer = debater&lt;br /&gt;Dulcifico= ameno, suave, grato&lt;br /&gt;Mago= mágico&lt;br /&gt;Alígeros = que tem asas, muito veloz&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Pobrezinha Medrosa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe, eu tenho frio,&lt;br /&gt;Grande tempo doentio!&lt;br /&gt;Toda a tremer!...&lt;br /&gt;Minha mãe, antes a morte,&lt;br /&gt;Não sei como se suporte&lt;br /&gt;Tal viver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu que sou tão mocinha&lt;br /&gt;Sinto que a vida definha&lt;br /&gt;Por modo tal;&lt;br /&gt;Ai, minha mãe, seu tormento&lt;br /&gt;Deve em tempo tão friento&lt;br /&gt;Ser sem igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venha em meu seio aquentar-se,&lt;br /&gt;Minha mãe, venha deitar-se&lt;br /&gt;Comigo aqui.&lt;br /&gt;Minha mãe há de ter frio!&lt;br /&gt;Tempo assim tão doentio&lt;br /&gt;Eu nunca vi!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como está tão caridosa&lt;br /&gt;Eu já sei, coisa medrosa,&lt;br /&gt;Isso o que é&lt;br /&gt;Não crê que o demo ande à toa&lt;br /&gt;Tentando a gente que é boa&lt;br /&gt;Que em Deus tem fé.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, a pobre velhinha&lt;br /&gt;Sai da mísera caminha&lt;br /&gt;E adiante cai;&lt;br /&gt;Levanta-se e sempre chega&lt;br /&gt;À filha, a qual se aconchega,&lt;br /&gt;Órfã de pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Poesia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é que veste de fragrantes flores&lt;br /&gt;O verde campo que o matiz iria?&lt;br /&gt;Quem é que pinta-o sem pincel e cores?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem é que torna d’esmeralda os mares?&lt;br /&gt;Quem é que a noite faz melhor que o dia?&lt;br /&gt;Quem nos consola dos cruéis azares?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nos cantores que no ar passeiam&lt;br /&gt;Nota primores, divinal magia,&lt;br /&gt;Quando seus hinos matinais gorjeiam?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem cisma e geme, se do frágil ramo&lt;br /&gt;Viu a rolinha que a cismar gemia?&lt;br /&gt;Quem ama os infelizes como eu amo?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem descortina num olhar modesto,&lt;br /&gt;Que o chão afaga quase todo um dia,&lt;br /&gt;A maior prova de um amor honesto?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem d’entre os lábios da consorte amante&lt;br /&gt;Perscruta o sonho que o Senhor lhe envia&lt;br /&gt;Co’o fido esposo – no sorrir tão crente?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sonda o seio de u’a mãe zelosa&lt;br /&gt;E afetos nota que só ela cria?&lt;br /&gt;Pois quem suspira, se ela está chorosa?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem no sorriso da gentil criança&lt;br /&gt;Descobre augúrios que ninguém sabia?&lt;br /&gt;Quem vê sorrindo, lh’acenar a esp’rança?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem neste peito me afervora o sangue?&lt;br /&gt;Depois quem fá-lo estremecer que esfria?&lt;br /&gt;Quem robustece-o, quem o torna exangue?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem o mundo num balanço brando&lt;br /&gt;Qual ama terna que o infante cria,&lt;br /&gt;Meigo embalança como quê ninando?&lt;br /&gt;- A poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Harpa saudosa, que harmoniza o mundo,&lt;br /&gt;Íris formoso que no céu radia,&lt;br /&gt;Sentir sublime de um pensar profundo,&lt;br /&gt;- És - poesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fido= fiel, firme, constante.&lt;br /&gt;Iria= que matiza, reveste com as cores do arco-íris.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Uma Confessada&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(de quinta feira santa)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quisera das aves a inocência,&lt;br /&gt;E nem do infante a candidez do riso;&lt;br /&gt;Pecador, eu também me achara indigno&lt;br /&gt;Das purezas que encerra o paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quisera que minh’alma hoje estivesse,&lt;br /&gt;Tão amiga de Deus que o céu habita,&lt;br /&gt;Tão sincera, tão pura e escrupulosa&lt;br /&gt;Como está de Maria a alma contrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Príncipe Imperial, 23 de março de 1853&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Verdade Homeopática&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(oferecida pelo autor, depois de uma&lt;br /&gt;convalescença ao Ilmo. Sr. Dr. Sabino Olegário S. P.)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando a verdade, luminosa, esplêndida,&lt;br /&gt;Na terra ingrata – se espandiu – raiou&lt;br /&gt;Embora irrite-se a calúnia esquálida,&lt;br /&gt;Fala a verdade, foi Deus quem falou&lt;br /&gt;Profanas guerras se hão traçado – inglórias, -&lt;br /&gt;Contra a palavra que plantou Jesus,&lt;br /&gt;Porém sucumbem, e o estandarte deífico&lt;br /&gt;Mostra a verdade, que se lê na cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se fora assolar, notívago&lt;br /&gt;Ladrão que à estrada p’ra roubar saiu,&lt;br /&gt;Do Padre o Filho no estalar do látego&lt;br /&gt;Sente torturas quais ninguém sentiu!&lt;br /&gt;Sente seus membros divinais – tão cândidos!&lt;br /&gt;Serem quebrados por tormentos crus!&lt;br /&gt;Mas a inocência que em seu rosto expande-se&lt;br /&gt;Mostra a verdade, que se lê na cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verdade! – nome que eu venero – angélico –&lt;br /&gt;Mago atributo, que revela Deus,&lt;br /&gt;Não temas, zombes da calúnia esquálida,&lt;br /&gt;Como a virtude dos amigos seus&lt;br /&gt;O sol não vede sepultar-se fúlgido?&lt;br /&gt;Porém do ocaso ainda o sol não luz?&lt;br /&gt;São seus reflexos: a verdade é lúcida,&lt;br /&gt;Como o cordeiro que sofreu na cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais louca de prazer satânico&lt;br /&gt;A negra inveja, da calúnia audaz&lt;br /&gt;Amiga intrínseca, ou de vãos espíritos&lt;br /&gt;Prole malévola, imbecil, falaz,&lt;br /&gt;Mais presto a queda se lh’ antolha - mísera!&lt;br /&gt;E a louca fica se estorcendo em flux&lt;br /&gt;D’angústia e dores, pois o céu é próvido,&lt;br /&gt;Como o cordeiro que sofreu na cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh tu que notas a ciência antíloqua,&lt;br /&gt;Que à morte rouba dos umbrais do horror,&lt;br /&gt;A triste e magra, macilenta vítima,&lt;br /&gt;Que a morte untara já de seu palor;&lt;br /&gt;Curva a cabeça diante a dose ímplica,&lt;br /&gt;Que em simples gole de um licor – cristal,&lt;br /&gt;Livra da peste sem pungente e cáustico,&lt;br /&gt;E que o mal cura, destronando o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rendo mil preitos ao varão exímio&lt;br /&gt;Que o bom sistema no país plantou;&lt;br /&gt;Devido culto, não é culto idólatra&lt;br /&gt;Esse que ao médico o mortal votou&lt;br /&gt;Não rendo culto ao poder estólido,&lt;br /&gt;Nem ao guerreiro destrutor, cerval;&lt;br /&gt;Mas rendo ao sábio que repele a cólera,&lt;br /&gt;E que o mal cura, destronando o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A todos rendo, cujo peito sôfrego&lt;br /&gt;Ao bem dos homens sacrifica o seu,&lt;br /&gt;Amo os eflúvios da verdade lúcida&lt;br /&gt;Que tem seu trono e resplendor no céu.&lt;br /&gt;Amo o homeopático sistema símplice&lt;br /&gt;Que em simples gole de um licor cristal&lt;br /&gt;Livra da peste sem amargo e cáusticos,&lt;br /&gt;E que o mal cura, destronando o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viva cem anos a teus encômios&lt;br /&gt;Pelo sistema que o viver me deu,&lt;br /&gt;Que assás amado por dois ..........&lt;br /&gt;Que vida possuo; - que feliz sou eu!&lt;br /&gt;Nunca exprimira do sistema altíloquo&lt;br /&gt;As maravilhas – exprimi-las – qual!&lt;br /&gt;Como se a dose é que supera a cólera&lt;br /&gt;E que o mal cura, destronando o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda, dezembro de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Encômio = aplauso, elogio, gabo&lt;br /&gt;Simplice = ingredientes de plantas, médicas&lt;br /&gt;Cerval = feroz, ferino&lt;br /&gt;Estólido = estúpido, estouvado, parvo&lt;br /&gt;Palor = palidez (poético)&lt;br /&gt;Antíliquo = sublimidade ou elevação da linguagem, dotado de altiloquência&lt;br /&gt;Provido = providente&lt;br /&gt;Deifico = pertencente ou relativo a Deus&lt;br /&gt;Flux = jorro em abundância&lt;br /&gt;Antolho = por-se diante dos olhos, que se oferece a imaginação&lt;br /&gt;Votou= declaração, ordinariamente por escrito,para afirmar que alguém é digno de elogio&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Virgem do Sepulcro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu, virgem do sepulcro, triste e pálida,&lt;br /&gt;Vem meus males sanar, vem socorrer-me;&lt;br /&gt;Cinge-me o colo com teus braços gélidos,&lt;br /&gt;Vem num beijo de morte aos céus erguer-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! Delícias da campa! Anjo fantástico,&lt;br /&gt;Não queiras espaçar meu terno gozo;&lt;br /&gt;O mundo não receis, que um manto místico&lt;br /&gt;Nos veda aos olhos maus do curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lousa estremeceu! Espectro longévio&lt;br /&gt;Lá surge colossal, a mim se lança!&lt;br /&gt;Nos braços aguardei-o! instantes mágicos&lt;br /&gt;Nos seus braços frui sem esquivança!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh virgem sepulcral! Teu rosto lívido&lt;br /&gt;Resume tal condão! Virgem do mundo,&lt;br /&gt;Detesto os risos vossos, - são intérpretes&lt;br /&gt;De prazeres mentidos, - mal profundo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um beijo, quanto sabe! – frio e cândido,&lt;br /&gt;Doce beijo do túmulo! – tal doçura&lt;br /&gt;Não encontra o mortal nos beijos tépidos&lt;br /&gt;De terrena, animada criatura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgem! Dá-me outro beijo, embora extinga-se&lt;br /&gt;Para mim esta vida: que val ela?&lt;br /&gt;Contigo descerei também ao túmulo,&lt;br /&gt;Ó virgem do sepulcro, ó virgem bela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu queres partir... e eu melancólico&lt;br /&gt;A sós co’o meu delírio... ai! Piedade!&lt;br /&gt;Um som, visão querida, um som por último&lt;br /&gt;Que tétrico ressoe nesta soedade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um som... profano! um som... oh! tu, meu cúmplice&lt;br /&gt;Foge, vai-te, que o céu contra ti brada&lt;br /&gt;Adeus, ó desgraçado! Um beijo único&lt;br /&gt;A vítima do amor, à condenada! ...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Longevio = que tem muita idade, macróbio, duradouro&lt;br /&gt;Ressoe = repete o som, ressoa, torna a soar&lt;br /&gt;Soedade = saudade&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ao Luar Sobre a Areia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Junto de uma clara via&lt;br /&gt;Sobre a areia – me assentei,&lt;br /&gt;E pensando em meu futuro&lt;br /&gt;Mal seguro – suspirei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a noite tão saudosa!&lt;br /&gt;Radiosa – do luar,&lt;br /&gt;Convidava o desgraçado&lt;br /&gt;No seu fado a cogitar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu formei tantos castelos&lt;br /&gt;E tão belos! – porém vi&lt;br /&gt;Que as bases que os sustentavam&lt;br /&gt;Franqueavam – mesmo ali!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei mentidos tesouros,&lt;br /&gt;E nos louros... pensei eu!&lt;br /&gt;Tive uma sublime idéia...&lt;br /&gt;Divanea... – la morreu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei no tempo passado&lt;br /&gt;Suspirando – que passei&lt;br /&gt;Com meus pais e com meus manos,&lt;br /&gt;Tempos lhanos – que eu gozei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei na vida presente,&lt;br /&gt;De repente – solto um ai!&lt;br /&gt;Que, destilando amargores,&lt;br /&gt;Dissabores – lá se vai...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei, afinal, na morte!...&lt;br /&gt;Num transporte – me arroubei!&lt;br /&gt;E só na morte pensando&lt;br /&gt;Vi, chorando, - que pensei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mentido = falso, fingido, ilusório, vão&lt;br /&gt;Lhano – sincero, flanco, cândido&lt;br /&gt;Fraquear = desfalecer, perder o vigor&lt;br /&gt;La = forma arcaica do pronome possessivo oblíquo da 3ª pessoa&lt;br /&gt;Fado = destino&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Caminho do Céu&lt;br /&gt;(pela cólera)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quereis que eu vos diga quais são os caminhos&lt;br /&gt;Que o homem conduzem direito p’ra o céu?&lt;br /&gt;Pois eles são fáceis, são bens comezinhos:&lt;br /&gt;Purgai-vos das culpas, de todo labéo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quereis que eu vos diga que meios mais prontos&lt;br /&gt;Nos podem do cólera-morbo livrar?&lt;br /&gt;Pois eles são fáceis: correi, ide aos pontos&lt;br /&gt;Por onde ele grassa socorros levar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mente ocupada na voz do Evangelho,&lt;br /&gt;Os olhos humildes pregados na Cruz,&lt;br /&gt;Vereis os caminhos e o sábio conselho&lt;br /&gt;Que os passos nos movam a ter com Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Co’a mente abrasada de amor caridoso,&lt;br /&gt;Co’a alma incendida do amor do cristão,&lt;br /&gt;Correi denodado, correi piedoso&lt;br /&gt;À cama do enfermo colérico irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uni vossos votos aos votos constantes,&lt;br /&gt;Às vozes, às preces dos filhos do Altar;&lt;br /&gt;Cumpri quanto dizem: vereis incessantes&lt;br /&gt;O ousado gangético ao certo voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! quantos que tendo delírios mimosos&lt;br /&gt;Donosos e cheios dos riso do amor,&lt;br /&gt;E agora feridos aos golpes da sorte,&lt;br /&gt;Da morte, murchando dos anos na flor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quantos não morrem à falta de meios?&lt;br /&gt;E quantos sucumbem à falta de pão!&lt;br /&gt;Cobarde quem foge, que olha a receios,&lt;br /&gt;Deixando sozinho morrer seu irmão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele que geme sem meios – prostrado –&lt;br /&gt;É membro do corpo, do ser social:&lt;br /&gt;Soframos com ele, se sofre, coitado!&lt;br /&gt;Recursos lhe demos que sanem-lhe o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Deus nossas frontes humildes curvemos:&lt;br /&gt;Que vezes há males que vem-nos por bem!&lt;br /&gt;Sondar os mistérios do Eterno podemos?&lt;br /&gt;Oh! não, que é defeso sonda-los alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irmãos, se vós vísseis num leito de dores&lt;br /&gt;Cercado de angústias, de penas cruéis,&lt;br /&gt;Sem esses consolos, sem esses primores,&lt;br /&gt;Que ao leito nos trazem amigos fieis;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos seis gosmentos do peito penado&lt;br /&gt;Teríeis sorrisos? Teríeis prazer?&lt;br /&gt;Oh! não: novas chagas no peito chagado&lt;br /&gt;Veríeis minarem o vosso viver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mingua não findem os dias mimosos,&lt;br /&gt;Donosos e cheios dos risos do amor,&lt;br /&gt;Do filho, do esposo, do pai tão requerido&lt;br /&gt;Ferido aos embates, do mal, do furor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda, em férias, fevereiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gangético = que se refere ao Rio Ganges e às pessoas das regiões que o margeiam&lt;br /&gt;Defeso = proibido, vedado para efeito de entrada&lt;br /&gt;Donosos= donairoso, primoroso&lt;br /&gt;Cobarde = quem não tem coragem, medroso, timorato, traiçoeiro, covarde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ciúme&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nunca viu a desgraça&lt;br /&gt;No mais terno e grato amor,&lt;br /&gt;Não sabe que em fina taça&lt;br /&gt;Se bebe infecto liquor.&lt;br /&gt;Não sabe que a fonte pura&lt;br /&gt;Correndo pela planura,&lt;br /&gt;Refrescando o prado, o val,&lt;br /&gt;Fecunda a planta mimosa,&lt;br /&gt;Como a planta venenosa,&lt;br /&gt;Que encerra o gérmen do mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto se adoram! Que vida!&lt;br /&gt;Que sonhos que são os seus!&lt;br /&gt;Quanta ventura fruída!&lt;br /&gt;Quanto amor, dirão, meu Deus!&lt;br /&gt;Sim, amamo-nos, é certo,&lt;br /&gt;Porem vede com incerto&lt;br /&gt;No peito o mal germinou!&lt;br /&gt;Como o tirano ciúme&lt;br /&gt;Me queima o peito co’o lume&lt;br /&gt;Que a mão rival atiçou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! nosso amor quanto é puro!&lt;br /&gt;Quanta ela é pura, o meu bem!&lt;br /&gt;Ai! quanto adoro-a, seguro&lt;br /&gt;De não competir-me alguém!&lt;br /&gt;Seguro!... quem m’o atesta?&lt;br /&gt;- É esta a dúvida – é esta&lt;br /&gt;Que o peito me traz em dor:&lt;br /&gt;Vede vós, vede a desgraça&lt;br /&gt;Bebida por fina taça&lt;br /&gt;No mais terno e grato amor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! quanto sou desgraçado!&lt;br /&gt;Quanto o sou por ser feliz!&lt;br /&gt;Mesquinho por ter amado&lt;br /&gt;Por ser amado infeliz!&lt;br /&gt;Infeliz por ter na mente&lt;br /&gt;Um vulcão sempre fervente&lt;br /&gt;Que intenso amor acendeu!&lt;br /&gt;Infeliz por ouvir dela&lt;br /&gt;A meiga jura singela,&lt;br /&gt;Quando amar-me prometeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia achei-a sozinha,&lt;br /&gt;Tendo a face sobre a mão:&lt;br /&gt;Ai! Que tens, lhe eu disse asinha,&lt;br /&gt;Meu anjo, minha afeição?&lt;br /&gt;Suspirou! Ficou mais triste!&lt;br /&gt;Mas meu peito, qual antiste,&lt;br /&gt;Seus males adivinhou!&lt;br /&gt;Desde então fui desgraçado&lt;br /&gt;- Por amar, por ser amado&lt;br /&gt;Do anjo que suspirou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram por mim seus suspiros,&lt;br /&gt;Seus ternos ais eram meus;&lt;br /&gt;Seus queixumes, eu inquiro-os,&lt;br /&gt;Por mim elevem-se a Deus?&lt;br /&gt;Ela pedia ao Supremo&lt;br /&gt;A posse de um gozo extremo,&lt;br /&gt;Sem mescla de dissabor;&lt;br /&gt;Porém... o voraz ciúme&lt;br /&gt;Meia queima o peito co’o lume&lt;br /&gt;Que a mão rival atiçou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Nosso amor quanto é puro!&lt;br /&gt;Quanto ela é pura, o meu bem!&lt;br /&gt;Ai! Quanto adoro-a, seguro&lt;br /&gt;De não competir-me alguém!&lt;br /&gt;Mentira! Que eu ardo em zelos&lt;br /&gt;Até de ver-lhe os cabelos&lt;br /&gt;Co’o a brisa brincando ao ar!&lt;br /&gt;Não quero que olhem pra ela;&lt;br /&gt;Mas sua feição singela&lt;br /&gt;Vive tudo a avassalar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Val = o mesmo que vale&lt;br /&gt;Fruída = desfrutada, gozada, possuída&lt;br /&gt;Antiste = antístite = grande sacerdote&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Coragem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(Pela cólera)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horizonte parece turvado,&lt;br /&gt;A borrasca, talvez, vai surgir;&lt;br /&gt;La negreja o gangético ousado,&lt;br /&gt;Que nos tenta, nos quer engolir:&lt;br /&gt;Não se torça o semblante ao malvado,&lt;br /&gt;Que há de alfim cabisbaixo fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prevenimos de há muito o ataque,&lt;br /&gt;Eis-nos firmes, leais campeões,&lt;br /&gt;Se vier, não tememos o saque,&lt;br /&gt;Que será repelido a limões;&lt;br /&gt;E o tirano, rolando no baque,&lt;br /&gt;Morrerá em cruéis convulsões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é esse o recurso somente&lt;br /&gt;Que nós temos: a dose aí está;&lt;br /&gt;Que há de amanhã estorvar do impudente,&lt;br /&gt;E fazê-lo partir-se de cá;&lt;br /&gt;Há de o ímpio voltar tão doente&lt;br /&gt;Que aqui nunca jamais voltará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no caso que venha o tirano&lt;br /&gt;Desejando imolar-nos aos mil,&lt;br /&gt;Resistamos com ar soberano&lt;br /&gt;Essa fera do Ganges tão vil;&lt;br /&gt;Nem saibamos temer ao insano,&lt;br /&gt;Já que somos um povo gentil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lutemos enquanto no peito&lt;br /&gt;Restar viva uma só pulsação,&lt;br /&gt;Nem voltemos o rosto ao aspeito&lt;br /&gt;Do colérico enfermo cristão;&lt;br /&gt;E os que em torno velarem do leito,&lt;br /&gt;Que louvores, que prêmios terão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cristão que ao doente socorre,&lt;br /&gt;Que vigia-o no leito da dor,&lt;br /&gt;Também tem quem lhe assista, se morre,&lt;br /&gt;E o console nos transes de horror;&lt;br /&gt;Mas àquele que ao leito não corre,&lt;br /&gt;Té na hora lhe falta o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nas crises que o homem se mostra,&lt;br /&gt;Sobranceiro tal qual fê-lo Deus;&lt;br /&gt;É nas crises que o homem assostra&lt;br /&gt;Quer os males alheios, quer seus;&lt;br /&gt;É na luta que o exército prostra&lt;br /&gt;Duras hostes, ganhando troféus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o mal agredir-nos intenso,&lt;br /&gt;Tão intenso qual é seu furor;&lt;br /&gt;Resistamos; pois Deus que é imenso&lt;br /&gt;Padeceu, sendo Deus, maior dor!&lt;br /&gt;Resistamos, que em cima propenso&lt;br /&gt;A salvar-nos lá está o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horizonte parece turvado,&lt;br /&gt;A borrasca, talvez, vai surgir;&lt;br /&gt;La negreja o gangético ousado,&lt;br /&gt;Que nos tenta, nos que engolir:&lt;br /&gt;Não se torça o semblante ao malvado,&lt;br /&gt;Que há de alfim cabisbaixo fugir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda (em férias) 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Estorvar = embaraçar, importunar, dificultar, impedir a liberdade dos movimentos.&lt;br /&gt;Impudente = que não tem pudor, descarado, sem vergonha&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Coragem&lt;br /&gt;(Pela Cólera)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(Incompleta)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lira, não quero esses cantos&lt;br /&gt;Que outr’ora sabias, não;&lt;br /&gt;Nem também sentidos prantos&lt;br /&gt;Que afligem o coração.&lt;br /&gt;Quero um canto sublimado&lt;br /&gt;De um amor acrisolado&lt;br /&gt;De um peito cheio de fé,&lt;br /&gt;Que vá na Página Avulsa,&lt;br /&gt;Por onde a cólera pulsa,&lt;br /&gt;Falando a todos de pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero um canto que se diga:&lt;br /&gt;“Coragem, povo cristão!”&lt;br /&gt;Que, consolando, prossiga&lt;br /&gt;Em sua nobre missão;&lt;br /&gt;Um canto cheio de esp’rança&lt;br /&gt;Como a voz que não descança&lt;br /&gt;Mandada, vinda do céu;&lt;br /&gt;------------------, heróico povo,&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------- do inimigo&lt;br /&gt;que a vida nos vem roubar;&lt;br /&gt;Temos em Deus um abrigo,&lt;br /&gt;Devemo-nos consolar.&lt;br /&gt;Resistamos corajosos&lt;br /&gt;Aos estragos horrorosos&lt;br /&gt;Que surgirem dentre nós;&lt;br /&gt;Resistamos incessantes&lt;br /&gt;Aos ataques fulminantes;&lt;br /&gt;Honramos nossos avós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Honremos, que um povo bravo&lt;br /&gt;Não curva nunca a cerviz&lt;br /&gt;Como faz o povo escravo&lt;br /&gt;Em uma crise infeliz.&lt;br /&gt;Corramos, ó gente nobre,&lt;br /&gt;Ao leito em que geme o pobre,&lt;br /&gt;Lutando presto a morrer;&lt;br /&gt;Corramos, - à parte a vida,&lt;br /&gt;Que é melhor morrer na lida,&lt;br /&gt;Do que cobarde viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem esses louros da lida&lt;br /&gt;Que falam ao coração!&lt;br /&gt;- É bom morrer-se lidando&lt;br /&gt;Aos seus um nome ligando&lt;br /&gt;Que o futuro abrace – além;&lt;br /&gt;- É bom sucumbir à morte,&lt;br /&gt;Morrer porém como um forte&lt;br /&gt;Que a Deus teme e a mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lira, não quero esses cantos&lt;br /&gt;Que outr’ora sabias, não;&lt;br /&gt;Nem também sentidos prantos&lt;br /&gt;Que afligem o coração.&lt;br /&gt;Quero um canto sublimado&lt;br /&gt;De um amor acrisolado&lt;br /&gt;De um peito cheio de fé,&lt;br /&gt;Que vá na Página Avulsa,&lt;br /&gt;Por onde a cólera pulsa,&lt;br /&gt;Falando a todos de pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda (em férias) 31 de janeiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cerviz = a parte posterior da cabeça&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Delírio de Poeta&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Pousa a pena... e tristonho medita&lt;br /&gt;No futuro que imerge-se além...&lt;br /&gt;Mil idéias na mente suscita,&lt;br /&gt;Que não sabe, não pensa-as ninguém!&lt;br /&gt;Ei-lo – altivo – sorrindo – orgulhoso –&lt;br /&gt;Ei-lo – os olhos cravando no chão!&lt;br /&gt;Quem motiva este estado penoso?&lt;br /&gt;- Um lampejo talvez da razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pega da pena – sem tino –&lt;br /&gt;Uma estrofe lá faz no papel;&lt;br /&gt;Não são frases: – seu estro é divino,&lt;br /&gt;Que lhe ferve na mente em tropel!&lt;br /&gt;E seus olhos na estrofe correndo,&lt;br /&gt;Ele sente queimar-lhe um vulcão!&lt;br /&gt;Quem agita-lhe a mente fervendo?&lt;br /&gt;- Uma nuvem talvez de ilusão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre moço! – talvez se despenha&lt;br /&gt;Nos abismos do incerto porvir!&lt;br /&gt;Muito estreito p’ra que se contenha&lt;br /&gt;Nele a idéia que esteve a nutrir!&lt;br /&gt;Mas seus sonhos desfazem-se logo&lt;br /&gt;Aos ditames da clara razão:&lt;br /&gt;Finda a palha, também finda o fogo,&lt;br /&gt;- Cinzas restam, – nem mais combustão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Despenha = lançar de grande altura, precipitar.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Desalento&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tanta lida, meu Deus, tantos martírios&lt;br /&gt;Por tão curto viver! Fugaz esp’rança,&lt;br /&gt;És como o meteoro-passageiro,&lt;br /&gt;És como o sonho – vem; por ti minh’alma&lt;br /&gt;Em vão suspira e geme!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quantos anos vivo neste mundo,&lt;br /&gt;Labirinto infernal, cismando amores,&lt;br /&gt;Ruminando na mente escandecida&lt;br /&gt;Um futuro risonho a despontar-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus amores, meus sonhos de futuro,&lt;br /&gt;Meus dias minhas tardes, minhas noites&lt;br /&gt;Mal dormidas insones, meus haveres;&lt;br /&gt;Porém amores vãos, só pressentidos –&lt;br /&gt;Eis toda a minha vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperança por que me abandonaste?&lt;br /&gt;Lá quando em infante a via a amara&lt;br /&gt;Bordando os horizontes no meu peito&lt;br /&gt;Eu sentia o viver pulsar-me em ondas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém hoje que eu sinto frouxa e gasta&lt;br /&gt;A mola do sofrer, o que me resta,&lt;br /&gt;Depois de tanta dor, de tantos males,&lt;br /&gt;Depois das mil provanças deste mundo?&lt;br /&gt;- Somente o desalento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora! Gemerei, nunca humilhado;&lt;br /&gt;Não crerei nesse amor que me sorria&lt;br /&gt;Com risos de ouropel, nem nos encantos&lt;br /&gt;Desse sonho falaz, que eu tanto amara!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crerei, na mulher não, nem no futuro;&lt;br /&gt;Nem nos homens que trazem sobre os lábios&lt;br /&gt;A torpe hipocrisia, nem no mestre&lt;br /&gt;Que co’as obras desfaz tudo que ensina;&lt;br /&gt;Crerei, porém mais alto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crerei: mas na virtude e nos seus prêmios;&lt;br /&gt;Crerei: mas nas misérias deste mundo;&lt;br /&gt;Crerei: porém na morte inexorável;&lt;br /&gt;Crerei: porém em Deus, na eternidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Escandecida = posto em brasa, ardente, escaldante, inflamado.&lt;br /&gt;Provança = prova, indício, mostra, sinal, aquilo que serve para estabelecer uma verdade.&lt;br /&gt;Ouropel = aparência enganadora.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ela Dorme&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ela dorme, mas seus lábios&lt;br /&gt;Parece que estão a rir.&lt;br /&gt;Suas faces&lt;br /&gt;Tão vivaces&lt;br /&gt;Exprimem ledo sentir!&lt;br /&gt;Que formosas, lindas pálpebras!&lt;br /&gt;Ah! se ela as quisesse abrir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é mulher – é um anjo&lt;br /&gt;Que ali dorme a disfarçar...&lt;br /&gt;Assim vê-la...&lt;br /&gt;Sem podê-la&lt;br /&gt;Por um momento acordar!&lt;br /&gt;Ah! se eu soubesse uma coisa...&lt;br /&gt;Mas pode-se ela zangar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como parece que sonha!&lt;br /&gt;Que sonho será o seu?&lt;br /&gt;E é bem doce!&lt;br /&gt;Ah! se fosse.&lt;br /&gt;Comigo – quisera-o eu;&lt;br /&gt;Mas ela sonha com outro,&lt;br /&gt;Talvez outro o mereceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com outro sim, que eu não tenho&lt;br /&gt;Da ventura tal condão;&lt;br /&gt;Que este sonho&lt;br /&gt;Assim risonho&lt;br /&gt;Com outro é, comigo não,&lt;br /&gt;A ser comigo dissera-o&lt;br /&gt;De há muito meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dissera-o, sim, mas tentemos:&lt;br /&gt;Minha mão no peito seu!&lt;br /&gt;Como bate!&lt;br /&gt;Demos mate&lt;br /&gt;Ao puro desejo meu...&lt;br /&gt;Mas não, que o pudor às faces&lt;br /&gt;Lhe subiu, - enrubesceu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixemos... fique a esperança&lt;br /&gt;Que eu não a quero acordar&lt;br /&gt;Pois que ao ver-me&lt;br /&gt;Pode ter-me&lt;br /&gt;Que dizer, que conversar&lt;br /&gt;Deixemos... que ela parece&lt;br /&gt;Um anjo ali a sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Príncipe Imperial - no Piauí&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ledo = alegre, contente, jubiloso.&lt;br /&gt;Mate = lance decisivo&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu Amo-te Muito&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Eu amo as loiras tranças de Maria,&lt;br /&gt;Eu amo a flor que adorna seus cabelos,&lt;br /&gt;Eu amo a fita que lh’os prende em laços,&lt;br /&gt;Eu amo solto ou atados vê-los&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo, sua fronte lisa e branca,&lt;br /&gt;Eu lhe amo os meigos olhos tricolores,&lt;br /&gt;Eu amo suas faces rubicundas,&lt;br /&gt;Eu amo seus receios... seus pudores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo-lhe a boquinha graciosa,&lt;br /&gt;Eu amo seu sorriso tão amável;&lt;br /&gt;Eu amo de marfim seus claros dentes,&lt;br /&gt;Eu lhe amo o som da voz tão deleitável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lhe amo o liso colo alabastrino,&lt;br /&gt;Eu lhe amo o virgem, palpitante seio,&lt;br /&gt;Eu amo-lhe a cintura vaporosa,&lt;br /&gt;O porte, as finas mãos, garbo e meneio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo as mimosas roupas que ela veste&lt;br /&gt;Eu amo suas plantas pequeninas&lt;br /&gt;Eu amo o mesmo chão, onde eles pousam,&lt;br /&gt;As ervinhas calcadas e as boninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo o doce pranto que ela chora,&lt;br /&gt;Eu lhe amo os ternos ais quando suspira,&lt;br /&gt;Eu amo suas queixas mal - fundadas&lt;br /&gt;Que o ciúme cruel talvez lhe inspira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu próprio rival eu perdoara&lt;br /&gt;Fazer-se por amor cativo dela;&lt;br /&gt;Quem pode resistir aos seus encantos?&lt;br /&gt;Quem pode – sem amar- ver minha bela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Maria, meu anjo, terno encanto!&lt;br /&gt;Quanto te amo, dizer não sei, não posso!&lt;br /&gt;É amor que não pode ser descrito,&lt;br /&gt;Porém nele o rigor d’ausência adoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu sorriso é que faz-me venturoso,&lt;br /&gt;Teus olhos é que dão luz a meus olhos,&lt;br /&gt;Eu não fora o que sou sem tua vida,&lt;br /&gt;Sem ti que fora o mundo? Um mar de abrolhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Rubicundo = vermelho&lt;br /&gt;Bonina = o mesmo que bela margarida&lt;br /&gt;Alabastrino = muito branco, que tem a alvura ou outras qualidades do alabastro&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu e a Enfermeira&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;De dores pungentes, de angústias valado&lt;br /&gt;O meu triste fado constante gemia,&lt;br /&gt;Desperto, pensando naquela que amava,&lt;br /&gt;Com ela sonhava, se entanto dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai vida mesquinha, porém que eu amava,&lt;br /&gt;Porque eu a sagrava à bela querida!&lt;br /&gt;Ai vida mesquinha, que se ia findando,&lt;br /&gt;Mas nunca esfriando da chama nutrida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, moribundo, meu peito sentia&lt;br /&gt;A flama que ardia do bem que eu amava,&lt;br /&gt;Mas cessa a desgraça, me torno ditoso,&lt;br /&gt;Que do anjo formoso bem perto me achava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa que as dores comprimam meu peito,&lt;br /&gt;Se é vão seu efeito, se amor nos afaga?&lt;br /&gt;Que importam lamentos que a dor nos arranca,&lt;br /&gt;Se finda-os e estanca paixão doce e maga?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivendo a seu lado, venturas só via,&lt;br /&gt;Ditoso sentia pungirem-me as dores!&lt;br /&gt;Aos ares freqüentes suspiros alados&lt;br /&gt;Soltava, passados do cremor de amores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bela enfermeira que eu tinha a meu lado!&lt;br /&gt;Que terno cuidado! que moça tão pia!&lt;br /&gt;Sucumbem as dores com sua presença,&lt;br /&gt;Esvai-se a doença, que atroz me pungia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias são horas, as horas instantes&lt;br /&gt;Passados constantes em ternos brinquedos:&lt;br /&gt;Que bela enfermeira que eu tinha ao meu lado&lt;br /&gt;Que terno cuidado! que tratos tão ledos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que falas tão doces por nós só faladas!&lt;br /&gt;Que horas passadas em doces recreios!&lt;br /&gt;Que vida tão doce! que doces ternuras&lt;br /&gt;Que doces canduras! que doces receios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num leito de dores prostrado, doente,&lt;br /&gt;Vivera contente com tal enfermeira:&lt;br /&gt;Amável e bela! Que moça tão pia!&lt;br /&gt;Alegre me ria! Que moça fagueira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu era às vezes de estrelas ornado,&lt;br /&gt;Outr’ora nublado, só trevas se via,&lt;br /&gt;Às vezes a lua com pálidos raios&lt;br /&gt;Em meigos desmaios saudosa luzia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outr’ora nas frestas o vento zunia,&lt;br /&gt;O teto gemia, brilhavam relampos,&lt;br /&gt;E os raios caindo, trovões estouravam,&lt;br /&gt;E as águas jorravam nos vales e campos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu todo assombrado, dormia ou pensava?&lt;br /&gt;Quem sabe! Sonhava? Talvez, são segredos...&lt;br /&gt;Fruía prazeres aos homens vedados,&lt;br /&gt;Gozava de agrados, os mimos mui ledos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sabem-no as trevas, a lua, as estrelas&lt;br /&gt;Que tremem de belas, trovões e relampos&lt;br /&gt;E raios e ventos e chuva celeste,&lt;br /&gt;Que os prados reveste de perlas e de campos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entanto = contração de entretanto&lt;br /&gt;Valado = cercado pelo inimigo&lt;br /&gt;Cremor = parte mais espessa de um líquido, essência, rico de muita consistência.&lt;br /&gt;Perla = pérola&lt;br /&gt;Relampo = popular de relâmpago&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fases Asmáticas&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Outrora quando batia&lt;br /&gt;De prazer meu coração,&lt;br /&gt;Oh! então como eu sentia&lt;br /&gt;Dilatar-se-me o pulmão!&lt;br /&gt;Hoje sucede o contrário!&lt;br /&gt;Neste mundo tudo é vário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, porém, se ele bate&lt;br /&gt;De prazer, corre por mim&lt;br /&gt;Frio suor que me abate;&lt;br /&gt;Porque me lembra, por fim,&lt;br /&gt;Que em breve lá vem a tosse,&lt;br /&gt;E o prazer foge precoce!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, quando penso&lt;br /&gt;Naquilo que já gozei.&lt;br /&gt;E nessa idéia suspenso,&lt;br /&gt;Ar muito ao pulmão mandei,&lt;br /&gt;Eis que a tosse asfixiante&lt;br /&gt;Me lembra o quarto minguante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ele: eis-me prostrado,&lt;br /&gt;Oh! meu Deus, quanto sofrer!&lt;br /&gt;Levo as noites acordado.&lt;br /&gt;A me virar e torcer!&lt;br /&gt;Seis dias dura esta prova,&lt;br /&gt;Té que chega a lua nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidas que nesta o repouso&lt;br /&gt;Me vê, por fim, consolar?&lt;br /&gt;Nem dar um só passo eu ouso,&lt;br /&gt;Posso apenas suspirar!&lt;br /&gt;Se o pulmão mais ar consente&lt;br /&gt;Lá vem o quarto crescente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Asma tirana e maldita,&lt;br /&gt;Que me hás roubado o vigor,&lt;br /&gt;Nem mais olho à minha dita&lt;br /&gt;Por um prisma encantador&lt;br /&gt;Nada, nada me sereneia&lt;br /&gt;Pois lá vem a lua cheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sedear = acalmar moderar.&lt;br /&gt;Vário = inconstante, volúvel, mutante, caprichoso.&lt;br /&gt;Sereneia = aplacar, acalmar, aquietar, amainar&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gemidos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tudo geme neste mundo&lt;br /&gt;Onde tudo é só gemer;&lt;br /&gt;O bardo meditabundo&lt;br /&gt;Geme e sofre até morrer.&lt;br /&gt;Geme, sim, toda a natura,&lt;br /&gt;Geme a rola com ternura,&lt;br /&gt;Geme o bosque em se mover,&lt;br /&gt;Geme a brisa na espessura,&lt;br /&gt;Geme a fontinha a correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem não geme no mundo?&lt;br /&gt;Quem não geme... não sei eu.&lt;br /&gt;Vede o pombo gemebundo,&lt;br /&gt;Cuja pombinha morreu.&lt;br /&gt;Coitadinho! – quanto pena!&lt;br /&gt;E quem a tanto o condena?&lt;br /&gt;Essa sorte quem lh’a deu?&lt;br /&gt;Ai! Nem mais lhe cata a pena&lt;br /&gt;A esposa que faleceu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gemidos que são? – queixumes&lt;br /&gt;Contra amor – são tristes ais;&lt;br /&gt;Lavas de um peito – ciúmes,&lt;br /&gt;Que nos torturam – fatais:&lt;br /&gt;São suspiros exalados,&lt;br /&gt;Por entre uns lábios passados...&lt;br /&gt;São zelos cruéis, mortais;&lt;br /&gt;São juramentos quebrados;&lt;br /&gt;Protestos de nunca mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus versos, meus tristes versos&lt;br /&gt;Que alívio às vezes me dão,&lt;br /&gt;São os afetos diversos&lt;br /&gt;De minh’alma e coração;&lt;br /&gt;São gemidos de minh’alma&lt;br /&gt;Que às vezes colhem-me a palma&lt;br /&gt;No seio da solidão,&lt;br /&gt;Com que mitigo e se acalma&lt;br /&gt;A frágua de uma impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gemidos sempre são frases&lt;br /&gt;Arrancadas pela dor?&lt;br /&gt;Não: da vida em certas fases&lt;br /&gt;Exprimem gozos de amor&lt;br /&gt;Exprimem tanta ventura&lt;br /&gt;Quebrados com tal brandura&lt;br /&gt;Nuns lábios de rósea cor,&lt;br /&gt;Que, em lugar de desventura,&lt;br /&gt;Dizem prazer e dulçor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o canto do poeta&lt;br /&gt;Acaso é canto ou gemer?&lt;br /&gt;Se na desgraça o enceta&lt;br /&gt;Como pode canto ser?&lt;br /&gt;Não é canto: são gemidos,&lt;br /&gt;São ais do peito sentidos&lt;br /&gt;É triste pranto a correr;&lt;br /&gt;São os ecos repetidos&lt;br /&gt;Do seu constante sofrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se canta a meiga donzela&lt;br /&gt;Fá-lo sempre de feliz?&lt;br /&gt;Não: talvez nas vozes dela&lt;br /&gt;Da dor se estampa o verniz&lt;br /&gt;Que vezes o passarinho&lt;br /&gt;Sobre o flexível raminho&lt;br /&gt;Canta, e seu canto o que diz?&lt;br /&gt;Diz saudades do seu ninho,&lt;br /&gt;Canta por ser infeliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo geme neste mundo&lt;br /&gt;Onde tudo é só gemer;&lt;br /&gt;O bardo meditabundo&lt;br /&gt;Geme e sofre até morrer.&lt;br /&gt;Geme, sim, toda a natura,&lt;br /&gt;Geme a rola com ternura,&lt;br /&gt;Geme o bosque em se mover,&lt;br /&gt;Geme a brisa na espessura,&lt;br /&gt;Geme a fontinha a correr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 27 de junho de 1855.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Meditabundo = que medita, melancólico.&lt;br /&gt;Frágua = forja, ardor, calor intenso, amargura, adversidade.&lt;br /&gt;Gemebundo = gemente, que tem o hábito de gemer ou de se queixar.&lt;br /&gt;Dulçor = doçura&lt;br /&gt;Enceta = começa, principia, dá início&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Já Sei a Cor (*)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Vou descrever de Maria&lt;br /&gt;Os olhos que afinal vi,&lt;br /&gt;De cuja cor deslumbrado&lt;br /&gt;Não sei porque me esqueci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pondo-me um dia a revê-los&lt;br /&gt;Conheci ser trina a cor,&lt;br /&gt;Que os torna tão preciosos&lt;br /&gt;E tão propícios a amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São verdes como as campinas,&lt;br /&gt;Como o mar sem escarcéu,&lt;br /&gt;Têm um toque de castanho,&lt;br /&gt;Tão azuis da cor do céu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este composto tão belo&lt;br /&gt;Da-lhe risos de mimos tal,&lt;br /&gt;Eu não sei se por ser trino,&lt;br /&gt;A razão não sei eu qual!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra cousa lhe hei notado&lt;br /&gt;Nos seus olhos a brilhar,&lt;br /&gt;Ocultam não sei aonde&lt;br /&gt;Dois anjinhos a brincar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Maria dirijo&lt;br /&gt;Um riso ou falas de amor,&lt;br /&gt;Vejo que eles também riem&lt;br /&gt;Ou falam seja o que for.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando em rosto ela me lança&lt;br /&gt;Não faltas, suspeitas vãs.&lt;br /&gt;Como em mim, lágrimas correm&lt;br /&gt;Por suas faces louçãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei que será isto,&lt;br /&gt;Eu não sei, Maria não&lt;br /&gt;Se é magia se é feitiço&lt;br /&gt;Em teus olhos se é condão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Raimundo Nonato, 4 de setembro de 1853&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Loução = elegante, garboso, gentil, agradável à vista, belo, bem feito. Fem. Louçã. Plural = louçãos.&lt;br /&gt;(*) Obs. do Coordenador:&lt;br /&gt;Desde que minha filha Ivna era criança, minha esposa comentava encantada, que os seus olhos tinham cores que variavam: ora verdes, ora azuis, outras vezes, cor de mel. E em outras, as cores se mesclavam, num efeito encantador. Ao ler esta poesia, percebeu, admirada, serem os olhos da nossa filha, que também é Maria, Ivna Maria Teixeira Mourão.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha Lira&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;De marfim, nem de madeira&lt;br /&gt;Minha lira é fabricada,&lt;br /&gt;Não foi no mato cortada,&lt;br /&gt;D’alem mar não veio, não;&lt;br /&gt;Mas é lira e nela canto&lt;br /&gt;Meus ternos, gratos amores,&lt;br /&gt;Nela mitigo os ardores&lt;br /&gt;De minha extrema paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas cordas contém ela&lt;br /&gt;Quantas letras o alfabeto;&lt;br /&gt;Quando soa o som direto&lt;br /&gt;Nasce do meu coração.&lt;br /&gt;Não de branco marfim liso&lt;br /&gt;Fabricada, ou de madeira,&lt;br /&gt;É contudo verdadeira,&lt;br /&gt;Lira de nova invenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu-me o plectro com que toco&lt;br /&gt;Uma ave branca, inocente;&lt;br /&gt;Diz a lira docemente&lt;br /&gt;Quanto sente o coração.&lt;br /&gt;Cada nota que eu desfio&lt;br /&gt;De minha lira inventada&lt;br /&gt;Causa nela, que enlevada&lt;br /&gt;Ou azul, negra impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soando embora d’amores,&lt;br /&gt;Sempre solta um ai profundo!&lt;br /&gt;Ela sabe que este mundo&lt;br /&gt;É só morte – vida não.&lt;br /&gt;E é por isso que sentida&lt;br /&gt;A minha lira inventada&lt;br /&gt;Fica toda repassada&lt;br /&gt;Sempre de negra impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não de marfim ou madeira&lt;br /&gt;Fabriquei a minha lira,&lt;br /&gt;Em que canto o que me inspira&lt;br /&gt;A minha ardente paixão:&lt;br /&gt;- De papel é fabricada,&lt;br /&gt;São as letras – cordas dela,&lt;br /&gt;O plectro – a pena singela&lt;br /&gt;De uma ave do meu sertão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem convém-me outra lira,&lt;br /&gt;Outras cordas, outro plectro,&lt;br /&gt;Pois com ela canto o metro&lt;br /&gt;Que diz a minha paixão.&lt;br /&gt;E a tinta que o metro grava&lt;br /&gt;Que mostra o meu pensamento&lt;br /&gt;É que dela o sentimento&lt;br /&gt;Gera e produz a impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Príncipe Imperial no Piauí nos 10 de abril de 1853&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Plectro = pequena vara de marfim, com que se feriam as cordas da lira, gênio poético.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minh’Alma Está Lá&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Vem, tarde propícia, difunde os primores&lt;br /&gt;Que tens em teu seio, - difunde-os em mim,&lt;br /&gt;Que a dura saudade me aviva os rigores&lt;br /&gt;Da ausência que faz-me viver triste assim.&lt;br /&gt;E dá-me uma brisa que voe na espessura,&lt;br /&gt;E à bela que eu amo mui rápida vá&lt;br /&gt;Dizer-lhe que peno, que em tal amargura&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos plúmeos cantores que tecem-te cantos&lt;br /&gt;À bela que eu amo despede um cantor;&lt;br /&gt;Receba nas asas meus tépidos prantos&lt;br /&gt;Filtrados na frágua da mais crua dor.&lt;br /&gt;E parta e não cesse, constante voando,&lt;br /&gt;E pouse de fronte do lar onde está,&lt;br /&gt;E diga-lhe, triste, que, em ais se finando,&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu peito que asila pureza e candura,&lt;br /&gt;Terá piedade, terá dó de mim;&lt;br /&gt;Nas asas, chorando, dirá uma jura&lt;br /&gt;D’amor dentre os lábios de rosa e carmim.&lt;br /&gt;E traze-m’a logo, veloz passarinho,&lt;br /&gt;Que o peito me anseia... não vês como está?&lt;br /&gt;Adeus! Eu cá fico cismando sozinho...&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá foi-se, partiu-se, chegou... que fazia&lt;br /&gt;A bela? – que jura daria ao cantor?&lt;br /&gt;Mentiu-lhe? - traiu-me? – pensava? – sorria?&lt;br /&gt;Zombava – quem sabe! – do seu trovador?&lt;br /&gt;Sorria – zombava – que o pobre habitante&lt;br /&gt;Do bosque vivente não veio mais cá;&lt;br /&gt;E eu, triste, saudoso, me fino constante!&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela não mente, que pura e singela&lt;br /&gt;Mil vezes me disse seu peito ser meu;&lt;br /&gt;E eu creio nos lábios da doce donzela&lt;br /&gt;Que um riso, uma fala d’amor concedeu.&lt;br /&gt;Eu creio que os lábios da virgem não mentem,&lt;br /&gt;Que neles, sinceros, saudades, só há;&lt;br /&gt;Pois dizem, qual digo, na ausência que sentem:&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem, tarde propícia, difunde os primores&lt;br /&gt;Que tens em teu seio, - difunde-os em mim,&lt;br /&gt;Que a aguda saudade me aviva os rigores&lt;br /&gt;Da ausência que faz-me viver triste assim.&lt;br /&gt;E dá-me uma brisa que voe na espessura,&lt;br /&gt;E à bela que eu amo mui rápida vá&lt;br /&gt;Dizer-lhe que eu peno, que em tal amargura&lt;br /&gt;Meu corpo aqui vive, minh’alma está lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soledade ( Recife) 27 de novembro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Plúmeo = relativo a plumas. Que tem plumas, emplumado.&lt;br /&gt;Frágua = Ardor, calor intenso. Amargura, adversidade.&lt;br /&gt;Cismando = ficar absorto em pensamentos.&lt;br /&gt;Fino = acabado, me acabo, faleço&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nênia&lt;br /&gt;(No aniversário de morte do&lt;br /&gt;Dr. G. Vilella de Castro Tavares)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A vida – hás de no céu melhor gozá-la,&lt;br /&gt;Pois no mundo a lidar minaste a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem louco quem no mundo não descansa&lt;br /&gt;Em busca da verdade, em prol daqueles&lt;br /&gt;Que vivem dominados pela incúria,&lt;br /&gt;Que vivem sotopostos pelo peso&lt;br /&gt;Da matéria que atrai, fascina, ilude!&lt;br /&gt;Bem louco! Mas que importa que o descrente&lt;br /&gt;Sem critério, imoral, assim se exprima,&lt;br /&gt;Esquecendo essas leis que Deus gravara&lt;br /&gt;Em nossos corações? Que o diga embora!&lt;br /&gt;Bem sábio e bem feliz! Por alguns anos&lt;br /&gt;Passados sem descanso e prescrutando&lt;br /&gt;Os segredos infindos da ciência&lt;br /&gt;Levando da razão o facho extremo&lt;br /&gt;Ao seio da ignorância que tropeça&lt;br /&gt;Nos escolhos do erro, o sábio, o justo,&lt;br /&gt;Enquanto neste mundo os loiros colhe&lt;br /&gt;Do seu reto viver, dos seus labores,&lt;br /&gt;No outro mundo constrói melhor asilo,&lt;br /&gt;Onde as palmas encontra da virtude,&lt;br /&gt;Onde a paz e o descanso eternos goza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida – hás de no céu melhor gozá-la,&lt;br /&gt;Pois no mundo a lidar minaste a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto difere o homem da ciência&lt;br /&gt;Do homem da matéria! Aquele chora&lt;br /&gt;O sábio que finou-se pelo estudo;&lt;br /&gt;Este cospe a irrisão sobre seus restos.&lt;br /&gt;Purifica o primeiro a inteligência;&lt;br /&gt;O segundo ao prazer só rende cultos!&lt;br /&gt;Eu não! Eu gemerei também a perda&lt;br /&gt;Daquele que oferecia seus tesouros,&lt;br /&gt;Não de fulvo metal, de idéias puras,&lt;br /&gt;De sãs doutrinas, de verdades sólidas&lt;br /&gt;A tantos que os buscavam. Onde eu posso,&lt;br /&gt;Onde podeis vós outros que o escutastes,&lt;br /&gt;Passados de prazer, de entusiasmo,&lt;br /&gt;Do gelo aprovador que em nós corria,&lt;br /&gt;Igual sábio encontrar que nos ilustre,&lt;br /&gt;Igual mestre tão bom que nos ensine?&lt;br /&gt;A morte, a inexorável crua morte&lt;br /&gt;Arrebatou-nos o querido mestre!&lt;br /&gt;Mas, irmãos, consolemo-nos. Sua alma&lt;br /&gt;Será no céu mais sábia e venturosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida – hás de no céu melhor gozá-la,&lt;br /&gt;Pois no mundo a lidar minaste a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pastos Bons, Maranhão, maio de 1869&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nênia = canto fúnebre&lt;br /&gt;Sotoposto = posto por baixo, exprime a idéia de inferioridade.&lt;br /&gt;Irrisão= mofa, zombaria, desprezo, escárnio.&lt;br /&gt;Fulvo = metal amarelado, da cor de ouro&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nênia &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;(À morte de meu patrício o estudante&lt;br /&gt;J. Pires Ferreira)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Inda bem o triste pranto&lt;br /&gt;Nos olhos não me estancou;&lt;br /&gt;Quando ainda soa o canto&lt;br /&gt;Que a triste lira entoou,&lt;br /&gt;Novas lágrimas sentidas&lt;br /&gt;Correm tépidas, nascidas&lt;br /&gt;Do magoado coração;&lt;br /&gt;De novo a lira enlutada&lt;br /&gt;Geme, carpe, repassada&lt;br /&gt;De dor, de amarga aflição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geme, carpe, oh minha lira,&lt;br /&gt;A morte de teu irmão,&lt;br /&gt;Dessa flor que sucumbira&lt;br /&gt;Rojada pelo tufão.&lt;br /&gt;Geme, carpe – que há um fado&lt;br /&gt;Que ao meu Piauí amado&lt;br /&gt;Vive sempre a perseguir!&lt;br /&gt;Terra esquecida do norte,&lt;br /&gt;Que dura, que infeliz sorte&lt;br /&gt;Vai minando o teu porvir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os carinhos maternos&lt;br /&gt;Mais caros, doces nos são;&lt;br /&gt;Quando os desvelos paternos&lt;br /&gt;Mais provas de amor nos dão,&lt;br /&gt;Inebriados dos sonhos&lt;br /&gt;Que à mocidade risonhos&lt;br /&gt;Os louros mostram além,&lt;br /&gt;Trocamos essas doçuras&lt;br /&gt;Pelas esp’ranças futuras&lt;br /&gt;Que tantas vigílias têm!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ai! Que vezes na campa&lt;br /&gt;Se findam castelos tais!&lt;br /&gt;Resta a lousa que os estampa...&lt;br /&gt;Aos vivos... sentidos ais!&lt;br /&gt;Lá foram-se as esperanças&lt;br /&gt;Depois de tantas provanças&lt;br /&gt;Depois de tanto velar!&lt;br /&gt;Morreram como essas cores...&lt;br /&gt;Como do sol os fulgores,&lt;br /&gt;Quando mergulha no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não – que o sol noutro dia&lt;br /&gt;Volta, luz, torna a viver;&lt;br /&gt;Assim há de à lousa fria&lt;br /&gt;O espírito sobreviver.&lt;br /&gt;Basta, lira; basta, pranto;&lt;br /&gt;Nem mais lágrimas, nem canto,&lt;br /&gt;Que talvez se ofenda o céu.&lt;br /&gt;- Vida! Morte! Eternidade!&lt;br /&gt;Mistério da divindade,&lt;br /&gt;Quem pode rasgar-te o véu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife 5 de março de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Rojado = arrostado pelo chão&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nênia&lt;br /&gt;(À morte do estudante&lt;br /&gt;Manuel Rodrigues Machado)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quer Deus ou quer a sorte lacerar-vos&lt;br /&gt;O peito que inda pouco gemeu tanto?&lt;br /&gt;Novas dores vos dão novos suspiros,&lt;br /&gt;E aos olhos, inda roixos, novo pranto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu blasfemo, Senhor, mas me perdoa,&lt;br /&gt;São excessos da dor que me devora:&lt;br /&gt;É minh’alma que, unida às almas tristes&lt;br /&gt;D’amigos que se carpem, também chora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respeito os teus encarnos – neles vejo&lt;br /&gt;O selo do mistério que os estampa;&lt;br /&gt;Ou viva o moço no mundo venturoso,&lt;br /&gt;Ou desça prematuro o justo à campa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se acaso no verdor dos ledos anos&lt;br /&gt;A flor de uma existência é decepada,&lt;br /&gt;Não valem vãs blasfêmias contra a sorte:&lt;br /&gt;A teia da existência está fiada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sentença fatal do livro eterno&lt;br /&gt;Que o termo do mortal escrito encerra,&lt;br /&gt;Não sofre dilação, se o prazo expira,&lt;br /&gt;Há de o homem voltar por força à terra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amigos! Serenai o amargo pranto,&lt;br /&gt;Que pelo rosto vosso se desliza;&lt;br /&gt;O homem sem morrer mesquinho fora:&lt;br /&gt;É a morte que ao homem eterniza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe se um porvir funesto aguarda&lt;br /&gt;Aquele que morreu na flor dos anos!&lt;br /&gt;- São decretos de Deus que nos escapam:&lt;br /&gt;Curvados veneremos seus arcanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veneremo-los, sim, que neles vejo&lt;br /&gt;O selo do mistério que os estampa,&lt;br /&gt;Ou viva o moço no mundo venturoso,&lt;br /&gt;Ou baixe prematuro o justo à campa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem que viveu singelo e casto,&lt;br /&gt;Que um peito para vós sincero tinha,&lt;br /&gt;Que este triste epicédio, em dor coado&lt;br /&gt;Motiva a lacrimosa pena minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também me era assás caro! Mas que importa&lt;br /&gt;O doloroso pranto sem remédio?&lt;br /&gt;Uma lágrima, pois, uma somente&lt;br /&gt;Comigo derramai neste epicédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os arcanos de Deus se não prescrutam,&lt;br /&gt;Que o selo do mistério é que os estampa,&lt;br /&gt;Ou viva o moço no mundo venturoso,&lt;br /&gt;Ou desça prematuro o justo à campa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soledade (Recife) 12 de julho de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Encarnos = o mesmo que descarnar&lt;br /&gt;Ledo = alegre, contente, jubiloso.&lt;br /&gt;Epicédio = poema recitado nas exéquias de alguma pessoa notável. Qualquer composição poética fúnebre.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Canto do Cacique&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte; se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ares demando co’a frecha empenada,&lt;br /&gt;Que voa infalível à presa onde está;&lt;br /&gt;A onça sedenta, que espuma raivosa,&lt;br /&gt;Se vi-a, mandei-a de mim a Anhangá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou bravo e cordato; se a paz se concerta,&lt;br /&gt;Quem é tão cordato como eu? – quem será?&lt;br /&gt;Na paz sou cordeiro, - sou tigre na guerra,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco; só temo a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domino estas matas espessas, sombrias,&lt;br /&gt;Que estão sob a mira do grande Tupá;&lt;br /&gt;Que há poderoso como eu nestas serras,&lt;br /&gt;Que tudo que vejo sujeito me está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No doce remanso da taba querida&lt;br /&gt;Mil filhas donzelas que adora Tupá.&lt;br /&gt;Dos olhos quebrados me lançam mil setas&lt;br /&gt;Mas uma somente no peito me dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte, se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes,&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Borés lá ressoam – e agrupa-se a tribo!&lt;br /&gt;Quem foi ao perigo primeiro ter lá?&lt;br /&gt;Fui eu, ó guerreiro, valente e brioso,&lt;br /&gt;Que sobre mim vejo somente a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---------------- como eu não existe:&lt;br /&gt;---------------- seu manacá,&lt;br /&gt;----------------- na taba excitando,&lt;br /&gt;----------------- louvando a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notai essas várzeas floridas, verdosas!&lt;br /&gt;Notai estes serros, que ao céu vão ter lá&lt;br /&gt;Firmantes – soberbos? – São meus – eu domino!&lt;br /&gt;Em forças eu cedo somente a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vedes mil cândidas aves formosas&lt;br /&gt;Nos céus peneirando-se em honra a Tupá?&lt;br /&gt;Pois todas eu tenho; se quero na ponta&lt;br /&gt;Da frecha certeira que prestes está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte; se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;* *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na taba verdosa, de flores amada,&lt;br /&gt;Que belo guerreiro qual eu haverá?&lt;br /&gt;Meus olhos são pretos – bem pretos – retintos –&lt;br /&gt;Que eu índio Toupino, não sou marabá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vastos domínios! que prem herdades&lt;br /&gt;De cima há cedido-me o grande Tupá.&lt;br /&gt;Se os olhos espraio.... só vejo riquezas&lt;br /&gt;Doadas ao neto de Tupinambá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou bravo guerreiro; sou rei destes campos;&lt;br /&gt;As feras me temem e eu temo a Tupá:&lt;br /&gt;Meus olhos fuzilam,desferem relampos,&lt;br /&gt;Que ferem, deslumbram o vil marabá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fronte guerreira me cinge o kem.....&lt;br /&gt;Que lindo não fico se sobre.......&lt;br /&gt;Sou índio, não nego.............&lt;br /&gt;Feitura orgulhosa do grande Tupá ............&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte, se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;* *&lt;br /&gt;Não turvam-me os olhos a vil mussurama&lt;br /&gt;E o vil iv’rapeme que importa-se o há?&lt;br /&gt;Co’a massa e o tacape, co’o arco guerreiro&lt;br /&gt;Mil tribos eu mando de mim a Anhangá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Co’o arco empunhado, co’a frecha no rosto,&lt;br /&gt;Não vejo, não temo senão a Tupá.&lt;br /&gt;Ao sonho terrível destroço fileiras,&lt;br /&gt;Que tombam, mordendo da terra o tobá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ornando-me a cinta gentil encluape,&lt;br /&gt;Quem é que a vitória como eu louvará?&lt;br /&gt;Eis soam janubias e muimures soam,&lt;br /&gt;Quem tão prazenteiro como eu bailará?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas tabas protegem-me&lt;br /&gt;Nas igaras guarda-me o grande Tupá:&lt;br /&gt;De dia reluz-me o sol corincante,&lt;br /&gt;E a lua serena de noite me está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte, se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas águas correntes não há pirabebe&lt;br /&gt;Que voe tão ligeiro qual eu nade lá;&lt;br /&gt;Na estreita piroga desliza garboso,&lt;br /&gt;Nem há igaruana mais de .......&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As armas provado na leve tipóia&lt;br /&gt;Enquanto o Piaga, no teu maracá&lt;br /&gt;Tocando, celebra os teus sacrifícios,&lt;br /&gt;Aos pátrios Manitos, ou grande Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que sou tão forte? Por que mil imigos&lt;br /&gt;Nas rígidas lutas eu mando a Anhanjá?&lt;br /&gt;Porque sou dos índios o chefe, o cacique,&lt;br /&gt;Porque só me curvo no céu a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desperta, ó Piaga, desperta os Manitos&lt;br /&gt;Aos sons piedosos do teu maracá;&lt;br /&gt;Corramos alegres ao largo Tisseiro,&lt;br /&gt;Cantando, dançando, louvando a Tupá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou índio, sou forte, se a lida me chama,&lt;br /&gt;Sou raio, corisco, só temo a Tupá:&lt;br /&gt;No campo juncado de imigos ferozes&lt;br /&gt;Se movo o tacape, mil mortos são já!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soledade (no Recife) abril de 1855&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Boré = trombeta de bambu, usada pelos índios&lt;br /&gt;Tobá = atobá, pássaro mergulhão&lt;br /&gt;Pirabebe = peixe voador&lt;br /&gt;Piaga = pajé&lt;br /&gt;Maracá = cabaça seca e interiormente limpa, em que os indígenas metem pedras ou frutos e agitam nas festas, na feitiçaria e nas guerras.&lt;br /&gt;Manito = manita = fermento especial&lt;br /&gt;Igaruana = canoeiro navegador&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Canto do Soldado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na vida encaneci que me legaram&lt;br /&gt;Meus parentes, meu pai, que vi morrer,&lt;br /&gt;Quando as tropas rebeldes nos cercaram&lt;br /&gt;E foram rechaçados sem vencer.&lt;br /&gt;Nunca me hei de esquecer daquele aspeito,&lt;br /&gt;Com que disse meu pai a se finar:&lt;br /&gt;“O soldado que à bala expõe o peito&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguindo de meu pai o nobre exemplo,&lt;br /&gt;Não encontro descanso a combater,&lt;br /&gt;E da pátria, malgrado, o mal contemplo,&lt;br /&gt;Sofrendo o frio, a fome sem gemer!&lt;br /&gt;A metralha feroz da canonhada&lt;br /&gt;Não me faz abater, nem recuar;&lt;br /&gt;Mas – quem missão exerce tão sagrada&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gritando: quem vem lá? – eu passo as noites;&lt;br /&gt;Que vezes tenho opresso o coração,&lt;br /&gt;Vendo o meu camarada aos vis açoites&lt;br /&gt;Gemer da vil chibata e sem razão!&lt;br /&gt;Eu sinto, então, meu sangue enregelado,&lt;br /&gt;Sinto o pranto dos olhos a brotar:&lt;br /&gt;O guerreiro valente e denodado&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem mim, pobre da pátria! – desvalida,&lt;br /&gt;Quem zelara seus foros, seu brasão?&lt;br /&gt;Seria vacilante em sua vida,&lt;br /&gt;Não tivera respeito de nação.&lt;br /&gt;Sou eu, oh sim! – sou eu que com bravura&lt;br /&gt;Mil triunfos lhe faço conquistar,&lt;br /&gt;E quem coloca a pátria em tal altura&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu vivo estafado... e minha etapa&lt;br /&gt;Não me dá para o pão! Sorte cruel!&lt;br /&gt;E esta fome do inferno, me solapa&lt;br /&gt;Esta vida nutrida só de fel!&lt;br /&gt;E se acaso eu morrer de fome ou frio,&lt;br /&gt;Ai da pátria também, que há de acabar!&lt;br /&gt;Quem morre pela pátria e por seu brio&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Governo do Brasil, atende ao brado&lt;br /&gt;Do valoroso exército fiel,&lt;br /&gt;Que de fome e nudez jaz alquebrado,&lt;br /&gt;Entregue ao despotismo mais cruel.&lt;br /&gt;Minora nossos males, nossas dores,&lt;br /&gt;Dá-nos pão pra podermos trabalhar&lt;br /&gt;Pois pátria, que por ti morre d’amores,&lt;br /&gt;Não deve a vil chibata suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife (1856)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Etapa = o que o soldado consome diariamente&lt;br /&gt;Aspeito = semblante&lt;br /&gt;Encaneci = grisalho, envelhecido.&lt;br /&gt;Opresso = oprimido&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Enfermeiro&lt;br /&gt;(Pela cólera)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ei-lo ali, caridoso velando&lt;br /&gt;Sobre o enfermo, que jaz a morrer;&lt;br /&gt;Pelas faces lhe vejo rolando&lt;br /&gt;Uma lágrima triste a correr.&lt;br /&gt;Não descansa nem noite, nem dia,&lt;br /&gt;Junto ao leito do enfermo a velar;&lt;br /&gt;Partilhando de sua agonia,&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não descansa, não curva-se à lida&lt;br /&gt;Que lhe rouba o repouso, o dormir;&lt;br /&gt;Ele julga precária esta vida,&lt;br /&gt;Melhor vida quer ele fruir.&lt;br /&gt;E, embalado de idéia tão santa,&lt;br /&gt;Não trepida, constante a velar:&lt;br /&gt;Geme o enfermo que o mal aquebranta;&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um anjo por Deus enviado,&lt;br /&gt;É um anjo! Que um anjo só é&lt;br /&gt;Quem ao leito do enfermo encostado&lt;br /&gt;Passa as noites velando com fé.&lt;br /&gt;Nem receia diante da morte,&lt;br /&gt;Pois que o leito pudera deixar;&lt;br /&gt;Mas, do enfermo pensando na sorte,&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lhe faltam palavras contritas&lt;br /&gt;Não lhe faltam palavras de amor.&lt;br /&gt;Pelo céu inspiradas, prescritas,&lt;br /&gt;Consolando o enfermo na dor.&lt;br /&gt;Quantas vezes não geram no triste&lt;br /&gt;Uma idéia sublime, um cismar!&lt;br /&gt;É qual anjo, qual célico antiste,&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu peito só pulsam virtudes,&lt;br /&gt;No seu peito só há compaixão!&lt;br /&gt;Ele carpe as cruéis vici’tudes&lt;br /&gt;Que espedaçam o peito do irmão.&lt;br /&gt;Bem quisera poupar-lhe a metade...&lt;br /&gt;Bem quisera seu mal minorar:&lt;br /&gt;Só um anjo tem tal caridade;&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um dia sucede outro dia,&lt;br /&gt;Tudo passa, mas nunca esse amor&lt;br /&gt;Que, seu peito banhando radia&lt;br /&gt;Como o orvalho que cai sobre a flor.&lt;br /&gt;Não descansa o cristão caridoso:&lt;br /&gt;Ei-lo sempre no leito a velar!&lt;br /&gt;Que lhe importam fadiga e repouso?&lt;br /&gt;Só deseja o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a hora final se aproxima!&lt;br /&gt;Ei-lo enfermo na cama a morrer;&lt;br /&gt;Deus vigia sobre ele de cima,&lt;br /&gt;Pois que soube no mundo viver.&lt;br /&gt;Que desvelo, que assíduo cuidado!&lt;br /&gt;Todos chegam e o vem prantear,&lt;br /&gt;Todos querem ficar ao seu lado!&lt;br /&gt;Todos querem ali consolar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta vida tão doce, tão bela,&lt;br /&gt;É a vida que importa ao cristão;&lt;br /&gt;Tem mil prêmios, mil vidas por ela&lt;br /&gt;Prodigadas de Deus pela mão.&lt;br /&gt;Trabalhemos, irmãos, trabalhemos&lt;br /&gt;Pela vida que se há de gozar...&lt;br /&gt;Nossos olhos no enfermo fitemos:&lt;br /&gt;Eia! – vamos o irmão consolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda (em férias) 7 de fevereiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Antiste = antístite = grande sacerdote, pontífice.&lt;br /&gt;Célico = celestial, celeste.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Estudante&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Triste vida a do pobre estudante,&lt;br /&gt;Que jamais gazeou à lição,&lt;br /&gt;Que as pestanas queimando incessante,&lt;br /&gt;Não se abala ao clamor da função.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, por mim, gazeando por ela,&lt;br /&gt;Mudo a sorte de triste pra bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galhofando é que a vida se passa,&lt;br /&gt;Galhofando é que sente-se amor,&lt;br /&gt;Galhofando, meu Deus, quem se maça?&lt;br /&gt;Galhofando é que vive o doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vida será galhofeira;&lt;br /&gt;Oh! que vida, gentil, prazenteira!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me curvam vigílias do estudo,&lt;br /&gt;Não me curva a maçante lição,&lt;br /&gt;Sabatinas – que importam – se tudo&lt;br /&gt;Eu desprezo e prefiro a função?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À função, à função, ao pagode&lt;br /&gt;Só não vai, só não vai, quem não pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É melhor repimpar-me às varandas&lt;br /&gt;E a moiçola fazer ademans,&lt;br /&gt;Do que estar a mexer com demandas&lt;br /&gt;Nessas horas de graças louçãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hei de ser bacharel, hei de sê-lo,&lt;br /&gt;Mas o tempo... hei de breve fazê-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só desejo ganhar minha carta&lt;br /&gt;Para rr não dou atenção;&lt;br /&gt;Andarei co’a barriga bem farta,&lt;br /&gt;Que imposturas, meu Deus, que mais não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com meus oc’los, com minha luneta,&lt;br /&gt;Oh! que vida, que vida de treta!&lt;br /&gt;Não me abatem falácias do mundo,&lt;br /&gt;Não me abatem dictérios, baldões;&lt;br /&gt;Tenha eu um viver bem jocundo,&lt;br /&gt;N’algibeira meus bons patacões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu viver há de ser galhofeiro,&lt;br /&gt;Que me importam baldões do treteiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, sim, é que pé vida gostosa,&lt;br /&gt;Esta a vida que eu peço a meu Deus;&lt;br /&gt;Que me importa essa vida afanosa,&lt;br /&gt;Que se passa co’os livros judeus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão judeus – que nos roubam tiranos&lt;br /&gt;Nosso belo folgar tantos anos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou, portanto, abrandar minhas dores,&lt;br /&gt;A minh’alma vou dar expansão,&lt;br /&gt;Vou gozar uns sorrisos... traidores?&lt;br /&gt;Que me importa que o sejam ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um charuto acendamos pachola&lt;br /&gt;Vamos ver a faceta moiçola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda – fevereiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Repimpar-me = abarrotar, fartar, locupletar.&lt;br /&gt;Treta = ardil, sutileza, astúcia, estratagema&lt;br /&gt;Dictério = ditério = dito satírico, motejo.&lt;br /&gt;Baldões = afrontas, doestos, impropérios.&lt;br /&gt;Treteiro = dado a tretas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Fazendeiro&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Não invejo aos reis da terra&lt;br /&gt;Esses poderes que têm;&lt;br /&gt;Dou também leis nestes campos,&lt;br /&gt;Como não nas dá ninguém;&lt;br /&gt;Todos aqui humilhados&lt;br /&gt;As frontes curvar-me vêm&lt;br /&gt;Nem meus poderes trocava&lt;br /&gt;Por aqueles que os reis têm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pisando, altivo, o terreiro,&lt;br /&gt;Um grito altivo soou!&lt;br /&gt;Cem vassalos obedecem&lt;br /&gt;Ao grito que além troou!&lt;br /&gt;Tenho riquezas nos campos&lt;br /&gt;Como o rei nunca logrou!&lt;br /&gt;Sou rico, digam-no os vales&lt;br /&gt;Por onde o grito soou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São vastas minhas riquezas!&lt;br /&gt;Lidando – ganhei-as eu,&lt;br /&gt;Não me custaram batalhas,&lt;br /&gt;Nem sangue em jorros correu...&lt;br /&gt;Custaram-me o meu trabalho,&lt;br /&gt;Custaram-me o suor meu.&lt;br /&gt;São vastas, todas são minhas,&lt;br /&gt;Não devo-as, ganhei-as eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que formoso panorama&lt;br /&gt;Está-me a vista encantar!&lt;br /&gt;O capim co’o vento ondeia&lt;br /&gt;Como as ondas lá do mar!&lt;br /&gt;O gado vejo pastando,&lt;br /&gt;Correndo, alegre a berrar!&lt;br /&gt;- Pois é meu tudo que os olhos&lt;br /&gt;Em roda está-me a encantar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho em minhas fazendas&lt;br /&gt;Aquilo que os reis não têm:&lt;br /&gt;Um povo de quem sou id’lo,&lt;br /&gt;Um povo que me quer bem.&lt;br /&gt;Seus filhos não lh’os recruto,&lt;br /&gt;Não lhe roubo um só vintém.&lt;br /&gt;Eis porque possuo aquilo&lt;br /&gt;Que os reis dos tronos não têm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dou o pão ao desvalido&lt;br /&gt;Que pede-o, rojando-o ao pó;&lt;br /&gt;Socorro a mísera viúva,&lt;br /&gt;Que geme no leito só;&lt;br /&gt;Respeito as casas alheias...&lt;br /&gt;Das virgens eu velo em pro.&lt;br /&gt;Protejo a todos que vejo&lt;br /&gt;Gemendo, rojando ao pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde eu aboio as vacas&lt;br /&gt;Recostado nos moirões,&lt;br /&gt;Vendo os currais atulhados&lt;br /&gt;De prata e d’oiro em montões;&lt;br /&gt;Meu orgulho é somente este,&lt;br /&gt;São estes os meus brasões.&lt;br /&gt;Os cetros o povo os quebra&lt;br /&gt;E vai sentar-se aos moirões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os reis no trono de luxo&lt;br /&gt;Quase de seu nada têm;&lt;br /&gt;Imperam no fausto e grandeza,&lt;br /&gt;Sem se lembrarem porém,&lt;br /&gt;Que os suprem nossas riquezas,&lt;br /&gt;Que impostos deles só vêm&lt;br /&gt;- Riquezas só são as nossas,&lt;br /&gt;Que os reis, coitados! – não têm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiranos, sorriem-se aos ecos&lt;br /&gt;Das bombardas, dos canhões!&lt;br /&gt;Eu, porém, me rio aos berros&lt;br /&gt;Dos gados cá dos sertões:&lt;br /&gt;São hinos, são harmonias&lt;br /&gt;Que falam aos corações&lt;br /&gt;- De todos que não se aprazem&lt;br /&gt;Ao retumbar dos canhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhai – não vede quem passa&lt;br /&gt;Tirar-me, humilde, o chapéu?&lt;br /&gt;Pois eu como irmãos os trato,&lt;br /&gt;Que assim nos ordena o céu.&lt;br /&gt;Não tenho, nem quero títulos&lt;br /&gt;Roubados – negro troféu.&lt;br /&gt;- Homenagem – dá-m’a o povo,&lt;br /&gt;Tirando-me o seu chapéu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, sim, é que é grandeza,&lt;br /&gt;Isto, sim, é que é poder:&lt;br /&gt;Tudo mais não vale nada,&lt;br /&gt;É como eu sei descorrer.&lt;br /&gt;Os reis que vivem nos paços&lt;br /&gt;Inertes a adormecer.&lt;br /&gt;- Poder o meu na fazenda,&lt;br /&gt;Este, sim, é que é poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero superfluidades,&lt;br /&gt;Nem luxos que é tudo vão;&lt;br /&gt;Das vacas eu tenho o leite,&lt;br /&gt;A coalhada, o requeijão;&lt;br /&gt;Tenho a manteiga, e mais tudo&lt;br /&gt;Que pode haver no sertão.&lt;br /&gt;- Nem quero luxos, nem pompas&lt;br /&gt;Supérfluos – que é tudo vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a carne saborosa&lt;br /&gt;Como não a come o rei;&lt;br /&gt;Sirvo à pobreza, aos amigos,&lt;br /&gt;Aqueles que eu bem o sei;&lt;br /&gt;Desprezo os aduladores,&lt;br /&gt;Resisto à tirana lei&lt;br /&gt;- Que vem me roubar as terras&lt;br /&gt;Por mando e fome do rei.&lt;br /&gt;Olinda, 2 de fevereiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Superfluidade = qualidade de supérfluo, demasia, excesso, coisa supérflua ou escusada.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Mal já Declina&lt;br /&gt;(Pela cólera)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já o mal pouco a pouco declina!&lt;br /&gt;Faze, ó Deus, que de todo se vá;&lt;br /&gt;Que não volte com sua malsina&lt;br /&gt;A fazer-nos mais vítimas cá.&lt;br /&gt;Embainha, cruel, teus alfanjes,&lt;br /&gt;Vai sumir-te outra vez no teu Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resfolgando da luta renhida,&lt;br /&gt;Este povo às janelas já sai&lt;br /&gt;Já no peito renasce-lhe a vida,&lt;br /&gt;A esperança afagando-o já vai.&lt;br /&gt;Ó do monstro sangrentas falanges&lt;br /&gt;Outra vez mergulhai-vos no Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas vidas no albor da existência&lt;br /&gt;Teu cutelo fatal decepou,&lt;br /&gt;Desejosos da luz da ciência,&lt;br /&gt;Não vingaram, que a tumba as guardou&lt;br /&gt;Mas sua tuba da morte já tanges&lt;br /&gt;Retirada, cruel, pra teu Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos pais, quantos filhos e esposos&lt;br /&gt;Não se carpem envoltos no dó?&lt;br /&gt;Quantas taças boiantes em gozos&lt;br /&gt;Não transbordam de fel sobre o pó!&lt;br /&gt;Ímpio chefe de pravas falanges,&lt;br /&gt;Parte; vai-te outra vez para o Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o mal pouco a pouco declina!&lt;br /&gt;Faze, ó Deus, que de todo se vá;&lt;br /&gt;Que não volte com sua malsina&lt;br /&gt;A fazer-nos mais vítimas cá.&lt;br /&gt;Embainha, cruel, teus alfanges,&lt;br /&gt;Vai sumir-te outra vez no teu Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual o homem que o raio fulmina,&lt;br /&gt;Que no chão quase exangue o deixou,&lt;br /&gt;E depois do delíquo combinio&lt;br /&gt;As idéias, que alfim despentou:&lt;br /&gt;Tal o povo suspira às falanges&lt;br /&gt;Que uma a uma lá vão-se pra o Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe, eu também ainda vivo!&lt;br /&gt;O teu filho, meu pai, não morreu!&lt;br /&gt;Meus irmãos, não chorais: estou vivo!&lt;br /&gt;Não morri, não morri, anjo meu!&lt;br /&gt;Mal feriram-me os demos alfanjes&lt;br /&gt;Do cruento flagelo do Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre povo! Gemente, abatido,&lt;br /&gt;De valente e do bravo que é,&lt;br /&gt;Foi do mal de tal sorte ferido,&lt;br /&gt;Que bem pouco ficou-lhe de fé!&lt;br /&gt;E tudo isto devido às falanges,&lt;br /&gt;Que assomaram das águas do Ganges!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já hoje, de faces coradas,&lt;br /&gt;Se escapando do leito de dor,&lt;br /&gt;Lança a vista através das sacadas&lt;br /&gt;E na mente bem diz o Senhor,&lt;br /&gt;O Senhor que o livrou dos alfanjes&lt;br /&gt;Das sangrentas coortes do Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o mal pouco a pouco declina!&lt;br /&gt;Faze, ó Deus, que de todo se vá;&lt;br /&gt;Que não volte com sua malsina&lt;br /&gt;A fazer-nos mais vítimas cá.&lt;br /&gt;Embainha, cruéis, teus alfanjes,&lt;br /&gt;Vai sumir-te outra vez no teu Ganges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Preso e a Viúva&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Sonoro pintassilgo, por que vives&lt;br /&gt;Carpindo teus pesares na gaiola?&lt;br /&gt;Por que vives no pé do tamarinho&lt;br /&gt;Gemendo, suspirosa triste rola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São reveses da sorte: aquele chora&lt;br /&gt;A doce liberdade que há perdido;&lt;br /&gt;E a penosa avesinha geme à falta&lt;br /&gt;Do esposo que da seta foi ferido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu também, passarinhos, vivo presa&lt;br /&gt;Aos sagrados deveres que os humanos&lt;br /&gt;Cultivam neste mundo enquanto dura&lt;br /&gt;O curto espaço dos penados anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também meu coração, viúvo, geme&lt;br /&gt;À falta dos irmãos que a dura morte&lt;br /&gt;Ceifou, despiedoso, tinturando&lt;br /&gt;Com salpicos de dor a minha sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonoro pintassilgo, triste rola,&lt;br /&gt;Deixai estes carpidos tristurosos;&lt;br /&gt;Calai-vos: vossas dores lembram dores&lt;br /&gt;Que me arrancam do peito ais lamentosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olinda, 14 de janeiro de 1856&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Que Eu Chamo Poesia&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;(num álbum)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No levante brilha a aurora&lt;br /&gt;Rouxeando os horizontes,&lt;br /&gt;Realça prados e montes&lt;br /&gt;Com sua luz matinal.&lt;br /&gt;Mas clara luz já cintila&lt;br /&gt;Dentre o mar o sol desponta&lt;br /&gt;Trepa no céu, no zênite monta&lt;br /&gt;Mais luzente que o cristal,&lt;br /&gt;Transparece a lisa fonte,&lt;br /&gt;Treme o ar tudo fulgura,&lt;br /&gt;Trinam aves na espessura,&lt;br /&gt;Languesce a flor no rosal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descai o sol, menos flama,&lt;br /&gt;No ocaso lá vai sumir-se,&lt;br /&gt;Eis a bonina a sorrir-se&lt;br /&gt;No seu suspiro final!&lt;br /&gt;É qual ao nascer da aurora,&lt;br /&gt;Rouxeam-se os horizontes,&lt;br /&gt;Outra vez prados e montes&lt;br /&gt;Vestem a cor matinal!doce –&lt;br /&gt;As correntes murmuram!&lt;br /&gt;Tinge o mar purpúreo manto,&lt;br /&gt;Saltam as aves um canto&lt;br /&gt;Mais terno – sentimental!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como as nuvens são tão belas&lt;br /&gt;Ornadas com franjas d’oiro!&lt;br /&gt;E as aves cantando em coro&lt;br /&gt;Um hino ao seu criador!&lt;br /&gt;E as brisas meigo-soprando&lt;br /&gt;No cimo dos arvoredos!&lt;br /&gt;E o mar nos rijos penedos&lt;br /&gt;A quebrar-se com fragor!&lt;br /&gt;E eles, mudos atalais&lt;br /&gt;A amostrar suas procelas,&lt;br /&gt;Enquanto da fúria delas&lt;br /&gt;Também zomba o pescador.&lt;br /&gt;E quem não sente arroubar-se&lt;br /&gt;Su’alma aos risos da aurora&lt;br /&gt;A idéia arrebatadoura&lt;br /&gt;Que vêem ao surgir do sol!&lt;br /&gt;Ao trinar alegre ou triste&lt;br /&gt;Dos alados amadores?&lt;br /&gt;A essas mimosas cores&lt;br /&gt;Do crepúsc’lo, do arrebol!&lt;br /&gt;Aos prazeres da frescura&lt;br /&gt;Que nos traz suave brisa&lt;br /&gt;À fonte que se desliza&lt;br /&gt;O prado banhando a prol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! que nisto há poesia,&lt;br /&gt;Que penetra os seis d’alma,&lt;br /&gt;E poesia que acalma&lt;br /&gt;Um penado coração;&lt;br /&gt;A poesia que eu sinto,&lt;br /&gt;Que me arrouba ao contempla-la,&lt;br /&gt;A poesia que fala&lt;br /&gt;Mais alto do que a razão&lt;br /&gt;Mais alto – que além remonta&lt;br /&gt;Desses astros, onde os anjos&lt;br /&gt;Entoam com os arcanjos&lt;br /&gt;A Deus celeste canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sim! E uns olhos volvidos&lt;br /&gt;Amedo – e um sim que é dado&lt;br /&gt;A um poeta enamorado&lt;br /&gt;Que sente ardente paixão,&lt;br /&gt;E uns lábios rubros que tremem&lt;br /&gt;Quando a sentença proferem,&lt;br /&gt;E em vez do sim só desferem&lt;br /&gt;Traído, equívoco não;&lt;br /&gt;E essas mágoas que se emergem&lt;br /&gt;Nascidas da voz fingida&lt;br /&gt;Num peito cuja ferida&lt;br /&gt;Penetrou té o coração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sim! E é isto que eu chamo,&lt;br /&gt;Que eu chamarei poesia,&lt;br /&gt;Que eu sinto que me extasia&lt;br /&gt;Sem que possa definir!&lt;br /&gt;É isto. E umas faces murchas&lt;br /&gt;No verdor já desbotadas&lt;br /&gt;Pelo cismar, maceradas&lt;br /&gt;Pelo velar e carpir:&lt;br /&gt;E as falas entrecortadas&lt;br /&gt;Por um pranto que se chora&lt;br /&gt;E um semblante que descora,&lt;br /&gt;Que depois torna a fulgir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as obras miraculosas&lt;br /&gt;Que a natureza circudam,&lt;br /&gt;E as águas que um terço inundam&lt;br /&gt;Do solo – aí também está&lt;br /&gt;Mui sublime a poesia&lt;br /&gt;Que os seios d’alma me banha,&lt;br /&gt;Onde reside e se entranha&lt;br /&gt;A idéia de Jeová!&lt;br /&gt;Idéia imensa, infinita,&lt;br /&gt;Toda amor, toda harmonia,&lt;br /&gt;Fonte de toda a poesia&lt;br /&gt;A maior de quantas há!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim nisto uma flor singela&lt;br /&gt;Que sorrindo desabrocha&lt;br /&gt;Às vezes na dura rocha,&lt;br /&gt;Às vezes no mole chão;&lt;br /&gt;E no riso inocentinho&lt;br /&gt;Que mostra à mãe desvelada&lt;br /&gt;A criancinha afagada&lt;
